O preconceito e a cura

Vítima frequente de uma dor de cabeça insuportável, o poeta João Cabral de Melo Neto acostumou-se à aspirina. Mais do que acostumar-se, criou com ela uma relação de incrível proximidade, a ponto de dedicar um poema ao famoso comprimido. Milhares de pílulas depois, uma cirurgia para curar uma úlcera no duodeno acabou também com a cefaleia, libertando o artista de seu vício.

Um leitor menos paciente perguntará: o que isso, afinal, tem a ver com homossexualidade? Ou mesmo com cultura LGBT? Antes que um clique nervoso feche essa janela de seu navegador, mantenho o mistério: pode ter, sim, muita coisa a ver.

Temendo represálias, a psicóloga Rozângela Justino escondeu seu rosto

Temendo represálias, a psicóloga Rozângela Justino escondeu seu rosto

A última aparição misteriosa no Homomento foi de Rozângela Justino, psicóloga presbiteriana famosa pelo tratamento supostamente capaz de “curar” homossexuais. Essa prática contraria a resolução 01/1999 do Conselho Federal de Psicologia (CFP), que orienta a conduta profissional do psicólogo em relação à orientação sexual.

Segundo essa resolução, a homossexualidade não deve ser considerada “doença, nem distúrbio, nem perversão”, não cabendo tratamento para saná-la. O documento ainda incentiva o profissional a contribuir na luta contra o preconceito, vetando a participação de psicólogos em “eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”, bem como “qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas”.

Repreendida com censura pública pelo Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP-RJ) em 2007, Justino apelou para o CFP por discordar da resolução 01/1999. Quem esperava uma punição mais severa, como a cassação do registro da psicóloga, acabou frustrado. No julgamento, ocorrido na sexta-feira, dia 31 de julho, o órgão manteve a censura pública. “Quando é o profissional que recorre, este Tribunal não pode agravar a pena e sim abrandar o que não foi aceito pelo Conselho ou manter a decisão do órgão regional”, disse o presidente do CFP, em matéria do site A Capa.

Quando se fala em sexualidade – homo, hétero, bi, trans –, existe uma distinção que se deve fazer entre o sentimento e a prática. Uma homossexual enrustida pode viver anos no armário, resistindo à tentação do contato homoerótico, e isso não mudará o desejo que ela sente por outras mulheres. Um heterossexual bem-resolvido pode dar-se ao luxo de, eventualmente, experimentar como o seu corpo se comporta numa relação sexual com outro homem, sem que isso provoque alteração em sua identidade sexual ou em seu desejo por mulheres. É necessário ver a diferença entre orientação sexual e experiências sexuais.

Controlar a dor não muda a causa do problema!

Controlar a dor não muda a causa do problema!

É por isso que defendemos: não é possível “reconduzir” a sexualidade de alguém ou “resgatar” uma heterossexualidade perdida. A visão da psicóloga Justino pressupõe que a orientação sexual é algo adquirido, portanto passível de ser mudado. Não é.

O raciocínio de que homossexuais em sofrimento devem ser tratados, portanto, é falacioso. Como o próprio CFP assume, não há doença, não há o que tratar. Assim, a terapia oferecida por Justino precisa, sim, ser questionada, mesmo que a intenção – ajudar pessoas “em estado de sofrimento, acometidas pela orientação sexual egodistônica [caso em que a homossexualidade é sinônimo de sofrimento para o indivíduo]” – pareça boa.

Voltando ao poeta: tentar “readequar” a orientação sexual de uma pessoa porque sua homossexualidade é fonte de sofrimento é a mesma coisa que achar que a aspirina vai curar uma dor crônica. O que causa tristeza não é o desejo por alguém do mesmo sexo. É ver esse desejo (e os sentimentos dele decorrentes) constantemente negado, visto como fonte de doenças, motivo para reprovação da família e até assassinatos.

Fobia, na Wikipédia: “em linguagem comum, é o temor ou aversão exagerada ante situações, objetos, animais ou lugares”. A psicopatologia clínica sustenta que essas, sim, são passíveis de tratamento. A censura pública emitida pelo CFP pode parecer uma pena branda, mas já é um passo na busca da cura de uma fobia específica, aquela que volta sua aversão exagerada à diversidade sexual.

Quanto ao temor manifesto pela psicóloga – o de sofrer represálias na mão da “ditadura gay”, que “amordaça” opiniões divergentes da sua –, ainda há muito a ser dito. Na próxima semana, o Homomento vai publicar um outro artigo sobre homofobia, dessa vez abordando o PLC 122/2006 e o argumento da “liberdade de expressão”.

7 respostas para O preconceito e a cura

  1. Pedro Cassel disse:

    Posso não entender de psicologia, mas acredito que não caiba ao psicólogo definir uma “linha” para o seu trabalho (não me refiro a teorias da psicologia a nortear-lhe, que obviamente têm de ser escolhidas pelo próprio). O que quero dizer é: imagina se um psicólogo promovesse seu trabalho dizendo que “ajuda as mulheres solteiras a se sentirem menos carentes” ou “ajuda homens a superarem eventuais cornos”? O trabalho de um psicólogo vai muito além de resolver problemas emocionais urgentes, por assim dizer.

    Ao dizer que trabalha auxiliando homossexuais a superarem sua orientação sexual, ela não só é totalmente anti-ética e preconceituosa como limita o alcance do seu trabalho. Porque uma mãe de família com problemas de depressão, por exemplo, quereria se tratar com uma profissional que diz curar gays? Não faz sentido nenhum pra mim.

    Na minha opinião Rozângela Justino fere, com suas atitudes, não só a resolução mencionada como a moral de todos os profissionais da psicologia. E é também por isso que eu sou um dos muitos que se entristeceu com a sua não-cassação, não apenas por ser um homossexual que se sentiu desrespeitado.

  2. Nessa disse:

    é. e não é desrespeito a opiniões diferentes simplesmente porque não é uma questão de opinião. independente da “opinião” sobre o que é melhor para si e para o mundo, tem que existir o respeito.

  3. Carolina Maia disse:

    E outra coisa (talvez uma das mais importantes): não tem como promover a saúde emocional de alguém através da repressão de sua sexualidade.

  4. […] Se por um lado é animador assistir a um vídeo assim e pensar que, ao menos na teoria, tais práticas foram abolidas nos EUA, sabemos que infelizmente, mesmo com os devidos impedimentos previstos no papel, o mesmo definitivamente não se aplica em solo tupiniquim. […]

  5. […] de Agosto Agosto foi um mês marcado pela polêmica do “tratamento” de homossexuais. No dia 31 de julho, a psicóloga Rozângela Justino recebeu censura pública do CFP. Em entrevista […]

  6. […] existem milhares de pessoas que ainda precisam ouvir essas mensagens que nos parecem tão básicas: ser gay não é doença, homossexuais podem registrar união estável, nem toda bicha é quaquá. Ficar do lado de fora de […]

  7. roberto disse:

    Em muitas etnias indígenas, até que o jovem viva o ritual de passagem, ele tem vivência homossexuais – famosos os ” baitos ” de que fala gilberto freire – espécie de clube do bolinha dos índios – só que quando o índio – frente a comunidade dos índios adultos, e em cerimônio presidida pelo pajé e cacique – vive o RITUAL DE PASSAGEM – então a sua masculinidade é afirmada e logo ele constituirá família, com mulher ( muitas vezes mais de uma ) e filhos.

    De duas uma: ous as circunstâncias realmente pesam na definição da sexualidade, ou então a ditadura do politicamente correto estabeleceu como dogma pseudo psicológico que incondicionalmente se nasce gay.

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