A crise da cultura gay monolítica – Parte 1

Gay normal, gay diferente

Existe um conceito chamado cultura gay. Esse conceito, como qualquer outro que pretenda reunir sob sua égide posturas, hábitos e gostos de um número massivo de indivíduos, é bastante problemático.

A cultura gay tem uma história própria, que remonta desde a década de 60 à era da informação, transformando-se radicalmente ante a eventos como a rebelião de Stonewall e a disseminação da AIDS. Culmina na década de 90 com as baladas dance, o vocabulário próprio, a fixação pela aparência e outras práticas comportamentais bastante comuns a muitos homossexuais. Ocorre um fenômeno, bastante estimulado pelos próprios: gay deixa de denominar, na expressão corrente, uma orientação sexual para associar-se ao estilo de vida de um determinado grupo.

São desastrosas as consequências dessa idéia do que é ser gay se propagar por toda a mídia e enraizar-se na mentalidade comum. Não só a maioria das pessoas espera que o homem homossexual seja esse personagem estereotipado como o próprio se estigmatiza. Pensa que para gostar de homens tem que ter uma parcela dessa bichinha que povoa o imaginário social, buscando identificar-se com ela. Ou o contrário – precisa construir uma auto-imagem do gay decente que foge dos padrões, projetando no restante dos homossexuais o pré-conceito comum. Um comentário anônimo no blog de um colaborador da revista Dom é boa exemplificação disso:

A expressão “sair do armário” é uma enganação. Na verdade, aderir aos esquemas gays é que é entrar no armário. Entrar num armário de afetações, de parâmetros e modos que exigem uma mentalidade muito específica. (…) Não sou malhado, não curto a night nem passeatas, nem moda gay nem nada que resulte dessa cultura tão específica, para não dizer limitada. Esse papo de “diversidade” é pura retórica. O mundo gay é implacável com a diversidade e cabe, todo ele, em meia dúzia de estereótipos. Os homens que me atraem estão por toda parte, menos nos locais gays. São homens comuns, em roupas comuns, sem tiques nervosos, sungões e coisas do tipo. (…) Não assumo que sou gay, tenho vergonha profunda de ser associado a práticas, estilos, condutas e valores que não só toleram, mas incentivam tantas porcarias. (…) Bees, bibas e bilus adoram quartos escuros, festas para disseminar AIDS, drogas sintéticas etc. É um mundo, todo ele, centrado na rotatividade insana, no desespero, na degradação. Não. Não vou sair desse armário porque me orgulho dele. E por saber que quem está realmente no armário – num armário sujo e mofado – são esse pobres coitados, tão risonhos e triviais, mas lá no íntimo terrivelmente envergonhados da sua condição.

Nosso anônimo repudia a chamada cultura gay, orgulhando-se de estar afastado desse amontoado de costumes. Recusa-se a assumir-se em seu círculo social e mesmo numa caixa de comentários, pois lhe apavora o julgamento alheio que em sua concepção o veria como um baladeiro fútil e promíscuo. Em seu argumento, a cultura gay tornou-se a chave que mantém seu armário trancado.

Mesmo que o discurso seja preconceituoso, passional e agressivo, é totalmente compreensivel. Como mencionei, é massiva a rotulação de pessoas atraídas pelo mesmo sexo como se elas tivessem uma personalidade pré-pronta. Parece que certos homens são duplamente estranhos: (1) por serem homossexuais e (2) por terem gostos e interesses diferentes dos que deveriam ter. Para qualquer assumido que foge aos moldes, é recorrente ouvir “mas você nem parece gay” ou ainda “você é um gay legal”, como se o natural fosse ser ruim e superficial. E se por um lado os heterossexuais os pressionam com essa categorização, por outro a própria comunidade LGBT cria, de fato, os ditos esquemas – se você não tem apreço por certa conduta, está fora deles.

No fim das contas, para homossexuais que não se encaixam nos padrões da cultura gay ou não conseguem conviver com eles há repressão de dois núcleos: da sociedade que o aceitaria apenas como o gay normal e dos gays normais que os excluem de seu circuito interno. A discriminação é dupla – na escola, por ser uma bichinha, e na balada, por não ser bichinha o suficiente.

Porém, felizmente, nem todos os gays diferentes se esconderam no anonimato em caixas de comentários por aí. Muitos deles entenderam que esse conceito de cultura gay precisava ser revisto, repensado e reestruturado, tornar-se mais abrangente e menos excludente, para que no futuro ninguém mais sofresse essa dupla repressão. No próximo texto, entenda quais circunstâncias favoreceram o início dessa discussão e o caráter das críticas desses novos ativistas à cultura gay do mainstream.

11 respostas para A crise da cultura gay monolítica – Parte 1

  1. Kiki disse:

    DUPLA REPRESSÃO! Falou tudo, é incrível como há discriminação dos dois lados.
    A orientação sexual deixou de ser matéria de individualidade e passou a ser coletivo. E temos que reproduzir um esteriótipo e satisfazer as expectativas de quem está fora e dentro do armário. De qualquer forma, tentam padronizar o impadronizável e o preconceito vem de todos os lados. Deprimente!

  2. Wellington de Oliveira disse:

    E uma pena que tantos problemas venham estar ligado a uma so situacao.
    Na verdade o espaco e de todos e para todos e se nao houvesse essa loucura desesperadora de tentar fazer a sociedade engolir toda a situacao…
    Deixem todos a vontade e em paz… Quem quer sair que saia quem quer ficar dentro que fique que ser mais ou menos e uma opcao que precisa ser respeitada por todos e de mabas as partes,…

  3. Daniel disse:

    Concordo. As pessoas de fora desse circuito gay não conseguem entender que um homossexual possa se dizer, por exemplo, ortodoxo ou fiel. A palavra “promiscuidade” parece ser a sombra de todo gay, até que alguém finalmente consiga enxergar o homem atrás da sexualidade. E aí vem, como tu disseste, a velha frase: “Bah, tu é legal mesmo!”. Enfim, é triste saber que vivemos em um mundo de desrespeito institucionalizado e ratificado pela mídia.

  4. luan oliveira disse:

    Achei essas indagações bastante modernas,no sentido de que a modernidade foi a responsável por mtos dos determinismos e a idéia de esteriótipos que ainda assolam o mundo,isso sempre existiu,mas foi mto mais assimilada nesse período.A cultura gay,assim como as outras formas de cultura do mundo contemporâneo está em constante reinvenção e mudança,ao anônimo na minha opinião caberia a ele próprio se procurar dentro dessa cultura,eu não concebo a cultura como uma pedra estática e presa a determinismo como os q ele usa,o q me evidencia que na verdade não é a cultura gay q o afasta,mas a sua própria homofobia internalizada através do discurso moderno.Na minha opinião pessoal a cultura gay é uma das mais diversas no que se pode falar sobre estilos de vida,não reduziria jamais essa ou qualquer outra forma de cultura a 12 esteriótipos,isso é uma espécie de universalização raza e sem conteúdo.

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