15 de outubro, um dia para a educação

15 de outubro: dia do professor. Conforme crescemos, o tempo em que essa data era uma espécie de feriado ficou para trás, e as homenagens aos educadores acabaram arquivadas junto com outras lembranças de colégio. Mas como metade da equipe do Homomento é formada por futuros docentes, não conseguimos esquecer essa data – e aproveitamos a oportunidade para discutir um lado frequentemente negligenciado quando falamos de homofobia na escola: aquele em que o preconceito se volta contra os professores.

O preconceito afasta o professor homossexual da sala de aula…

Saiu ontem no Dolado:

Um estudo encomendado pela instituição inglesa Equality and Human Rights Commission (EHRC) aponta que gays, lésbicas e bissexuais evitam determinadas profissões que parecem mais homofóbicas como, por exemplo, o ambiente de ensino. (…) Aproximadamente 40% dos gays, 32% das lésbicas, 13% dos homens bissexuais e 10% das mulheres bissexuais afirmaram que não poderiam ter certas profissões por preconceito.

O estudo não pesquisa somente a questão de emprego, revelando também que muitos homo e bissexuais (por algum motivo, os trans foram deixados de fora!) evitariam morar em determinados lugares para evitar a homofobia. No caso da educação, o motivo para evitar trabalhar na área – ou assumir-se, já estando nela – fica claro ao lembrarmos que muitos professores são afastados ou mesmo demitidos em virtude de sua orientação sexual. Nas escolas privadas, frequentemente mantidas ou somente ligadas a instituições religiosas, é fácil sacar a carta do “ensino tradicional” para justificar demissões baseadas na discriminação.

[a diretora de uma escola católica] foi categórica ao contar para a equipe de reportagem que a escola não contrata professores homossexuais por ser uma instituição de ensino católico. “Seria contra a nossa filosofia”, diz. Ela acredita que os pais dos alunos não aceitariam, pois procuram o colégio justamente por oferecer um ensino tradicional, religioso. A diretora reconhece que a discriminação existe ao não contratar um professor ou uma professora somente por causa da orientação sexual, mas normas são normas.

A declaração anterior, que explicita bem a visão dogmática que põe normas acima das pessoas, foi retirada de uma reportagem acerca da pesquisa Homossexualidade na Escola, divulgada em 2003 pela revista Profissão Mestre. Já alertamos aqui sobre os riscos da argumentação baseada em pesquisas, mas é interessante chamar a atenção para algumas estatísticas encontradas nesse estudo:

Dos entrevistados, 15% disseram que não contratariam um professor homossexual. Os motivos alegados foram: 46% por causa dos pais, 36% acredita que os alunos não o respeitariam, 27% por convicções pessoais e 24% por defender a filosofia da escola em que trabalha.

O texto não deixa claro o que seriam as tais “convicções pessoais”, mas duvido que digam qualquer coisa que não “homossexuais não são bons professores” – ou seja, preconceito. Da mesma forma, a defesa da filosofia da escola não deixa de ser um posicionamento a favor da negação de igualdade. É interessante notar que, para esses entrevistados, é mais fácil ignorar o preconceito latente nas crianças do que educá-las (argumentando que esses professores não seriam respeitados). No caso das escolas particulares, a não contratação de homos e bis reflete também o medo de incomodar pais e perder alunos (ou seja, perder dinheiro).

Não que casos de homofobia em relação a educadores não aconteçam na rede pública. Teve bastante repercussão o caso de duas professoras cujo relacionamento amoroso foi descoberto pela diretora e que, por isso, foram afastadas da escola municipal onde trabalhavam, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul – estado que inclusive possui legislação (a lei estadual 3.157/2005) proibindo a discriminação motivada por orientação sexual. Carmem Silvia Geraldo, que era concursada do município, foi posta à disposição da Secretaria de Educação (leia-se: retirada das salas de aula e logo aposentada), e Noyr Rondora Marques teve seu contrato temporário rescindido em função do ocorrido.

