O retrato cor de rosa da Veja

Caros leitores da área do marketing, por favor, me auxiliem a compreender as últimas semanas da revista Veja. A julgar pela foto meiga de José Serra em uma capa e as frases inventadas atribuídas ao antropólogo Viveiros de Castro, a estratégia de divulgação do veículo guinou para o “fale mal, mas fale de mim”. A última capa da revista, que traz como destaque a crescente facilidade em assumir-se gay na adolescência, não escapa às críticas, nem mesmo – ou principalmente – de integrantes da tal “Geração Tolerância”.

Não estamos dizendo aqui que o fato retratado pela revista não exista. Ninguém seria tolo ao ponto de rejeitar a ideia de que assumir-se gay ou lésbica (a matéria não trata de bissexuais ou transgêneros) em nossa sociedade está mais fácil hoje. O assunto deixou de ser tabu, avançamos consideravelmente no plano dos direitos, conhecemos cada vez mais pessoas assumidas – na mídia, em nossas relações sociais – para termos e citarmos como exemplo. E o fato de os adolescentes conseguirem encarar cada vez mais cedo o momento de se assumir deve sim ser encarado como positivo. É um sinal de que essa identidade não é mais vista como um fardo a carregar ou algo a esconder.

O problema está na simplicidade com que a reportagem trata essa mudança, uniformizando a abrangência desse fenômeno da “tolerância” e apresentando-o de forma totalmente acrítica. Em primeiro lugar, o problema é de texto: o tom da matéria é quase comemorativo, e tende a minimizar as dificuldades encontradas pelos personagens. Nesse mundo cor de rosa, o preconceitopraticamente não existe mais. Em segundo lugar, a matéria cita uma série de pesquisas descontextualizadas, em que os números são jogados de forma a comprovar a hipótese dos repórteres. Podemos citar uma passagem:

“Em 1993, uma aferição do Ibope cravou um número assustador: quase 60% dos brasileiros assumiam, sem rodeios, rejeitar os gays. Hoje, o mesmo porcentual declara achar a homossexualidade “natural”, segundo um novo levantamento com 1.500 adolescentes de onze regiões metropolitanas, encabeçado pelo instituto TNS Research International.”

Novamente, não estamos descartando a possibilidade de o percentual de brasileiros a “rejeitar os gays” ter diminuído de 93 para cá. Apenas sustentamos que “achar a homossexualidade ‘natural’” não é um argumento suficiente para validar a ideia de que temos, ao menos entre os jovens, 60% de simpatizantes em vez de 60% de homofóbicos. Se pensarmos em natural como “referente à natureza”, um avanço pensar na homossexualidade como algo “natural” e não uma “perversão”, mas também devemos manter em mente o fato de que a cor também é determinada por fatores “naturais”, e isso não impede a existência do racismo. Por outro lado, se pensarmos em “natural” como “comum, rotineiro, sem dificuldades”, temos que levar em conta a compreensão da pergunta e a autocensura de quem responde. Para continuar citando pesquisas: uma pesquisa conduzida em 2008 pela Fundação Perseu Abramo – um dado que a matéria da Veja poderia ter pesquisado – constatou que cerca de 90% das pessoas concordava com a “existência de preconceito” contra os LGBT, ainda que aproximadamente 70% dos entrevistados negassem ser, eles próprios, preconceituosos em relação a essa população. Onde foram parar os intolerantes, então? Eles se revelam em outras perguntas: 92% dos entrevistados por essa pesquisa concordaram com a frase “Deus fez o homem e a mulher com sexos diferentes para que cumpram seu papel e tenham filhos”, 62% defendiam que “casais de gays ou de lésbicas não deveriam andar abraçados ou ficar se beijando em lugares públicos”, e 40% acreditavam que “a homossexualidade é uma doença que precisa ser tratada”.

