A luta contra a AIDS e a Era de Aquário

Outubro é o mês da história LGBT, e procuramos refletir isso em nossas traduções. Na semana passada, falamos sobre as primeiras marchas em Washington. Hoje, trazemos um relato que resgata os tristes dias das primeiras mortes pela AIDS.

A Caminhada contra a AIDS, a Era de Aquário, e pessoas como eu

Karen Ocamb

A maioria de nós não se emociona com eventos históricos, DSC_4195 raramente parando para pensar que uma vez aconteceu algo importante naquele dia.

Os feriados religiosos, por outro lado, exigem envolvimento – nem que seja apenas comprar presentes e dividir o pão.

Mas para pessoas como eu, LGBTs e já com uma certa idade, certos eventos são tão históricos como espirituais, senão religiosos – eventos como a Caminhada da APLA contra a Aids no domingo.

Atrevo-me a dizer que muitos, se não a maioria, dos mais de 30.000 caminhantes cadastrados participaram pela bondade do seu coração, não pela necessidade de FAZER ALGUMA COISA para combater a impotência avassaladora que nos possuiu durante o tsunami da crise da AIDS entre 5 de junho de 1981 – quando o CDC publicou um relatório dos médicos LA Michael Gottlieb e Joel Weisman sobre os primeiros 5 casos de homens gays com uma nova doença rara – e 1995, quando os inibidores da protease foram aprovados pelo FDA. Até o final daquele ano, estima-se que 9,2 milhões de pessoas no mundo tenham morrido de AIDS.

A morte em massa de gays nos Estados Unidos começou a diminuir no próximo ano. Na 11 ª Conferência Internacional sobre Aids em Vancouver, em 1996, cientistas anunciaram que uma terapia de combinação de medicamentos poderia transformar a AIDS de uma sentença de morte imediata a uma doença crônica controlável. E a doença começou a passar de homens gays – que então já haviam criado organizações de apoio para a educação, prevenção e tratamento de pessoas com HIV/AIDS – para outras populações com problemas acesso a saúde.

Em Los Angeles, na verdade, o HIV/AIDS apareceu pela primeira vez na Clínica de DSTS no Centro de Serviços Comunitários Gays, em 1979. E, como os gays começaram a ficar doentes e morrer dentro de algumas semanas – e outros simplesmente desapareceram – o centro criou uma central de atendimento por telefone para tentar responder a tantas perguntas tão assustadas quanto possível, sem explicações científicas claras. Essa central de atendimento cresceu lugar ao AIDS Project Los Angeles, que também começou a oferecer capacitações sobre a AIDS com médicos como Mark Katz, que lutavam não só contra a ignorância sobre a doença, mas também contra a hostilidade da sociedade e do governo. Pelo menos 25% da sociedade, de acordo com a pesquisa Pew Research mais recente, concordou com o pronunciamento do Reverendo Jerry Falwell, que disse que “a AIDS não é apenas um castigo de Deus para os homossexuais, é castigo de Deus para a sociedade que tolera os homossexuais”.

Então a comunidade LGBT veio em sua própria ajuda, criando e financiando novas organizações. A Caminhada da APLA contra a AIDS Bradley foi criada por Craig Miller, que tinha 25 anos na época. Os organizadores esperavam arrecadar US$ 100.000 naquele 28 de julho de 1985 – mas a estrela de cinema Rock Hudson tinha acabado de anunciar que tinha AIDS e 4.500 caminhantes apareceram nos estúdios da Paramount em Melrose – arrecadando $ 673.000.

Perdi a primeira Caminhada contra a AIDS – eu ainda era relativamente nova em LA, e meio que ainda estava no armário. Mas eu acompanhei as notícias sobre ela. E é aqui que os números – de cinco homens gays em Los Angeles em junho de 1981 para 7.699 casos de Aids e 3.665 mortes por AIDS nos E.U.A. até o final de 1984 – se tornam pessoais.

