Chegando ao mainstream dos quadrinhos – Parte 2

Leia a parte 1.

Greg Rucka é um norte-americano de 39 anos. Escritor de livros policiais e histórias em quadrinhos de super-heróis, é hoje em dia reconhecido como um dos mais talentosos no ramo. Foi contratado pela DC Comics no fim da década de 90 e desde então tem lá desenvolvido um trabalho bastante semelhante às suas obras anteriores (como Queen & Country): tramas policiais protagonizadas por mulheres de personalidade forte.

Gotham Central, publicado no Brasil com o nome Gotham City Contra o Crime, foi o título idealizado e escrito pelo autor junto ao também badalado Ed Brubaker. Publicado de 2003 a 2006, conta por um viés realista e emocional a vida cotidiana dos policiais que operam na mesma cidade que Batman e seus supervilões. Recebido muito bem por público e crítica, o título foi vencedor da mais prestigiosa premiação da nona arte: o Eisner Award. Foi em um dos números de Gotham Central que a personagem Renee Montoya foi tirada do armário por um chantagista. Na história intitulada Meia-Vida, que faz alusão à rotina policial e também às complicações pessoais de Montoya, o maníaco Duas-Caras apaixona-se or ela, sabotando sua vida pessoal ao enviar fotos suas com uma mulher para sua família e trabalho.

Sendo tirada do armário em Gotham Central

Saindo do armário em Gotham Central

Ainda que dentro do esterótipo da policial durona, reproduzido repetidamente, Montoya é uma lésbica retratada sem preconceito algum. Ela era a protagonista da série e passou a ser uma das mais visadas personagens da DC Comics: tanto que em 2006, no maxissérie 52, uma das empreitadas mais ousadas do gênero nos últimos anos, Montoya aparece como uma das heroínas principais. 52 foi durante todo o ano o principal título da editora, redefinindo os rumos das histórias de todos os personagens da mesma. Foi nesse título que conhecemos a ex-namorada de Montoya e atual Batwoman: Katherine Kane.

As ex-namoradas Kathy e Renee em 52

As ex-namoradas Kahty e Renee

Criada em 1956 como parte do plano de trazer o feminino com mais peso para o universo de Batman, no intento de afastá-lo dos rumores de homossexualidade, a Batwoman original sempre teve um lugar mais que periférico nas histórias, caindo enfim no esquecimento em 1979. Foi essa irônica revitalização por Greg Rucka que rendeu-lhe um lugar em veículos de comunicação de todo o mundo: uma super-heroína lésbica vinha à luz. Certamente não foi a primeira, mas a singularidade de sua importância é apontada pelo próprio escritor: “ela está usando no peito um dos mais famosos ícones da cultura pop de todos os tempos – aquele pequeno morcego traz bilhões de dólares para a Warner Bros”.

Kathy Kane é uma socialite de Gotham que é feminina, sensual e discreta. Durante as noites, luta contra o crime como a Batwoman. Autônoma, tomou para si o símbolo do pequeno morcego e o nome sem o consentimento de Batman, encontrando porém aceitação de seu trabalho por Dick Grayson, o primeiro Robin. Teve participação pequena, mas essencial, em 52, que ao acabar deixou toda uma mídia ansiosa por seu retorno.

Em junho de 2009, depois de uma série de rumores e confirmações, sai a Detective Comics número 854. Esse título, em vigor desde 1937, foi palco da estréia de Batman e da grande maioria de seus vilões. É um dos mais clássicos títulos dos quadrinhos, e agora, sob os roteiros de Greg Rucka e os desenhos de um dos mais criativos artistas do ramo no momento (senão o melhor), JH Williams III, vai por um ano contar as histórias da Batwoman. Williams diz que está muito feliz por ter um personagem homossexual estrelando a série, e que seu lesbianismo será trabalhado de maneira natural, como apenas mais um dos aspectos de sua personalidade.

Ilustração de JH Williams III para a capa de Detective Comics #854

Ilustração de JH Williams III para a capa de Detective Comics #854

Um escritor de grande competência com as melhores intenções fez com que duas personagens lésbicas ganhassem status em meio à mais tradicional editora de quadrinhos, que em suas histórias dava pouca abertura a homossexuais por medo de perder vendas e o apoio de seu público em parte preconceituoso. Por essas razões e também por seus primorosos roteiro e arte, Detective Comics #854 já é história.

Mas qual o significado desses notáveis avanços? Quais são os pontos bons e ruins, o que temos a comemorar e a reclamar no que diz respeito aos LGBT nos veiculados comics norte-americanos? Algumas reflexões conclusivas na terceira e última parte desse texto, pelo mesmo bat-autor, no mesmo bat-blog.

2 respostas para Chegando ao mainstream dos quadrinhos – Parte 2

  1. […] julho do ano passado eu escrevi uma reflexão sobre LGBTs nos quadrinhos do mainstream norteamericano e cobri a Batwoman e seu roteirista de elogios. Por enxergar Kathy Kane como uma personagem – […]

  2. Johne334 disse:

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