História das marchas em Washington pelos direitos dos LGBT

No último domingo, destacamos aqui o discurso pró-LGBT que Obama proferiu em um jantar na véspera da Marcha Nacional pela Igualdade. Na terça, também lembramos que a cantora Lady Gaga marcou presença na manifestação, reafirmando seu apoio pela causa dos homo/bi/transexuais. Mas vale a pena destacar que essa marcha não só lembra os 40 anos do levante de Stonewall, como também resgata um histórico de protestos que remonta ao final dos anos 70, em que pela primeira vez um grande grupo de ativistas LGBT reuniu-se para protestar na capital dos Estados Unidos.

O texto que traduzimos hoje conta a história das marchas em Washington pelos direitos LGBT, fazendo também uma crítica à corporativização, partidarização e perda da força do movimento nas duas últimas décadas. O artigo original é um verbete da Enciclopédia GLBTQ, fonte de consulta que recomendamos a todos aqueles que leem em inglês e se interessam pela história, cultura e personalidades LGBT. É um texto bem longo, mas vale muito a pena a leitura, até por alertar para alguns riscos a que o movimento LGBT brasileiro também está exposto.

Marchas em Washington

O movimento pelos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros nos Estados Unidos cresceu enormemente durante os últimos 25 anos do século XX, um fenômeno talvez melhor demonstrado pelo sucesso das três primeiras marchas nacionais, realizadas em Washington, DC.

Cada marcha era muito maior e mais diversificada do que a anterior, conforme um número cada vez maior de pessoas se tornaram mais abertas em relação a suas identidades sexuais e de gênero, criando uma ampla gama de subcomunidades GLBTQ.

Uma tendência menos agradável apareceu na quarta marcha: a crescente corporativização do movimento, com ativistas tendo um papel menos marcante na definição dos seus objetivos e prioridades.

[No entanto, a marcha mais recente pode ter revertido essa tendência. Organizada principalmente por jovens ativistas energizados pela aprovação da Proposição 8, que anulou a igualdade no casamento na Califórnia, a Marcha Nacional para a Igualdade de outubro de 2009 voltou-se novamente para o ativismo de base.]

A Marcha de 1979

Marcando o décimo aniversário da Rebelião de Stonewall e vindo logo após a pena tolerante conferida a Dan White pelo assassinato do supervisor de São Francisco e ativista gay assumido Harvey Milk, a Primeira Marcha em Washington pelos Direitos de Lésbicas e Gays aconteceu em 14 de outubro 1979, e foi um evento histórico que reuniu mais de 100.000 pessoas vindas de todas as partes dos Estados Unidos e de outros dez países.

Grupos nacionais de lésbicas e gays inicialmente relutaram em apoiar a Marcha de 1979, temendo que essa manifestação pública não iria atrair muitas pessoas, ou, caso conseguisse tal feito, que poderia gerar uma reação da direita conservadora semelhante à campanha “Save Our Children” de Anita Bryant em 1977. Mas essas preocupações se mostraram exageradas, à medida que a marcha ajudou a solidificar um movimento nacional pelos direitos dos homossexuais.

A marcha também contou com a I Conferência Nacional pelos Direitos de Gays e Lésbicas do Terceiro Mundo, que foi convocada pela Coalizão Nacional de Lésbicas e Gays Negros, uma organização que tinha sido criada no ano anterior por Delores Berry e Billy Jones, e atraiu centenas de afro-americanos e latinos.

A marcha de 1987

Em 11 de outubro de 1987, mais de meio milhão de pessoas (entre 500.000 e 650.000, segundo os organizadores) dirigiu-se à capital para participar da Segunda Marcha Nacional em Washington pelos Direitos dos Homossexuais. Muitos dos manifestantes estavam irritados com a resposta lenta e inadequada do governo para a crise da AIDS, bem como com a decisão da Suprema Corte em 1986 que manteve as leis da sodomia no caso Bowers v. Hardwick.

Com a primeira apresentação do Projeto NAMES – AIDS Memorial Quilt (uma colcha de retalhos em que cada pedaço de tecido traz o nome de uma pessoa morta pela doença), a marcha de 1987 conseguiu chamar a atenção do país para o impacto da AIDS na comunidade gay. Na sombra do Capitólio, um patchwork formado por quase dois mil painéis de tecido ofereceu uma poderosa homenagem para a vida de alguns daqueles que foram perdidos no pandemia.

