Ativismo Gay 2.0

Não pude resistir ao artigo do The New Gay que o Pedro compartilhou no Google Reader. Afinal, ele fala sobre praticamente tudo o que me interessa: LGBTs, ativismo político e mídias sociais. Por isso mesmo, achei que seria uma boa compartilhá-lo com todos os leitores do Homomento, traduzindo para quem não compreende muito bem inglês e aproveitando para salientar alguns pontos que a meu ver merecem destaque. Segue o baile:

Ativismo Gay 2.0

Parte do que faz do The New Gay o novo gay é que tentamos abordar questões LGBT de uma maneira nova. Nós somos os Gays 2.0 – bandos de homossexuais com seus vinte e poucos anos e seus aliados, blogando, twittando, escrevendo, postando, e organizando causas e eventos no Facebook. Os membros empregados desse batalhão trabalham como formiguinhas em seus teclados ao longo dos horários de almoço e nos fins de semana, enquanto os estudantes e desempregados sentam-se em seus quartos nas repúblicas e em coffee shops criando uma nova onda de informação LGBT como a web nunca havia visto antes. Todos acreditamos que estamos estendendo nosso alcance de uma nova maneira, que o Gay 2.0 está tocando a sociedade mais rápido, com um alcance maior e uma pegada mais forte. É por isso que twittamos. Que escrevemos e lemos sites como o TNG.

Para mim, o mais fascinante das práticas relacionadas ao que se chama de “Web 2.0″ é o fato de que não é preciso estar em uma posição privilegiada para expressar uma opinião, ou mesmo (re)contar uma história. O que vale é o conteúdo, por vezes independente do local onde este está publicado – por exemplo, se vou comprar um MP3 player, um relato de defeitos encontrado em qualquer fórum sobre aparelhos da mesma marca e modelo provavelmente vai pesar mais em minha decisão do que uma notinha em um grande site de tecnologia. Da mesma forma – e espero que os leitores do Homomento concordem comigo! – pode ser que, eventualmente, a informação que você precisa não esteja em um grande portal, mas em um simples blog tocado por um grupo de amigos num misto de hobby e compromisso. Além disso, posts em blogs e no Twitter fazem mais do que criar conteúdo: links e comentários ajudam a espalhar as informações, para que elas alcancem cada vez mais pessoas na rede.

Temos que nos afastar um pouco de nossos laptops para nos questionarmos se não estamos falando para nós mesmos na maior parte do tempo. Meus amigos no Facebook podem ler meu post, alguns dos meus colegas podem checar meu status no Google Talk, mas eu estarei alcançando mais alguém? O mundo online das questões LGBT está sendo vivenciado somente por aqueles que estão procurando por ele? Estamos sendo tão ativos quanto nossos predecessores no ativismo e jornalismo LGBT, ou estaremos predestinados a só ver os progressos que estão se estabelecendo primariamente num ambiente isolado? Não interessa quantos artigos eu escreva para publicações LGBT, e quantas vezes eu twitte sobre questões gays: ainda é possível que pessoas fora de nossa comunidade não consigam ouvir nosso grito de ordem.

Quando o assunto é web 2.0, muda a figura do emissor, mas o público continua sendo formado pelas mesmas pessoas… E, assim como ocorre com outras mídias, o conteúdo será procurado por quem se interessa por ele. Só provocaria mudanças no pensamento de alguém se interpelasse uma pessoa com opinião contrária. Um post de blog certamente não irá envolver-se em uma discussão, mas é bem provável que algumas de suas ideias encontrem eco no pensamento de alguém, que poderá utilizá-las no momento de contra-argumentar um homofóbico. Além disso, o fato de não atingir potencialmente todos os HTs não torna esse trabalho inócuo. Mesmo dentro da nossa comunidade existem milhares de pessoas que ainda precisam ouvir essas mensagens que nos parecem tão básicas: ser gay não é doença, homossexuais podem registrar união estável, nem toda bicha é quaquá.

Ficar do lado de fora de prédios do governo ou estabelecimentos comerciais falando sobre igualdade, compartilhando informações e buscando assinaturas ainda tem seu mérito. Assim como protestos, discussões e festas. Barack Obama se elegeu por causa da geração 2.0, mas os sites Change.org e BarackObama.org promoveram festas e encorajaram todos nós a promover festas. Para nos reunirmos, para discutir as questões, para convidarmos nossos amigos. Eles nos desafiaram a sair de nossas casas e distribuir panfletos, fazer ligações, tomar uma atitude. O pedido de um amigo é mais difícil de negar quando é cara a cara, e falando pessoalmente a chance de sermos ignorados é menor do que enviando um link por e-mail. Temos que lembrar que a Web é apenas um lado do ativismo.

Essa descrição de atividade política – com campanha de porta em porta e coleta de assinaturas – tem muito mais a ver com o modelo americano, em que alguns assuntos são decididos pelos próprios cidadãos quando votam na eleição (como foi o caso triste da Proposition 8). No Brasil, infelizmente, não temos tanto controle sobre o que será decidido sobre as leis que nos regem: o máximo que podemos fazer é escolher um candidato que corresponda mais ou menos às nossas posições, torcer para que ele não nos decepcione e pressioná-lo se ele o fizer.

Os sites de redes sociais fizeram sucesso nas eleições estadunidenses porque permitiram ampliar o alcance do diálogo político, e não há por que ser diferente quando discutimos o “Gay 2.0″. No caso dos LGBT, que perderam sua principal oportunidade de fala como pressão política – a Parada, que hoje tem muito mais de espetáculo do que de protesto – o uso da Web é ainda mais importante pelo fato de que muitos de nós estão afastados dos demais, por razões que vão do enrustimento a uma vida bem-resolvida mas “fora do circuito”. Isso vale em outras ocasiões, e também para o resto da sociedade: a Web é um espaço para proferir opiniões que provavelmente não cruzariam os limites da roda de bar, mas que na Web podem ser reunidos e assim ganhar visibilidade.

