Sugestão de filme: If The Walls Could Talk 2 (ou Desejo proibido)

14 de janeiro de 2010

Hoje o Homomento traz uma indicação: If The Walls Could Talk 2 (2000), título tragicamente adaptado para “Desejo Proibido” no Brasil. Essa péssima adequação no nome já pode afastar alguns leitores, por isso peço que desconsiderem esse ponto falho. Para quem já assistiu vale a reflexão.

Eu poderia dizer que em ITWCT 2 o assunto principal são lésbicas, mas estaria sendo simplista (para não dizer ignorante). Para mim a temática é baseada na construção da família homossexual, com foco em relações entre mulheres.  A história é uma semi-continuação do If The Walls Could Talk (1996), que explorou a compreensão do aborto em diferentes períodos.  Já o If The Walls Could Talk 2 opta por uma narrativa segmentada em épocas, totalizando três histórias curtas, focadas em sentimentos e relacionamentos completamente diferentes uns dos outros. O resgate de emoções inaceitáveis (ou mascaradas na contemporaneidade) sustenta a capacidade reflexiva do filme, e essa é, para mim, a principal qualidade.

A primeira short history conta a história de duas lésbicas casadas por 50 anos em pleno 1961. As senhorinhas vivem em uma casa e levam um relacionamento duradouro e feliz, até que em um acidente domésticos uma delas morre.

A história de Abby (Marian Seldes) e Edith (Vanessa Redgrave) é a mais emocionante

A tragédia é ambientada na mesma casa que abrigou por anos aquela família pacificamente transgressora e que agora acolhe a solidão e o desespero da parte restante do casal. A concepção de família é completamente ignorada por todas as personagens que ficam à margem da trama, com exceção, é claro, da própria família: o casal de lésbicas. No mínimo emocionante.

A segundo história, de 1972, aborda o melhor tópico. Quando eu e minha namorada assistimos ficamos horas discutindo sobre o comportamento das personagens e a atualidade do tema. Bem resumidamente, Linda (Michelle Williams) conhece Amy (Chloë Sevigny) em um bar. Linda faz parte de um grupo feminista. As amigas de Linda recriminam o contato dela e de Amy por discordarem da forma como a nova namorada se veste. Amy usa roupas tipicamente masculinas e possui comportamentos e trejeitos que destoam dos princípios que, até então, regiam a vida de Linda. Mesmo se passando em 1972, o discurso verborrágico das lésbicas feministas é um retrato da ignorância e a discriminação do gay para com o próprio gay. A negação e a repreensão das lésbicas em relação a personagem de Chloë Sevigny  mostram que, mesmo indivíduos que teoricamente estariam predispostos a aceitar níveis diferentes de expressão/comportamento, e entender as ramificações infinitas da sexualidade humana, continuam, invariavelmente, a limitar o pensamento. No mínimo questionador.

O casal divertido: Sharon Stone e Ellen degeneresA terceira e última short history se passa no ano 2000 e narra a luta de um casal de lésbicas que desejam ter um filho. Fran (Sharon Stone) e Kal (Ellen DeGeneres, sim, a própria!) são atrapalhadas e engraçadinhas, o que acaba maquiando a narrativa meio bobinha. No mínimo divertido.

Fica a minha dica para quem gosta de filmes LGBT/drama. Segue abaixo o download em RMVB com as legendas em português:


O tiro bem dado da Arezzo

23 de setembro de 2009

Há uns dias atrás, olhando alguns blogs com minha namorada, me deparei com uma situação um tantinho desconfortável.  Ao visitar um o blog Alice in lesboland, li o texto intitulado “Sapataria Arezzo” que falava sobre o comentadíssimo ensaio das globais Juliana Paes e Cléo Pires. Nada de novo até então, até um certo atraso dada a data de divulgação (julho). Mas o que quero comentar não são as fotografias ou a campanha, e sim o comentário da blogueira. Transcrevo:

“Nós gays sempre reclamamos que somos excluídos da mídia, especialmente no que se refere a programas de TV e anúncios. Agora que se lembraram de nós, acho que merecem um elogio, não? Até porque deve ter um monte de homofóbico-chato-careta metendo o pau, e nós não queremos que a Arezzo ache que teve uma má idéia em colocar aquelas duas gatas se insinuando dentro d’água, queremos? Vai que na próxima campanha ela põe a Cleo se esfregando num Cauã Reymond da vida? Cruzes! Então faça a sua parte, sapa! Manda um e-mail bem fofo para eles aqui, manda! Eu já mandei o meu.”

