Homomento

23 de setembro: dia internacional da bissexualidade

Fiquei sabendo da comemoração de hoje pela revista espanhola LGBT AG Magazine. O site da revista conta que a data foi escolhida por marcar a morte de Freud, o primeiro teórico a conceber a possibilidade de existência da bissexualidade.

Foi a 23 de setembro de 1999 que se celebrou pela primeira vez essa data, durante a XXII Conferência Mundial da ILGA (International Lesbian and Gay Association) em Jogannesburgo, África do Sul, e hoje em dia se realizam atividades comemorativas em todos os continentes: dos EUA ao Japão, da Austrália à Europa.

Na sexta-feira da semana passada, o Homomento publicou seu primeiro post sobre bissexualidade, o texto Bi-bi-bi-bi, traduzido da revista mexicana Pride is Dead, que aborda o preconceito sofrido pelos bissexuais tanto na mão dos héteros quanto dos também oprimidos homos. Aproveitamos o dia de hoje para aprofundar essa discussão, abordando alguns dos principais problemas enfrentados (há muito tempo, como podemos ver nessa matéria publicada na revista Istoé em 1995) pelos bissexuais e tentando desconstruir alguns dos principais argumentos contrários à aceitação da bissexualidade.

O problema do sistema binário

É sempre importante lembrar que a construção de uma identidade sexual não depende somente da orientação do desejo. Ainda que não exista uma “escolha” da orientação sexual, a construção da identidade envolve uma influência do meio. O desejo é biológico, mas a identidade é socialmente construída. Por exemplo: os termos “heterossexual” e “homossexual” foram criados no século XIX, mas isso não quer dizer que antes disso não existissem pessoas que se relacionassem majoritariamente com um ou outro sexo. O que não havia era a denominação para um ou outro comportamento frente à orientação sexual.

O desenvolvimento de uma ciência sexual no Ocidente nos últimos séculos tratou inicialmente da sexualidade humana como uma realidade binária: existem homens e existem mulheres, existem heterossexuais e homossexuais. Branco versus preto. Os tons de cinza começam a aparecer com mais clareza quando o sexólogo Arthur Kinsey divulga sua famosa escala, que prevê uma certa gradação no desejo e no comportamento sexual. Com a publicação desse trabalho, em 1948, reconhece-se que não existem apenas dois padrões de comportamento sexual, e a sociedade descobre que a porcentagem de indivíduos que se envolve em relacionamentos sexuais com pessoas de diferentes sexos é bem maior do que se imaginava.

A escala Kinsey, com os graus de orientação sexual e a porcentagem deles na sociedade americana

Fritz Klein, autor do livro The Bisexual Option, defende que a bissexualidade é um problema para héteros e homos à medida que ameaça a distinção clara entre uma e outra identidade sexual.

As preferências e aversões eróticas dos heterossexuais normalmente não permitem uma compreensão da homossexualidade. Homossexuais também se sentem desconcertados frente à atração por pessoas do sexo oposto. Isso cria dois campos distintos a partir dos quais bandeiras podem ser erguidas. E ainda que possam ser ameaças ideológicas uns para os outros, esses dois campos são claramente distintos. (…) [Um homem] confrontado com um homem bissexual precisa, ainda que inconscientemente, lidar com a possibilidade de que sua própria sexualidade seja ambígua. A razão pela qual ele fica aliviado ao ouvir que bissexuais não existem é que, assim, ele evita seu próprio conflito interior.

O padrão binário, contudo, deixa marcas. Até hoje, há quem não acredite na existência da bissexualidade. Frequentemente, bissexuais são estimulados (tanto por gays quanto por héteros) a “se decidirem”, como se somente as sexualidades homo e hétero fossem possíveis. Essa pressão por uma definição às vezes faz com que algumas pessoas acabem adotando identidades mais fluidas, determinando-se ora héteros, ora homos, afirmando por vias tortas que a bissexualidade não é uma fase.

Bissexualidade e descrédito

Um dos argumentos mais frequentes entre aqueles que dizem não acreditar na bissexualidade, especialmente masculina, é aquele que diz que as pessoas que se autodenominam bissexuais são na realidade homossexuais enrustidos. Recentemente, um estudo (criticado por ativistas LGBTs devido à metodologia questionável e a um posicionamento pouco isento do pesquisador) defendeu esse ponto de vista, negando a possibilidade da existência de homens bissexuais. Esse pensamento é frequente entre gays e lésbicas, que normalmente definem-se como bis na “fase da descoberta” e passam a adotar uma identidade homossexual na idade adulta.

Esse posicionamento baseado na própria experiência ignora, em primeiro lugar, que as sexualidades são diversas (o que me surpreende bastante, quando vindo de homossexuais), e que o fato de alguns homossexuais passarem por uma “fase” bissexual não quer dizer que todas as bissexualidades sejam transitórias. Além disso, é importante ressaltar que a adolescência é uma fase de definição (não só sexual, mas em todos os aspectos) para todos, e a experimentação faz parte desse processo. Por isso, é importante separar a identidade adulta, mais ponderada, das “fases” que caracterizam a adolescência. Usando um exemplo não sexual: eu me identificava politicamente como “comunista” quando tinha lá meus 14 anos. Hoje, com um pouco mais de maturidade e conhecimento, sei que nunca fui verdadeiramente comunista, o que não me impede de reconhecer a existência do comunismo real.

Afirma-se com frequência que a crescente presença de homos e bissexuais na mídia pode “influenciar” adolescentes, especialmente meninas, a experimentarem. Com isso, considera-se a bissexualidade – ou, antes, o comportamento bissexual – como uma “moda”. Essa pecha de “modinha” prejudica tanto bis como homos, mas como falei antes, a experimentação faz parte da adolescência e o melhor a fazer é aprender a lidar com isso. Se a cultura atual cria um clima favorável à experimentação, melhor – acredito que os adolescentes que experimentam hoje são os adultos bem-resolvidos do futuro.