A marcha também chamou a atenção para a discriminação anti-gay, já que cerca de 800 pessoas foram presas em frente à Supremo Corte dois dias depois, na maior ação de desobediência civil já realizada em prol dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros.

A Marcha de 1987 em Washington também estimulou a criação do que ficou conhecido como BiNet E.U.A., e da Organização Nacional de de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros Latinos (Organização LLEGÓ, na sigla original), os primeiros grupos nacionais para bissexuais e latinas e latinos GLBTQ, respectivamente.

Antes da marcha, os ativistas bissexuais distribuíram um panfleto intitulado “Você está preparado para uma Rede Nacional de Bissexuais?” que incentivou os membros da comunidade para fazer parte do primeiro contingente bissexual em uma manifestação nacional. Cerca de 75 bissexuais de todo os E.U. participaram e começaram a lançar as bases para uma organização que pudesse falar sobre as necessidades de pessoas identificadas como bi, e combater a animosidade contra bissexuais que era comum tanto nas comunidades gays e lésbicas como na sociedade dominante.

Em 1987, ativistas GLBTQ Latinos de Los Angeles, Houston, Austin e outros lugares já vinham se reunindo há pelo menos dois anos, discutindo formas de trabalhar juntos para promover os direitos fundamentais e a visibilidade de latinos e latinas GLBTQ. Mas com a AIDS exercendo um impacto desproporcional sobre comunidades latinas de GLBTQ em todos os Estados Unidos, os ativistas reconheceram a necessidade de uma organização nacional e se reuniram na Marcha em Washington para formar o grupo que foi primeiramente chamado Lésbicas e Gays Latinos Ativistas Nacionais (NLLGA, na sigla em inglês). Renomeado como LLEGÓ no ano seguinte, o grupo expandiu-se a partir daí para atender também demandas relativas aos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros latinos de outros países.

Além da formação de novos grupos nacionais, os efeitos mais duradouros dos eventos desse fim de semana também foram sentidos em nível local. Energizados e inspirados pela marcha, muitos ativistas voltaram para casa e estabeleceram grupos sociais e políticos em suas próprias comunidades, proporcionando maior visibilidade e força para a luta de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros.

A data da marcha, 11 de outubro, tem sido comemorada internacionalmente desde então como o Dia Nacional para Sair do Armário, para inspirar os membros da comunidade GLBTQ a continuar mostrando, como um dos slogans da Marcha proclamou, que “estamos em todos os lugares.”

A Marcha de 1993

A força crescente do movimento ficou evidente seis anos depois, em 25 de abril de 1993, quando quase um milhão de pessoas participou da Marcha em Washington pela Igualdade de Direitos e Libertação de Lésbicas, Gays e Bi. Essa foi a maior manifestação na história dos Estados Unidos naquela época.

Com a derrota da candidatura de George Bush para a reeleição no outono anterior, que deu fim à era Reagan-Bush, o humor da marcha era muito mais festivo e esperançoso do que em 1987.

A marcha de 1993 recebeu uma cobertura da mídia sem precedentes para um evento GLBTQ, incluindo uma reportagem de capa na revista Newsweek e reportagens na primeira página de muitos jornais em todo o país.

A marcha também foi inovadora por receber a aprovação unânime do conselho da Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor – a primeira vez que laços institucionais diretos foram estabelecidos entre o movimento dos direitos GLBTQ e o movimento dos direitos civis – e por explicitamente incluir bissexuais em seu nome (embora o Comitê de Direcção da Marcha tenha votado para acrescentar apenas “bi”, temendo que a palavra “bissexual” poderia sexualizar excessivamente a imagem do evento). Embora as tentativas de acrescentar a palavra “transgênero” ao nome da Marcha tenham falhado, os direitos dos trans foram incluídos na lista de demandas da Marcha.