Eu recém havia produzido a cobertura dos Jogos Olímpicos de 1984 para as afiliadas da CBS News – que foi minha última tarefa após dez anos de CBS News – e eu comecei a estudar para ser uma dramaturga, tendo aulas de teatro com a incrível Salome Jens.

Foi lá que aprendi minhas primeiras lições sobre a AIDS.

Um jovem que Salomé dizia estar destinado à grandeza como ator/diretor repentinamente foi parar na sala de emergência com uma doença cerebral inexplicável. Salomé correu para perto dele; ele morreu três dias depois. Na aula, sussurrava-se que ele era gay e teve a nova doença. Depois disso, vários jovens atores vigorosos começaram a definhar. Ninguém sabia o que estava acontecendo; todos tinham medo.

Quando Johnnie Pipkin internou-se pela primeira vez no hospital, ele foi mantido em isolamento, sua comida era frequentemente deixado do lado de fora, e fomos obrigados a usar máscaras, luvas e uma bata cirúrgica antes de vê-lo. Ele queria tanto ser tocado – sua família havia simplesmente lhe abandonado -, e nós – a trupe de atores, seus companheiros de AA, seu ex-amante – éramos as únicas pessoas que aquele jovem de alma boa, outrora descarado e engraçado, tinha para amá-lo.

Não avia uma ala ou ambulatório para AIDS (5P21) na época, e uma crise de Johnny o levou para o hosptal do condado onde, por não ter plano de saúde, ele foi colocado em um quarto grande, junto a homens heterossexuais com uma variedade de doenças. Eles não se importaram muito com o “gay pervertido” escondido atrás da cortina do hospital.

Outro ataque deu-lhe um quarto todo seu. Mas como o County era um hospital escola da USC, ele era refém dos caprichos da equipe de enfermagem, por vezes, cruel. Muitas vezes ele foi obrigado a suportar os estagiários repetidamente furando-o com agulhas como uma almofada, tentando, muitas vezes sem sucesso, encontrar uma veia. Eu queria gritar para eles – para exigir que eles parassem de tratá-lo como se ele não era humano. Mas em vez disso Johnnie gritou para mim, pedindo-me para não aborrecê-los para que não se recusassem a fornecer a medicação para dor quando ele mais precisava dela, à noite.

Então, eu blasfemava contra Deus. E eu me repreendia por não ser Jesus, não sendo capaz de entrar, estender minhas mãos e curá-lo. Eu estava totalmente impotente.

Eu falhei com Johnnie, também. Antes que ele perdesse a voz para o câncer em seu esôfago – o câncer que se somava à infecção por fungos na boca, à variedade de fungos em seu corpo e aos vírus agindo como Pac-Man em suas entranhas, como se a Aids foi comê-lo vivo – Johnnie pediu que eu o ajudasse a morrer. Era fácil, sério – ele insistiu. Ele beberia uma garrafa de uísque ou duas, desmaiaria, e então eu seguraria um travesseiro sobre seu rosto. Eu disse que não – eu não iria ajudá-lo a renunciar a sua sobriedade e morrer com o demônio do álcool gritando em seu cérebro. Eu ainda tenho conflitos com essa decisão.

Um dia antes que Johnnie morresse em 1986, ajudei a enfermeira domiciliar a erguer seu esqueleto de sua cama para a cadeira de rodas, para que ele pudesse olhar mais uma vez para o seu precioso Silver Lake Garden. Eu não sabia como dizer adeus, então eu só disse que eu iria vê-lo amanhã. No dia seguinte, um domingo, eu estava falando em uma reunião do AA em Pacific Palisades, quando de repente senti uma ordem espiritual para falar sobre o que estava acontecendo com os meus amigos gays. Falei com o coração, e várias pessoas choraram, inclusive eu. Quando cheguei em casa, descobri que Johnnie morreu enquanto eu falava. Eu sabia. Eu pude senti-lo.