Ainda que tenhamos muito caminho para trilhar até que o Gay 2.0 alcance seu potencial máximo, estamos progredindo. Estamos construindo uma rede mais forte, uma coalisão mais sólida. Estamos criando uma força humana formada por pessoas educadas, informadas e entusiasmadas, que conhecem os seus direitos e estão loucas para mudar o mundo. Agora temos que pegar essas habilidades que desenvolvemos online e levá-las de volta ao mundo real.

Mesmo com tudo o que eu disse antes, concordo com o autor do texto: não podemos ficar só no virtual. Ainda acredito no diálogo cara a cara e no valor do bom e velho protesto de rua – só acredito que não devemos usar essa forma de manifestação política pra diminuir o valor de outras. Colocar #forasarney no Twitter não vai derrubar o presidente do Senado, mas infelizmente acredito que atualmente uma passeata também não conseguirá esse feito. Como eleitores, o melhor que podemos fazer é não votar em candidatos homofóbicos, apoiar sempre que possível os nossos aliados e estar sempre atentos com quem tenta nos enganar.

Fora da esfera em que a política é mais evidente, a militância é de formiguinha, no dia a dia. Ela se mistura com as nossas atitudes e até se torna natural em nosso comportamento (como já apareceu por aqui, “assumir-se é um estilo de vida”). No “mundo real”, é fundamental que sejamos assumidos, que discutamos acerca das sexualidades LGBT e da homofobia com nossos amigos e conhecidos, que não nos deixemos discriminar, que exijamos nossos direitos sempre.

14 respostas para Ativismo Gay 2.0

  1. Garot@s,

    tenho dobro da idade de vocês, mas concordo inteiramente com a fala acima. A Internet é libertária, descentralizada, mas influente e poderosa. Nova forma de fazer política é mesmo por aqui. Sem os politiburos em que se transformou a política LGBT tradicional.

    Mandem bala. Abraço. Míriam

    • Carolina Maia disse:

      Míriam, que coisa boa saber que você segue acompanhando nosso trabalho. Outra coisa boa da tecnologia é isso: permite a aproximação entre ativistas e a criação de redes que seriam geograficamente improváveis!

  2. João Paulo disse:

    Concordo plenamente com a importância do Ativismo 2.0 e com o impacto que ele pode causar na sociedade.
    Mas o Ativismo 1.0 é sim ainda muito importante.
    Não podemos sentar e ficar esperando que outros decidam por nós, cruzando os dedos pra ter escolhido a pessoa certa.
    É necessário dar força política aqueles bem dispostos a nos ajudar, se não corremos o risco de transformar uma rede de comunicação com potencial de mudanças em uma rede de palpiteiros alheio às decisões políticas.
    Tenho certeza que esse não é o objetivo de ninguém envolvido com a causa, muito menos do Homomento que vem se mostrando como o melhor blog sobre o assunto.
    Parabéns pela reportagem!
    João

  3. [...] de desculpas pelo tratamento violento homofóbico. Mas meu olhar otimista conseguiu perceber o ativismo gay 2.0 surtindo [...]

  4. [...] nota curiosa é o Cumming comentando no seu blog que boa parte do trabalho do seu ativismo gay 2.0 foi realizado no segundo andar de um ônibus londrino. “Incrível o que você pode fazer com 30 [...]

  5. [...] que cada internauta tem, hoje de produzir seu conteúdo e disseminar suas opiniões e ideias. Com a web 2.0, a responsabilidade pela qualidade do conteúdo é compartilhada. Quanto mais produtores, maior a [...]

  6. [...] Michael Eichler, do The New Gay Não é a primeira nem será a última vez que o site The New Gay vai aparecer aqui no Homomento, pelo simples motivo de que muitas das [...]

  7. Aldary Lima disse:

    Quando a sociedade enteder a real questão da luta já tão debatida e pôr em prática as árduas conquistas, é que teremos uma vida digna e mais igualitária.

  8. [...] britânico, Gordon Brown, atendeu a uma petição online no site do governo, provando que o ativismo gay 2.0 rende frutos. Na África do Sul, foi vista como avanço na questão LGBT a punição dos agressores [...]

  9. Vanessa disse:

    O pastor Geraldo Afonso Advincula Reis, diz que realiza cura de homosexuais ele realiza estas pregações na Igreja Batista do Tatuapé. Um absurdo !

  10. Geraldo Afonso Advincula Reis disse:

    Eu, Geraldo Afonso Advincula Reis, tive o meu nome usado de forma mentirosa e traiçoeira por alguém que se identifica por Vanessa.
    Nessa Internet de ninguém e morada de todo mundo, há muitos que se aproveitam da camuflagem para fazer afirmações mentirosas, impulsionados pelo desejo de se mostrarem de opinião. E somente assim agem por sobreviverem na sombra da covardia e pela crença da impunidade.
    Ora, como posso curar gays como afirma essa tal de Vanessa? Queria eu ter o poder de curar essa alma adoecida pela máscara do engano e pela convivência com a mentira, que certamente formam o seu caráter.
    Saiba que, decisão tomada não se cura. Quem quer ser o que quer, será o que deseja; e nem Deus o forçará a mudar de decisão.
    Quem me conhece sabe como trato as questões existenciais. Assim, quem postou este comentário não é digno de ser tratado com seriedade e nem levado em consideração.
    Pois como afirma Judas, o irmão de Tiago.“Estes, porém, dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem, como animais irracionais se corrompem. “

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