Um campo hostil

Um dos textos que mais gostei de ler no mês passado foi “Racismo é crime, mas homofobia pode”, de Rafael Morettini, escrito no blog de futebol da MTV Mala Preta. Morettini compara a censura a gremistas que utilizam palavreado racista para referir-se a colorados ao silêncio em torno do preconceito sofrido pelo jogador Richarlyson em campo, seja de torcedores rivais ou dos próprios sãopaulinos.

Não tive o privilégio de assistir a um jogo do São Paulo para observar tais manifestações e não pretendo ter tão cedo, mas numa breve busca pelo YouTube encontrei desde uma entrevista com o jogador no programa CQC cheia de insinuações preconceituosas, uma esquete e um bordão do Pânico na TV até uma charge de um famoso site do ramo, além de diversas montagens amadoras que têm como intuito promover a idéia da homossexualidade do rapaz. Pude notar, com isso, que a atitude homofóbica nos campos não é ignorada, mas estimulada pela imprensa. Já é famoso, por exemplo, o ato falho do locutor esportivo da Rede Globo Cléber Machado ao referir-se ao jogador como Bicharlyson.

Parece que o foco das piadas é o fato de Richarlyson parecer ser homossexual e afirmar não sê-lo. Com a insinuação e a dúvida os humoristas sentem-se à vontade para brincar em rede nacional. Mas diante de um jogador assumido, quais posturas seriam tomadas? Será que eles teriam coragem de deixar tão escancarados seus pensamentos preconceituosos acerca do que é ser gay? Com certeza, seria uma situação bem mais delicada.

Mas antes de qualquer militante LGBT reclamar que Richarlyson poderia se assumir, caso de fato seja gay, e talvez mudar um pouco da situação homofóbica no futebol brasileiro, devemos considerar o circo que se armou em torno do jogador só por conta da idéia de ele ser homossexual. E nos questionarmos: será que, nas atuais conjecturas do circuito futebolístico no Brasil, um homem abertamente homossexual teria plenas condições de construir uma carreira de sucesso?

(Redigido com o auxílio do Rodrigo)

Uma resposta para Um campo hostil

  1. Luís Felipe disse:

    Nos anos 80, na Inglaterra, um centroavante nigeriano naturalizado inglês chamado Justin Fashanu foi o primeiro jogador a assumir sua homossexualidade.

    Contexto: com 19 anos, jogava muita bola pelo Norwich. Foi contratado pelo Nottingham Forest, um dos maiores times ingleses na época, por indicação de Brian Clough, um dos treinadores mais vitoriosos da história do país.

    Clough era marxista e muito conservador com questões sociais. Homofóbico, inclusive. Fashanu estava ‘saindo do armário’ naquela época, ainda muito jovem, começou a frequentar boates gays para ver se gostava mesmo da coisa. O boato se espalhou e Clough ficou sabendo.

    Ato contínuo, Clough constrangeu Fashanu em um treino, dizendo que sabia que ele estava “virando uma bichinha”, que “os outros estavam falando”, e ele “não poderia tolerar isso”. Tirou o cara do time e despachou-o para um clube menor.

    Sete anos depois, com a carreira muito prejudicada, Fashanu foi capa de um jornal gay londrino, no qual assumiu sua homossexualidade. Foi duramente criticado pela família – o irmão era jogador também – para quem Justin tornou-se motivo de “vergonha”. Desestabilizado emocionalmente, se meteu nas drogas e no álcool.

    Em 1998, foi acusado de assediar um guri de 17 anos em um bar. Logo depois, se enforcou. O bilhete suicida dele é uma tristeza: “Eu não quero mais ser motivo de embaraço para meus amigos e família”.

    Certamente RIcharlyson não quer passar pela pressão de ser o segundo jogador de futebol da história mundial a assumir sua homossexualidade. Ao mesmo tempo, acho que o seu pioneirismo poderia aclarar a situação e colocar a limpo essa história, para o Brasil inteiro. Essa punição, mais assegurar que a homofobia tenha a mesma punição que o racismo em casos de cantos em estádios e afins, seria um avanço absurdo para a sociedade brasileira. É assim que penso.

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