Conquistar a naturalidade

Na terça-feira passada o tema do Profissão Repórter foi “Tudo por um filho”: foram exibidas histórias de pais passando por momentos difíceis para garantir o bem estar seus filhos e a constituição de suas famílias. Uma delas era a de Munira e Adriana, casal de lésbicas que gerou gêmeos no útero de uma com os óvulos da outra inseminados artificialmente; o obstáculo surgiu na hora de registrar as crianças, que tiveram de ficar com o nome de apenas uma delas.

O clima de bastidores da reportagem do programa comandado por Caco Barcellos gerou uma cena que chamou minha atenção. A repórter, educada, indaga a maneira correta de se referir ao casal: “como vocês preferem que a gente fale? É ‘homossexual’ que se diz?”. A resposta é um sorriso da grávida Adriana e a frase “pra mim tanto faz, é tudo a mesma coisa”. Munira, a segunda mãe, complementa: “não sei, a gente nunca parou pra pensar muito”.

Essa simplicidade no modo de encarar as coisas me causou imediatamente certo desconforto. Munira e Adriana demonstram ser um casal muito feliz, de bem com a vida, estável a ponto de querer ter filhos. E, mesmo morando num país que a trancos e barrancos lida com as questões LGBT e estarem inseridas numa sociedade bastante homofóbica, não fazem a menor idéia de como se referir a homossexuais. Elas vivem a vida delas, enfrentando corajosamente as dificuldades que aparecem, mesmo sem dedicar muito tempo a esses assuntos.

A repórter perguntando: é homossexual que se diz? E a reação confusa do casal à pergunta

A repórter perguntando: é homossexual que se diz? E a reação confusa do casal à pergunta

Lembrei de todos os sites ativistas que acompanho, dos livros e artigos que leio sobre homossexualidade, do esforço que realizo para tocar o Homomento. Por mais que esteja, inegavelmente, adquirindo conhecimento, estou participando de uma luta contra o preconceito e não me dedicando a outros interesses particulares. E desde terça-feira fiquei com essa pulga atrás da orelha. Enquanto lia uma notícia de um portal ativista, sabia que aquelas duas estavam dando de mamar para os gêmeos, passeando com eles, trocando fraldas ou simplesmente fazendo o que gostam.

Como sábado foi Dia da Visibilidade Lésbica, no domingo pipocaram eventos relacionados Brasil afora. Fui dar uma olhada na Marcha Lésbica aqui de Porto Alegre e depois parei para lanchar com uns amigos. Uma amiga lésbica, que considero bastante preocupada com questões homossexuais, comentou que não dava nenhuma importância para manifestações como a Marcha. Um amigo, também homossexual, não conhecia o dia da Visibilidade e achou uma besteira segregativa: “porque não juntamos tudo no mesmo dia?”. Passamos a discutir as confusões das siglas GLS e LGBT e contradições dos movimentos gays no geral. Meu clima anti-ativista não poderia ter sido melhor alimentado.

Ativismo LGBT: perda de tempo?

Ativismo LGBT: perda de tempo?

Depois do passeio, fui com parte desse pessoal ao supermercado fazer compras para o jantar. Enquanto esperávamos os produtos serem registrados pela atendente do caixa, apoiei a cabeça no ombro do meu namorado. Um rapaz que estava passando por perto parou e começou a debochar em voz alta, olhando diretamente para nós. Não hesitei, respondendo no mesmo tom: que que é, nunca viu?

Aí pensei na Munira e na Adriana de novo, e entendi melhor meu desconforto em relação a elas. Não era uma vontade de ser mais simples ou uma nostalgia dos tempos pré-militância. Era a percepção de que eu, até poder lidar com a minha homossexualidade da mesma forma espontânea que elas a ponto de desafiar um imbecil desses no supermercado, precisei ler e me informar um monte. Todo esse conhecimento não me deixou baixar a cabeça e me sentir humilhado por demonstrar afeto pela pessoa que eu amo.

Assim, o ciclo de pensamentos desencadeado pela naturalidade do casal de mulheres se encerrou nesse domingo. Hoje entendo que a minha militância tem valor fundamental não só para o reconhecimento particular do MEU lugar na sociedade, mas também para que no futuro as pessoas sejam mais como a Munira e a Adriana e menos como eu, que precisei quebrar a cuca pra chegar à conclusão de que sou igual a todo mundo e que não devo levar desaforo pra casa.

