O boom casamenteiro dos EUA

Uma notícia veiculada no Pink News afirma que de acordo com o órgão do governo americano responsável pelos censos, mais de um quarto dos casais gays dos Estados Unidos está oficialmente casado.

O primeiro censo dos EUA relativo a uniões civis entre homossexuais revelou que quase 150 mil casais do mesmo sexo no país estão casados. O número estimado de casais gays nos EUA, no geral, é de 564 743 e, de acordo com o Census Bureau, 27% declarou que vive numa relação igual à de casais heterossexuais em matrimônio. Estima-se que se registraram 100 mil casamentos, uniões civis e estáveis entre homossexuais em 2008.

Uma leitura apressada dessa notícia poderia conduzir à conclusão de que, no campo do estado civil, os LGBTs norte-americanos já não têm muito pelo que lutar. Ledo engano. Convido o leitor a fazer uma leitura não só dessa notícia, mas do mapa da Wikipedia para uniões homossexuais nos Estados Unidos.

Mapa

A proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo ocorre nos estados que aparecem em tons avermelhados. Em alguns estados, como é o caso de NY, o registro dessas uniões não é permitido, mas as certidões emitidas em outros lugares são reconhecidas. Em razão disso, muitos casais literalmente cruzam o país para oficializar sua união – com exceção de Iowa, localizado no centro dos EUA, todos os estados que reconhecem o casamento homossexual (Massachussetts, Connecticut e Vermont) localizam-se no extremo nordeste do território americano.

Com isso, multiplicam-se pacotes de viagem específicos para LGBTs que pretendem se casar e guias de viagem listando hotéis e restaurantes gay-friendly nos estados de destino. Assim, essas cerimônias acabam por movimentar a economia desses estados. Um estudo realizado pelo Williams Institute (que também analisa esses dados do censo), vinculado à Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia, estima que nos próximos três anos o turismo gerado pelas uniões civis vai gerar aproximadamente US$3,3 milhões em impostos somente para o estado de Vermont, estado que foi o primeiro dos EUA a reconhecer uma união civil homossexual, ainda em 2000.

O instituto do casamento entre pessoas do mesmo sexo só foi aprovado em Vermont em abril deste ano, tendo validade a partir do dia primeiro de setembro. Uma matéria da Associated Press nos conta que muitas cerimônias de casais que não queriam mais esperar foram realizadas às pressas nesse estado a partir dessa data.

Bill Slimback e Bob Sullivan vieram de uma cidade do estado de Nova Iorque para se casar no mesmo dia em que aprovaram a união em Vermont

Bill Slimback e Bob Sullivan vieram de uma cidade do estado de Nova Iorque para se casar no mesmo dia em que aprovaram a união em Vermont

Essa verdadeira corrida pelo casamento é bastante interessante quando relacionada às afirmações corriqueiras de que homossexuais são instáveis e promíscuos, incapazes de manter relações amorosas verdadeiras e saudáveis. A última ocorrência que vi desse argumento está no relato de um “ex-gay” contido em um manual de tratamento para homossexuais que a Carol me mostrou no GReader:

Ao longo dos anos vivi com uma série de companheiros de quarto, alguns dos quais eu dizia amar. Eles juravam que me amavam. Mas as ligações homossexuais começam e acabam com o sexo. Além do sexo há bem pouco para fazer [grifo meu]. Depois desse período inicial apaixonado, o sexo torna-se cada vez menos frequente; os parceiros ficam nervosos, começam a enganar-se um ao outro, primeiro às escondidas, depois cada vez mais às claras… Há então cenas de ciúmes e mexericos. Nessa altura dá-se o afastamento e cada um parte à procura de um novo amante.

Notem como a descrição depois do grifo é totalmente aplicável a qualquer relacionamento, independente do gênero de seus integrantes. É quase hilário que a argumentação de que “no começo há muito sexo mas depois a relação esfria” seja apresentada como comprovação de que a homoafetividade é inviável por conta da natureza perversa do homossexual.

É sabido que toda pesquisa tem lá sua margem de erro, especialmente no que tange à quantificação da orientação sexual de uma população, e que não devemos nos apoiar em números para argumentar contra o preconceito. De qualquer maneira, os 27% surpreendem, demonstrando que as uniões civis entre pessoas do mesmo sexo são uma realidade muito mais presente na sociedade americana do que seria esperado em razão da falta de unidade na legislação sobre o assunto.

(Edição e redação final: Carol)

4 respostas para O boom casamenteiro dos EUA

  1. É claro que do ponto de vista legal, há muito interesse nessas uniões civis, nesses contratos que garantem uma série de direitos até então negados aos outros tipos de relações estáveis.

    Contudo, em São Paulo, parece que todo mundo leu a mesma cartilha ao prever que “ninguém quer casamento, nós queremos os direitos”. Bem, não é bem assim, como mostram os países e territórios onde o matrimônio vai além e REALMENTE equipara todos, heteros e LGBT.

    Aqui tiraram o status de matrimônio DE PROPÓSITO! E vejam que nem assim tivemos aprovação do PL 4.914/09.

    Ei, Frente e alguns políticos, coordenadores de diversidade, militantes, etc? Que tal deixar que os interessados opinem ao invés impor um discurso pronto?

  2. […] sexo são estáveis sim, e que procuram oficializar sua situação: o birô do Censo confirmou que 27% dos casais homossexuais são legalmente casados de alguma […]

  3. Francisco disse:

    Olá Homomomento! Queria agradecer-lhe o ter colocado um link para o meu post do Aardweg. Gostaria de lhe dizer, se me permite, que discordo do que disse do grifo. De facto, hoje em dia as relações heterossexuais também estão muito enfermas, a ponto de se pensar que elas começam e acabam com o sexo, e é por isso que você vê tantos heterossexuais infelizes. Isso não deveria acontecer, e por isso a Igreja propõe um namoro sem sexo, para dizer que as relações começam com a amizade, coisa que é muita bonita.
    Logo, dizer que as relações homossexuais são iguais naquele ponto à das homossexuais (as em que há sexo antes do casamento), equivale a comparar dois tipos de relacionamento mais ou menos doentios.
    Mas não me leve a mal, qd digo q os homossexuais estão doentes, não são só eles que estão, mas todos nós de uma maneira ou de outra. Por isso coloquei o meu post sobre o trabalho de Aardweg, para oferecer uma ajuda a quem precisa nesse ponto, assim como tenho lá outros posts sobre outros assuntos.
    Bem haja e felicidade

  4. […] um a um, os Estados Unidos testemunharam grande avanço LGBT em 2009, presenciando inclusive um boom casamenteiro com as conquistas em Colorado, Wisconsin, Nevada, Vermont, Iowa e até Washington DC, mesmo apesar […]

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