O homofóbico e seus amigos gays

Ando pensando muito em uma argumentação bastante utilizada em debates sobre LGBTs em geral, e que nos foi aplicada na caixa de comentários do recente texto que questiona a tradicionalidade da heterossexualidade gaúcha. É o velho “não sou homofóbico(a), tenho amigos homossexuais”.

Essa setença geralmente precede ou sucede comentários analíticos, críticos e/ou polêmicos em relação a homossexuais. Por medo de ser mal interpretado, o locutor já deixa bem claro que é inviável que sua opinião seja homofóbica pois, afinal, ele próprio tem relações amistosas com gays e lésbicas.

Criam-se, então, no momento em que a dita frase é proferida, duas entidades: a do Homofóbico e a do Amigo Gay. O Homofóbico, dentro dessa interpretação, é um ser totalmente ignorante, retrógrado, preconceituoso. Ser homofóbico é ter nojo de homossexuais, querer que eles não tenham direitos, desapareçam, sejam queimados em praça pública. E, acima de tudo, é não se relacionar com nenhum deles, de tanto asco.

É para dissociar-se dessa malévola figura que aciona-se o Amigo Gay. Este funciona como passe para toda uma ideologia da aceitação; ter um amigo gay não significa apenas se dar bem com um cara que é gay, mas se mostrar inteligente e esclarecido a ponto de se relacionar com um.

discuti aqui anteriormente toda a problemática referente à terminologia “homofobia”. É sabido que essa palavra cria, por meio da linguagem, uma figura vilanizada que tem asco de homossexuais. Poder-se-ia dizer: ah, então tudo bem, é natural que se queira desvencilhar dessa personagem má e cruel, demonstrando-se uma pessoa evoluída.

Mas é otimismo demais jogar apenas na linguagem a culpa para ocorrências de argumentações como a que estamos discutindo. Estas continuam ocorrendo porque as pessoas, mesmo tendo os tais amigos gays e lésbicas que ostentam com tanto gosto, não se prestam a pensar em tudo o que lhes é negado; a parar de emitir piadinhas preconceituosas ou de utilizar termos chulos para se referir a homossexuais; a refletir sobre as dificuldades enfrentadas por esses amigos para simplesmente viver seus amores de maneira espontânea. Em suma, nada impede uma pessoa de ter amigos homos e mesmo assim propagar heteronormatividade e homofobia.

Ser homofóbico não significa ser um monstro, e ter amigo gay não significa ter um escudo moral. Se você quer deixar claro em uma conversa que não tem preconceito, expresse isso através de idéias e posturas bem fundamentadas, e não de justificativas.

* Cabe dizer que nós, no papel de amigos gays e lésbicas, temos também o papel de levar as pessoas a pensar sobre a vivência da homossexualidade. Não estou falando de patrulha ideológica, mas de gestos simples que podem abrir os olhos dos outros para os tipos de violência que nos são inflingidos. Mas bom, isso é assunto para outra postagem…

8 respostas para O homofóbico e seus amigos gays

  1. Massao disse:

    Então, quem precisa de um “amigo” destes que só te utiliza como medalhão de bom mocinho?

  2. Lia Lee disse:

    Quase todo mundo tem um “amigo gay”, muitas vezes pra não ser politicamente incorreto… Mas acha estranho quando vê um casal gay andando de mãos dadas pela rua…

  3. Coacci disse:

    Acho que o grande problema está em se criar a figura homofóbica, como única fonte de atos homofóbicos. A Homofobia não deve ser compreendida dessa forma, personificada. Mas sim na violência (ou no potencial ofensivo) de cada ato praticado pelo indivíduo e aqui o sujeito ativo da homofobia, ou seja, o homofóbico, é qualquer indivíduo. Alguém que possui amigos gays, pratica atos homofóbicos, da mesma forma um gay ou uma lésbica também o faz!

  4. Daniel disse:

    Concordo com o Coacci. Não é preciso ser um “homofóbico integral”, que cospe fogo e xinga gays nas ruas, pra que se exija uma mudança de postura. Legal, tu conseguiu teu mascote gay. Mas quão gay ele pode ser pra tu suportar a presença dele? Parece estranha essa expressão, mas acho que diz muito. É que é bem mais fácil ser amigo de um gay conservador e com medo de manifestações públicas do que o politizado e que defende suas convicções.

  5. Rebecca disse:

    “gestos simples que podem abrir os olhos dos outros para os tipos de violência que nos são inflingidos”… muito legal isso. Eu, como professora, faço questão de levar essa idéia ao máximo de pessoas que posso. Coisas como chamar o juiz de veado ou falar que as pessoas do “outro time” são “tudo bicha”… relacionar, de uma forma ou de outra, os gays a algo “ruim”… tudo isso pode ser evitado, e ajudará, ainda que lentamente, a mudarmos o cenário já tão gasto dos estereótipos… Uma coisa que eu sempre faço também é não repassar emails com piadinhas machistas, homofóbicas ou que tenham qualquer tipo de preconceito. Tudo bem, é humor, mas o humor ajuda a disseminar muita coisa errada por aí…

  6. Stefânia disse:

    não basta ser amigo, tem que ser irmão :)
    muito interessante a abordagem do texto, parabéns.

  7. selectomsv disse:

    Acho que na verdade as pessoas tem que deixarem os rótulos de lado e se relacionarem com as pessoas de fato. Não gosto de Fulano, independente de ele ser gay ou não; e gosto de Ciclano não por ele ser ou não gay. Se desconheço, não tenho o direito de gostar ou não gostar.

  8. Homem de Respeito disse:

    Já ouvi expressões do tipo: “O meu amigo gay…” vinda de mulheres, como se ela tivesse o amigo gay que é necessário a toda mulher. Isso logo após uma piada homofóbica. Houve a piada e depois não uma justificativa, mas uma histórinha envolvendo o amigo gay para que todos da roda soubessem que tem o amigo gay. Patético

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