Juliana Paes e Cléo Pires para Arezzo, inclusão?

Juliana Paes e Cléo Pires para Arezzo. Inclusão? Onde?

Sei que o escopo do blog é totalmente diferente do Homomento e que trata de assuntos mais leves, usando artifícios como o humor e a naturalidade. Infelizmente nenhum desses métodos justifica, para mim, uma visão tão ingênua. O ensaio pode ser bem feito, ter uma estética bacana, bons efeitos, mulheres bonitas, ser pouco apelativo em relação ao que normalmente tange nossa realidade, não importa. A última coisa que se pode imaginar é que em um ensaio como esse ajude, mesmo que minimamente, qualquer lésbica nesse brasil varonil, minha gente!

Um tiro certeiro para não ricochetear

Engana-se a blogueira, leitor, ou consumidor da Arezzo que enxerga essa campanha como um ensaio ‘lésbico’. A boa estratégia de marketing, feita com carinho pelos marketeiros/publicitários/assessores da marca, inteligentemente associa o comportamento das mulheres a uma relação homossexual. Mas na verdade não é isso que acontece, aliás, se a análise das fotos for feita com um pouquinho mais de carinho, é possível observar que se trocada qualquer uma das atrizes por um homem, um se simplesmente excluída da foto, o que temos é mais um ensaio exatamente igual a tantos outros.

A Arezzo opta por contratar para suas campanhas os principais destaques das telenovelas, e nessa eles não fugiram à regra. Talvez o que mais chame atenção seja a concomitância da campanha com a entrevista concedida ao portal A Capa pela Juliana. Um trechinho:

“O que você acha do preconceito contra homossexuais?
Acho uma atitude tão besta e muito pequena. Afinal, o mundo é feito de pessoas diferentes em todos os sentidos. O ser humano tem que saber viver com as diferenças e respeitar o próximo, não só pela sua opção sexual (sic), mas pela raça, condição social, intelectual.

Qual a sua opinião da adoção por casais gays?
Família se constitui por amor e existe amor entre iguais. Para mim, um casal gay tem a mesma condição de criar e educar uma criança que um casal heterossexual.”

Obviamente mora aí um excelente assessor, que habilmente distribuiu o bom e velho release amigo para um dos principais sites LGBT do Brasil, e com certeza tratou de responder com muito carinho e atenção as perguntas enviadas a Juliana. Essa iniciativa inteligente reprimiu qualquer levante homossexual, tendo por base a postura gay-friendly e o suposto ensaio pró-lésbico. Caso encerrado.

Eu não sei qual é a postura real da Juliana Paes, se a Cléo Pires curte gays, se as duas acharam bacana a iniciativa e por isso aceitaram ou se foi porque o pagamento foi satisfatório. Enfim, para mim pouco interessa, porque tudo (e quando eu digo tudo é TUDO) relacionado a campanhas comerciais tem uma estratégia, um objetivo e um interesse. Os LGBT são, enquanto grupo, um nicho a ser exploradíssimo no mercado brasileiro dos próximos anos, então é imprescindível que se filtre os estimulos para não cair em jogadas de marketing bestinhas, como essa.

juju


Destaque da semana: Visibilidade Lésbica

31 de agosto de 2009

29 de agosto é Dia da Visibilidade Lésbica. No domingo, marchas lésbicas e shows encerraram a semana dedicada às sapas, que começou em 19 de agosto, dia do Orgulho Lésbico (o Homomento publicou uma entrevista com a ativista Miriam Martinho nessa data).