Preconceito duplo

Por parte dos heterossexuais, os bissexuais sofrem os mesmos preconceitos que os LGT. Assim como ocorre com estes, a bissexualidade desafia a heteronormatividade, por conceber atração sexual e afetiva fora da relação com pessoa do sexo oposto. No caso das mulheres, frequentemente a sexualidade bi é aceita e a afetividade não: ao mesmo tempo que existe um fetiche masculino que fantasia com duas mulheres na cama e estimula a mulher a experimentar, uma bissexual que assumir um relacionamento afetivo com outra mulher passa pelo mesmo preconceito enfrentado pelas lésbicas. Essa questão do fetiche masculino evidencia a influência da pornografia na aceitação ou não das bissexualidades. Clarissa Carvalho, bissexual assumida, escreve:

Pode-se transar com uma amiga para excitar o namorado, mas não se pode apaixonar-se por ela. E aí, eu pergunto onde está a tal da “aceitação”? O mais interessante é que a noção de gênero está muito presente nessa forjada e hipócrita “aceitação”. Pois nas fantasias heterossexuais raramente há aceitação de homens bissexuais. (…) Muito difícil é ver relações sexuais entre homens em filmes direcionados a pessoas heterossexuais. Se homem transou com homem, acabou: é gay. Se mulher transou com mulher: obviamente ela só está excitando o expectador/a.

Ou seja: a existência desse fetiche estimula a experimentação por parte da mulher, o que leva a uma aceitação maior de sua bissexualidade, ao menos no que se refere ao sexo (conduzindo, contudo, a outra encruzilhada: quem disse que, por gostar também de mulheres, uma bissexual deve necessariamente querer participar de um ménage à trois?). Quanto aos homens, a mentalidade binária ainda se faz muito presente, e o sexismo determina que existe o macho, e o que foge disso é automaticamente classificado como gay. Isso explica por que o rótulo de “homo enrustido” é aplicado com mais frequência aos homens bissexuais.

Da parte dos homossexuais, os bis são discriminados através do descrédito, como já exposto, e pela ideia de que ao assumirem uma relação heterossexual, socialmente aceita, estariam procurando um meio de fugir da discriminação. Ainda do texto de Clarissa Carvalho:

Quem diz que ser bi é mais aceito é porque não entende o que é ser bi. A questão aqui não é se eu não sou discriminada quando estou com um homem, a questão é entender como que o meu desejo funciona. E te digo, meu desejo não é heterossexual de dia no restaurante com a família e homossexual à noite na boate “GLS”.

Associação entre bissexualidade e promiscuidade

Partindo de uma “normalidade” heterossexual, só é possível compreender as outras sexualidades através do que as diferencia, ou seja, do comportamento sexual. Assim, a explicação da identidade sexual através do desejo leva a uma associação entre sexualidade e sexo, criando uma visão dos não heterossexuais como indivíduos hipersexualizados. Quando a atração ocorre pelos dois sexos, o estigma da promiscuidade se torna maior, e esse é provavelmente um dos principais traços da bifobia.

Assim, é necessário questionar a máxima de que “para bissexuais, todo mundo é um amante em potencial”. Seria a mesma coisa que dizer “para uma mulher hétero, todo homem é um amante em potencial”. Amantes em potencial são definidos pelos gostos e histórias próprias de cada pessoa, e não pela identidade sexual a que ela se atribuiu.

Essa associação da bissexualidade ao comportamento promíscuo leva também a outro equívoco, aquele que diz que “bissexuais nunca estão satisfeitos com o parceiro”, que “sempre lhes falta alguma coisa” e que, em virtude disso, eles traem ou abandonam o parceiro com mais facilidade. Em qualquer relacionamento, seja hétero ou homo, existem pessoas diferentes do parceiro, e invariavelmente haverá alguma atração por outras pessoas, quer se admita ou não. Uma tara por loiros não vai fazer ninguém trair o namorado negro, certo? No caso dos bissexuais, o desconforto em lidar com um parceiro que se admita atraído por pessoas de ambos os sexos, motivado em parte por insegurança e em parte por preconceito, pode acabar sepultando relacionamentos que tinham tudo para dar certo.

O futuro é bissexual

Antes da invenção do termo “bissexualidade”, o que se via nesses indivíduos eram “heterossexuais predominantes com tendências homossexuais”. Hoje, falamos em L, G, B e T, mas as identidades sexuais passam por uma pulverização cada vez maior, incluindo até a possibilidade de não ostentar nenhum rótulo. Isso se torna cada vez mais frequente (e, dizem alguns, essa é a tendência para o futuro) entre pessoas que, ainda que se relacionem mais frequentemente com um ou outro sexo, eventualmente sentem desejo por indivíduos do outro e não veem problema nisso, sem necessariamente assumir uma identidade bissexual.

Existem sim o bissexual da modinha, o bissexual que na verdade é homo enrustido, o bissexual do fetiche. Mas existe também o bissexual adulto, esclarecido, sem preconceitos na hora de se apaixonar e de se relacionar sexualmente. A luta dos LGBTs é, antes de tudo, uma luta contra a heteronormatividade, e não pode se restringir à defesa de uma ou outra identidade. Antes disso, nosso objetivo deve ser a defesa de toda sexualidade sadia, que se manifeste consensualmente entre adultos, sem julgar motivos ou tentar decidir se o desejo do outro é verdadeiro ou não.

(Post escrito com apoio e pesquisa – tão grandes quanto o texto – do Pedro.)