Sorvete na luta dos outros é refresco

Li hoje de manhã, no Parou Tudo, essa notícia:

Enquanto muitas empresas apenas querem o dinheiro do público homossexual, mas não direcionam a ele nenhuma ação de marketing específico com “medo de comprometer a imagem”, a empresa de sorvetes Ben & Jerry’s, dos EUA, foi além.

Para comemorar o início do casamento homo no estado de Vermont nesta terça-feira 1° de setembro, a marca mudou o nome de um de seus sorvetes de Chubby Hubby (marido gorducho) para Hubby Hubby (marido-marido). O presidente da empresa disse que a permissão deve ser comemorada com amor, paz, e, claro, muito sorvete. A edição comemorativa será vendida por 30 dias. Veja aqui uma iniciativa no Brasil que tem semelhança com essa, o Guara Gay.

Hubby Hubby

Não pensei muito no assunto, encarando como mais uma entre as notícias bobas do dia. Quando cheguei à noite em casa, vi no Bilerico Project um post intitulado “I’m not about to get some Hubby Hubby”. Lembrei que era o nome do sorvete e fiquei curioso para saber os motivos da implicância do colaborador Alex Blaze. Ele conta que o produto existe desde a década de 80, mas que foi comprado pela Unilever na década de 2000. Foca então nas críticas à própria Unilever, mencionando casos como o do produto da multinacional que prometia branqueamento a mulheres africanas e asiáticas. E vai além:

Eu não gosto de ver eles se posicionando como se sempre tivessem apoiado a luta ativista pelo casamento igualitário em Vermont, como fossem uma empresa local [e não multinacional] ou como se estivessem preocupados com movimentos de justiça social enquanto vendem cremes branqueadores na Índia. Obrigado, Unilever, por tomar parte num movimento pelo qual sequer se importaria a 50 anos atrás e fazer dele um produto nos dias de hoje.

Agora que é chique, agora que nós lutamos o suficiente para abrir caminho para a Levis utilizar nós brancos nos seus manequins, a American Apparel vender camisetas que dizem “Legalize Gay” e todas as celebridades ganharem status dizendo o quanto nos apoiam, a Unilever acha que pode utilizar o nosso movimento, a nossa luta, pra vender um sorvete ruim.

Eu sei que nós deveríamos estar felizes que boas empresas queiram celebrar o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a luta por direitos LGBT, mas esse não é o caso aqui.

Talvez, de fato, Blaze esteja sendo rabujento e associando demais a Unilever a um produto que já tem uma história anterior e pode até ter tido associação com movimentos sociais, vai saber. Mas isso não importa: a desconfiança dele é válida e deveria ser tomada como exemplo.

Já é constatado que a tendência é que, cada vez mais, empresas se declarem gay-friendly. Isso é uma coisa boa? Pode ser que sim. Só, antes de entupirmos nossas geladeiras com Guara Gays da vida, tenhamos o bom senso de observar as circunstâncias de seus lançamentos.

(Para terminar mais otimista, minha parabenização ao pessoal de Vermont e a veiculação da notícia no Dolado e no Mix Brasil, a quem interessar.)

3 respostas para Sorvete na luta dos outros é refresco

  1. Ana Zoby disse:

    É uma questão de marketing. Isso é lógico! Como todas as empresas eles querem ganhar dinheiro, e fazem isso usando o tema do momento. Só não vale esquecer todo o contexto histórico que se posiciona atrás de qualquer situação. Eles não fazem porque apóiam uma causa política, isso é fato. Resta saber se apoio é bom de qualquer maneira ou se deve ser condicionado ao pleno acordo político.

  2. Carolina Maia disse:

    a mídia (incluindo aí a propaganda que é veiculada nela) é importantíssima na consolidação ou destruição de estereótipos. acho que publicidade inclusiva é sempre melhor que publicidade homofóbica. as campanhas racistas da unilever merecem ser destacadas sim, porque racismo é uma coisa inadmissível. mas parabenizar a empresa pela iniciativa hubby-hubby não significa imediatamente considerar que TODO o seu discurso é inclusivo, até porque cada produto tem uma campanha específica (considerando público-alvo, local de veiculação, etc) e a unilever é uma empresa enorme…
    quanto ao oportunismo da coisa, bem, vale lembrar que a função principal da propaganda é VENDER, não lutar por um mundo melhor. se a empresa achou um jeito de melhorar a imagem do seu produto ao mesmo tempo em que combate alguns preconceitos, acho que saímos ganhando!

  3. […] por isso aceitaram ou se foi porque o pagamento foi satisfatório. Enfim, para mim pouco interessa, porque tudo (e quando eu digo tudo é TUDO) relacionado a campanhas comerciais tem uma estratégia, …. Os LGBT são, enquanto grupo, um nicho a ser exploradíssimo no mercado brasileiro dos próximos […]

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