Brüno: quando o politicamente incorreto é bom

Diferente do Rodrigo, eu acredito que não podemos ver o filme de Sascha Baron Cohen como um possível instrumento para combater a homofobia. No entanto, através do humor iconoclasta do ator britânico podemos destacar um ou outro ponto para discutir a sociedade e sua relação com a homossexualidade.

Gosto bastante do trabalho de Sascha Baron Cohen. Vi (e gostei de) seus dois filmes, Borat e Ali G Indahouse, e acompanhava fielmente seu programa de entrevistas exibido pela Sony, Da Ali G Show. Foi nesse talk show, inclusive, que vi a primeira aparição do personagem Brüno, e passei a aguardar com ansiedade o lançamento do filme. E, embora o filme lançado ontem não seja tão engraçado como Borat, acho que posso afirmar que quem gostou desse último provavelmente não vai se decepcionar com Brüno.

Brüno: humor sem pudores nem preconceitos (e sem limites, também)

Brüno: humor sem pudores nem preconceitos (e sem limites, também)

O tom escrachado da película pode ofender muita gente, especialmente porque há nudez frontal, e algumas cenas que fazem referência a sexo são (a meu ver, propositadamente) longas e até mesmo um pouco constrangedoras. Normalmente, eu não consigo rir desse tipo de coisa, mas a mensagem final que Brüno passa às mentes atentas é de crítica, e me agrada. É muito interessante como ele usa estereótipos para fazer com que as pessoas exteriorizem seus próprios preconceitos.

No seu filme anterior, Sascha Baron Cohen usou Borat, um estereótipo exagerado de árabe maravilhado com a cultura ocidental, para fazer com que alguns americanos destilassem seu machismo e antissemitismo. Em Da Ali G Show, o apresentador e rapper Ali G confundia seus entrevistados com posicionamentos absurdos, volta e meia fazendo com que os convidados assumissem suas próprias posições controversas. Com Brüno, desde suas primeiras aparições, ocorre a mesma coisa. Ainda que a história principal seja a de uma pintosa austríaca obcecada pela fama, as pessoas reais que interagem com o personagem em suas entrevistas acabam revelando seu real posicionamento em relação à homossexualidade.

Querendo chamar a aten~Brüno adota ilegalmente uma

Para chamar a atenção da mídia, Brüno adota uma criança africana. Será que a Madonna gostou do filme?

Em um dos quadros, por exemplo, Brüno é execrado pela plateia de um programa de auditório. As vaias eram merecidas, pois Brüno exibia com orgulho o tratamento nada adequado que deu ao bebê africano que adotou ilegalmente. No entanto, é importante notar que a desaprovação à paternidade de Brüno começa antes mesmo da exposição desses maus tratos ao filho. As primeiras vaias são emitidas quando o candidato a famoso diz “esperar conhecer o cara certo”, sendo que segundos antes o auditório havia expressado compreender o quão difícil seria criar o bebê sem um parceiro.

Outras concepções homofóbicas vão sendo expostas pelos entrevistados, como é o caso do instrutor de luta livre que ensina Brüno a reconhecer um gay. Também está presente um religioso que, a la Justino, ajuda os homossexuais a livrarem-se de seus pecados, repetindo uma ideia que já havia aparecido no quadro de Brüno em Da Ali G Show. Abaixo, a entrevista apresentada por Sascha Baron Cohen em seu programa, em que um religioso o orienta para ter atitudes “cristãs” e “não gays”.

Mas a crítica social não para por aí: ao longo do filme, Cohen ironiza a valorização da profissão de modelo, o envolvimento em ações sociais para criar uma imagem de “engajado” e a exploração de atores mirins por seus pais, alfinetando famosos sempre que possível (Mel Gibson, por exemplo, é chamado por Brüno de “o Führer”, em referência ao antissemitismo que estaria presente em A Paixão de Cristo, dirigido pelo ator).

Concordo que muitas das cenas são desconfortáveis para o espectador, mas até isso eu achei interessante. A polêmica cena do pintocóptero (cortada na versão exibida nos cinemas brasileiros), por exemplo, e as aparições de Brüno dançando seminu, denunciam a aversão que o público tem à visão de pênis e do corpo masculino, enquanto é “comum” ver mulheres seminuas. Sascha Baron Cohen cria cenas embaraçosas para obter reações extremas, e o resultado às vezes choca pela sua intensidade.

É impressionante ver como os estereótipos operam na cabeça das pessoas – eles são tão fortes que impedem o questionamento rápido. Em alguns casos, a atitude do personagem é tão louca que eu só conseguia pensar mas gente, como não desconfiar que isso é absurdo demais pra ser real?

De qualquer forma, Brüno me rendeu boas risadas. É bom ver um filme que aborda homossexualidade e não termina em tragédia, de vez em quando.

2 respostas para Brüno: quando o politicamente incorreto é bom

  1. […] Maciel discordou dos excessos cometidos pelo ator e diretor do filme, enquanto Carolina Maia acredita que o humor escrachado de Cohen denuncia preconceitos. Essa discordância ilustra bem as ideias de […]

  2. christian petrizi disse:

    Acabo de assistir “Bruno” em DVD, e, curioso como sou, busquei informacoes sobre o ator na internet.
    E me deparei com esse texto, essa análise perfeita do trabalho do Sacha Baron e dos efeitos que seu trabalho provoca nas pessoas. Análise impecável, Carolina. Parabéns!

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