Malcom X era bissexual. Aceitem isso.

Dia 20 de Novembro é o Dia da Consciência Negra no Brasil – data importante em um país com histórico escravista e racista como o nosso. Aproveitando a oportunidade, buscamos, para a tradução da semana, um texto que abordasse tanto a questão negra quanto a LGBT: encontramos um interessante protesto de Peter Tatchell, do Guardian, a respeito do Mês da História Negra e do Mês da História LGBT. Você pode ler a nossa tradução ou o original em inglês.

Malcom X era bissexual. Aceitem isso.
por Peter Tatchell

Outubro é Mês da História Negra na Grã-Bretanha – uma maravilhosa celebração da enorme, importante e valiosa contribuição que os negros têm feito à humanidade e à cultura popular.

Também vale a pena comemorar que muitos dos principais ícones negros foram lésbicas, gays, bissexuais ou transgêneros (LGBT), mais notadamente o herói da libertação negra nos EUA Malcolm X. Outros LGBTs negros a serem destacados incluem a cantora de jazz Billie Holiday, o escritor e ativista de direitos civis James Baldwin , o cantor e compositor soul Luther Vandross, a cantora de blues Bessie Smith, o poeta e contista Langston Hughes, o cantor Johnny Mathis, a romancista Alice Walker, o ativista dos direitos civis e organizador da Marcha de 1963 em Washington Bayard Rustin, a cantora de blues Ma Rainey, o dançarino e coreógrafo Alvin Ailey, a atriz, cantora e dançarina Josephine Baker, o medalhista olímpico Greg Louganis, o cantor e compositor Little Richard, a ativista política e filósofa Angela Davis, a cantora e compositora Tracy Chapman e a cantora e drag queenRuPaul.

Poucos destes proeminentes ícones negros LGBT estão listados no site mais completo sobre o Mês da História Negra no Reino Unido, que hospeda as biografias de notáveis homens e mulheres negros. Na seção sobre personalidades, somente Angela Davis é mencionada e seu lesbianismo não é reconhecido. O site não consegue identificar a maioria dos figuras públicas e históricas negras que são LGBT. O Guia Oficial do Mês da História Negra no Reino Unido é igualmente omisso. Por que essas omissões? Os negros não são uma massa homogênea heterossexual. Onde está o reconhecimento da diversidade sexual dentro da história negra e de suas comunidades?

Em contraste, o Mês da História LGBT, que acontece no Reino Unido em fevereiro, dedica uma seção inteira do seu site para as vidas dos líderes negros LGBT, e exibe links para os sites do Mês da História Negra. Lamentavelmente, essa solidariedade não é recíproca. Nos sites do Mês da História Negra, eu não consegui encontrar uma seção LGBT ou um link para o Mês da História LGBT.

É bem possível que isso não seja intencional, mas às vezes o Mês da História Negra parece o Mês da História Negra Heterossexual. Negros LGBT famosos não são reconhecidos e celebrados. Ou a sua contribuição para a história e cultura negra é ignorada, ou a sua sexualidade é varrida para fora de suas biografias.

Um bom exemplo dessa negligência é a negação em torno da bissexualidade de um dos maiores heróis modernos da libertação dos negros: Malcolm X. A falta de reconhecimento talvez não seja surpreendente, dado que alguns dos seus familiares e muitos ativistas negros têm feito grandes esforços para negar suas relações com pessoas do mesmo sexo e suprimir o reconhecimento da integralidade de sua sexualidade.

Por que essa fachada? Que diferença faz se Malcolm X era bissexual? Será que isso diminui sua reputação e conquistas? Claro que não. Se ele era gay, hetero ou bissexual, isso não deveria fazer diferença. Sua importância continua, independentemente da sua orientação sexual. Contudo, muitas das pessoas que o reverenciam parecem relutantes em aceitar que o seu herói, e o meu, era bissexual.

A bissexualidade de Malcolm X é mais do que apenas uma questão de verdade e factualidade histórica. Nunca houve qualquer pessoa negra com destaque e reconhecimento global semelhantes aos de Malcolm que tenha sido publicamente reconhecida por ser gay ou bissexual. Jovens lésbicas, gays e bissexuais negros podem, como os seus semelhantes brancos, muitas vezes se sentir isolados, culpados e inseguros quanto à sua sexualidade. Eles seriam beneficiados pela presença de modelos positivos, que tiveram sucesso na vida, para dar-lhes confiança e inspiração. Quem melhor do que Malcolm X? Ele inspirou o meu ativismo pelos direitos humanos e foi um pioneiro na luta pela liberdade dos negros. Ele pode inspirar outras pessoas LGBT também.

