Saindo da contramão

O Erik Galdino, do A Capa, publicou lá em maio um texto chamado “Mercado editorial gay vai na contramão”, que falava sobre como o segmento gay só cresce enquanto grandes jornais como o New York Times passam por problemas financeiros. Conta sobre como a distribuição gratuita – como é o caso do A Capa – parece ser o futuro das publicações, sejam elas gays ou não, e termina sem explicar porque achava que a Junior (revista de R$ 12) estava crescendo.

Aparentemente, esse mercado está agora saindo da contramão, como anunciou o Marcelo Cia em seu blog.

Não é oficial. Não chegou comunicado algum. Mas é certo que a revista DOM saiu da Fractal, editora que havia assumido o título quando ele saiu da Peixes. A Fractal não vai mais publicar a DOM, nem em agosto, nem em setembro. Também não chegou nenhum comunicado a respeito da Aimé, mas ela também sumiu das bancas desde a Parada e não sabemos se volta ou não. Há exatos dois anos, quando a JUNIOR chegou às bancas, a grande imprensa tratou logo de falar do boom do mercado editorial gay, fortalecido logo em seguida pela chegada da DOM e, meses depois, da Aimé. Além de JUNIOR, DOM e AIME, as gratuitas A Capa e Odissey eram publicadas. Hoje, 24 meses depois, restaram JUNIOR e as gratuitas. Neste tempo a crise fez todos sofrerem. O mercado editorial, bom que se diga, foi atingido em especial. Afinal, no meio da crise, revista vira artigo de luxo.

Agora, quase nada entendo de economia ou de venda de revistas no Brasil. Tampouco vou, aqui, lançar opiniões leigas sobre o futuro da imprensa. O que me preocupa é a representação.

Quando o Luiz Claudio Lins, ótimo blogueiro do Homofobia Já Era, questionou recentemente o caráter da chamada “imprensa gay”, achei a discussão pertinente. Galdino vibra com o crescimento de revistas que, como diz Luiz Claudio, são todas masculinas e muito parecidas entre si. Além de que esse crescimento mostrou-se um belo fogo de palha.

Deixo a análise do conteúdo da (extinta?) DOM e da Junior para os leitores que tiverem dinheiro e paciência para comprar e folhear ambas, e sugiro perguntas para nos fazermos diante desse recuo: o que será que representou esse efêmero efervescimento editorial gay brasileiro? E o mais importante: não está na hora de pararmos de confundir avanços do mercado gay com avanços da comunidade LGBT em geral?

5 respostas para Saindo da contramão

  1. Cláudio F. disse:

    Pois é pessoas, o mercado gay não é tão promissor assim. Como vem acontecendo com a mídia em geral, tudo está migrando para a internet. Burramente, a Júnior, batizada por Érika Palomino e extremamente com a revista de moda da última, Key, fez o caminho inverso. O Mix Brasil sempre foi o futuro. É um site com informações (e homens sendo vendidos como pedaços de carne num açougue também) e com jornalismo. O site existe desde muito tempo. A revista Júnior, um contraponto soft da G Magazine, fracassou e ainda vai fracasar muito mais. E isso nada tem a ver com crise, mas com venda de papel mesmo. Se o Mix fosse uma revista que virasse um site seria mais plausível. Outra questão é a futilidade encontrada nestas revistas, que evidentemente são voltadas para o mercado. Homens bonitos vestindo cuecas e roupas caras e às vezes uma matéria que preste no meio. O produto que foi ofertado não vale os 12 reais. E não se sabe ao certo aonde se quer chegar com a tal revista Gay. ACapa é vinculada ao Disponivel.com, um site de encontros gays (pegação stricto-sensu).

    O papel já era, exceto o distribuído de graça, é claro.

  2. Paulo disse:

    Acho que o problema das revistas gays é que as pessoas não precisam mais delas para consumirem a subcultura gay. A internet está aí, é de graça e garante o anonimato. Além do mais, há o fator qualidade. Tudo o que as revistas gays atuais trazem é descartável, superficial. Ninguém precisa gastar 12 reais para descobrir que cueca faz sucesso na Austrália. Revistas sobre moda, com editoriais bem produzidos, fazem sentido em sociedades com classe média desenvolvida – o que não é o caso do Brasil. Repetir o modelo americano e europeu não me parece o caminho.

    Muito melhor seria se essas revistas tentassem ocupar a lacuna deixada pela imprensa brasileira, que ignora a subcultura gay. Elas deveriam se transformar em um espaço para o debate qualificado sobre o que realmente importa. Deveriam, por exemplo, fazer grandes reportagens sobre temas polêmicos e complicados. Esse tipo de produto exige profissionalização e (ainda) não é feito na internet. Exemplo: submeter um repórter ao tratamento da Rozangela Justino para ele contar como é. A Junior que está nas bancas tentou fazer algo semelhante, mas a falta de qualidade do texto era constrangedora… além do mais, foram dedicadas nem 4 páginas ao tema, quando ele deveria virar uma série ou algo do tipo.

    Não tem muito segredo: enquanto produzirem conteúdo descartável, as revistas gays brasileiras também serão descaráveis.

  3. Antonio disse:

    Acredito que o maior problema é o foco e objetivo real das revistas. Há alguns anos se fala do pink money e todos querem uma parcela dele. Apareceu uma revista gay, depois vieram várias e se fala sobre um “boom” editorial. Mas e o público? Comprou mais de uma edição? Apenas porque a revista é gay, todos os gays vão comprar? Não é subestimar as pessoas?

    Confesso que até hoje comprei todas as edições da Junior, DOM e Aimé. A última, nunca consegui ler uma matéria sequer, pois os textos são diagramados como um informe médico.

    Dificilmente alguma matéria me agradou e, assumo, compro para dar um apoio, acreditando em um futuro com conteúdo de qualidade. Mas, é inacreditável ver que se passaram 2 anos e parece que tudo ficou ainda mais vazio e superficial.

    Concordo com quem fala sobre distribuições gratuitas e a grande dominação da internet.

    A grande vantagem da internet é sentir, diariamente, o que as pessoas querem. Eu, como idealizador do Dolado, posso dizer que isso ajuda e muito no direcionamento do trabalho – particularmente para o Dolado que tem uma política de fazer um portal para o público gay, ouvindo o que eles têm a dizer e não o que nós, da redação, queremos falar.

    Acredito que é nesse ponto que o mercado editorial gay falha, esquecendo que o leitor gay é quem manda e se ele não gostar ou não se identificar, dificilmente comprará a próxima edição da revista.

    Os responsáveis por essas revistas deveriam deixar um pouco do ego de lado e fazer uma reflexão importante, como qualquer outro produto/serviço: o que o meu leitor/consumidor quer?

    Enquanto o mercado editorial encarar o público gay como um público vazio, que só quer ver editoriais de moda, com corpos sarados e cuecas exibindo os pêlos pubianos, o fracasso será inevitável.

    Parabéns pelo texto.

  4. julia disse:

    acho que os editoriais esquecem-se de que o público da revista é mais culto do que a média nacional, por isso a freqüente cobrança por conteúdos melhores.
    e esta seria a melhor a maneira de sobreviver e fidelizar os leitores.

  5. […] respectivamente em outubro de 2007 e setembro de 2008. A mídia LGBT brasileira, e isso inclui a impressa (formada só por revistas para homens, já repararam?), ainda tem muito a evoluir, e acredito que […]

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: