Quero lésbicas legais na TV

Falem mal, mas falem da gente – será que é isso que nós queremos?

Ultimamente, as lésbicas estão aparecendo mais em programas televisivos, na ficção e fora dela. Pouco a pouco, vamos nos tornando mais visíveis. Resta agora discutirmos a qualidade dessas aparições, e se a maneira como somos representadas acrescenta alguma coisa à discussão ou não.

Tomemos como exemplo a última novela das oito na Globo. No início de A Favorita, havia todo um mistério a respeito do envolvimento entre Catarina, personagem de Lília Cabral, e Estela, vivida por Paula Burlamaqui. Quem já cansou de acreditar nas promessas globais, como eu, não se arrependeu: no fim das contas, não rolou nada. Nesse caso, bem ou mal, vi uma justificativa decente: Catarina e Estela eram apenas amigas, e ponto. Ótimo! Não vimos romance nenhum, mas pelo menos o autor não caiu na armadilha fácil de retratar uma homossexual interessada apenas em desviar a hétero maltratada pelo marido. Ponto para João Manuel Carneiro, o autor, que soube reconhecer que lésbicas conseguem ser amigas de outras mulheres, sem ter necessariamente qualquer intenção sexual por trás disso.

Infelizmente, não posso ser tão agradável na crítica à última aparição lésbica na Globo, já comentada aqui pelo Pedro. Eu não conseguiria descrever minha reação à cena. Vou deixar que o quadril da moça projetado para frente e a camisa xadrez displicentemente jogada sobre a regata mostrem para vocês o quão descabida é a preocupação da outra personagem em sentir ciúme do marido por causa da policial durona.

O estereótipo é evidente: a Sargento Selma é durona, masculinizada nas vestes e trejeitos (não que eu tenha qualquer coisa contra as caminhoneiras, pelo contrário. Só critico o fato de lésbicas raramente serem representadas de outra forma na TV), e o beijo em si não tem conotação sentimental nenhuma, nem mesmo sexual. Não há desejo nenhum nessa cena, e o beijo poderia muito bem ser substituído pela frase “eu sou lésbica”, sem prejuízo na mensagem. Na realidade, essa troca seria até melhor: em vez de dar um selinho cafajeste, a personagem estaria se assumindo, bem mais legal.

Ontem, vi mais duas notícias envolvendo lésbicas e teledramaturgia: na Globo, a minissérie Tudo Novo de Novo vai abordar a paixão de uma mulher por outra, e como sua filha e ex-marido lidam com essa situação. É uma discussão complexa e interessante, e espero que a narrativa esteja à altura do tema.

A Record, por sua vez, vai apresentar o envolvimento entre duas mulheres na novela Poder Paralelo. Encontrei essa informação no Universo Mix:

“Vem tabu por aí: as atrizes Paloma Duarte e Adriana Garambone viverão um romance lésbico na novela ‘Poder Paralelo’, da Rede Record. Lauro César Muniz, autor da novela, disse que tratará o assunto de maneira sutil e que, infelizmente, não pretende exibir nenhuma cena com beijo gay.”

A matéria do Universo Mix traria vários pontos pra discussão, como a classificação indicativa (um beijo gay não pode ser visto por adolescentes de 14 anos?) e o fato de que “não terá namoro entre as duas personagens”. Mas pesquisando no site da novela da Record, me saltou aos olhos um outro fato:

Maura (Adriana Garambone) dedica sua vida a cuidar do marido e dos filhos (…). Casou-se cedo com Bruno Vilar (Marcelo Serrado) e deixou de lado o desejo de ser atriz, por insistência do próprio marido. (…) O que ela não imagina é que o marido há anos mantém um caso extraconjugal com a famosa atriz Fernanda Lira (Paloma Duarte).

Traduzindo em miúdos, nem lésbica essa história é – está muito mais perto da possibilidade de um threesome heterossexual do que qualquer outra coisa. Eu adoraria ver a Paloma Duarte lésbica de novo (ela ficou ótima interpretando uma homossexual em A Partilha), mas lésbica mesmo, não em um triângulo pra homem gostar.

É uma pena que tanta gente esteja comprando essa versão de que elas vão ser lésbicas na novela.

Depois de tantas falsas promessas e até explosões de casais promissores (pra mim, Torre de Babel vai ser sempre o exemplo extremo da relação da Globo com seus personagens hiomossexuais), aprendi a não me iludir mais. Deixo a discussão para os comentários: o que é pior, ser invisível ou mal representada?

6 respostas para Quero lésbicas legais na TV

  1. Marinão disse:

    Arrasou nas críticas CAROLÃO. ;p

  2. Cláudio F. disse:

    Eu prefiro a invisibilidade à distorção.

    Melhor que não vejam do que vejam o que não é de fato.

    A Globo esconde tanta maricona lá dentro que nem dá graça. Mas posso me deter só as mulheres que fazem sexo com mulheres então:

    E o que dizer da Xuxa e da Marlene Mattos? Citando o caso mais emblemático… Depois da mesma Xuxa e Ivete Sangalo?

    De Maria Bethânia e Renata Sorrah? Ana Maria Braga e Simone? (Diz que este foi o motivo cabal da mudança da primeira para o Rio)

    Eles preferem montar casamentos “moralmente”* corretos e ficar encobrindo…
    *”moralmente”, porque moral é um conceito bastante subjetivo e eu penso ser dotado dela.

    Sei por amigos e demais contatos que Cauã Reymond tinha namorado, Edson Celulari, Murilo Rosa beijava um cara dentre as cortinas de um Tim Festival aí… Reynaldo Gianecchini tá ridículo já de tão escancarado, parece que a história do filho da Marília Gabriela é mais verídica do que imaginamos ser.

    • Paulo dutra disse:

      o cara que o Murilo beijava era a mulher dele que tem 1,80 e estava com ele,
      cuidado com as fofocas erradas , ainda mais de uma pessoa especial como o Murilo, falo isto porque eu estava lá e vi, era a esposa dele seu idiota!

  3. Isabela disse:

    Não acho que a Sargento Selma esteja distorcendo a imagem das lésbicas em conjunto. Lésbicas masculinizadas existem, um fato. Concordo inteiramente com a crítica: jovens de 14 anos não podem ver um beijo gay? Como assim? É uma pena que a sociedade ainda esteja atrasada desse jeito. Pelo visto as outras histórias de romances lésbicos “quase ocultos” segue o mesmo padrão: para não chocar. Eu prefiro que apareça sutilmente. Ser omitido é pior, por cair no incômodo do esquecimento. Ao menos aparecendo vamos atingindo aos poucos a mente fechada de setores da sociedade.

  4. […] A respeito das novelas brasileiras, por exemplo, temos no Homomento já dois posts sobre o assunto (aqui e aqui), contando mais decepções do que alegrias até […]

  5. Regina Morrison disse:

    Estou Regina Morrison, 23+, stewardess suíços Airlines.
    Eu sou americano, mas também falo muito bem o alemão. Buscando uma namorada, que falam Português a fim de melhor falar esta língua bonita. Por favor, escreva-me em regimorrison@gmx.net
    saudação
    Regi

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