Machos Gaudérios

Na Semana Farroupilha, comemorada anualmente com tanto gosto aqui em Porto Alegre, eu sempre me lembro do Capitão Gay. José Cattaneo é um advogado pelotense que em 20 de Setembro de 2002 adentrou a parada regionalista montado numa égua, vestido em trajes típicos, segurando uma bandeira do arco-íris e bradando que aquela era “a verdadeira bandeira da revolução”. É claro que ele não saiu ileso da (insana, eu diria) atitude: apanhou de relho da gauchada.

Como não poderia deixar de ser, a desembargadora Maria Berenice Dias se pronunciou a respeito: “Por que não pode existir um gaúcho gay de bombachas? Isso não agride ninguém”. Pois agride sim: agride a cabeça fechada, a noção mal-resolvida e mal-pensada de sexualidade. Toca na ferida do gaúcho, que de tanto se pronunciar macho, virou chacota do resto do país como típico homossexual enrustido.

A Intolerante Parada do Orgulho Gaúcho

A Intolerante Parada do Orgulho Gaúcho

Foi a partir dessa percepção, advinda da mesma declaração da desembargadora, que Mário Maestri escreveu em 2006 um artigo chamado “O Gaúcho era Gay?”. Maestri toma o Relatório Kinsey, de 1949, que afirma que de 4 a 15% da população masculina seria homossexual, e aplica essa noção ao período de ouro da história do sul do Brasil: a primeira metade do século XIX. Com alguma base documental, mostra o quão grandes são as possibilidades de alguns dos protagonistas dos Farrapos serem homossexuais, e de mesmo os heterossexuais, ao viverem longos períodos entre homens, aderirem eventualmente às práticas sexuais exclusivamente masculinas. Faz uma comparação com os personagens do filme Brokeback Mountain, hipotetizando que provavelmente os gaúchos gays do século retrasado tivessem de reprimir suas aspirações, forjando um encaixe espontâneo nos moldes de comportamento do macho gaúcho.

A intenção de questionar o caráter histórico da masculinidade sulista é boa, mas Maestri não o faz de maneira apropriada. O anacronismo aqui não está principalmente em aplicar o Relatório Kinsey ao século XIX, mas ao tentar aplicar as noções de sexualidade a esse contexto. É sabido que ambas, tanto a homo quando a heterossexualidade, como conceitos, surgiram apenas para além de 1850: antes disso mesmo que um sujeito, através da experiência própria, estivesse apto a compreender que sente mais prazer com homens do que com mulheres, não se rotularia com uma identidade sexual.

Em suma, o historiador trabalha baseado na idéia de que “existiram gays em todas as épocas e contextos”, mas comete uma indelicadeza do ofício ao não considerar especifidades das mentalidades do passado. Por partir dessa premissa errônea, perde de praxe o único caminho viável de se questionar por quê a heterossexualidade tem que ser intrínseca ao gaúcho tradicional: o fato de que a heterossexualidade ainda não existia na época da Revoução Farroupilha.

Símbolo de heroísmo e coragem = símbolo de heterossexualidade?

Símbolo de heroísmo e coragem = símbolo de heterossexualidade?

Cássio Menezes, do CMI Brasil, aponta muito bem o caráter das comemorações do 20 de Setembro: “sua concepção histórica centra-se no idílico e estrutura-se no campo ideológico. Desta forma o mítico é ressaltado, o incoveniente – mas não de menor significado sócio-histórico – é escamoteado e deforma-se conteúdo do passado concreto sulino”. Dessa maneira, de nada interessa aos homens que nesse momento estão acampados no parque Maurício Sirotsky Sobrinho, em Porto Alegre, saber que macho, historicamente, não necessariamente quer dizer heterossexual, e que seus homenageados certamente encaravam as relações entre homens de uma maneira bem diferente.

Como estudante de História, não posso deixar de ansiar pelo dia em que algum historiador do Rio Grande do Sul aplique essas noções, tão corriqueiras para qualquer estudioso da sexualidade, ao contexto rio-grandense. É uma linha de pesquisa mais do que possível e que, bem realizada, ajudaria a desconstruir um dos tantos aspectos da memória inventada do Rio Grande do Sul.

* Em 2003, o acampamento do Capitão Gay, que insistiu em aparecer na semana dos Farrapos, foi apedrejado. Mesmo assim, o advogado não desistiu e em 2006 vestiu a estátua do Laçador com um poncho com as cores do arco-íris. Há boatos de que ele nem mesmo seja gay e quisesse só chamar atenção da mídia para sua candidatura a deputado; de qualquer forma, suas atitudes já geraram essa interessante discussão.