Johnnie Pipkin foi a minha segunda morte por Aids. A primeira foi a do ator/ antor Stephen Pender, no início daquele ano. Eu estava com Stephen quando ele morreu. Eu tinha ficado com ele dia e noite, à medida que seus amigos iam e vinham de seu quarto na ala Betty Ford do Cedars Sinai Hospital. Stephen foi meu padrinho no AA e, milagrosamente, ele lembrava de mim nos meus primeiros dias de sobriedade, na reunião atrás da porta vermelha em Greenwich Village. Não deixá-lo ficar sozinho quando morreu foi a minha maneira de agradecer a ele e todos os homens gays por estarem comigo quando eu lutava contra a morte pelo vício. Muitas vezes me perguneio: por que eles e não eu?

Stephen Pender morreu no dia 15 de março de 1986. Ele tinha 35 anos. Nesse ano eu andei na Caminhada da APLA contra a Aids. Eu chorei o caminho inteiro. Eu chorei porque Stephen tinha recém aparecido em “Hill Street Blues”, e falava-se em retomar sua carreira – talvez o começo de sua carreira na TV, depois de dois musicais na Broadway. Eu fazia parte de um grupo de amigos que cuidaram de Stephen quando ele estava doente – limpando sua casa todos os dias, cozinhando alimentos macrobióticos, tentando Cantina multidão (ADJ) BW exercícios espirituais alternativos, com os quais ele não se importava muito na verdade – os 12 passos dos AA eram espiritualidade suficiente para ele – e tentando abraçá-lo sem mover o cateter de Hickman em seu peito. Todo o tempo nós sabíamos que ele estava definhando lentamente e não havia nada que pudéssemos fazer para salvá-lo.

Nessa primeira caminhada, eu chorei a perda de Stephen e a minha própria impotência. Chorei pela perda de Johnnie, que estava definhando nessa época – mas queria saber tudo sobre a Caminhada contra a AIDS: quem estava lá, o que aconteceu, qual foi a sensação de estar com tantas outras pessoas passando pela mesma coisa.

A sensação era de amor. Era de um elo comum, forjado a partir de tristeza e raiva e perda, sabendo que os estranhos ao seu lado também sabiam no fundo de suas almas qual era a sensação do coração partido e daimpotência – e, ironia da ironia – também sabiam que quanto mais profunda a dor, mais espaço para o amor.

Parecia que a Era de Aquário estava sobre nós. A era de paz e da compreensão que muitos cantamos quando os nossos entes queridos estavam sendo convocados para lutar na guerra do Vietnã, alguns voltando para casa em sacos, alguns mentalmente e emocionalmente perdidos – todos mudados.

No início, a despedida foi semelhante – dizendo adeus aos amigos na pista, quando se preparavam para lutar no exterior em uma guerra em que eles não acreditam – e dizendo adeus aos entes queridos, quando entraram em hospitais para o tempo final.

cadeira de rodas Mas a Aids foi diferente. Agora meus amigos estavam literalmente morrendo nos meus braços. Uma geração de amigos e colegas. E aqueles que caminhavam ao meu lado conheciam a profundidade daquele amor e daquela perda, também. Era o tipo de conhecimento compartilhado que poderia curar o mundo, se o mundo quisesse ouvir.

Mas o mundo não deu ouvidos para nós, então andamos. E a nossa caminhada levou à coragem de ver e ajudar outro amigo a morrer. E a nossa visibilidade era uma posição orgulhosa e desafiadora contra os Jerry Falwells e Ronald Reagans do mundo, que – em nome de Deus – condenaram a todos nós.

E a Caminhada contra a AIDS permitiu que lutássemos com os nossos corações. No início dos anos 90, o famoso cantor e ativista da People With AIDS Coalition (PWA) Michael Callen iria se despedir de nós com sua canção, “Love Don’t Need a Reason” – uma canção sobre o amor autêntico, sem vergonha. O refrão diz

0011 Pois o amor não precisa de um motivo

O amor nem sempre rima

E o amor é tudo que temos por agora

O que nós não temos é tempo.