O fracasso do governo em responder adequadamente à crise da Aids continuou a ser uma preocupação importante, mas outras questões GLBTQ também foram destacadas durante a marcha. O direito de lésbicas, gays e bissexuais de servir nas forças armadas foi um tema especialmente proeminente, já que o presidente Clinton não obteve êxito em cumprir sua promessa de campanha de revogar a proibição.

Além da marcha, os participantes puderam participar em mais de 250 eventos relacionados, incluindo conferências, seminários, protestos, lobby no Congresso, danças, leituras e cerimônias religiosas.

A Marcha de 2000

Enquanto as três primeiras marchas em Washington foram esforços majoritariamente de base, com uma ampla parte da comunidade GLBTQ representada nas comissões organizadoras, a Marcha do Milênio em Washington pela Igualdade, em 2000, foi convocada e dirigida pela Human Rights Campaign e pela Fraternidade Universal das Igrejas de Comunidades Metropolitanas, com uma reduzida consulta inicial dos grupos locais, estaduais e nacionais.

Para tentar apaziguar as críticas de que o evento estava sendo planejado por uma parcela branca, rica, e relativamente integrada à sociedade do movimento GLBTQ, os organizadores da marcha promoveram uma representação da diversidade da comunidade no conselho de diretores. No entanto, permaneceram as críticas acerca do caráter fechado do processo de planejamento, e da falta de uma agenda política e de propósitos coerente em relação aos desfiles anteriores.

O foco parecia estar, principalmente, no entretenimento e nos patrocínios fornecidos por empresas. Devido a estas preocupações, muitos proeminentes líderes GLBTQ se uniram em um movimento de boicote, e algumas organizações GLBTQ se opuseram à Marcha ou posteriormente retiraram o seu apoio a ela, incluindo a Força-Tarefa Nacional de Gays e Lésbicas e o Fórum de Lideranças Negras Gays e Lésbicas.

As disputas resultaram numa Marcha do Milênio menor e menos diversa do que as de 1987 e 1993. Cerca de 200.000 pessoas participaram do comício. Outros eventos principais incluíram um show, uma cerimônia de casamento envolvendo cerca de 1.000 casais de pessoas do mesmo sexo nos degraus do Lincoln Memorial, e um festival de lojas e entretenimento gay-friendly.

A festa pretendia arrecadar fundos para grupos locais GLBTQ, mas perdeu dinheiro, levando a acusações de gastos inadequados e a uma investigação do FBI sobre o roubo de centenas de milhares de dólares. A Marcha do Milênio, assim, terminou da mesma forma que começou: em controvérsia.

Apesar do relativo fracasso da Marcha do Milênio, as marchas em Washington a favor dos direitos das pessoas GLBTQ são uma parte importante do movimento moderno pela igualdade.

Marcha Nacional pela Igualdade em 2009

[A Marcha Nacional pela Igualdade em 11 de outubro de 2009 nasceu da frustração: a frustração com a perda do direito ao casamento gay e outros em consultas populares; frustração com a alegada cooptação do movimento pelos direitos dos homossexuais pelo Partido Democrata, e frustração com o fracasso do presidente Obama em cumprir as promessas que fez em sua campanha de 2008 para a presidência.

A marcha, que foi organizada às pressas em apenas seis semanas, inicialmente sem o apoio das principais organizações de direitos dos homossexuais, foi convocada pelos ativistas veteranos Cleve Jones e David Mixner, mas aqueles que responderam à chamada e fizeram da Marcha um sucesso eram principalmente jovens ativistas que haviam sido impelidos à ação pela aprovação da Proposição 8 na Califórnia, que eles atribuíram a uma falha de visão e estratégia por parte das organizações políticas gays já estabelecidas.

A decepção desses jovens ativistas com a derrota naquela eleição foi agravada pela sua desilusão com o governo de Obama, que parecia distanciar-se das promessas que foram feitas na eleição presidencial de 2008, especialmente o fracasso em por um fim à política Don’t Ask, Don’t Tell, que se proíbe o alistamento de gays e lésbicas no serviço militar.

O contraste entre as atitudes da elite do movimento político gay e dos ativistas de base ganhou destaque pelo fato de que na véspera da Marcha, quando o presidente Obama dirigiu-se ao jantar nacional da Human Rights Campaign, ele foi recebido por piqueteiros que chamaram a atenção para o seu fracasso no avanço dos direitos gays nos primeiros nove meses de sua presidência.