Em Porto Alegre, lésbicas se reúnem em frente ao palco antes da Marcha

Em Porto Alegre, lésbicas se reúnem em frente ao palco antes da Marcha

Vale a pena ler o texto de Laura Bacellar, colunista do Dykerama e editora da Malagueta, sobre a importância do Dia da Visibilidade. Afinal, não é só por simbolismo que essa data mereceu nosso destaque: ao longo da semana, a homossexualidade feminina pautou debates em várias capitais brasileiras, como Porto Alegre, Recife, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Em Teresina, um fato curioso: o que encerrou o mês da Visibilidade não foi uma mera marcha, e sim a própria Parada da Diversidade dessa capital. Quem disse que o Orgulho Lésbico não pode ser celebrado com o resto do movimento homossexual, mesmo?


Dia do Orgulho Lésbico: entrevista com Míriam Martinho

19 de agosto de 2009

Em 1983, no dia 19 de agosto, as lésbicas que frequentavam o Ferro’s Bar, em São Paulo, revoltaram-se contra a discriminação que as ativistas do Grupo de Ação Lésbico-Feminista (GALF) sofriam no local. A ocupação do bar é considerada o “Stonewall brasileiro“. Por isso, a data de 19 de agosto é celebrada como o Dia do Orgulho Lésbico desde 1996 (embora uma parte do movimento lésbico tenha decidido comemorar o dia 29 de agosto como Dia da Visibilidade Lésbica, o que gera polêmica até hoje).

A comemoração desse dia se torna ainda mais importante em 2009 porque o movimento lésbico brasileiro completou 30 anos no último mês de maio. Para marcar esse dia, conversamos com Míriam Martinho, ativista do GALF que participou da ocupação do Ferro’s Bar. Atualmente, ela escreve nos blogs Contra o Coro dos Contentes e Memória/História MHB-MLGBT, e edita o site lésbico Um Outro Olhar.

Como surge o Grupo Lésbico-Feminista? Quantas mulheres faziam parte do coletivo, na época? Quais foram suas primeiras ações?
MM: O Grupo Lésbico-Feminista surgiu em maio de 1979 quando as mulheres do Grupo Somos de Afirmação Homossexual, de São Paulo (primeiro grupo homossexual do Brasil), foram convidadas a redigir uma matéria sobre lésbicas para o jornal Lampião da Esquina, publicação de temática homossexual do Rio de Janeiro que circulou de 1978 a meados de 1981. Após a publicação dessa matéria, decidiram continuar juntas e formaram o primeiro grupo lésbico brasileiro, chamado Grupo Lésbico-Feminista (LF), cujo coletivo se desfez em meados de 1981. Duas remanescentes deste coletivo, resolveram dar continuidade a organização especificamente lésbica e fundaram o Grupo Ação Lésbica Feminista (outubro/1981).

O LF surgiu dentro do Somos, dentro de um jornal gay. Até hoje as lésbicas reclamam de pouco espaço e visibilidade no movimento homossexual. Foi difícil abrir espaço para as demandas lésbicas no movimento?
MM: Sim, foi difícil. Nem tanto na primeira geração do movimento homossexual (a da década de 80), pois o feminismo estava no auge e influenciava todo mundo, inclusive os homens homossexuais que já pensavam na especificidade lésbica e faziam paralelos entre a questão da homofobia e a situação da mulher. Mais na segunda geração, a da década de 90, quando o movimento homossexual renasce das cinzas. Foi preciso uma batalha campal para simplesmente inserir a palavra lésbica no nome do encontro nacional em 1993. Hoje não sei dizer o quanto as reclamações das ativistas lésbicas sobre mais espaço e visibilidade no movimento homossexual também não são consequência da relativa ausência das mesmas no MLGBT. A maioria vem se reunindo fundamentalmente em separado e em ligação com o movimento feminista, então fica difícil saber o quanto essas queixas procedem. Os gays tendem a ser gaycêntricos mesmo, mas se as lésbicas também não estão presentes para questionar essa situação com pertinência, a tendência é que ela se mantenha.

