Adriana, Alexandre e as crianças

No fim da semana passada a lésbica assumida Adriana Calcanhotto lançou a continuação do seu projeto infantil Adriana Partimpim, intitulado Partimpim Dois. Gravado meio às pressas para ser lançado a tempo do Dia das Crianças, o disco segue a proposta do trabalho inicial, com repertório diverso (de Villa-Lobos a Bob Dylan) e arranjos muito criativos.

adrianapartimpim

A canção Alexandre, lançada originalmente em 97 por Caetano Veloso, foi regravada nesse Partimpim Dois. A faixa quilométrica (seis minutos de uma letra que pouco se repete) conta com palavras nada simples a história de Alexandre, o Grande. E, sem papas na língua, faz referência a Hefestião, o amor masculino do Rei da Macedônia.

Com Hefestião, seu amado
Seu bem na paz e na guerra,
Correu em honra de Pátroclo
– os dois corpos nus –
Junto ao túmulo de Aquiles, o herói enamorado, o amor

Está certo que, como mencionei, Alexandre tem uma letra complexa que provavelmente não vai ser decorada por todas as crianças. Mas não podemos ignorar que ela está lá, e que Adriana Partimpim é de fato um sucesso entre os infantes. A resposta da Adriana quando indagada a esse respeito foi que “boa parte do público do CD é filho de dois pais, duas mães”. A declaração foi legal no sentido de mencionar gays sem precisar levantar bandeira, mas Alexandre não é importante só para esses filhos de casais diferentes.

O segredo do sucesso da Partimpim, na minha opinião, não é o fato de ela ser o alterego de uma superestrela da MPB. Além do óbvio talento, creio que é a naturalidade dela, simplesmente, que faz o material ser objeto de curiosidade para os menores e deleite para os maiores. Nas palavras da própria:

Não gosto do termo “pureza” para pensar crianças. Aliás, para pensar nada. As crianças têm todos os elementos humanos. São perversas, amorosas… e não são iguais entre si. Não me relaciono com elas como uma entidade única.

Conversar com crianças não é conversar com débeis, é apenas lidar com pessoas de inteligência diferenciada, em desenvolvimento. Sem soar amarga, a Partimpim já ensinou a várias crianças, no hit Saiba, que todo mundo um dia morre. Agora, ao contar a história de uma figura que hora ou outra vai ser ensinada nas escolas, ela insere espontaneamente o seu relacionamento com uma pessoa do mesmo sexo.

Adriana, sobre a canção Alexandre: É sobre um menino que desejava algo altíssimo para sua vida. Acho bom que crianças conheçam a história de um menino assim.

Alexandre, o Grande

Com muita sutileza, Adriana fez sua parte no trabalho de formiguinha que é a construção de um mundo menos preconceituoso para se viver. Infelizmente, porém, não acredito que os Partimpins tenham alcance para formar o futuro, ao contrário dos discos de certas cantoras que continuam tratando os baixinhos com baixeza. Paciência. Esperemos que, futuramente, a Geração Partimpim faça-se ouvir ante a Geração X.

* Esse é o centésimo post do Homomento. Agradecemos o apoio dos leitores, que carinhosamente têm comentado nos textos e nos dado RTs no Twitter. Muito trabalho feito e muito por fazer!

** ERRATA: reconheço que a Adriana não é exatamente assumida, e minha intenção ao lembrar esse fato não foi exaltar o talento dela como advindo da homossexualidade, apenas considerar um ponto que tem sua relevância nessa questão.

*** UPDATE: um dia depois dessa postagem, a Folha publicou uma entrevista em que Adriana faz menção à sexualidade de Alexandre.

10 respostas para Adriana, Alexandre e as crianças

  1. Raí Pereira disse:

    Muito obrigado pelas informações! Eu vi o CD a venda semana passada e fiquei doido para comprar logo,pois sou fã incondicional desse trabalho lindo da Adriana. Meu sobrinho que tinha pouco mais de 2 anos na época do primeiro CD gravou as músicas direitinho…Agora que já está maiorzinho darei este para ele também. E torço para que a Geração Partimpim realmente supere essa tal geração X que não diz nada hoje. Beijos à todos e parabéns pelo centésimo post!