Na chamada da Marcha, Jones e Mixner enfatizaram a necessidade de uma mudança nos rumos do movimento. Jones definiu a prática atual de luta por direitos em nível local como uma estratégia fracassada. “A busca infinita por frações de igualdade, estado por estado, município por município, localidade por localidade não é suficiente”, disse ele ao New York Times.”Até que nossas ações cheguem ao nível federal, cada uma dessas vitórias locais – não importa quão importantes elas sejam – cada uma é incompleta e impermanente.”

Apesar dos detratores, como o congressista Barney Frank, que disse que a marcha foi um exercício de futilidade que só faria pressão nas bases, a Marcha da Igualdade atraiu mais de 250.000 participantes altamente diversificados, mas predominantemente jovens. E já que a marcha foi promovida principalmente por blogueiros através da Internet, o seu sucesso em si era um tributo ao poder da World Wide Web.

O clima em 2009 foi bem menos festivo que o da Marcha de 1993. O foco estava na necessidade de um ativismo de base, o que sugere uma falta de fé nas grandes organizações políticas de gays e lésbicas, vistos por muitos como tendo sido cooptadas pelo Partido Democrata, que em si foi visto como tendo mais interesse em arrecadar fundos junto aos GLBTQ do que na promulgação de leis que promovam a igualdade de direitos.

Julian Bond, presidente da Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor, proferiu o discurso principal. Ele não aliou-se pessoalmente à agenda dos direitos dos homossexuais, como também apontou as continuidades entre o movimento dos direitos civis e do movimento gay e lésbico.

Outros oradores foram Cleve Jones, o cineasta vencedor do Oscar Dustin Lance Black, a atriz Cynthia Nixon, a cantora Lady Gaga, o Tenente e ativista para a revogação da “Don’t Ask, Don’t Tell” Dan Choi, ativista pela legislação dos crimes de ódio Judy Shepard (a mãe do estudante universitário assassinado Matthew Shepard), e David Mixner.

Mixner captou o espírito da Marcha perfeitamente com as seguintes palavras: “Quando as pessoas me dizem para ser paciente, quando as pessoas dizem, ó Senhor, não agora. Tudo o que consigo pensar é em quantas lágrimas mais devem ser derramadas para que alguns políticos ao nosso redor possam descobrir quando será o momento conveniente para se juntar a nós e à nossa luta pela liberdade.”

6 respostas para História das marchas em Washington pelos direitos dos LGBT

  1. Pedro Cassel disse:

    Carol, muito obrigado pela tradução. Foi uma leitura altamente enriquecedora e informativa. Eu nem fazia idéia do dinamismo da Marcha (só sabia que era grande)! :O

  2. Homomento disse:

    […] História das marchas em Washington pelos direitos dos LGBT […]

  3. […] contra a homofobia. Afinal, se aprendemos alguma coisa com a história das marchas em Washington publicada aqui na sexta, foi que as dificuldades podem trazer um novo gás à militância […]

  4. Fernanda Nascimento disse:

    Importante esse texto para a reflexão do papel da Marcha, em termos americanos e mundiais e das nossas Paradas Livres, em diversos municípios do país.
    A reivindicação para que Obama cumpra suas promessas (que já renderam até Nobel), a critica ao aparelhamento das entidades e organizações representativas pelos partidos políticos tem certa semelhança com a nossa província. Parada Livre por Parada Livre? Parada Livre = Dia para ser Lésbica/Gay?
    Parabéns pelo trabalho que o coletivo tem realizando,analisar discursos é desencobrir subjetividades.

  5. […] e procuramos refletir isso em nossas traduções. Na semana passada, falamos sobre as primeiras marchas em Washington. Hoje, trazemos um relato que resgata os tristes dias das primeiras mortes pela […]

  6. Homomento disse:

    […] uma vez, traduzimos um artigo da Enciclopédia GLBTQ, de onde já tiramos a história das marchas em Washington. Hoje, em vez de um verbete, trazemos uma coluna de opinião.  Vicki Eaklor, a autora, é membro […]

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