“Por que você tem duas mães?”

A tradução dessa sexta-feira é de uma autora no mínimo inusitada. Sophie Brescia tem 10 anos e escreveu esse texto como colunista convidada do jornal LGBT britânico Bay Windows. Você pode ler a versão original ou conferir a tradução do Homomento, logo abaixo.

Famílias Diferentes
por Sophie Brescia

Eu posso não ser o que você considera uma colunista qualificada, mas aprendi algumas coisas ao crescer com duas mães em uma pequena cidade perto de Boston. Se você tem alguma curiosidade em saber como é ter 10 anos e viver com duas mães e uma irmã, eu tenho algumas coisas pra contar.

Algumas pessoas perguntam coisas bastante pessoais sobre a sua vida, e outras olham de um jeito engraçado. É importante ser verdadeiro consigo ao invés de mudar seu comportamento só porque outras pessoas estão curiosas, nervosas ou desconfortáveis perto de você ou da sua família – mesmo se eles disserem coisas ruins para você ou sobre você. Vou falar agora sobre as perguntas que me são feitas com mais frequência.

No topo da lista, está essa pergunta: ‘porque você tem duas mães?’.

Eu tenho duas mães porque elas se amam e queriam constituir uma família. Eu e minha irmã nascemos na China. Nós não temos ligação sanguínea com elas, mas nos amamos e somos uma família que se uniu por causa dessas duas pessoas.

Quando a minha irmã era muito pequena, os amigos da pré-escola achavam que ela era sortuda por ter duas mães. Se uma saía para as compras, ainda havia outra em casa com ela. Conforme fomos crescendo, as crianças não achavam mais que ter duas mães era uma coisa boa – especialmente se as duas nos dessem ordens simultaneamente.

Muitos perguntam: ‘onde está seu pai?’ ou ‘porque você não tem um pai?’. Antes eu pensava que tinha de contar toda a história da minha família quando alguém numa loja ou num restaurante perguntava isso. Conforme fiquei mais velha, notei que algumas vezes as pessoas não queriam saber porque eu não tenho um pai, mas apenas que adulto estava me acompanhando naquele dia específico. Depois de um tempo, pude perceber a diferença entre esse tipo de questionamento igênuo e o que era feito com curiosidade. Hoje em dia, se noto que é com curiosidade, respondo: ‘eu tenho duas mães’. Só isso.

Às vezes me fazem essas perguntas porque estão realmente interessados na minha vida ou em entender melhor a minha família. Você pode perceber pelo tom de voz qual é o tipo de pessoa está perguntando. Se há quase um receio na voz, ela quer saber de verdade. Mas se há um tom arrogante, percebo que ela só quer me deixar desconfortável.

Como eu e minha irmã somos adotadas, também costumam indagar se eu sei quem são meus pais ‘de verdade’. Eu digo que minhas mães ‘de verdade’ são as que cuidaram de mim por toda a minha vida. Frequentemente me pressionam a falar sobre meus pais biológicos, mas eu nem sempre tenho vontade de fazê-lo. Então, quando me solicitam isso, eu ajo de acordo com a minha vontade.

Quando caminho na rua com toda a minha família, percebo que os que lançam os olhares mais esquisitos são os adolescentes. Adolescentes gostam que tudo seja sempre do mesmo jeito, então até eles crescerem e passarem dessa fase, eu só os ignoro.

Crianças que cresceram perto da nossa família costumam ser mais legais porque não têm preconceito com o nosso tipo de família. Adultos também.

O mais importante a se lembrar é que sempre que alguém lhe faz uma pergunta, você só tem que dar a resposta que você queira e se sinta confortável a dar. Sempre seja verdadeiro consigo mesmo.

5 respostas para “Por que você tem duas mães?”

  1. Rebecca disse:

    Muito legal! Esse tipo de iniciativa devia ser mais estimulada. Sempre achei que, para diminuir o preconceito, alguma aproximação é sempre necessária. Por isso os homofóbicos nos xingam de longe. De muito longe. Porque, bem lá no fundo, eles sabem (e muitos aprendem isso na marra) que, a partir do momento que nos conhecem, podem ver que não somos tão monstruosos assim, nos humanizam. Relatos têm esse poder de aproximar, de nos colocar mais perto. Mostram muito, sem precisar dizer tanto.

  2. Só tenho uma coisa a dizer: que texto lindo.

    Obrigado pela tradução!

  3. oliver disse:

    *o* lindo! perfeito! ela é uma genia!

  4. Malchik disse:

    Concordo plenamente “você só tem que dar a resposta que você queira e se sinta confortável a dar”.
    Espero que nós nos dispamos de nossos medos e preconceitos e estejamos sempre confortáveis para que nossa resposta seja: “Sim, eu sou gay” ou “Eu tenho duas mães” ou, quando necessário, “Não, não é da sua conta. Meta-se com a sua vida!”

  5. Daniel disse:

    Muito bonito. Só fico assustado que uma criança de 10 anos tenha que administrar tantas posições políticas para preservar sua esfera privada e unidade familiar. E o faz com tanta força que resulta em um texto publicado numa revista LGBT. No meu ponto de vista, crianças não devem solidificar valores como ela demonstrou ter feito. Isso fazemos, normalmente, ao longo de nossas vidas. Pena que ela não teve escolha. Enfim, é triste que ela tenha que “pensar” sua infância, e não apenas vivê-la.

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