Enquanto os números acima exigem o uso da interpretação e da compreensão da subjetividade dos envolvidos, existem números muito mais claros que a matéria em questão deixa de lado. Estamos falando das estatísticas levantadas pela ONG Conexão G no grupo de favelas cariocas conhecido como Complexo da Maré. Essa organização sustenta que nas comunidades do Rio ocorre pelo menos um incidente por dia de violência motivada pela sexualidade da vítima. Certamente, nem todos os ataques devem envolver integrantes da tal “Geração Tolerância”, mas já nas primeiras linhas da reportagem que o jornal O Dia fez sobre essa estimativa encontramos o depoimento de uma lésbica de 24 anos:

“Além de bater nos gays e travestis, os bandidos ficam ameaçando estuprar as lésbicas. Fazem um terror psicológico insuportável”, conta. “Quando descobrem uma lésbica no morro, dizem que a garota só se tornou homossexual porque não conheceu homens de verdade. E que darão ‘um jeito’.”

A reportagem, portanto, ignora o que se passa nas camadas mais pobres; a própria reportagem frisa que “A tolerância às diferenças (…) está se tornando uma regra – especialmente entre os escolarizados das grandes cidades brasileiras” (grifo meu). Esse retrato da juventude a partir de uma juventude específica, a juventude de classe média e principalmente classe média alta, não surpreende – afinal de contas, é a Veja. O que surpreende é notarmos que mesmo aqueles que são retratados pela reportagem sofrem ou sofreram alguma discriminação em virtude de sua homossexualidade. A família de Lucas El-Osta, por exemplo, levou o rapaz ao psicólogo e à igreja quando soube de seu interesse por outros meninos; Hector Gutierrez era chamado de “bicha” no colégio. Mesmo dentro do universo de Veja, a tolerância não é instantânea. Fora dele, ela não se estende a todos os casos (quem é LGBT, tem cerca de 20 anos e sofreu algum grau de bullying por isso no colégio, por favor “levante a mão” na caixa de comentários).

Uma outra característica importante a ser destacada nessa “tolerância” retratada pela revista é que ela se aplica à homossexualidade, mas não necessariamente inclui outras sexualidades. Os bissexuais foram deixados de fora da reportagem, e mesmo a fronteira tênue que confunde homos e bissexuais na adolescência não é sequer mencionada. Na “geração que rejeita os rótulos”, a reportagem só encontrou homossexuais. Se formos pensar em termos de identidade de gênero, o buraco é ainda mais embaixo. Se nem bissexuais entram na matéria, o que esperar em termos de identidades trans? Evidentemente, esse é mais um silêncio da “Geração Tolerância”. Podemos ir mais longe: uma entrevistada salienta: “nunca fiz o tipo masculino nem quis chocar ninguém com cenas de homossexualidade”, um casal afirma “andar de mãos dadas às vezes, nunca se beijando em público”. A tolerância dessa juventude é maior quanto menos visíveis estiverem as diferenças, e a própria sexualidade é vista como motivo para “choque”.

Recapitulando então: essa mudança de mentalidade não acontece em todos os casos, nem com todas as identidades sexuais; é um fenômeno que, como a matéria mostra, é característico de uma geração específica e, principalmente, não acontece em todos os lugares nem em todas as classes sociais. Não estamos dizendo que essa mudança não é importante. Só defendemos que ela precisa ser minimizada e compreendida dentro do contexto social em que ela acontece.

E agora que já demos à Veja a atenção que ela merecia, que tal pararmos de dar corda à estratégia de dar audiência para matérias ruins? A última Piauí tem uma reportagem bem legal sobre mudança de sexo!

19 respostas para O retrato cor de rosa da Veja

  1. levanto minha mão!
    Ótima matéria!
    Aliais nem parece que acabamos de sair de uma fase de ‘orgulho hétero’ nacional, hahahahah.
    Como sempre a Veja só se reafirma como uma péssima revista.

  2. João V. Borges disse:

    |o|

    Veja cegando.

  3. Benjamin Bee disse:

    Toda a crítica de sites gays que estão comentando a matéria da Veja é correta. Tudo que se tem comentado está certo.

    Entretanto… Eu também vi nessa matéira algo que me parece ser o foco central dela. Os pais da classe social de leitores da revista.

    A revista parece chamar a atenção desses pais para olhar que o ônus de sair do armário tem sido sempre dos filhos. Muitas vezes, senão quase sempre, a “revelação” causa enorme sofrimento em todos, nos pais e nos filhos.

    A matéria parece apontar aos pais que o que importa é a felicidade dos filhos. Isso significa que os pais, os melhores conhecedores dos próprios filhos, mais até do que os filhos mesmos, são os primeiros a terem a responsabilidade de abrir o armário em que seus filhos se encontram.

    Dividir a carga torna para ambos os lados mais fácil de carregá-la, já que a carga continua, que é o preconceito da sociedade em geral.

    Resta agora saber se vai funcionar. Se funcionar, vamos ter que celebrar mesmo.

  4. Paulo disse:

    Eu pesquisei 10 anos de matérias sobre homossexualidade na Veja (1993 a 2003) e minha conclusão é de que a revista funciona como um manual de conduta para homossexuais de classe média: sejam bonitos, ricos e sobretudo discretos. É triste constatar que a revista continua defendendo essa visão obtusa da homossexualidade.

    Ademais, há algo de perigoso nessa matéria. Ao retratar um mundo de faz de conta e defender que os jovens estão acabando com os preconceitos, a revista sugere que a situação está se resolvendo por si só. Que a “evolução” da sociedade está solucionando, sozinha, o problema da homofobia. Assim, não é necessário garantir os direitos LGBT por lei. É um belo argumento contra o PLC 122, não?

  5. Laura disse:

    \o (Levantando a mão)

  6. Benjamin Bee disse:

    Será, Paulo? Agora fiquei preocupado. Não deixa de ser razoável essa sua projeção. Eu sou um otimista inveterado e é muito bom ouvir de alguém que o que penso tem, como de fato sempre tem mesmo, o outro lado da moeda.

    O PLC 122 está demorando demais. Mas também não será que os pais leitores da Veja, que agora podem olhar melhor a realidade de seus filhos, não poderão vir a apoiar o PLC 122 com o intuito de proteger os filhotes?

    Também esse é um bom argumento para os jovens. Apoiar o PLC 122 irá dar garantias aos filhos que virão um dia. Não será?

  7. Nathália disse:

    Muito boa tua crítica, Carol!
    Essa matéria da Veja tenta minimizar completamente os conflitos, violências e sofrimentos causados pelo machismo e pela homofobia. É uma análise extremamente superficial. É evidente, cotidianamente, a existência profunda da homofobia, inclusive entre os jovens – não precisamos nem comentar isso.
    Também a matéria de vez em quando cai em uma pilha de querer desvalorizar o movimento LGBT, como se isso fosse “coisa do passado”, como se as lutas ainda não fossem super presentes, importantes e necessárias – como nessa passagem: “Os jovens que aparecem nas páginas desta reportagem […] são o retrato de uma geração para a qual não faz mais sentido enfurnar-se em boates GLS (sigla para gays, lésbicas e simpatizantes) – muito menos juntar-se a organizações de defesa de uma causa que, na realidade, não veem mais como sua.”
    Essa tentativa de neutralização do conflito leva a pensar que “a causa” não é mais necessária, é ultrapassada – os jovens de hoje não se ligam, e não devem se ligar, segundo a reportagem, nessas questões. Afinal, como tu escreveste, tudo é cor-de-rosa, então vamos esquecer essa coisa de militantes ultrapassados.
    Uma tentativa explícita de divulgar um ideário de amortecimento do preconceito e da violência, e da necessidade de luta. Lamentável.

  8. Nathália disse:

    Concordo muito com o comentário acima do Paulo. Isso é muito preocupante.
    Não tem nada pior do que essa pilha atual de neutralização do conflito. Fazem a mesma coisa com o machismo. E isso tudo sempre em perspectivas normatizadoras de condutas e concepções de gênero.

  9. L disse:

    Eu só queria deixar de ser invisível, inodor, incolor e “inexistente” enquanto bissexual. Eu já ouvi de homossexuais que bissexualidade não existe, você que é mal resolvido. Aposto que a turminha aí da Veja concorda.

  10. Benjamin Bee disse:

    Quem diz que bissexualidade não existe é tão preconceituoso quanto os héteros que acham que homossexualidade é doença, vício, opção e outros que tais.
    E vou bem além, distinguir gênero de orientação sexual também. Meu gênero é gay, o seu gênero é bi, o do vizinho é lésbica, do outro é trans, tem um cujo gênero é 25% gay 75% hétero, e por aí vai

  11. Bárbara disse:

    _o/

    A Veja constantemente perde pontos comigo. Quando posso, tento explicar para algumas pessoas que, na referida revista, o máximo que podemos sentir é uma passageira satisfação em virtude da ilusão de realidade criada pela equipe.

