O dia em que um governador chamou um ministro de viado

Impossível não comentar o comentário mais que desagradável do governador do estado do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB), que chamou o ministro do Meio Ambiente Carlos Minc de “viado fumador de maconha” em uma reunião com empresários. Questionado sobre a presença do ministro na Meia-Maratona Internacional do Pantanal, o governador garantiu que Minc não só viria, como correria e sairia vencedor da competição, ou Puccinelli “o alcançaria e o estupraria em praça pública”.

Estou tão chocada com a completa falta de civilidade desse homem que fica difícil argumentar, mas vou tentar enumerar algumas coisinhas. Em primeiro lugar, é preciso destacar a ideia de que “viado” é um xingamento, e que se basta. Ao relatar o fato, as notícias (como no caso dessa, do Estado de S. Paulo) destacam que Puccinelli partiu para a ofensa por discordar do zoneamento ecológico proposto pelo ministério comandado por Minc, e explicam o “maconheiro” pelo discurso do ministro em um show da Tribo de Jah, em que ele defendeu a descriminalização da maconha. E viado, quem justifica?

O ministro do Meio Ambiente Carlos Minc na divulgação do Zoneamento Ecológico que deu início à rusga com Puccinelli

O ministro do Meio Ambiente Carlos Minc na divulgação do Zoneamento Ecológico que deu início à rusga com Puccinelli (Foto: Wilson Dias/ABr)

Carlos Minc não respondeu com mais baixeza. Talvez ele seja do tipo que não se ofende com “insultos” sem lastros na realidade, não sei. O fato é que o ministro respondeu com esperteza e deixou à mostra a incoerência de Puccinelli. “Ele tem uma visão muito interessante sobre homossexualismo: eu é que sou veado e ele é quem quer me estuprar em praça pública”, disse o ministro. Ponto para ele, que além de se mostrar à prova de xingamentos homofóbicos, provou que discorda do preconceito burro que diz que “o ativo não é gay”. Em nota oficial, Minc disse que o governador do Mato Grosso é “um truculento que quer destruir o Pantanal com a plantação de cana-de-açúcar. Essa declaração revela o seu caráter”.

De fato, “truculento” é o mínimo que se pode atribuir a uma pessoa que, desempenhando o papel de representar o Executivo de seu estado frente aos empresários, opta por agredir e ameaçar seu adversário. O uso de ofensas genéricas “contra a honra” – que vão da castidade da progenitora à atividade anal do alvo pretendido – é típico de quem não sabe dialogar, assim como a violência e a ameaça de uso dela. E Puccinelli não se conteve somente em ameaçar com violência, como um bêbado que ameaçasse quebrar a cara de alguém: ao evocar um crime sexual, que afronta a dignidade da vítima, o peemedebista provou-se machista, homofóbico e completamente insensível.

O caráter de Puccinelli apareceu mesmo foi na justificativa que ele deu para as declarações: ao desculpar-se, alegou que não pretendia ofender o ministro, e que esse fato precisa ser compreendido dentro no contexto “do debate técnico e político dos assuntos que dizem respeito aos interesses de Mato Grosso do Sul e ao Ministério do Meio Ambiente”. Hm, desde quando ofensas gratuitas e ameaças de estupro dizem respeito ao interesse público?

André Puccinelli (PMDB), governador do Mato Grosso. Agora os LGBT mato-grossenses têm um bom nome para <strong>não votar</strong> em 2010

André Puccinelli (PMDB), governador do Mato Grosso. Agora os LGBT sul-mato-grossenses têm um bom nome para não votar em 2010

O ponto alto dessa história toda é a interpretação da assessoria do governador de que tais declarações teriam “um tom de brincadeira”. Não consigo ver nenhuma camaradagem na frase “estuprar em praça pública”, especialmente quando direcionada a um oponente político. O uso do humor como justificativa nesse caso é apenas um dos problemas da condescendência com piadinhas preconceituosas. O pior efeito de qualquer piada preconceituosa é, na verdade, reproduzir e naturalizar o preconceito, o que se torna ainda mais grave no caso da homofobia, que ainda é uma forma de discriminação socialmente aceita. Ao sustentar que estupro em praça pública é um tratamento digno para um “viado”, Puccinelli também incita à violência contra os LGBT, que já mata uma pessoa a cada dois dias no Brasil e cresce nas comunidades pobres.