Neste momento, não há uma única pessoa negra viva, cujo nome seja conhecido no mundo inteiro e que também seja abertamente gay. É por isso que a questão da sexualidade de Malcolm X é tão importante. Ter um ícone gay ou bissexual negro de renome internacional iria ajudar muito no combate à homofobia, especialmente nas comunidades negras e particularmente na África e no Caribe, onde a homossexualidade e a bissexualidade muitas vezes são desprezadas como uma “doença de homem branco”.

Então, quais são as evidências da orientação bissexual de Malcolm X? A maioria das pessoas se lembram dele como o principal líder nacionalista negro americano da década de 1960. Apesar das desvantagens de sua retórica anti-branco, de seu separatismo negro e de sua superstição religiosa, ele foi o principal porta-voz da consciência, orgulho e auto-ajuda negra na América. Ele falava com eloqüência e rebeldia feroz em nome da liberdade e da inspiração para os negros.

A sexualidade mutante e complexa de Malcolm nunca foi parte da narrativa de sua vida até a publicação da aclamada biografia realizada por Bruce Perry, Malcolm – The Life of a Man Who Changed Black America. Perry é um grande admirador e defensor de Malcolm X, mas isso não o impede de fazer críticas. Ele escreveu os fatos, baseado em entrevistas com mais de 420 pessoas que conheceram pessoalmente Malcolm em várias fases da sua vida, desde a infância até o seu trágico assassinato em 1965. Seu livro não é uma crítica destrutiva como alguns críticos negros afirmam, é exatamente o oposto. Perry apresenta uma história honesta e “redonda” da vida e das realizações de Malcolm que, na minha opinião, é muito mais comovente e humana que a mais conhecida (mas um pouco hagiográfica) The Autobiography of Malcolm X: As Told To Alex Haley.

Baseado em entrevistas com os amigos mais próximos de Malcolm, Perry sugere que os líder da libertação negra dos EUA não era tão solidamente heterossexual como seus colegas da Nação do Islã e do nacionalismo negro sempre afirmaram. Ainda que Perry não faça da sexualidade de Malcolm uma grande parte de sua biografia – na verdade, esse é um aspecto bastante minoritário dela – ele não se coíbe de escrever sobre o que ouviu em suas várias entrevistas.

Ele documenta muitas relações de Malcolm com outros homens e suas atividades como profissional do sexo, que durou pelo menos um período de 10 anos, de sua adolescência até seus 20 e poucos anos, como descrevi mais detalhadamente em um artigo anterior para o Guardian. Embora Malcolm tenha se casado mais tarde e, tanto quanto sabemos, abandonado o sexo com homens, suas relações sexuais anteriores com homens sugerem que ele era bissexual e não heterossexual. Abster-se de sexo gay depois de seu casamento não muda os fundamentos da sua orientação sexual e não significa que ele era totalmente hétero.

Perto do fim de sua vida, as idéias de Malcolm estavam evoluindo em novas direções. Politicamente, ele gravitava para a esquerda. Guiado pela fé, depois de sua viagem a Meca, ele começou a abraçar o Islã mainstream, não-racial. Sua mente estava se abrindo a novas idéias e valores.

Se não tivesse sido assassinado em 1965, Malcolm poderia ter eventualmente se associado ao movimento de libertação gay e lésbica, como fizeram Huey Newton dos Panteras Negras e a líder Black Power Angela Davis, como parte da luta pela emancipação humana. Em vez disso, para servir a sua agenda política homofóbica, por mais de meio século a Nação do Islã e muitos nacionalistas negros têm reprimido o conhecimento das relações homossexuais de Malcolm. É chegado o tempo para que o Mês da História Negra conte a verdade. Malcolm X era bissexual. Aceitem isso.

9 respostas para Malcom X era bissexual. Aceitem isso.

  1. Eduardo disse:

    Muito bom o artigo!
    Parabéns!!