** Maria Berenice Dias, pra quem não conhece, foi uma das precursoras na luta pelos direitos LGBT no Brasil, levando o estado do Rio Grande do Sul à frente dos demais em muitas das questões jurídicas relativas a esse grupo. Essa sim, dá modelo à toda terra!

12 respostas para Machos Gaudérios

  1. Rodrigo disse:

    Tá, porque gay sempre quer insistir que é excluído de tudo? O movimento do orgulho gaudério é TRADICIONAL, ok? TRA-DI-CIO-NAL. Não se aceita bicicletas nesse movimento e não vejo nenhum ciclista reclamando. A idéia é relembrar nossa cultura e não colocar as coisas modernas. Já chega a Oktober Fest tocando funk. Deixem nossas raízes em paz!

  2. Rodrigo disse:

    Só lembrando, não sou homofóbico, tenho amigos gays e lésbicas, não discrimino ninguém. Mas querer se envolver em um movimento que cultua as nossas raízes, tipicamente de origens heterossexuais, é ignorância quando a pessoa não se encaixa nisso.

    • Pedro Cassel disse:

      Caro Rodrigo, não pedi para incluírem os gays em nada. Apenas tomei as atitudes do tal Capitão Gay e o artigo de Mário Maestri como viés para uma reflexão histórica.

      “raízes tipicamente de origens heterossexuais”?

      Me cansa ter de escrever num comentário-resposta exatamente as mesmas coisas que escrevi no artigo original.
      Quando for comentar num texto, leia-o de verdade.
      Não saia lançando perdigotos por aí ;)

      • Rodrigo disse:

        Tu pode até não ter pedido nada, mas as atitudes desse tal Capitão Gay são o que? No mínimo, um pedido para ser apedrejado. Aparecer num movimento como o nosso com uma bandeira que não é a do próprio RS é, no mínimo, provocar todos os tradicionalistas presentes. Aparecer uma segunda vez é confirmar: “vim chamar atenção e irritar vocês”. Travestir o Laçador foi o maior desrespeito que já vi às nossas tradições. Não lancei nada de errado no meu comentário, foi tu que não entendeu direito, aparentemente, o que o tal Capitão estava tentando. Participar? Ok, por favor, sejam bem-vindos. Escrachar? Sai daqui, que esse comportamento é desrespeitoso.

  3. Luciano Berta disse:

    Ih… Pedro! Que vespeiro vcs foram mexer hahahaha! Uma vez a ZH publicou uma notícia a respeito de um site que falava sobre uma possível proibição da participação de gays nos bailes de CTGs, nossa… foi um tsunami de comentários homofóbicos. Por isso eu gosto de textos como este que escreveste. Além da função crítica, causam muita polêmica! Pena que tem alguns que estão tão bitolados e cegos que não conseguem nem ler o que realmente se escreve.

    Excelente teu texto. Muito bom mesmo! Só vale lembrar que, assim como a sexualidade estava dada de outra forma antes de 1850, o Tradicionalismo e o seu culto nem existiam. O Laçador e seus coleguinhas o inventaram em 1947. Portanto, o olhar do Movimento Tradicionalista sobre o comportamento sexual dos Farroupilhas é do século XX e provavelmente heterossexista. Fato que devemos sempre levar em conta ao fazermos uma pesquisa histórica. O olhar que lançamos ao passado carrega as lentes do presente.
    Para entender melhor a questão do Movimento Tradicionalista posso sugerir à leitura de um livro de Eric Hobsbawn, “A invenção das tradições”. E acerca da sexualidade na masculinidade sulista posso recomendar excelentes livros e artigos da antropológa Ondina Maria Fachel Leal.
    Mais uma vez, parabéns aos escritores e editores do site. Estarei sempre por aqui! Forte Abraço!

  4. […] mês interessante para nós, pois somos gaúchos e o dia 20 é a data mais importante para o nosso tradicionalismo sexista, que exclui os homossexuais. Ao longo do mês, encontramos subsídios para que pensássemos nossa própria militância, e […]

    • gilberto disse:

      Conversa fiada, tchê! os CTGs estão abarrotados de gays e até um certo “Gilete” Fagundes (muuuito importante divulgador da Cultura) teve uma relação homosexual com um Tal Saldanha desde que estudavam no “Julinho”. Te informa sobre a relação entre alguns importantes vultos do Tradicionalismo e vais ficar com vergonha só de saber. Há em Canguçu um tal que gosta de cavalgadas e que no carnaval se fantasia de “bruxinha”. Em Canoas, uma vêz, num jogo de cartas em um clubeco, pegaram um “Fagundão” fazendo troca-troca com outro cara… isso de Tradicionalismo ser coisa de heterosexual é história.Tá repleto… e eu, como não sou homofóbico nem tradicionalista (pois isso tem formato nazista), quero mais é que os gays baixem a bombacha e se divirtam pois têm direito. Ah… e as prendinhas lésbias também. Tão bonitinhas e tão safadas. Espero que a verdade não venha melindrar ninguém, mesmo os inocentes que acreditam que o Tradicionalismo é um Movimento Imaculado.

