Nada de crianças na Parada!

Do Diário do Pará (os grifos são meus):

O Comissariado de Menores, no desempenho da função fiscalizadora de competência do juizado da 1ª Vara da Infância e Juventude, recebeu despacho do juiz José Maria Teixeira do Rosário para fiscalizar a presença de menores na parada do orgulho LGBT, programada para ser realizada em Belém no próximo domingo, 27. A providência quer proteger menores dos riscos em ambientes e eventos incompatíveis com as respectivas faixas etárias.

Segundo a assessoria do TJE, a fiscalização atenta para “atitudes e práticas consideradas inadequadas aos menores de 18 anos, principalmente ingestão de bebidas alcoólicas, uso de produtos restritos a adultos e a exposição a cenas, expressões e gestos atentatórios à moral e aos bons costumes, considerados pela legislação pertinente prejudiciais às crianças e aos adolescentes e, por isso, considerados com a personalidade ainda em formação”.

De início, precisamos admitir: a espetacularização da Parada oferece, de fato, algumas cenas que não seriam consideradas adequadas à população infantil – tal como drags seminuas, go go boys dançando sensualmente, etc. Mas não acho que esse seja o cerne dessa fiscalização. A expressão “moral e bons costumes” ali no meio do texto diz muito – ou vocês já viram essas palavras na boca de alguém que não seja conservador?

O que eu vejo de mais grave para as crianças na Parada é, como já destaquei, algumas nudezes e performances. Mas isso está presente em outras manifestações culturais também, certamente não tão combatidas. O que ofende a moral e os bons costumes nesse caso não é tanto a nudez ou o sexo quanto quem os pratica – no caso, gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. A nudez da drag é diferente da nudez na Playboy – e é por isso que o juiz determina que se aplique fiscalização aos menores na Parada, e não nas bancas de revistas.

Trans na Parada, e Viviane Castro, dona do menor tapa-sexo conhecido. Se o problema é nudez e sexo, proíba-se o Carnaval

Trans na Parada, e Viviane Castro, dona do menor tapa-sexo conhecido. Se o problema é nudez e sexo, proíba-se o Carnaval

Preciso ressaltar, para evitar mal-entendidos: não sou contra a proteção da criança pelo Estado, só acho que existem prioridades. Se o problema é a ingestão de álcool por menores, não adianta fiscalizar só na Parada – os bares dos arredores, os ambulantes vendendo cerveja e batidas continuarão na cidade quando todos os queers se recolherem ao seu dia a dia monótono, bem como os menores. Se o problema é sexualização da infância, que fiscalize-se também a programação de televisão, onde prosperam mulheres-fruta. E, se a intenção é proteger a infância e a adolescência de ambientes e eventos incompatíveis, que se dedique um esforço mais efetivo ao combate da exploração sexual infantil. Uma pesquisa organizada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos documentou prostituição de crianças e adolescentes em 29 municípios do Pará, sendo que outros sete apresentam menores em situação de vulnerabilidade à violência sexual. Isso insere esse Estado entre os que ostentam o maior número de casos de exploração sexual infantil.

Falando em “fiscalização efetiva”, me pergunto o que essa fiscalização fará. A Parada acontece na rua – as crianças serão vendadas? Levadas para onde? Se há algum lugar que possa acolhê-las, por que muitas ainda são vendidas aos caminhoneiros em troca de comida? E outra coisa – menores não têm sexo, orientação sexual? Desejo, identidade? Se um adolescente de 15 anos quiser ficar com outros meninos, ele deve ser retirado à força da Parada? Aliás, será exigida a apresentação de documento de identidade para desfilar, provando que já se completou 18?

Sim, a Parada tem muitas coisas que não deveriam ser expostas aos olhos de uma criança. Assim como o mundo. Poupar os menores da Parada não vai isolá-los do mundo do sexo – apenas do conhecimento de uma sexualidade mais diversa.

6 respostas para Nada de crianças na Parada!

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  2. Luciano Berta disse:

    Texto maravilhoso Carol! Concordo com tudo.
    E o pior é ter que ouvir, aqui mesmo, na Parada de Porto Alegre, e não no longínquo Pará, estes mesmos comentários preconceituosos contra as travestis “desnudas” que estariam ofendendo a moral e os bons costumes! E pior ainda não é ouvir de heteros, mas sim dos próprios gays!!!! Sim, eu já ouvi e muito!

  3. Malchik disse:

    Não acho q o fato de o Estado não fazer o que deve em outros casos seja justificativa para continuar errando em outras situações. Se a Parada Gay é imprópria para crianças porque há atos indecorosas ou nudez então é a realização desses atos que deve ser combatida.
    A polícia tem sim que impedir travestis e drag queens de ficaram nuas nesses lugares, assim como devem impedir mulheres de mostrarem os peitos nas ruas. Isso é ato obsceno seja ele cometido por mulheres ou homens (travestis e drag queens no caso) e deve ser punível. É um absurdo ele deixar a prática de atos obscenos na Parada Gay como é em qualquer outro lugar. Mas o que deve ser combatido não é a presença de crianças, mas a própria efetivação desses fatos.

  4. kai disse:

    Concordo com o Malchik. E outra, o juiz não determina que se aplique fiscalização nas bancas de revistas, porque essas já vêm com faixa etária recomendada. A Playboy é para maiores de 18 anos, não ?

    Eu posso até concordar com você que há preconceito da parte do juiz sim. O preconceito pode ter até sido a força que o levou a tirar as crianças da parada. Mas quer saber ? Eu sou gay e sou contrário ao tipo de parada que se faz no Brasil. É uma parada voltada para o entretenimento e não um ato político. Então, vamos ser bem sinceros que nem 1% vai pra Parada para se fazer ouvir ou se fazer visível ou protestar qualquer coisa e sim para beijar na boca e transar nos parques. (Pelo menos aqui em Goiânia, no Parque Botafogo).Levando em conta tudo isso, eu devo admitir que tem algumas cenas da Parada que até ME ofendem. E eu tenho 21 anos. Me ofendem porque a Parada Gay deveria ser um desfile às diferenças e na verdade é um ato que joga todos os gays na mesma bacia e os tornam iguais. (Já que não tem nenhum trio de Jazz na Parada, a Mídia vai retratar apenas as cenas que generalizam a todos, com toda a cultura do gueto. Veja bem, eu não sou contra a cultura de gueto gay, acho linda. Mas acho que a cultura do gueto acaba por eclipsar todas as outras pessoas que não se identificam com essa cultura.Entende? A Parada Gay na verdade é uma Parada de Orgulho da Cultura de Gueto Gay – a buatchy.)

    Há sim, atos subversivos e contra à moral e os bons costumes e as crianças deveriam sim ser protegidas desse evento. Ninguém vai na buatchy com menos de 18 anos.

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