Pelo que li no seu livreto sobre os 30 anos do movimento lésbico, vocês já enfrentavam algumas dificuldades para vender o ChanaComChana no Ferro’s Bar há algum tempo… qual foi a “gota d’água” para o levante em 19/08/1983?
MM: A gota d’água foi no dia 23 de julho de 1983, quando o dono do bar, o segurança e o porteiro tentaram nos pôr para fora do Ferro’s, puxando a gente pelo braço, dando empurrões. Nós resistimos, e as mulheres que estavam no bar nos apoiaram. Eles chamaram a polícia que extraordinariamente permitiu que a gente ficasse por lá naquele dia, mas naquela base do só hoje e nunca mais. E fomos proibidas de voltar a vender o boletim lá, embora se vendesse de tudo no bar, inclusive substâncias ilícitas. Só não podia vender publicação de lésbica num bar sustentado por lésbicas. Daí organizamos o levante para acabar com a proibição.

Depois desse incidente, as lésbicas continuaram frequentando o bar? Como foi a repercussão da invasão na mídia?
MM: Não só continuaram como houve um acréscimo de tribos lésbicas ao público do bar, pois as feministas homossexuais passaram a frequentar o “pedaço” – como se dizia – também com mais frequência. Em relação à imprensa, houve uma grande repercussão na mídia porque foi a Folha de São Paulo que cobriu a invasão e com um enfoque positivo, coisa inédita no período. Outros jornais e a revista Visão (da época) reproduziram a matéria e reverberaram o assunto.

A invasão do Ferro’s Bar é bastante semelhante ao levante de Stonewall dez anos antes, considerado um marco para o movimento homossexual. Mas o 19 de agosto não costuma ser lembrado com tanto destaque pela imprensa gay brasileira quanto o 18 de junho, e mesmo as lésbicas têm mais uma data oficial para celebrar (29 de agosto, Dia da Visibilidade Lésbica). Você não sente que o caso do Ferro’s Bar é pouco valorizado?
MM: O dia 19 de agosto foi lançado oficialmente em 2003 e novamente divulgado pela Folha de São Paulo, com as matérias sendo replicadas por outros jornais, dando grande repercussão ao assunto. Mas o pessoal do dia da visibilidade, que havia sido proposto em 1996, mas não comemorado efetivamente, ficou temeroso que o 19 de agosto sobrepujasse seu dia e iniciou uma grande propaganda contra a data do orgulho, encontrando respaldo e repercussão na conjuntura política que se iniciou em 2003 e está aí até hoje. O dia da visibilidade se tornou então a data oficial das ativistas lésbicas dessa conjuntura que são majoritárias. Então foi essa propaganda contrária que determinou e ainda determina a valorização inadequada do dia do orgulho. Agora, as pessoas que combatem a visibilidade do dia do orgulho são como aquelas que caíram numa areia movediça: quanto mais lutam contra mais rápido a credibilidade delas afunda, pois o levante do Ferro’s é um fato histórico indiscutível. De qualquer forma, já se percebe que algumas pessoas vêm contestando esse silêncio imposto – que de fato é constrangedor para tod@s – e passando a dar o valor que o dia merece.

Para encerrar: As lésbicas ocupam cada vez mais espaço na mídia (em novelas, com seriados como The L Word, com portais como o Dykerama e o Parada Lésbica, além de uma editora própria, a Malagueta). Bem ou mal, a “visibilidade” lésbica avança. Em termos de “orgulho lésbico”, o que temos que conquistar ainda?
MM: Bem, como costumo dizer, sem orgulho não há visibilidade. Essas manifestações de visibilidade que cita são fruto do orgulho de lésbicas que têm a coragem de ser explicitamente lésbicas numa sociedade que insiste em dizer que deveríamos nos envergonhar de amar outras mulheres. Lésbicas sem orgulho não têm visibilidade. Contiuam cultuando o enrustimento, a vida dupla, a falta de integridade e pagando um preço muito alto em termos de qualidade de vida por isso, além de colaborar com o preconceito. Pior: ainda são a maioria infelizmente. Então continua havendo muito que conquistar em termos de orgulho e consequentemente de visibilidade. Feliz dia do orgulho lésbico!


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