Em busca dos valores tradicionais

Você disse: "Até que a morte nos separe." Você não está morto ainda.

Você disse: "Até que a morte nos separe." Você não está morto ainda.

Essa é a estampa das camisetas da mais nova iniciativa que visa proibir o divórcio na Califórnia, EUA. Isso mesmo, depois da Prop 8, é o segundo passo em direção à uma interpretação mais fiel dos valores cristãos, tão apregoados pelos defensores da lei que baniu o casamento gay do estado. Não só a camiseta como toda a idéia foram idealizadas por John Marcotte, cidadão que se diz católico e defensor da família.

No dia 1º de setembro de 2009, ele mesmo deu entrada na Secretária do Estado da Califórnia à uma solicitação de reconhecimento e realização do que pede que seja chamado de: ATO DE PROTEÇÃO AO CASAMENTO DA CALIFÓRNIA 2010. No que consiste? A adição de um artigo na constituição do estado onde o divórcio seria proibido. Uma defesa ao retorno dos valores tradicionais, que nas palavras do rapaz: “Já começaram a ser retomados com sucesso a partir da aprovação da Prop 8.”

A petição realizado por John Marcotte

A petição realizado por John Marcotte

“O divórcio é tão artificial como o poliéster, o vidro, os bolinhos de creme…”

No site oficial do Ato, chamado Rescue Marriage temos essa e outras frases que denunciam o real intuito da proposta, que em nenhum momento se oficializa satírica, mas que com um pouco de atenção e lendo as entrevistas do próprio Marcotte, observamos ser uma resposta interessante à situação vivenciada pelos gays da região.
Utilizando-se de um humor sagaz aliado a intenção de expor as falhas no discurso dos defensores da Prop 8, John Marcotte utiliza um discurso idêntico ao dos engajados na proibição do casamento de pessoas do mesmo sexo, só substituindo isso pela palavra divórcio. Observe na entrevista realizado pelo site Cockeyed:

RC: Você irá as ruas coletar assinaturas para a iniciativa?

John: Iremos montar uma mesa na frente do Wal*Mart e pedir para que as pessoas assinem a petição que protege o casamento tradicional. Iremos questioná-las o porquê acham que o casamento tradicional é importante, então diremos que estamos tentando banir o divórcio.

Pessoas que aprovaram a Prop 8 não estavam tentando tirar os direitos dos homossexuais, elas só queria proteger o casamento tradicional. É por isso que estou confiante que irão apoiar a minha iniciativa, mesmo sabendo que dessa vez o direito delas é que será diminuído. Não apoiar seria hipócrita.

Nós também recolheremos assinaturas na frente do “Faces”, que é a maior boate gay de Sacramento.

Mais adiante quando questionado novamente sobre a interferência nos direitos dos casais responde que:
“Vivemos em uma sociedade “divórcio-promíscual”. O divórcio está na televisão, nos filmes, nos jornais, até mesmo nos livros didáticos de nossos filhos. Eu sou católico. Na minha religião divórcio é um pecado, e é completamente inadmissível.”

Ainda na mesma entrevista fecha com a seguinte afirmação:

RC: Parece que você quer proteger as crianças de aprender mais sobre o divórcio.

John: Eu não quero que o governo ensine os meus filhos que o divórcio é “normal” ou “legalmente permitido”. Essa conversa tem que ser feita dentro da família. É papel da família ensinar os filhos sobre o mundo real — não do Estado.

O artifício de utilizar os mesmos exemplos que na visão dos californianos justificava a aprovação da Proposition 8 não acaba aí, John Marcotte é enfático ao repetir em diversos momentos e em divertidos artigos publicados no site do ato, que Jesus em diversas passagens da bíblia condena o divórico e atenta ao fato dele não mencionar em nenhuma hipótese a existência ou mesmo condenação de gays. A frase na capa do site já denuncia: Jesus continuará te amando se você se divorciar – só que um pouco menos.

Em um dos ápices da sátira refinada que nos proporciona, discursa sobre o impasse que vivenciou ao saber de um caso ocorrido em Indiana, estado americano onde o casamento gay não é legal. Aconteceu que um casal de lésbicas, que casou-se em um estado onde o mesmo é permitido, solicitou o divórcio em Indiana, e o juiz negou, pois o estado não aceita a união de pessoas do mesmo sexo, logo não desfaz essa união também. Pois a partir daí o “católico” John apresenta que o juiz negava à elas o divórcio, mantendo assim os valores tradicionais, mas em contrapartida perpetuava um casal gay, ferindo os valores tradicionais. E pouco adiantaria desfazer o casal gay, favorecendo os valores tradicionais divorciando-as, pois o divórcio corrompe os valores tradicionais. Logo, ele botou nas mãos de Deus a decisão do que seria o certo nessa situação. Recorrendo ao livro sagrado e as suas citações conclui que ser gay é pecado, mesmo que Deus nunca tenha se referido a isso, mas que ser desquitado é ainda pior, pois “o que Deus uniu não cabe ao homem separar”.
A solução que apresenta é curiosa: “Os gays que se casaram não tem outra escolha que não permanecer casados, pois o desquite é o pior dos pecados, mas devem dormir em camas separadas e evitar o sexo, como os casais heterossexuais fazem. Igualdade acima de tudo.”

A campanha de defesa do casamento tradicional vem repercutindo e tomando grandes proporções, ganhou até vídeos promocionais:

E comentários nos telejornais do estado:

Embora muito inteligente e engraçada, nem todos pegaram o espírito da piada. Mas isso era previsto, pois quem é que vai rir ao ver a possibilidade de ter os seus direitos diminuidos? Não vejo aí um revanchismo, como uns e outros vem alegando, acredito que se aproxime mais de um trote inteligente, que usa os mesmos valores que vinham sendo defendidos até então, mudando apenas o foco, do gay para o “cidadão de bem”.
Mesmo tendo consciência de que a medida não será aprovada, pois altera a vida da maioria e não mais da minoria, não custa nada ficarmos atentos e verificar quais serão as desculpas arranjadas para que a medida não seja aprovada.

Arrisco o palpite de que Deus vai ficar muito triste com a hipocrisia que provavelmente observaremos, mas talvez fique um pouco aliviado, pois deixará de servir de escudo pra muita gente.

3 respostas para Em busca dos valores tradicionais

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  2. Nina disse:

    Amei a idéia. E repensando a questão lembrei que meus avós, alemães católicíssimos, dormiram em quartos separados desde que me entendo por gente, ou seja, por pelo menos 20 anos, senão mais.

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