Pensando nesse massacre, pode parecer picuinha querer discutir uma ofensa. Mas enquanto existir gente capaz de proferir absurdos como esses de Puccinelli, vamos ter que repetir que piadas com gays e uso de “viado” e palavras correlatas  para ofender é homofobia sim. “Viado” não é xingamento.

É por essas e outras que quero ver aprovado logo o PLC 122/2006 (aliás, você já assinou a petição?). Enquanto a homofobia não for considerada crime, os truculentos de plantão vão seguir livres para se dizer apenas fanfarrões.

Update: as declarações de Puccinelli foram alvo de moções de repúdio do Grupo Gay da Bahia e da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Notícia mais recente do G1 nos traz a informação de que Carlos Minc disse que não vai processar o governador por não considerar tais ofensas “políticas”. “Na verdade, ele professou um estupro ao Pantanal e um estupro a ele próprio. São os eleitores e naturalmente os tribunais que vão julgar se uma pessoa com esse nível de desequilíbrio está apta para exercer o governo do estado”, complementou. O ministro também sustentou a ideia de que a homofobia pode ser um sinal de enrustimento do governador – o que, embora seja verdade para outras pessoas, nesse caso parece só uma “devolução” do “xingamento”.

6 respostas para O dia em que um governador chamou um ministro de viado

  1. Paulo disse:

    É supreendente que a ideia de que somente o parceiro passivo seja homossexual ainda resista. Essa ideia é do começo do século XX e começou a perder o sentido pelo menos desde a década de 60. Como o governador de um Estado com mais de 2 milhões de habitantes pode pensar assim? A ignorância realmente é cega…

    Mas bem, o grave aqui é a incitação à violência contra homossexuais, como se o sujeito ser “viado” justificasse o seu estupro em praça pública. Esse sujeito deveria ser responsabilizado criminalmente por essa declaração.

    Quando os cristãos barram o PLC 122 no Congresso, estão se igualando a pessoas como esse Puccinelli.

  2. aline disse:

    Eu fiquei inconformada com essa história, mas não tive paciência nem estômago pra escrever sobre. Porque minha vontade era apenas de gritar no ouvido do Puccinelli até que ele desintegrasse. Vc diz que “pode parecer picuinha querer discutir uma ofensa”. Eu não acho, nunca achei. Que fosse picuinha. E eu lamento que uma fala dessa não cause o mal estar do tamanho necessário pra virar um marco na trajetória desse político. E lamento mais ainda que no Brasil os políticos não tenham nenhuma inclinação à renúncia num caso de escândalo e indignidade. Enfim, vc pontua tudo que eu teria pontuado. Obrigada, e tal.

  3. Cláudio F. disse:

    Eu gostaria de parabenizar o povo do Mato Grosso do Sul (alías, no início da matéria tá escrito só Mato Grosso, onde o governador é o Blairo Maggi) por ter colocado mais um imbecil na política brasileira.

    Como diria a famosa Vanessão: “Isso é maricona, isso roda na esquina direto”.

    Enfim, o mundo está perdido, já diria minha avó.

  4. Rebecca disse:

    Eu tentei, não faz muito tempo, refletir sobre essa equação tão comum no nosso mundo: ser gay = ser pior… e o modo como ela é usada pra ofender, banir, diminuir, etc…

    O contexto era um pouco diferente, mas acho que vale a associação: http://umasoutras.blogspot.com/2009/09/das-ofensas-nada-gratuitas.html

  5. Cláudio Luiz disse:

    O ministro deveria ter entrado com uma queixa na justiça e o mínimo que podiam fazer é tirá-lo do cargo.
    Parabéns pelo texto.

  6. Elita disse:

    É Mato Grosso do Sul. Governador do Mato Grosso é o Blairo Maggi.

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