O que é, literalmente, ser homossexual?

Muito nos é perguntado a respeito de como se sente um homossexual: como e quando “descobrimos” ser, e por que somos? Perguntas essas que têm as mais variadas respostas, satisfatórias ou não, isso quando as temos. Indo um pouco mais além, pergunto agora: O que na verdade somos?

Para obter um esboço da resposta, resolvi recorrer ao dicionário. Explico a escolha de um dicionário, é simples: queria ver qual é o significado comum, qual é o entendimento mais básico que é proposto sobre os gays. A primeira definição que encontrei vem do Caldas Aulete, na sua edição digital:

Homossexual 1 Ref. a homossexualidade (relação homossexual). 2 Que sente atração por e/ou tem relações sexuais com pessoas do mesmo sexo. 3 Pessoa homossexual (2).

A resposta oferecida é pontual, sem se aprofundar nem discorrer sobre o tema, cumprindo perfeitamente o papel de um dicionário. Sem maiores decepções, porém instigado, resolvi averiguar qual foi, se é que existiu, o progresso ao entendimento geral da sociedade em relação aquilo que é considerado “atípico”, nesse caso a homossexualidade.

Para isso, recorri novamente ao dicionário, ou melhor, aos dicionários. Me vali de um acervo considerável, com exemplares de variadas épocas e regiões nos quais fiz um pequeno levantamento dos significados propostos nos seguintes verbetes:

homossexual
homossexualidade
gay/guei
lésbica
lesbianismo

O recorte é simples e até mesmo excludente, no sentido que poderia consultar também palavras como safismo, pederastia ou termos associados à homossexualidade, mas limitei-os na crença de que teríamos, já aí, um resultado interessante. Para o texto não se tornar muito repetitivo, vamos apenas comentar os resultados aqui, mas quem quiser ver todas as definições encontradas pode acessar o PDF dessa pesquisa.

De acordo com o Dicionário Internacional de Psicanálise, o termo “homossexual” foi criado pelo escritor e jornalista austro-húngaro K.M. Benkert, também conhecido pela forma húngara de seu nome, Károly Mária Kertbeny, que foi uma importante voz na defesa dos direitos sexuais na época e até hoje é homenageado em eventos LGBT da Hungria. A palavra “homossexual” aparece publicada pela primeira vez em 1869, em um panfleto em que Kertbeny discute a proibição da sodomia pelo Código Penal prussiano. Em outros textos, o autor defendeu a ideia de que a orientação sexual era inata e que atos sexuais consensuais não deveriam ser matéria penal.

Manuscrito de Kertbeny em que aparece, pela primeira vez, o termo "homossexual"

Manuscrito de Kertbeny em que aparece, pela primeira vez, o termo "homossexual"

As concepções encontradas nos dicionários mais antigos a que tive acesso, no entanto, não apresentam uma visão tão amigável da homossexualidade. No Novo Diccionario Encyclopedico Illustrado da Lingua Portugueza, de 1926, o “homosexualismo” (grafia original) é descrito como um “vício sexual”. Em 1931, o Diccionário Prático Illustrado diz que “homosexuais” são homens, que praticam entre si actos contra a natureza” (grifo meu).

Não que não houvesse um termo para a homossexualidade feminina na época: em 1939, o Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa define “lesbianismo” como sendo “Um dos vícios sensuais contra a natureza; aberração do instinto sexual”. A preocupação em destacar o caráter aberrante dessa manifestação do instinto sexual é tão grande que deixa de lado a definição mais importante para o termo, ignorando completamente o fato de que um ato, para ser lésbico, precisa ocorrer entre duas mulheres.

Esse mesmo dicionário de 1939 traz o termo “homossexual” como um adjetivo, “Referente a atos sensuais entre indivíduos do mesmo sexo; que pratica esses atos”. Essa definição é semelhante à encontrada na maioria dos dicionários consultados, e é interessante notar como ela prioriza o ato, apresentando a identidade em segundo lugar. Vale ressaltar que essa definição já exclui a ideia de “vício”. A palavra “aberração” continua sendo vinculada ao verbete “lesbianismo” por muito mais tempo, aparecendo no Novíssimo Dicionário Ilustrado Urupês, de 1977.

Não é preciso nenhum acordo ortográfico para que um dicionário se torne ultrapassado

Não é preciso nenhum acordo ortográfico para que um dicionário se torne ultrapassado

Nos dicionários consultados, a primeira ocorrência da expressão “homossexualidade”, ocorre em 1953, no Dicionário Brasileiro Contemporâneo, tornando-se frequente a partir daí como sinônimo de “homossexualismo”. Falando em sinônimos, é interessante ressaltar que localizamos algumas ocorrências da concepção de homossexualidade como antônimo de heterossexualidade, o que evidencia a polarização entre sexualidade “normal” e sexualidade “desviante”

O dicionário mais recente consultado foi o Dicionário Didático, publicado em 2007 pela Editora SM. Espero não ser pura coincidência, mas é também o mais “acertado” por assim dizer. Embora a definição não seja completamente satisfatória (não traz distinção entre “homossexualidade”, palavra que preferimos, e “homossexualismo”, que consideramos inadequada, por estar muito ligada à ideia de patologia sexual), merece destaque por ser o único, dentre todos os que pesquisei, a definir a homossexualidade a partir da “atração sexual por indivíduos do mesmo sexo”, não necessariamente por atos homossexuais.

Sei dos muitos poréns podem ser apontados nesse levantamento (não utilizei todos os dicionários publicados, só os que tive acesso, assim como não só os anos são diferentes, como as editoras e autores). Mas acredito que já podemos notar aí um reflexo na mudança de concepções e abordagens à respeito do tema, o que seria por si só um avanço; Só que acho importante salientar a seguinte questão: junto a eles todas as mentalidades vem sofrendo uma alteração ou os verbetes apenas foram gradualmente adaptados ao que se enquadra hoje em politicamente correto?

(Contribuição e edição: Carolina Maia)

5 respostas para O que é, literalmente, ser homossexual?

  1. Vinicius disse:

    Muito bom. É interessante ver essa mudança no decorrer dos anos. Ainda que não seja totalmente satisfatória ultima definição para homossexualidade que você colocou, (2007), por outro lado é bom ver que as coisas podem ser mudadas, e assim tentar chegar a uma correta definição para o termo.

  2. Carolina Maia disse:

    Curiosamente, olha a notícia em que esbarrei hoje:
    “Os livros didáticos distribuídos pelo Ministério da Educação (MEC) às escolas públicas ignoram a homossexualidade. É o que evidencia pesquisa da ONG Anis em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), financiada pelo Programa Nacional DST/AIDS do Ministério da Saúde e realizada nos últimos dois anos com 61 dos 98 livros didáticos de maior distribuição no ensino fundamental e médio. A pesquisa analisou também 24 dicionários distribuídos pelo MEC. Um deles usa as expressões “veado” e “pederasta” para definir o verbete GAY. Segundo a professora da UnB e coordenadora da pesquisa, Débora Diniz, o diagnóstico comprova a necessidade de uma política pública para a inserção do tema nos livros.”
    http://cidinhadasilva.blogspot.com/2009/01/temtica-lgbt-ausente-dos-livros.html

  3. […] foi um mês de definições: pesquisamos como a homossexualidade aparece nos dicionários, revisamos a história do termo “homofobia” e destrinchamos os principais preconceitos sofridos […]

  4. […] a tentar situar as “origens” desse comportamento. Passamos por essas questões quando recorremos aos dicionários em busca da “homossexualidade”, encontrando mais pré-conceitos do que conceitos propriamente ditos. Confusos, tentamos também […]

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