Fernanda Young, Playboy e as mulheres

18 de novembro de 2009

Fernanda Young autografa sua edição da Playboy

Graças a um atraso na distribuição da Playboy, só ontem pude comprar (ou melhor, ganhar – thanks, wifey!) a edição cuja capa traz Fernanda Young vestida de coelhinha. E não, minha intenção aqui evidentemente não é a de fornecer um relato desnecessário e apelativo da minha interação com a revista. Na verdade, a escritora já poderia ter figurado no Homomento há mais tempo: em setembro, ela disse que tentou ser gay e não conseguiu. Recentemente, ao avaliar o impacto de seu ensaio entre nosotras, ela disse se orgulhar de ser atraente para as lésbicas. Além disso, um de seus romances, O Efeito Urano, publicado em 2001, trata de uma relação entre duas mulheres.

Mas nosso comentário à edição se deve a outro fato potencialmente homoerótico: tenho observado muitos comentários de mulheres héteros acerca dessa edição, e mesmo de homens que disseram que suas parceiras adoraram o ensaio. Esse interesse feminino pela Playboy deve-se, no meu entender, a dois fatores: o público-alvo da edição e a identificação com um determinado padrão de beleza.

O público fiel da Playboy critica a decisão editorial de retratar uma mulher “que nem bonita é” (visão que explicita a concepção de que a beleza feminina é loira e peituda). Eu, que não faço parte do público-alvo das revistas masculinas, posiciono Fernanda Young exatamente dentro do meu padrão de beleza: ela é intelectual, tatuada, forte, desbocada, segura dentro de seu próprio corpo. É a cultura (compreendida aqui como conjunto de valores socialmente compartilhados, não como formação escolar, que fique claro) de cada um que define o que lhe será bonito. Em entrevista à revista Quem (via ACapa), a escritora demonstrou ter consciência de que o público que comprará a sua Playboy não é o mesmo das demais edições da revista.

“O público que imagino que vá comprar minha revista é a pessoa que tem a intenção erótica de me ver nua, o gay que se interessa por mim, a pessoa que está chocada e quer me “chochar”… mas sei que muita mulher vai comprar! A gente gosta de se ver”

Sobre O Efeito Urano, a autora comentou que acha "muito libertária" a possibilidade de uma leitora se identificar com o amor entre duas mulheres

O fato de incluir mulheres no público-alvo desde a concepção do ensaio já é um diferencial em relação à esmagadora maioria dos produtos pornográficos. Salvo raras exceções, nenhuma delas no Brasil (que eu conheça, ao menos – vou adorar descobrir que estou errada, se alguém tiver novidades para me contar nos comentários), a pornografia é produzida por e para homens. O consumo de produtos pornográficos por mulheres é tratado como marginal, incidental. E se por um lado isso leva a um estranhamento geral da nudez masculina, por outro leva a uma maior familiaridade com o corpo da mulher. Na entrevista à Quem, a própria Fernanda Young admite essa relação com o nu.

“Não perco tempo vendo revista de homem pelado”, revela. “Acho nojento. Aquela coisa horrorosa de barriga tanquinho, músculos… É tão musculoso que fica com a cabeça pequena. Me lembra um açougue. E eu, como vegetariana, não gosto de açougues [risos]. Esteticamente, a mulher tem um corpo lindo. O ventre é lindo, a bunda é bonita. Não precisa ter atração, mas o feminino é belo.”

Beleza masculina e consumo de G Magazines e afins por mulheres (bem como o consumo de revistas masculinas por lésbicas) são temas que mereceriam um post à parte, e infelizmente tenho que deixá-los de lado nesse artigo que já começa a ficar muito grande. A questão é que a identificação é uma forma de sentir desejo e, por conseguinte, consumir pornografia. Se as mulheres não são sujeitos para as revistas masculinas, uma das formas de desfrutá-las é pensando não em possuir o objeto retratado, mas em como seria ocupar o seu lugar.

Encontrei, nos comentários da coluna de Arnaldo Branco na Revista Zé Pereira, uma avaliação dessa edição da Playboy que ilustra bem o que estou dizendo. É Marina, “uma mulher comum” como a própria se define, quem contesta o texto (bastante grosseiro) do cartunista, que critica a alegria das mulheres com a nudez da escritora.

Tenho certeza que a FY não quis salvar o erotismo visto pelos olhos dos machos reprodutores que coçam o saco e salivam quando as gostosas passam na rua com a calça jeans enfiada no rego. FY também não quis fazer um ensaio pseudo-intelectual, pois, como ela mesmo disse, isso não existe. Ensaio de nu na playboy é simplesmente um ensaio de nu na playboy. (…) Por fim, eu como mulher comum, adorei ver FY nua, e, pra mim, seu ensaio realmente me serve como uma tentativa de trazer à tona um outro tipo de erotismo: aquele que a gente aprecia e até se vê ali, aquele que tem um contexto e que chama atenção por isso. Nesse ponto, FY arrasou. (…) O belo é relativo e a maior graça de todas é justamente poder ter como escolher. Pra mim, mulheres com coxas de cavalo e alaranjadas de tanto bronzeamento artificial me dão um nojinho. FY me dá tesão. Você não concorda? Ótimo. Viva as diferenças. Mas todo mundo tem que ter a chance de celebrar isso, não?

Ao aparecer vestida na capa, FY deixa claro que o erotismo de seu ensaio vai muito além da nudez

O ensaio, de fato, traz um erotismo que não é o dos retratos ginecológicos. Acostumada a brincar com a cultura pop, Fernanda Young veste a icônica fantasia de coelhinha já na capa. Nas demais fotos, resgata outros elementos da cultura erótica – espartilhos, bondage, meias de seda. A produção caprichada não deixa que o ensaio caia na vulgaridade.

Mas o mais legal é a possibilidade, que podemos supor a partir da revista e das declarações da escritora após sua publicação, de que aquele ensaio não tenha sido pensado para seus leitores e sim para a própria Fernanda Young. Ela alfineta a ala masculina de seu público, dizendo que fica feliz ao notar que os homens continuam sentindo medo dela. Depois, provoca a totalidade dos compradores de sua Playboy: “São fotos eróticas. Espero que muita gente se masturbe. Vou ficar felicíssima se isso acontecer.”

Acima de tudo, fica a sensação de que Fernanda Young está se divertindo (e muito) com a repercussão de sua passagem pela publicação cujo nome tornou-se sinônimo de revista masculina. Para quem não treinou seu olhar para a crueza da pornografia, acho que isso – a demonstração de estar genuinamente gostando da coisa – é o que torna tudo muito mais interessante.


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