3 respostas para Conquistar a naturalidade

  1. Massao disse:

    Sim, precisa-se que as pessoas sintam e vivam a sua sexualidade naturalmente, como no caso delas. Mas também precisamos de cabeças pensantes, como a sua, formadores de opinião e dos ativistas LGBTs, por mais que tenhamos críticas por suas atuações.
    Vejo, que em quase 9 anos da minha vivência com sites e blogs gays, algumas coisas mudaram, outras nem tanto. Concordo com o presidente da APOGLBT que disse numa entrevista que mudaram algumas pessoas, não a sociedade, com relação à homossexulidade, mas são essas pessoas que ajudarão a formar uma nova sociedade, mesmo que essa demore acontecer.

  2. Cláudio F. disse:

    É por isso que eu larguei de mão. O problema todo ainda é bolar estes eventos (como a Visibilidade e a Parada) e o povo parar para olhar a ‘festinha’, sem pensar no porque que aquilo está acontecendo.
    Já propus, como ocorrido em Teresina este ano, da Parada de POA ocorrer no Dia da Visibilidade Lésbica. Os gays não gostaram da ideia na época. Talvez isto melhorasse a descaracterização da Parada que vem ocorrendo nos últimos anos. Era para ocorrer sempre em meados do dia 28 de junho, mas por questões financeiras ocorre depois disto. O Ministério da Cultura, financiador maior das Paradas, atrasa e não realiza os pagamentos decentemente. Esta história de intermediação por ONGs e financiamento as mesmas de Parada daria uma colaboração à parte. Cabe salientar que as ONGs GLTXYZ brasileiras, em grande parte, apóiam descaradamente o Governo Lula, entretanto, a concepção de organização social é oriunda da Inglaterra, no estilo mais neoliberal possível de consolidação de políticas públicas. No mínimo, paradoxal. Cabe salientar, também, que as ONGs tiveram um boom de crescimento no Brasil no Governo FHC, com a Lei ‘Ruth Cardoso’ das OSCIP’s. O Governo FHC e sua social democracia apóiam o Estado Mínimo. Isto significa atuação e intervenção mínima do Governo inclusive em questões importantes e venda de Estatais, mesmo que elas deem lucros bilionários anos depois, como é o caso da Petrobrás.
    Já me estendi mais do que devia, inclusive perdendo um tanto o foco. Mas quando nos aprofundamos no assunto, vemos que dentro do macrossistema político os governos seguem lavando as mãos. E mesmo que não lavem, mantém contatos com pessoas que são do movimento. O problema é que estas pessoas não colocam o movimento em primeiro lugar. Estão preocupadas com uma posição determinada que lhe dará um cargo de confiança e regalias.
    Mas e o movimento, camarada? O movimento ipso facto é o que este casal de lésbicas faz. Não interessa o que o Estado pensa delas. Elas foram lá e conceberam suas crianças. Elas existem e o simples fato de existir incomoda o bando de maricona velha que fica posando de ‘séria’ no Congresso Nacional mas que lota as saunas de Brasília atrás de homens ou que frequenta a ‘zona’ atrás de travestis.
    O casal de lésbicas que concebe filhos e vai para televisão mostrar isso, demonstrações públicas de afeto, isto é militância diária. Ali não tem uma Parada ‘protegendo’ você. Digo isto sempre: É o tipo de atitude que vale mais do que 1000 Paradas Gays.

  3. Paulo disse:

    “O casal de lésbicas que concebe filhos e vai para televisão mostrar isso, demonstrações públicas de afeto, isto é militância diária. Ali não tem uma Parada ‘protegendo’ você. Digo isto sempre: É o tipo de atitude que vale mais do que 1000 Paradas Gays.”

    O Cláudio F. disse tudo o que eu poderia comentar! Assino embaixo e parabenizo o Pedro pelo excelente post: original, sensível e rigoroso. Só acrescentaria que o conhecimento precisa estar aliado a um esforço psicológico para lutar contra o preconceito que nos enfiaram goela abaixo em anos de educação e socialização heteronormativas. Conheço homossexuais letradíssimos, mas autofóbicos. De modo que a autoaceitação também depende de muuuita autoanálise.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: