Do geral para o particular: um olhar sobre a mídia gay

Um dos interesses mais marcantes do Pedro, colega do Homomento, é a fragmentação da cultura gay. Como ele sustenta nas suas críticas à cultura gay monolítica, a orientação sexual do indivíduo é importantíssima na construção de sua identidade, mas não a ponto de anular seus outros interesses. Quando um rapaz se descobre gay, não cai um CD da Britney dos céus em suas mãos; da mesma forma, eu não me transformei em uma fã de Ana Carolina no momento em que beijei outra menina pela primeira vez.

Ok, entendemos então que a tal “cultura gay” está na verdade vinculada a uma visão “senso comum” do que é homossexualidade. Como os meios de comunicação são um reflexo da cultura dominante, que se dirigem a um público formado por sujeitos totalmente diferentes entre si, é evidente que nossa mídia gay dificilmente conseguirá fugir dessa tal “cultura gay monolítica”. Mas não é por não estar na capa dos portais que esses “gays diferentes” não existam, tampouco que eles não se expressem. Será que não há espaço, na web brasileira, para sites voltados para aqueles que não se sentem contemplados pela cultura gay hegemônica?

Para entrar a fundo nessa discussão, precisamos antes de um…

Breve olhar sobre os portais gays brasileiros

Como já comentei, não podemos esperar da “grande mídia” gay outra coisa que não um diálogo voltado para a maioria do seu público. Assim, é comum encontrarmos, nas capas dos portais brasileiros, generalidades que mostram (e reforçam) estereótipos da cultura gay: na capa, britneys, beyoncés e madonnas serão notícia sem que necessariamente tenham feito qualquer ato diretamente relacionado aos LGBT. Presume-se que (todos os) gays gostam dessas divas, e com isso justifica-se a publicação de tais notinhas. Também é possível o inverso: por saber que o público é heterogêneo, alguns sites abrem espaço para que todas as manifestações culturais possíveis sejam representadas. É o caso do portal Parada Lésbica, onde é possível encontrar tanto um podcast que abre com música de Sandy & Junior quanto um artigo sobre o Rammstein, um grupo de metal industrial alemão. Nos grandes sites, a diversificação do conteúdo atende às características do público, que também é heterogêneo, mas isso faz com que tenhamos que filtrar mais antes de ler.

A meu ver, o maior problema da maioria dos portais brasileiros voltados para o público LGBT está exatamente no contrário: em sites que se pretendem amplos, mas que acabam refletindo na maior parte do tempo os interesses de somente uma parcela do público. Salvo poucas exceções, como o Dolado, o Universo Mix e o ótimo Gay.com.br, esses sites são na realidade voltados para os homens gays, e isso salta aos olhos já na capa, onde imagens de homens nus misturam-se a textos e manchetes.

Amplie a imagem e conte: quantos homens seminus há na capa do site Mix Brasil?

Amplie a imagem e conte: quantos homens seminus há na capa do site Mix Brasil?

O mais impressionante disso é ver que o sexo não é a única parte importante nesses sites. Pelo contrário: muita gente os acessa para acompanhar notícias sobre temas LGBT (ou mesmo sobre as próprias divas!) e vê as avalanches de fotos de nus como um adendo suportável. Eventualmente, alguns desses sites dedicam algum espaço para lésbicas e trans, como é o caso do Mix Brasil, um dos sites LGBT mais antigos do país. Mas esses espaços são seções dentro de um todo gay. Na prática, isso demonstra uma assimilação, por parte dos gays, do que ocorre no restante da sociedade: os fatos universais são masculinos e brancos, o resto são categorias à parte.

Por uma mídia gay de nicho

Até agora, tratamos de como a grande mídia gay brasileira na web mal e mal nos garante o básico. Mas queremos discutir particularidades. Como eu já havia lembrado no início desse post, a questão da fragmentação é crucial para o Pedro. Tiro de um rascunho dele, então, uma definição para o que estamos discutindo aqui:

Com as facilidades da internet, a tendência é que cada vez mais as pessoas busquem por conteúdo do seu gosto particular. Ao invés de ler um jornal inteiro, buscam na web apenas os colunistas que lhe agradam, os blogs que emitem conteúdo alinhado com suas perspectivas, etc. É a chamada Era do Desmanche, que traz consigo as consequências positivas e negativas intrínsecas a toda fragmentação social: se por um lado as pessoas tornam-se especialistas em seus interesses, levando a um passo adiante as idéias e discussões acerca destes, por outro, uma visão panorâmica dos acontecimentos e da realidade, que considera prós e contras de diferentes pontos de vista, pode tornar-se mais dificultosa e longe do alcance comum do que já é.

Quando falamos de sites gays internacionais, podemos desde já vislumbrar a possibilidade de um desmanche. O leitor norte-americano ou europeu tem múltiplas opções de portais, sites e blogs com os mais diversos posicionamentos sobre política, cultura e até religião voltados especificamente para o público LGBT. Dessa forma, ele dispõe de páginas excelentes por contarem com equipes de redação inteiras dedicadas a um propósito específico. E dispõe, também, daquela já mencionada possibilidade de escolher os assuntos dos quais quer se alienar.

Na capa do Uol Gay, uma síntese: em meio a ofertas de sexo, o portal lésbico é apenas mais uma seção

Na capa do Uol Gay, uma síntese: em meio a ofertas de sexo, o portal lésbico é apenas mais uma seção

Embora eu não possa afirmar com muita certeza por que motivos a mesma coisa não ocorre no Brasil, aposto todas as minhas fichas na imaturidade do mercado de comunicação gay brasileiro. A diversificação nesse segmento da mídia é bastante recente. Os portais lésbicos Dykerama e Parada Lésbica, por exemplo, foram criados respectivamente em outubro de 2007 e setembro de 2008. A mídia LGBT brasileira, e isso inclui a impressa (formada só por revistas para homens, já repararam?), ainda tem muito a evoluir, e acredito que tão cedo não teremos grandes sites gays de nicho no Brasil.

Pouco a pouco, contudo, os próprios portais se diversificam e abrem espaço para aqueles assuntos menos óbvios. É o caso, por exemplo, da coluna no site A Capa do teólogo e pastor da igreja inclusiva Betel Márcio Retamero, que comenta as aparições da religião no noticiário LGBT brasileiro. Além disso, friso: tão cedo não teremos grandes sites gays de nicho no Brasil. Os blogs vão dando conta do recado.

Não sei muito sobre o que os meninos blogueiros andam escrevendo, mas como consumidora de cultura lésbica estou bem satisfeita com o que a blogosfera me oferece. Sobre aparições de lésbicas em seriados e filmes, por exemplo, há o Lebiscoito, e quando quero música posso ser uma sapa indie e moderna acompanhando o Blog do Chá, da musa lipster Barbie da Silva. O trabalho de blogueiros também permite que LGBTs negros e evangélicos se mantenham informados, e o site mais completo que encontrei na web em português sobre trans FTMs é o blog de um transhomem.

A oferta de produtos cada vez mais diferenciados na web não pode ser dissociada da possibilidade que cada internauta tem hoje de produzir seu conteúdo e disseminar suas opiniões e ideias. Com a web 2.0, a responsabilidade pela qualidade do conteúdo é compartilhada. Quanto mais produtores, maior a pluralidade de visões que estarão ao nosso alcance.

5 respostas para Do geral para o particular: um olhar sobre a mídia gay

  1. Paulo disse:

    Reflexão muito oportuna e texto excelente! Eu também aposto na blogosfera não apenas como alternativa à “grande mídia gay”, como à grande mídia em geral. Os blogueiros estão fazendo um ótimo trabalho. Inclusive vocês, que transformaram o Homomento no melhor espaço para debates sobre questões LGBT que eu conheço.

  2. […] dos homossexuais”. Aqui no Brasil, muitos dos sites auto-intitulados “LGBT” são dirigidos aos homens gays, com fotos homens seminus e etc. Há também alguns dirigidos a lésbicas, mas nada que possamos […]

  3. Homer disse:

    Boa tarde,

    Obrigado por mencionar o blog como fonte de informação sobre e para ftms. A proposta é essa mesmo: tentar suprir uma lacuna da forma mais isenta possível.

    Abrs.

  4. […] por aqui em alguns momentos – provocando até polêmica nas caixas de comentários. Enquanto esse texto da Carol é uma súmula do que pensamos, temos alguns outros, de peças e momentos específicos, que acabam […]

  5. sergio disse:

    Gay é sexo. O resto vira notícia, simples assim. A mídia só publica o que as pessoas querem ver, e sexo é o assunto mais procurado, seja gay ou hetero.

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