Colaboração do leitor: Heteronormatividade e Subculturação

Ao fim do esforço para coletar informações, pensar sobre elas e escrever a saga “A crise da cultura gay monolítica”, recebi como recompensa o melhor presente possível: um contraponto. O leitor Paulo Simas, em seu comentário, trouxe uma elaboração muito bem argumentada para afirmações bastante diferentes das que postei aqui nas últimas semanas.

Solicitei, então, a autorização do Paulo para postar o comentário como colaboração independente, tirando-o da marginal caixinha de comentários e trazendo-o para o lugar merecido: o de destaque. Espero que a experiência de repostagem do comentário enriqueça a discussão que procurei suscitar e desperte nos demais leitores a vontade de também participar do Homomento, mandando colaborações, sugestões e contrapontos. Porque relações de uma só via são sempre muito tediosas, não acham?

Heteronormatividade e Subculturação

por Paulo Simas

Li com muita atenção a excelente série de textos “A crise da cultura gay monolítica”, que entendo como um convite ao debate. Tomo a liberdade, portanto, de participar.

Pergunto, primeiro, se podemos falar em uma “cultura gay”. Creio que não. O termo mais preciso, a meu ver, é “subcultura gay”, visto que se trata de um conjunto de significados, crenças e comportamentos que não se sobrepõe à cultura heteronormativa, que é majoritária e muito mais abrangente. Mesmo os homossexuais são educados sob essa cultura e alguns ainda têm dificuldade de questioná-la – muito relacionamentos entre homens, por exemplo, ainda são baseados no modelo bicha/bofe, em que um dos parceiros reproduz o estereótipo de masculinidade e o outro, de feminilidade.

Distinguir “cultura gay” de “subcultura gay” não é frescura minha. Quando falamos em subcultura resgatamos uma característica fundamental dela: seu caráter de resistência, de desafio. Só existe uma subcultura gay porque existe uma cultura heteronormativa que pune e reprime qualquer manifestação cultural contrária às regras. É importante ressaltar isto: o fato de existir uma subcultura gay se deve muito mais à heteronormatividade do que aos próprios gays. Não fosse a necessidade de criar espaços livres de repressão, provavelmente não existiram as boates, os clubes de sexo e outros ambientes que ficaram marcados como “tipicamente gays”, por exemplo.

Como se vê, a subcultura gay, entendida como a possibilidade de um grupo minoritário criar sua própria versão do mundo, é algo libertador. O que oprime os gays “desajustados” é a necessidade de fazer parte de uma maioria, de qualquer maioria. A subcultura gay não é uma só. Existem as subculturas da subcultura. Não é preciso ir muito longe para descobrir isso e a internet ajuda muito a encontrar diversas formas de manifestação da homossexualidade: barbies, rockers, ursos, nerds, drags etc. O problema é que muitos homossexuais se ressentem por não fazerem parte da subcultura gay aceita pela maioria das pessoas como a única e verdadeira.

Essa subcultura gay teoricamente genuína nada mais é do que a forma como a heteronormatividade enxerga a homossexualidade. Gays musculosos, consumistas, hedonistas e drogados existem, claro. Mas só viraram norma na cabeça dos heterossexuais – e de alguns homossexuais desavisados. Em sociedades complexas, onde várias subculturas coexistem, a cultura normativa cria estereótipos para poder lidar com a diversidade. Algumas vezes, eles são positivos: gays têm bom gosto, negros envelhecem em melhores condições, judeus são bons empresários. Outras vezes, são negativos: gays são fúteis, negros são intelectualmente inferiores, judeus são avarentos.

Num dado momento histórico, é verdade, os próprios homossexuais se encarregaram de desenvolver a noção de subcultura gay uniforme ou monolítica, como o autor dos textos muito bem nomeou. Mas era uma estratégia política, uma forma de sobreviver e ganhar visibilidade. Foi assim nos anos 70 e nos anos 80, nesta última época principalmente por causa da epidemia de AIDS. Nesses períodos certamente coexistiam vários embriões de subculturas gays além daquela valorizada pela militância do Rio e de São Paulo. Já existiam os gays góticos e os gays punks, por exemplo. Eles só não se organizavam em grupos e dividiam suas crenças porque sequer se enxergavam como homossexuais, já que assumir essa identidade significava aderir automaticamente a um certo “estilo de vida”.

Essa subcultura gay urbana e de classe média chegou aos anos 90 e encontrou no nascente mercado gay um aliado. Grandes marcas transformaram os homossexuais em um nicho de mercado. Qualquer homossexual? Claro que não: só aquele branco, de classe média, morador de grandes cidades, de gosto cultural refinado, hedonista etc. Ou seja, o típico indivíduo adepto da subcultura gay. Essa adesão do marketing à subcultura gay, usando e abusando dos estereótipos, é um indício de que existe um modelo de homossexual esperado e até desejado pela heteronormatividade. Basta ver os personagens de novelas e os anúncios em revistas para saber o que os heterossexuais esperam do homossexual “típico”. Os homossexuais “desajustados”, por sua vez, acabam não se reconhecendo nesse modelo de homossexual aperfeiçoado pelas brilhantes mentes de nossos publicitários.

Mas vejam: gays não são os únicos a sofrer com isso. Esse procedimento é adotado com todas as minorias sociais e subculturas existentes. Ou alguém acha que todas as mulheres gostam dos programas de culinária da TV? Ou que todos os jovens negros gostam de hip hop? É claro que não. Mas esses são os lugares e os papéis reservados pela cultura majoritária às mulheres e aos jovens negros. Quem ousa agir diferente pode receber a reprovação e o estranhamento – exatamente o que acontece com os gays que não se ajustam ao que a cultura heteronormativa considera como sendo a genuína e legítima subcultura gay.

Se ela está em crise? Entre os heterossexuais, aposto que não. A imensa maioria da população brasileira continua acreditando que gays são seres que, por terem optado por uma vida de hedonismo absoluto, são incapazes de constituir família, de criar crianças. De tão forte, essa crença impede qualquer avanço legal que garanta os direitos civis a homens e mulheres que amam pessoas do mesmo sexo. A noção de “cultura gay monolítica” por parte da heteronormatividade continua de pé, talvez mais forte do que nunca.

Mas ela está em crise, sim, entre os gays, que cada vez menos acreditam que de fato exista uma “cultura gay monolítica”. Com as mudanças trazidas pela internet – e nisso o artigo do Homomento é preciso –, estamos descobrindo as diversas subculturas gays possíveis. E que só são possíveis porque a militância, lá atrás, usou a identidade homossexual monolítica como estratégia política, relativizando a discriminação. Porque é graças ao pioneirismo e à coragem das drags, dos gays dândis e de toda a galera das décadas de 70 e 80, que hoje é possível assumir-se gay sem pagar um preço muito alto por isso (pelo menos nos centros urbanos, claro).

Graças às conquistas do movimento homossexual e a outros fenômenos sociais e culturais que não convém abordar agora, hoje é possível combinar diversas identidades sem ter que aderir integralmente a nenhuma delas: o sujeito é gay, nerd, umbandista, punk, nordestino, tudo junto, tudo com seu devido valor na constituição do indivíduo. Dessa combinação emergem infinitas subculturas gays, infinitas formas de se reconhecer e ser reconhecido como homossexual.

Essas infinitas subculturas gays sempre tiveram potencial para existir, mas eram limitadas pela impossibilidade de pessoas encontrarem outras pessoas com os memos interesses. Com as novas tecnologias, é fácil encontrar quem compartilhe os mesmos significados, crenças e comportamentos conosco. Antes, buscávamos alguém que correspondesse a apenas um desses aspectos: a atração sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo. Era o que dava para conseguir em sociedades tomadas pela homofobia estatal, pela culpa religiosa, pelo patrulhamento da vizinhança. Com a internet, todas as cidades do mundo ganharam o que antes só era possível nas metrópoles: anonimato e pluralidade. E mesmo os habitantes da cidade grande ganharam ferramentas que facilitaram a socialização e a formação de grupos por pessoas que têm afinidades.

Tudo isso para dizer aos gays “desajustados”: parem de se lamentar e aproveitem as múltiplas interações sociais e culturais que são possíveis hoje em dia. E não se importem com o estereótipo, porque ele é o ônus de ser minoria. Por mais “comum” que você seja, basta um beijo em alguém do mesmo sexo para que todos os lugares-comuns sobre gays se apliquem automaticamente a você. São assim que as coisas funcionam, e a culpa definitivamente não é dos homossexuais. Não acreditem na heteronormatividade, duvidem do mercado gay. Nós não podemos aderir a essa visão estreita de mundo. Que a cultura gay monolítica só sobreviva na cabeça dos heterossexuais monolíticos.

9 respostas para Colaboração do leitor: Heteronormatividade e Subculturação

  1. Nelson disse:

    O texto de Paulo Simas é emocionante e intenso.De forma suave e bastante formal ele conseguiu descrever os vários esteriotipos criados entorno desse chamado ” mundo LGBT”. Suas palavras são belíssimas, e de forma sustentável mostram que a diferença não é ruim, é apenas diferente.

    Como Darwin dizia, ”a biodiversidade é necessária pra sobrevovência da espécie”.
    Se Deus quisesse todos os homens iguais, nao criara todos diferentes.

  2. Luciano Berta disse:

    Parafraseando o autor do texto, Paulo Simas, me sinto convidado ao debate. E realmente, Paulo parece ter captado muito bem o tema proposto. Excelente texto. Apenas discordo de algumas posições suas. A primeira delas é a defesa do conceito de subcultura, ao invés de simplesmente cultura. O autor assim a defende por achar que a cultura homossexual estaria subjugada a uma cultura mais geral e dominante de heteronormatividade. Por isso o prefixo sub. Aí vejo um problema: o tal prefixo nos dá uma ideia de escalonamento, de ordenação, de hierarquização de culturas, o que é bastante complicado e perigoso. Acaso podemos chamar a cultura negra, no Brasil, de subcultura, já que esteve dominada, e ainda está, por uma cultura branca e católica? O sincretismo religioso brasileiro também não foi uma resposta dos negros com a perseguição sofrida por sua religiosidade? E nem por isso o chamamos de subcultural. Pelo contrário. Reconhecemos nele um vasto e importantíssimo patrimônio cultural brasileiro, inclusive a ser preservado. Culturas são culturas e ponto. São as formas que grupos humanos criam para organizar sua conduta e sua expressão, dentro do próprio grupo ou em relação a outros. Mesmo havendo relações de poder, não podemos hierarquizá-las, mesmo quando inseridas numa cultura abrangente. Isto pode ser perigoso e dar margens, inclusive, a preconceitos. Por isso defendo e uso o termo “cultura gay”.
    A discussão que está sendo feita em torno de uma suposta cultura gay monolítica acho bem pertinente, porque nos permite ir mais além no debate e nos perguntarmos o que realmente tem de monolítico em nossa cultura. Completando o autor Paulo Simas, muito dos fatos que atribuímos a uma cultura gay, os ressignificamos da heteronormatividade. Se somos hedonistas, cultuamos o corpo em demasia, se somos consumistas, herdamos isto da sociedade como um todo. A sociedade atual é que é hedonista. Por um acaso as mulheres também não sofrem com o culto ao corpo e as rígidos padrões de beleza impostos a elas pela mídia?
    O caráter monolítico reside no fato que apreendemos o mundo de forma monolítica. Para enquadrar as diferenças, eliminamo-as e juntamos tudo (ou tentamos)num mesmo saco de farinha. E isto não é característica de gays ou heteros. É característica da sociedade atual em que vivemos.
    E aliás, porque dividir o mundo em gays e heteros? A sexualidade humana é bem mais vasta e complexa que dois pólos. É este paradigma monolítico que precisamos romper.
    O Brasil, hoje, convive com dois sistemas culturais para compreender e apreender sua sexualidade.
    Um primeiro sistema que é seu, histórico, mediterrâneo e patriarcal, que herdamos do colonialismo português, que divide a sexualidade em macho e fêmea e os relaciona com atividade e passividade. Daí resulta a relação bicha/bofe. Este sistema ainda é bastante vigente no interior do país e nos estratos menos favorecidos economicamente da população.
    O outro sistema, que convive com o primeiro, herdamos da indústria cultural de massas e vigora mais entre a populção branca e urbana. Um sistema que foi usado pela militância gay nos anos 70 e 80 e que valoriza o masculino na expressão da sexualidade. Talvez na tentativa de barrar certos preconceitos enraizados na sociedade brasileira, principalmente com os efeminados e travestis, visando colocar o homossexual num padrão aceitável de normalidade. Realmente, houve avanços, porém também gera exlusão. Volto a repetir: a sexualidade humana é muito mais variada que o binômio masculino e feminino.
    A cultura gay, como bem disse O Paulo, surgiu da necessidade de mantermos e criarmos laços e espaços de sociabilidade em que pudéssemos nos manifestar livremente. Foi algo que surgiu, pelo menos no brasil, no finalzinho do século XIX. Portanto pe histórico. E sendo histórico, sofre e sofrerá mudanças, crises. Novos paradigmas surgirão.
    Assim como identidade também não é algo extático, pronto, cristalizado. É sempre dinâmico, processual e relacional. Nos identificamos em relação ao outro e a situações. É numa relação que se constrói um identidade. E num mundo globalizado, atomizado, individualizado, e com toda essa onda da visibilidade gay, é natural que “apareçam” gays que também se identifiquem de/com outras formas. Daí os ursos, nerd-gays, rockers-gays, emos-gays, barbies, punks-gays, enfim, uma míriade de novas identidades.
    Mais do que a internet, o mundo globalizado já nos permitiu isso. A rede só acirrou o processo. E neste mundo globalizado as identidades estão em crise. Acaso jã não ouviram falar da crise da masculinidade?
    Acho tremendamente saudável a discussão. Só prova que gays também se pensam. Em suas crises de identidades e nas crises de identidade do mundo. Bem vindos à hipermodernidade.

  3. Luciano Berta disse:

    Ah… detalhe:
    Parabéns ao editores do site. O site é maravilhoso!

  4. João Paulo disse:

    Muito bom o texto e muito boa a iniciativa do Homomento de incentivar a participação dos leitores.
    Só referenda o fato de ser o melhor blog sobre a temática homossexual e fortalece nós, que nos preocupamos com o futuro da sociedade.
    Parabéns.

    Ps.: Recomendo que leiam o livro “Identidade” do Baumann que trata exatamente do fracionamento das identidades e a crise da identidade monolítica não só dos gays, mas típica do século passado.

  5. Eduardo disse:

    Adorei tudo que lí. Parabéns a todos!!!

  6. Paulo Simas disse:

    Legal que os textos do Homomento e o meu comentário tenham gerado essa discussão! Agradeço a todos os elogios e respondo especificamente ao Luciano para “defender” minha escolha.

    Não acho que as subculturas sejam hierarquicamente inferiores à cultura geral. Se o texto sugeriu isso, eu me expressei mal e peço desculpa. Acredito apenas que o termo cultura se refira a crenças e comportamentos mais abrangentes (jamais superiores!), como os nossos hábitos alimentares. Por isso, acredito que o melhor critério para dar nome a uma cultura ainda é a nacionalidade. Dá para notar diferenças culturais nítidas entre um francês e um brasileiro, mas é muito mais difícil notá-las entre um francês heterossexual e um francês homossexual e entre um brasileiro branco e um brasileiro negro. Toda a minha análise de baseia no contexto brasileiro e é por isso que separei a cultura brasileira geral (heteronormativa, cristã e racista) da subcultura gay brasileira. Numa discussão geral sobre significados, crenças e comportamentos de diferentes grupos sociais, concordo em discutirmos culturas com culturas. Mas com o olhar voltado para a realidade brasileira, creio que essa diferenciação seja importante até para reforçar o fato de as subculturas negra e gay serem uma resposta ao racismo e à homofobia generalizados.

    No mais, concordo que a sexualidade humana seja muito mais diversa do que os binômios masculino/feminino, macho/fêmea, heterossexualidade/homossexualidade. Filosoficamente, não há dúvidas disso. Mas não acredito na eficácia política desse discurso. Acho que primeiro devemos garantir os direitos civis aos não heterossexuais para depois pensarmos em demolir todas essas categorias. Mas isso é assunto para outro momento.

  7. […] no Uruguai têm chamado a atenção do nosso leitor Paulo Simas (que já apareceu por aqui com um texto excelente intitulado “Heternormatividade e Subculturação”). Intrigado com a antipatia do Estado brasileiro para com os LGBTs, ele vem há algum tempo […]

  8. […] atenção do nosso leitor Paulo Simas (que já apareceu por aqui com um texto excelente intitulado “Heternormatividade e Subculturação”). Intrigado com a antipatia do Estado brasileiro para com os LGBTs, ele vem há algum tempo […]

  9. 69 disse:

    Há 50% do texto que se aproveita, outros 50% que parece aqueles lugares-comuns que fede mais a marxismo cultural infiltrado, aliás esse é um dos grandes desafios dessas sub-culturas gays ou mundos gays; se livrar das infiltrações de certos setores do espectro ideologico que querem impor os seus dogmas a minorias sexuais e cia do mesmo modo que aceitar que os heteros imponham a imagem palhacesca que carregam dos não-heteros aos mesmos. Essa de que gays, mulheres, sub-eurasianos e cia são a mesma coisa por exemplo não procede. No ocidente original por exemplo os homens eram não-heteros e viam as mulheres como um genero inferior do mesmo jeito, o que indica que essa não advem do patriarcado heterosexista medieval e cia e do mesmo modo tambem eram “xenofobos” os espartanos bisexuais na visão pos-marxista cultural apenas por quererem eles proteger seus genomas de alógenos. Então enquanto não haver libertação tanto contra as imposições do marxismo cultural as minorias sexuais quanto da visão hetero palhacesca ibidem, continuarão os gays a serem mero gado e ferramenta dos pseudo-aliados para seus fins obscuros.

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