A sedução científica

Há algumas semanas li um texto do colunista da BBC Brasil Ivan Lessa intitulado “A confusão científica”. Nada sei sobre sua repercussão por não haver espaço para comentários no site, mas admito ter concordado com as idéias ali defendidas. Apesar de ter a nítida sensação de tratar-se de uma opinião leiga, é inevitável constatar que nossas opiniões e hábitos estão nas mãos de cientistas que volta e meia retificam noções tidas anteriormente como infalíveis.

Outra constante na vida profissional desses donos da verdade são as pesquisas inúteis para revelar obviedades. Opinião minha, claro. Vi outro dia um teste em que um rato pequeno com fios ligados ao cérebro era de tempos em tempos trancado com um exemplar maior e mais agressivo de sua espécie, que o feria e o deixava em pânico. O nobre objetivo do maltrato ao animal era comprovar que um ser vivo, quando intimidado com frequência, torna-se amedrontado e retraído. A matéria, ao final, fazia um paralelo com o homem e concluía brilhantemente que o bullying é prejudicial ao desempenho escolar e afeta a personalidade das vítimas.

Por conta dos meus interesses pessoais e até para montar textos interessantes para o Homomento, sou leitor de muitos sites e portais de notícias voltados para o público LGBT. Percebo que a denúncia a manifestações homofóbicas e o acompanhamento da evolução dos nossos direitos são os tópicos principais, mas não posso deixar de observar a repercussão que os números têm nesses veículos. Uma boa pesquisa seduz os ativistas, que logo divulgam as porcentagens de homossexuais no Brasil e no mundo, de grupos odiados na sociedade brasileira, de gays que já foram discriminados de alguma maneira, de chilenos a favor da união homoafetiva, de britânicos simpáticos a homossexuais e até de gays ativos e passivos em capitais norte-americanas (!), para dar uns poucos exemplos.

Os motivos para isso me parecem claros. Informações quantitativas são bons argumentos: se um colega da faculdade lhe diz que a homofobia no Brasil não chega a ser violenta, prontamente você pode responder que, segundo a pesquisa de Luiz Mott, um homossexual é morto a cada três dias no nosso país. Se o namorado de uma amiga diz que você é legal, mas não é natural ser gay, você comenta que são mais que comuns as ocorrências de homossexualidade na natureza, e que um estudo recente mostra que a homossexualidade ajuda a moldar a evolução. Conhecimento, nesse caso, é poder: para se defender e tentar convencer as pessoas do nosso convívio diário que a existência de LGBTs é natural. Além do mais, quando a sentença é científica, a credibilidade é tanta que bons frutos podem ser colhidos dessas especulações, tais como iniciativas do governo e mobilizações públicas.

Contudo, não se pode esquecer dos riscos de se apoiar sob os alicerces da ciência. Pesquisas sempre têm uma margem de erro, e um pertinente texto publicado no Dolado nos atenta para o fato de que, no que concerne às pesquisas relacionadas à homossexualidade, essa margem tem uma característica essencial que é o medo do preconceito.

(…) não existem estatísticas exatas e não há um Censo que calcule corretamente a quantidade de homossexuais no Brasil. Algumas estatísticas apontam cerca de 10% dos brasileiros sendo homossexuais, mas não há uma apuração utilizando métodos científicos e critérios precisos de pesquisa. Uma pesquisa séria e abrangente poderia solucionar a questão, mas é barrada por outro problema: o preconceito. Muitos homossexuais ficariam com medo de assumir a sua homosexualidade em uma pesquisa, afetando negativamente a mensuração de dados reais. (…)

Confesso ter me alegrado com a “comprovação” de que crianças criadas por casais homossexuais crescem normalmente, mas nunca tive dúvidas disso. A análise que aponta 87% da comunidade escolar como homofóbica talvez estimule mais iniciativas inclusivas do MEC, porém todo mundo sempre soube que no colégio a bichinha e a sapata são alvo de chacota, violência física e psicológica. Por outro lado, é indignante perceber que para termos direitos e respeito, precisemos provar que os merecemos. Até quando a humanidade vai precisar trancar ratos em gaiolas e ver crianças sofrendo por não serem masculinas/femininas o suficiente para chegar a conclusões óbvias e assim tomar atitudes em relação a elas?

Em meados do século XIX e início do XX, a psiquiatria buscou categorizar tipos e comportamentos humanos em nome da ciência, se aliando à religião como nova justificativa do ódio dos homens brancos e heterossexuais contra homens e mulheres de cor e/ou homossexuais. Os paradigmas que embasaram esses prognósticos assustadores já foram derrubados, mas seu legado no âmbito sócio-cultural foram a ignorância e o preconceito. Não vamos, como esses homens, nos deixar viciar por informações exatas e comprovadas: humanizemos nosso discurso.

6 respostas para A sedução científica

  1. Erick Wolff8 disse:

    Enquanto o Brasil achar que o homossexualismo é opção, não terá o que fazer, sendo que ninguem escolhe ser HT Ou Homo, quem sabe depois que descobrirem que a pessoa nasce assim e respeitarem sua condição de ser, quem sabe possa existir algum dialogo no caminho do respeito e dignidade.

    Mas em parte o problema esta na própria classe que não sabe seus direitos e não luta por eles, pior ainda, os militantes que mais se preocupam em aparecer do que fazer algo pela comunidade.

    Adorei seu Blog e se permitir irei publicar no sosni.
    abçs

  2. luan oliveira disse:

    olá!adorei o blog,sou da HJE!concordo com tudo que vc falou sobre a ciência,para mim essa história de que a ciência é uma verdade absoluta ficou no século 19 e morreu lá!a ciência é tão inconstante e até maléfica,que como vc mesmo cita,ela já foi usada como um meio para legitimar o racismo e a homofobia.Não nego o desenvolvimento tecnocientifico que ela nos proporcionou,mas tá mais que na hora de desconstruir esse mito da verdade absoluta!

  3. brasiltropical disse:

    Olá a todos do Homomento!

    Somos a Revista Nuance, um periódico bimestral sobre assuntos relativos ao segmento LGBT, com lançamento previsto para setembro, em todo o Brasil.

    Gostariamos de parabenizá-los pelo blog e convidá-los a construir conosco a Nuance.

    Queremos fazer dessa revista um espaço dos leitores, colaborem enviando sugestões de matérias e comentando!

    Visitem nosso blog e adicionem no Msn:
    http://revistanuance.wordpress.com
    revistanuance@hotmail.com

    Abraços e Sucesso!

  4. […] especialmente no que tange à quantificação da orientação sexual de uma população, e que não devemos nos apoiar em números para argumentar contra o preconceito. De qualquer maneira, os 27% surpreendem, demonstrando que as uniões civis entre pessoas do mesmo […]

  5. […] na Escola, divulgada em 2003 pela revista Profissão Mestre. Já alertamos aqui sobre os riscos da argumentação baseada em pesquisas, mas é interessante chamar a atenção para algumas estatísticas encontradas nesse estudo: Dos […]

  6. […] de tudo, uma saudável desconfiança das verdades absolutas da ciência, como se percebe no meu “A Sedução Científica” e no “Avanços e Solavancos” do Rodrigo, um dos primeiros bons posts do […]

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