    Ora, pegar uma situação polêmica, bater o pó e gritar aos quatro cantos em tom positivo é algo válido, mas há que se considerar os vários aspectos do que realmente ocorre na sociedade.

    Revelar-se na adolescência de fato tem ocorrido com mais frequência, mas é ridículo ignorar que essa “segurança” atual para se assumir está dissociada da nossa constante luta em favor do respeito à liberdade.

    Apesar disso, não estou decepcionada com a reportagem. A intenção da revista Veja, pelo que percebi em todos os anos que a li, foi de amenizar os conceitos. Seja em relação aos homossexuais ou qualquer outro assunto.

    A revista, na minha opinião, se consolidou no mercado com essa proposta, ou seja, divulgar matérias que tratam de assuntos aleatórios de maneira “limpinha”, na constante ignorância disfarçada.

  12. Eros disse:

    Me preocupa muito isto:
    “o retrato de uma geração para a qual não faz mais sentido enfurnar-se em boates GLS”
    Até

  13. Eros disse:

    (opa! o comentário anterior foi incompleto)

    \o/ (mais um braço levantado)

    Me preocupa muito isto:
    “o retrato de uma geração para a qual não faz mais sentido enfurnar-se em boates GLS”
    Até que ponto isto é realmente real? Não sei se de fato a lógica das interações sociais entre homoafetivos superou a dependência de “células de vivência homossexual”, bolhas onde se permite estabelecer relações (públicas), retroalimentadas pela repressão externa e pelo medo interno. Tendo a achar, inclusive, que tal lógica é um dos principais fatores que indicam e estimulam essa espécie de apartação entre orientação sexual, e que ela, ao contrário do que a Veja diz, faz muito sentido sim (dentro desse sistema) e é sim para onde a geração tolerância se dirige.

    Concordo com Paulo que seja muito triste essa imagem de homossexual classe média bem-sucedido que a Veja sustenta (“bonitos, ricos e sobretudo discretos”, discretos como os jovens gays da Geração Tolerância parecem ter orgulho de ser).
    Também confesso que a possibilidade da Veja estar tentando despolitizar indiretamente os jovens gays (por intermédio, ou não, de seus pais) é assustadora -alguém me disse aqui na faculdade que o antiintelectualismo é a primeira característica de um governo totalitário, não sei por que me lembrei disto agora. Prefiro acreditar no contra-argumento de Benjamin Bee, que é mais confortável.

    Me indigna saber como alguém pode acreditar nessas matérias. A universidade em que estudo, dada o caráter elitista de seu critério de seleção, é composta principalmente de alunos de classe média (quero que me provem o contrário), arrisco, classe média alta.
    Mês passado ela foi posta em pauta em diversos meios de comunicação (me falaram que passou até no Fantástico) devido a um escândalo envolvendo um jornal dos alunos de um determinado curso, em que foi lançada uma mensagem de cunho homofóbico (http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2010/04/jornal-de-alunos-de-farmacia-da-usp-pede-para-jogar-fezes-em-gays.html).
    Como se pode ver, a “Geração Tolerância”, composta de jovens da classe média, tem um limite, e este limite é a humilhação pública direta (como na questão polemizada), indireta ou disfarçada (como no Zorra Total).

    Abraços.

    Obs: Queria desabafar também: a Veja está destruindo tudo. Eu, como estudante de Ciências Sociais, já levei um baita susto com a reportagem ABSURDA sobre os antropólogos (para quem tiver curiosidade,
    http://alertabrasiltextos.blogspot.com/2010/05/farra-da-antropologia-oportunista.html, é engraçado!), recentemente veiculada pela revista.

  14. Rafael disse:

    Há uma questão política por trás da matéria da Veja. A intenção real, a meu ver, é nos convencer de que está tudo bem, que não há com o que se preocupar; pra quê aprovar uma lei que criminaliza a homofobia se não existe mais homofobia?

  15. Tony disse:

    Se eu me assumir lá no meu colégio( que faz parte do sistema Colégio Militar) com certeza vão me crucificar!!

  16. Tony disse:

    Veja, assim como a Globo, aliena!!!

  17. Henrique Amaro disse:

    Mão levantada!

    Tenho 22 anos e sempre sofri com preconceito, tanto na escola, como fora dela. inclusive pela família.

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