Mais espaço para o conservadorismo

Ontem, o Papa Bento XVI publicou um documento que facilita a conversão de anglicanos para o catolicismo, autorizando esses religiosos a manterem parte das suas tradições e ritos.  Com a decisão –  a maior aproximação já acontecida entre as duas igrejas, separadas desde 1533 -, o Vaticano aceita a conversão ao catolicismo de pastores casados – o matrimônio não é permitido para padres ordenados pela própria Igreja Católica.

Mas não é por isso que abordamos o assunto, e sim pelo que motiva a migração do anglicanismo para a igreja católica: muitos fiéis (notadamente no Reino Unido, em que as comunidades são mais tradicionais) estão descontentes com a liberalização em curso na Igreja Anglicana. A instituição permite a ordenação de mulheres há décadas (mais recentemente, até nos cargos mais altos) e homossexuais, e celebra o casamento entre pessoas do mesmo sexo – chegando mesmo a abençoar o casamento entre dois pastores.

O casamento tradicional dos pastores anglicanos Peter Cowell e David Lord (centro, entre seus padrinhos e madrinhas)

O casamento tradicional dos pastores anglicanos Peter Cowell e David Lord (centro, entre seus padrinhos e madrinhas)

Ou seja: longe de expressar uma abertura na Igreja Católica, o acordo indica a firmeza do catolicismo em se manter conservador. Não surpreende: desde o início de seu papado, Bento XVI expressou preferir uma comunidade mais rígida e mais coesa (ainda que menor) a uma religião liberal demais. Em contrapartida, há quem acredite que isso pode acelerar ainda mais a modernização do anglicanismo, que a muito custo sobreviveu unido às tensões que quase levaram a igreja, criada quando o rei Henrique VIII rompeu com o papa Júlio II, a mais um cisma.

junho dragÉ uma coincidência interessante que isso aconteça logo na semana em que repercute entre nós a divulgação do calendário laico, que defende a transformação de feriados religiosos em eventos sociais. Concebido pelo Coletivo de Gays, Lésbicas, Transexuais e Bissexuais de Madri (Cogam)  como uma provocação ao clero, o calendário reinterpreta a arte sacra com referências a sexo e à estética queer. Se não bastasse isso, a assexuada Virgem Maria do catolicismo foi representada por transexuais (quanto aos homens presentes nas fotos, não achei informação nenhuma – não sei se pela cegueira da mídia aos homens transexuais, ou se os autores do calendário realmente ignoraram essa parcela da população LGBT).

dezembro trans

Quanto ao objetivo principal do calendário, acho que a Igreja exerce influências muito mais graves sobre a sociedade do que a mera formalidade de considerar o feriado “religioso” (posso estar num meio muito não católico, mas não conheço ninguém que realmente aproveite as datas para ir à igreja). Quanto às fotos, eu gostei – o trabalho é ousado, bem feito e, na minha opinião, nada ofensivo.

Não é preciso nem comentar que a iniciativa foi atacada por religiosos. Abordagens sexuais da religião são vistas como um profundo desrespeito, não raro sendo censuradas onde a influência da fé é mais forte. Basta lembrar do caso da obra “Desenhando em Terços”, de Márcia X, cuja censura provocou o cancelamento da mostra que a expunha em 2006. A religião não permite a liberdade de expressão que seus próprios seguidores exigem.

Em entrevista à BBC, O presidente do Cogam, Miguel Ángel González, questionou: “Mas também não é uma provocação a onipresença da igreja e a negação da homossexualidade por parte do clero, fazendo uso dos seus ícones? A arte está aí para isso: para romper os esquemas.” A arte é um bom indicador os valores de um tempo. Se as obras sacras de outrora retratavam o sofrimento e o êxtase, é porque esses eram componentes importantes para a fé da época. Se hoje a arte contesta o cristianismo, é porque os valores que sustentam essa (e outras) religiões estão em cheque.

O desejo de manter intocados os ícones, então, é um reflexo da vontade dos cristãos tradicionais em deixar tudo inalterado, assim como a aproximação entre os católicos e os anglicanos conservadores.

Uma resposta para Mais espaço para o conservadorismo

  1. Daniel disse:

    Também acho irritante a onipresença da igreja católica e a negação dos homossexuais por parte do Clero, mas não sei se não considero ofensivas as fotos. Quero dizer, se eu fosse católico, não gostaria de ver meus ícones de espiritualidade caricaturizados de qualquer forma, da na mesma medida (?) em que não gosto de ver a imagem estereotipada do homossexual nos programas humorísticos. Isto não quer dizer, no entanto, que eu considere errado ofender (no caso do calendário, fique claro)! Acho que ofensa, força e desobediência civil são necessárias em muitos momentos, e este me parece um deles. A questão é de coerência, para mim. A intenção foi sim ofender – não os santos e seus fiéis, mas a imutabilidade do catolicismo. Pois então que se assuma o trabalho como ofensa provocativa.

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