Michael cantou essa música na Marcha em Washington de 1993, ainda que seus pulmões estivessem cheios de sarcomas de Kaposi. Ele morreu naquele 27 de dezembro – apenas horas depois que eu o deixei – Eu era uma de seus amigos e cuidadores.

Nos dias de hoje, Michael é melhor conhecido como o cara cantando em falsete em “Where the Boys Are” no filme sobre AIDS “Filadélfia”. Foi aí que a maior parte da América aprendeu sobre a Aids – e, em particular, sobre o Sarcoma de Kaposi. Essas são as manchas roxas que o personagem de Tom Hanks mostrou em seu peito durante a cena do tribunal.

Danny-Warner Sabíamos sobre os sarcomas. Na verdade, assim como a lipodistrofia ensinou a todos nós como abandonar a “imagem corporal”, os sarcomas nos ensinaram sobre o desapego da vaidade. E o ato de abandonar todos os preconceitos em relação a como um homem gay deve parecer – e ser – era em si um ato de enorme coragem espiritual. Homens como Danny Warner, um dos co-fundadores em 1983 do extinto LA Shanti em West Hollywood – uma das primeiras organizações em HIV/AIDS do mundo – se despiram da vergonha e foram ao trabalho e a eventos com marcas bem visíveis de sarcoma no rosto.

Agora, à medida que me preparo para publicar este post, aquelas 30.000 pessoas estão caminhando pelas ruas de West Hollywood e Los Angeles. Eles estão caminhando por suas próprias razões. Mas eles também estão caminhando para Johnny Pipkin e Pender Stephen e Michael Callen e Warner Danny – e para pessoas como eu, que se assumiram por causa da AIDS, que aprenderam a amar tão profundamente por causa da AIDS, e que continuam a sofrer sozinhas em pequena e grande escala.

Awla 08 A Caminhada da APLA contra a AIDS hoje é histórico – ela marca o 25o aniversário do evento. Também marca onde estivemos – na vanguarda espiritual, os artistas pavimentando a estrada de tijolos amarelos para a Era de Aquário.

Mas devemos prestar atenção ao eco desses passos, porque mais
uma vez o HIV está aumentando entre os jovens homossexuais, enquanto a homofobia e o estigma ainda nos garantem um discreto apoio das mulheres e pessoas de cor.

Então, deixe os aplausos dos apoiadores e a luz da verdade agirem sobre os caminhantes hoje. Amanhã, o dinheiro arrecadado pode salvar uma vida e capacitar uma nova geração para a AÇÃO! LUTEM! PAREM A AIDS!

3 respostas para A luta contra a AIDS e a Era de Aquário

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  2. Claudio F. disse:

    Parabéns pela tradução! Como trabalho com HIV/AIDS por ter passagem anterior no movimento não-heterossexual, pessoalmente este texto me atingiu.

    E com certeza, as ações de prevenção na população jovem devem ser reforçadas. Os não-heterossexuais são mais vulneráveis devido à sociedade reforçar a transgressão de atos sexuais não-heterossexuais e ortodoxos. Na realidade, o que acontece é que o jovem que se descobre não-hétero acaba provando o sexo desprotegidamente porque ‘o que ele está fazendo é errado’.

    A discussão do bare-backing é importante de ser feita também. Bem como o crescimento de jovens que nasceram com HIV e “não tem nada a ver com isso” (minha população alvo).

    Dêem uma olhada em http://www.aids.gov.br para dados em relação aos jovens não-HT no Brasil.

  3. […] é, oficialmente, o Mês da História LGBT. Se já constam aqui no Homomento duas traduções voltadas para esse propósito, essa semana resolvemos nós mesmos refletir a respeito do tema. Ao longo dessa última semana do […]

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