  2. Paulo disse:

    Esse texto me lembrou uma discussão ocorrida há alguns anos entre o GGB e a revista Veja. A publicação criticava Luiz Mott por ele tirar celebridades mortas do armário. Dizia que pouco importava se Santos Dumont fosse gay ou hetero. Pois a resposta do professor era: por que os gays não podem ter ícones? Se tanto faz a sexualidade de Dumont, por que então omiti-la? Concordo com o autor do texto do Malxom X e com Mott: temos direito à história, como os negros e os judeus. Por que só nós não podemos escrever a nossa? Aliás, falando em Consciência Negra: Luiz Mott argumenta que Zumbi era homossexual. ;)

  3. Thiago disse:

    É um erro supor que, porque alguém contesta o governo dos EUA, começa a politicamente gravitar para a esquerda. Isso é chavão, e pode ser muito falso. Tanto que hoje em dia nada mais reaça do que, de um lado, os islâmicos, e de outro os movimentos negros que rejeitam o movimento gay como algo que os afete. A extrema-direita pode muito bem ser o oposto político do establishment norte-americano. No mais, um artigo interessante, que repassei para diversos amigos, ou negros e ou gays.

  4. Tomás Amaral disse:

    Há uma polêmica sobre essa questão se Malcolm era ou não era bissexual inclusive nos EUA. O autor da tese não conseguiu convencer a muitos. O fato é que uma biografia póstuma que não consegue elementos suficientes de embasamento nem deveria entrar nesse mérito. Pois como foi dito acima o mérito de Malcolm não passa por sexualidade. O motivo que fez a comunidade negra americana criticar essa biografia e rebater essa informação foi o de que o autor, além de ser homossexual e poder ter nisso um interesse de fazer tal afirmação, não tem elementos seguros para fazer sustentá-la. Eu admiro vários gays, bissexuais e héteros na história. Então não é de maneira alguma qualquer tipo de preconceito que me impulsiona a questionar essa tese… O fato é que como quem acompanha de perto a biografia e os depoimentos em vídeo deixados por Malcolm, a mim ele simplesmente não parece gay… Primeiro o cara era um gigolô machão com várias mulheres, depois um marido islâmico que vê na família e em Betty, sua esposa, a base de sua vida e tal… Não é muito verossímil essa tese. E o autor não era vivo na época, então depois que o cara morre podem falar qualquer coisa. O Malcolm em várias passagens condena muito o adultério e promiscuidades. Ele era um reliigioso muito rígido. Se fosse qualquer outro, poderíamos pensar que isso era fachada, que ele poderia trair sua esposa com homens. Mas uma das principais características de Malcolm era seu caráter altamente inflexível. Simplesmente, não era próprio do Malcolm falar ou defender uma coisa e praticar outra. O Malcolm era do tipo que se fosse gay, seria assumido. Ele enfrentava qualquer tipo de preconceito, afinal ele é virou um ícone da história por isso. Tem até uma passagem em sua primeira biografia que ele desdenha de brancos que conheceu em sua época de malandragem que praticavam orgias e sodomias. Eram infiéis e faziam troca de casais. Ele criticaria isso para depóis trair sua esposa escondido com homens? Essa hipocrisia não é própria dele, sinto muito. Depois que um biógrafo leviano levantou a questão, cada um pensa o que quer. Eu prefiro analisar direto a fonte e ter minha avaliação do que confiar em argumentos de terceiros…

  5. sauro disse:

    longe de qualker preconceito querendo ou ñ tenho q concordar com o colega acima ñ podemos afirmar q uma pessoa era ou ñ homossexual simplesmente pelo fato de terceiros dizerem ainda mais quando esses terceiros tem interesses suspeitos e aproposito vcs estão confundido um suposto momento da vida dele com a suposta opção sexual dele msm q ele tivesse tido relaçoes com homens enquanto se prostituia e depois tenha se casado ñ faz dele um homosexual uma vez q se uma pessoa tem sua iniciação sexual com pessoas do sexo oposto e depois escolhe pelas doo mesmo sexo ñ faz dela hetero.
    caros colegas ñ se trata de uma simples fofoca mas da histori de um verdadeiro icone da historia,eu creio q todos tem o direito de supor algo mas por favor ñ afirmem algo ao qual ñ podem provar

  6. Revelador disse:

    Adão era homossexual !!!
    Viva aos ícones gays !!!

  7. Maria Eduarda disse:

    A sexualidade não faz diferença quando uma pessoa ou um grupo luta por uma causa nobre. Sexualidade não define caráter! E não faz diferença e é perfeitamente compreensível: era carismático e charmoso demais! Homens e mulheres o queriam! E duvido que mulheres brancas não se encantavam por ele.

  8. kanella disse:

    mais um motivo para admira-lo viva Malcom X e abaixo a homofobia!!

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