As professoras Noyr Rondora Marques e Carmem Silvia Geraldo, demitidas por homofobia (Foto: TV Morena)

As professoras Noyr Rondora Marques e Carmem Silvia Geraldo, demitidas por homofobia (Foto: TV Morena)

Não que qualquer uma delas fosse má professora – pelo contrário, a ata da reunião em que o afastamento das duas foi decidido ainda diz que Noyr “é uma excelente profissional e todos concordaram com isso, pois ela faz a diferença com os alunos na parte pedagógica”. O comportamento homossexual das professoras não era um problema para a comunidade escolar, tampouco: seu relacionamento era um segredo, confidenciado a uma amiga, que levou o fato ao conhecimento da direção da escola.

…ou o professor homossexual na sala de aula afasta o preconceito?

Vê-se, então, que não é preciso assumir-se na escola para sofrer preconceito por parte da direção. Na realidade, nem mesmo é necessário ser gay. Em fevereiro desse ano, um professor de Inglês de uma escola pública foi afastado por usar em aula a música “I Kissed a Girl”, de Katy Perry, cuja letra foi considerada adulta demais. Mesmo que se concorde com a opinião da escola, de que uso de álcool e experimentação sexual não são temas adequados para discussão com alunos de 12-14 anos (pessoalmente, acredito que não há idade melhor para abordar tais temas!), a punição é descabida. Fica pior ainda quando lemos, na matéria do G1 sobre o incidente, que “a Secretaria de Educação apoiou a decisão da escola, pois considerou que se tratava de uma apologia do uso de álcool e do homossexualismo”. Em outras palavras, a Secretaria endossa a visão de que a homossexualidade é algo ruim, tão prejudicial ao pré-adolescente quanto o uso de álcool.

O uso da palavra “apologia” mostra não só essa visão negativa, como evidencia que a questão da “influência” gay está no cerne da questão. O problema não é a bi/homossexualidade dos professores, mas a possibilidade de que os alunos admirem tal comportamento e resolvam imitá-lo. Provavelmente por isso, muitas pessoas afirmam ser “neutras” quanto à sexualidade de um professor universitário, mas não de um professor de séries iniciais.

Correndo o risco de sermos repetitivos, tornamos a dizer: não há tal coisa como “influência” na orientação sexual, simplesmente pelo fato de não haver escolha nesse campo. A única decisão possível é a de aceitar-se ou não, viver de acordo com seu desejo ou fingi-lo. Sendo assim, o máximo que um professor LGBT pode fazer para ser uma “influência” é fornecer um exemplo positivo e cotidiano de que é possível ser feliz em uma existência não hétero, que relacionar-se com pessoas do mesmo sexo não é errado nem obriga a viver uma existência marginal. Agindo assim, o educador não estará influenciando seus alunos a serem gays, mas a viverem a orientação sexual que tiverem de maneira sadia e sem preconceitos.

* * *

15 de outubro também é o Blog Action Day. Desde 2007, blogueiros do mundo todo dedicam uma postagem nessa data para a discussão de algum assunto importante da atualidade. Em 2009, todos deveriam escrever sobre as mudanças climáticas. Não tivemos tempo para preparar um post mais profundo sobre o tema, mas achamos importante pontuar a data. Assim como as lutas dos LGBT, a questão ambiental exige uma reeducação, uma mudança profunda na maneira de encarar o mundo (da exploração desenfreada aos menores custos possíveis para uma produção e um consumo sustentáveis), e as ações mais efetivas são aquelas que fazem parte do dia a dia das pessoas (evitar o desperdício, consumir com consciência, separar o lixo, etc). Aliando essas duas militâncias, existe o grupo Gay-A – Aliança Homo-Les-Bi-Trans pelo Meio Ambiente, que se organiza em uma lista de discussão gerenciada por Sandra Michelli, que também mantém o blog acadêmico Natureza Torta, sobre ambientalismo queer.

Uma resposta para 15 de outubro, um dia para a educação

  1. […] que apresentam comportamento adverso ao atribuído ao seu gênero – para não falar do já constatado preconceito com os professores gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. Uma reportagem da Agência Brasil de julho de 2009, realizada no Distrito Federal, conta que não […]

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