8 de março: um dia para pensar no sexismo

Sempre que dizem que algo é “coisa de mulher” ou “coisa de homem” fico muito incomodado. Mulher é mais cuidadosa, homem tem mais coragem, mulher é mais delicada, homem é mais bruto, mulher é mais madura, homem é mais inteligente. E segue. Ad infinitum.

Talvez isso se relacione com o fato de eu ser um homem que tem uma das atribuições mais “de mulher” de todas: a atração pelo sexo masculino. Acostumadas a supor o comportamento e as aspirações dos indivíduos com base em gênero, muitas pessoas acabam ficando confusas, não sabendo o que esperar de mim. Dentro dessa esquemática, meu maior sonho seria copiar cada trejeito da mulher, afinal, por gostar de homens, não seria concebível eu cultuar uma masculinidade minha. Esperam, por fim, uma tentativa tosca de imitação do universo feminino, que resultaria em um dos mais clássicos estereótipos: a bicha.

Mas a minha preocupação com qualquer tipo de sexismo vai além de eu, como homossexual, ficar sem lugar na hora em que os homens vão jogar futebol e as mulheres lavar a louça. Tem muito pouco a ver com sexo, na verdade: o incômodo aqui é a total rejeição à individualidade dos sujeitos. Porque não é possível que desde crianças as pessoas já tenham de gostar de determinados brinquedos, desenhos e atividades voltadas para o seu gênero, sob o risco de serem chacotados em ambiente escolar e até familiar. Que as meninas sejam educadas para agradar, limpar e manter tudo em ordem, enquanto os meninos ganham as mordomias de suas mães – dando origem a uma sociedade em que o homem estupra e a mulher tem vergonha de reivindicar prazer sexual.

Toda vez que me xingam de viado por aí – e sempre, SEMPRE são homens que o fazem – me entristeço não só por mim, mas pelas mulheres que são esmagadas pelo esquema sexista e pelos homens que dele não usufruem. Mas me entristeço, principalmente, pelos homens e mulheres que o reafirmam diariamente, tão preocupados em ser machos ou fêmeas que esquecem de ser o que são.

Feliz dia.

5 respostas para 8 de março: um dia para pensar no sexismo

  1. Daniela disse:

    Olá. AMEI seu texto. Perfeito, perfeito.

  2. Thalita disse:

    Parabéns pelo texto. Eu sou mais uma das pessoas que se incomoda com a “coisa de mulher” ou “coisa de homem”.
    Quando eu era jovem comecei a fazer bicos em buffets infantis aos fins de semana pra comprar meu saxofone e sempre ao final da festa tinham as “lembrancinhas”. Eu estava exausta na porta esperando todos irem embora e um garotinho de aproximadamente 5 anos pegou o brinquedinho laranja e a mãe instantaneamente arrancou da mãe dele colocando de volta na caixa dizendo que o brinquedo tinha “cor de menina” e que ele deveria pegar o azul ou verde que eram “cor de menininho”. Eu tinha uns 14 anos e foi quando começou minha indignação com o sexismo. Ele tinha 5 anos, queria apenas o brinquedo com a cor que mais chamava atenção. Me incomoda mesmo.

  3. Gabriel disse:

    maravilhoso esse texto. mesmo. inspirador.

  4. Paulo disse:

    Proposta parecida com a que você defende está em “Sexo e temperamento”, da Margaret Mead. Hoje em dia ela é meio ridicularizada, porque as pessoas já se conformaram com a ideia de que homens se comportam de tal maneira e mulheres de outro. Besteira. Mulheres são tão escrotas e fantásticas quanto os homens.

  5. Eduardo disse:

    Parabéns!
    O texto está excelente!!

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