Carta Capital e a fome gay de informação

Folheando a Carta Capital dessa semana, centrada na polêmica abordagem da Lei da Anistia feita pelo Programa Nacional de Direitos Humanos, tive uma agradável surpresa: uma matéria de 3 páginas sobre homossexualidade masculina na Índia atualmente. Lembrando que há seis meses a sodomia foi enfim descriminalizada por lá, o artigo traz informações interessantes que fazem lembrar a distância entre legislação e realidade social. Nos conta que um clima de clandestinidade ainda paira sobre a vida gay indiana, que é bastante restrita à classe média.

Além das boas informações, com um trabalho competente de pesquisa, fotografia e entrevista, fiquei muito contente com a temática. Estamos acostumados a ler matérias sobre LGBTs apenas quando alguma polêmica os traz à tona: seja uma manifestação grave de homofobia – como o caso de Uganda, que chamou a atenção da comunidade internacional – ou seja uma controversa discussão em torno de leis. As histórias da reportagem, que dariam muito mais pano pra manga do que simples três páginas, são tão ricas que nos fazem inclusive questionar a importância de assuntos da moda, passados e repassados em sites de notícias.

Não entendo muito da profissão, mas percebo que às vezes o jornalista se perde procurando pautas de mainstream sem perceber a abundância de histórias que o cerca. Quando falamos de gays, trajetórias individuais de orgulho ou mesmo de conformismo serviriam como boa representação da realidade que nos cerca, cumprindo o papel essencial do jornalismo enquanto provedor de informação.

Quando constato a pobreza de conteúdo das ditas revistas gays que circulam por aí, mais preocupadas em ensinar a “dieta do tanquinho” do que em contar como vivem os homossexuais no Brasil e no mundo, e depois leio matérias como essa, sinto o peso da falta de uma mídia gay forte e representativa. O problema não é o fato de existirem revistas gays absurdamente semelhantes à Nova ou à Cláudia, mas o fato de não existir uma publicação mais séria para dar a opção. Assim, nas bancas, “gay” entende-se por “sarado”.

Ler a matéria da Carta Capital foi um discreto lamento e um suspiro de alívio, porque ao passo que senti a falta de me sentir bem informado em relação à comunidade, percebi que sempre teremos o interesse de bons profissionais inseridos em outros veículos midiáticos.


Nota:
Maurício Horta e Willian Vieira são os autores da belíssima reportagem da Carta Capital. Para quem gostou da abordagem vale a pena conferir o blog, twitter (@24tz) e flickr dos jornalistas. Neles eles relatam as histórias das viagens pela Ásia. Excelente trabalho, serve tanto para conhecer as peculiaridades da cultura oriental como também para reavaliar nossos axiomas ocidentais e verdades  inquestionáveis. Termino o post com um incentivo à leitura e uma demonstração da qualidade do texto do 24 Time Zones:

“Embora durmam juntos, não são gays. Sim, homens indianos tendem a demonstrar carinho entre si em níveis que ocidentais identificariam necessariamente como gay. Mas demorará muito ainda para que nós consigamos entender o que cada olhar que se troca no metrô ou cada elogio pode realmente significar”

[Texto por Pedro; nota por Mariana]

4 respostas para Carta Capital e a fome gay de informação

  1. quantotempodura disse:

    Grande post! Fiquei feliz de ter conhecido o blog. Já assinei!

  2. Gabriel disse:

    puxa, muito interessante seu texto. eu me sinto como você. nunca tinha comprado essas revistas e quando finalmente comprei fiquei me perguntando cadê a seriedade nisso. fazer uma revista sobre as melhores baladas, manuel do beijo não sei o que, a drag que é hit na web com uma música que fala palavrões reforça o senso comum equivocado que as pessoas têm. nem todo gay é purpurina e arrasa e ouve cher. onde estão textos sobre homofobia no brasil, gays na india, manuel de como sair do armário, dicas de relacionamento sem nenhum quiz?

  3. Gabriel disse:

    *escrevi manuel, mas é manuAl, obviamente.

  4. […] outros, de peças e momentos específicos, que acabam caindo nesse enredo – aqui, aqui e aqui, por […]

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