  2. zecabral disse:

    A-mo Adriana Partimpim! Lindo post! Parabens pelo numero 100! :)

  3. Diego Hatake disse:

    Que interessante! Eu adoro o projeto Adriana Partimpim, é realmente muito bom, agradável não só para crianças. Mas não entendo o motivo pra se alfinetar a Xuxa, acho que ambas produzem um trabalho diferente, não há motivo pra isso. Cada uma procura trabalhar com crianças do seu modo. Falta profundidade no trabalho da Xuxa sim, visto que a maioria de seus discos só incluem músicas infantis americanas traduzidas, mas ainda acho válido, especialmente por ela ser uma das pouquíssimas artistas, assim como a própria Adriana Calcanhoto ou Bia Bedran, que ainda pensam nesse público.

    • Pedro Cassel disse:

      É diferente pensar no público infantil e pensar no mercado infantil. Basta ouvir uma música ou ver um “filme” da Xuxa pra notar a falta de dedicação, a pobreza total de conteúdo. Como a fórmula dá certo, ela segue fazendo a saga infinita “Xuxa só para baixinhos” e avassalando gerações inteiras.

      A Adriana faz um trabalho todo sofisticado, com pesquisa dura de repertório, arranjos elaborados com carinho, temática original. Enquanto a Adriana mostra a poesia de Augusto de Campos e Arnaldo Antunes para os menores, a loirosa mexe a cabeça com o Tchutchucão e ganha fortunas. E mesmo assim, por conta da Rede Globo, a Xuxa é a nossa “Rainha dos Baixinhos”.

  4. Iniciativa inteligentíssima, Adriana Calcanhoto ao inserir a temática fomenta a discussão acerca do tema, sem exageros e de maneira consciênte.

    Parabéns pelo post.

  5. Daniel disse:

    Adorei o post! Sexualizamos as crianças mas, ao mesmo tempo, não queremos que pensem a sexualidade.
    Mais uma vez, parabéns pela seriedade do blog! Alto nível de redação e pesquisa.

  6. Carolina Maia disse:

    Muito boa a referência a “Saiba”, Pedro. A música é tão legal que eu nunca tinha nem parado pra pensar em como o tema é adulto!
    A criança que sempre vai morar em mim já decidiu o que quer nesse dia 12, ouvir MUITO a Partimpim!

  7. Claudio F. disse:

    Realmente, se pensarmos que toda teoria desenvolvimentista de Freud e por consequência da psicanálise é baseada na sexualidade humana, podemos concluir que crianças inclusive tem sexualidade.
    A Calcanhoto tem um trabalho de qualidade, que é para além de sua sexualidade, na minha opinião, isto é uma questão particular sua. Se ela disse uma vez ser lésbica, isso basta. Se, além de dizer, ela está trabalhando com letras desta qualidade e dando respostas deste alto nível, melhor ainda.
    Ridículo é uma sapatona retardada mental como a Xuxa agir como marido da Ivete Sangalo e achar que ninguém percebe isso.

  8. Viviane disse:

    Bem bacana teu post, Pedro.
    Sempre que posso passo por aqui e dou uma olhada no que vocês trazem,
    parabéns pela proposta do blog, pelas atualizações.
    Muito bem feito e importante.

    E, mesmo que tenha escutado já um pouco influenciada sobre a tua visão do cd, posso dizer que concordo que segue por esse viés de “partimpim dois” sdurge para as crianças que ouviam o um, agora já mais crescidinhas, acompnhando o desenvolvimento natural delas.

  9. […] da Mônica e companhia ou no recente Turma da Mônica Jovem. Quem lê o Homomento já viu meus elogios à Adriana Calcanhotto por tratar crianças com naturalidade e meu recente apelo para uma educação sexual problematizadora: fica até redundante dizer o […]

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