      Tem mais e não ligado ao tema “sexualidade Gaudéria”: a mídia maior Riograndense apoia o que lhe convém. Há músicos tradicionalistas sendo divulgados em festival de poprock; dissidentes que retornam à casa (tradicionalismo) depois de uma mal sucedida investida na tchê/bahiana music; uma tal sociedade secreta tomando conta das direções dos CTGs…

      MTG=NAZISMO

    • gilberto disse:

      Leia-se “lésbicas” em vez de “lesbias”.

  5. marco antonio disse:

    tinha mais é que levar uma camassada de pau mesmo, quer ser puto??? vai ser puto la na parada gay então… no dia em que prestamos homenagens aqueles que lutaram e deram suas vidas por esta terra, não é para um viado de merda desses achar que pode levantar bandeira gay ora essa. por sorte dele não foi uma pecheira que entrou no bucho deste cusco,respeito com este terra e o resto do brasil é uma vergonha que da nojo…

  6. pedro disse:

    tche Marco Antonio concordo contigo, se ele for gay, tudo bem, é coisa dele, mas isso foi um desrespeito com o tradicionalismo, tudo bem que participe, mas que haja como um homem durante o desfile.
    Desfile de 20 de setembro nao é carnaval ou coisa assim, é uma homenagem as nossas origens.

  7. Ricardo Bastos disse:

    Gays e lésbicas, existe e existiram em todas as culturas, todos os contextos e todas épocas históricas, achar que no Rio Grande do Sul, ou em CTG, ou em Acampamento Frroupilha, etc, não exsitem gays é ser totalmente ingênuio, burro, ignorante ou então, queres esconder uma coisa que existe em todas as partes.

  8. Sandro Repeto disse:

    Não resisti aos mais diversos pontos de vista proferidos nesses diálogos e, por isso, manifesto-me neste momento. Sabidamente, o movimento tradicionalista tem um propósito muito claro, ou seja, comemorar o período de resistência contra os imperialistas na célebre revolução farroupilha. Quem conhece a história sabe que ela durou cerca de 10 anos e culminou com um acordo celebrado, denominado “tratado de poncho verde, atualmente município de Dom Pedrito. No que se refere à questão homessexual, parece-me estar, a cada dia, mais escancarada na sociedade, inclusive, existe um forte apelo publicitário da mídia, envolvendo produtores de programas, apresentadores, diretores de novelas, atores, enfim, um aparato poderoso de manipulação de massa é utilizado, incansavelmente, com o intuito de popularizar o homossexualismo como algo natural e plenamente aceitável. Obviamente, o tema enfrenta e sempre enfrentará resistências de pessoas que defendem princípios divergentes. Principalmente, quando se trata do papel do homem e da mulher como referências para a manutenção dos pilares que sustentam a estrutura familiar tradicional. Se vivemos no regime democrático, presume-se que se pode discordar daquilo que não se aprova. Por esse raciocínio, as pessoas têm o livre arbítrio, portanto, cabe a cada um escolher o caminho a seguir. Diz um ditado que cautela e caldo de galinha não faz mal a ninguém. É preciso haver bom senso. Não se adquire respeito às escolhas que fizemos pela imposição, pela força ou desrespeito às normas. Utilizar-se de um movimento, tipicamentente gaúcho, e com forte apelo emocional pelos seus participantes, é correr riscos desnecessários, talvez de morte, situação que poderia ter sido evitada. Analogicamente, imaginem se um gaúcho invadisse o movimento GLBT, em plena parada gay, com o objetivo de criticar ou condenar o ato, seria algo reprovável e fora de contexto, uma vez que não se identifica com aquela bandeira. É fundamental o respeito recíproco para que se mantenha a ordem e se possa viver de forma pacífica. A propósito, a homessexualidade pode estar presente em qualquer meio, inclusive tradicionalista, mas o propósito das festividades não é manifestar a opção sexual, mas reverenciar os protagonistas das grandes batalhas, homens e mulheres guerreiras que ajudaram a escrever os capítulos mais importantes da nossa história.

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