Eles contra nós contra eles

Uma coisa é fazer uso de um discurso sofista e conservador, dizendo que “não se pode ser preconceituoso com o preconceituoso”. Outra coisa é se propor um tratamento crítico das discriminações, sem categorizá-las identificando bons e maus de forma maniqueísta.

Os evangélicos, ou crentes como alguns preferem ser chamados, formam um grupo que tem sua própria vivência com a discriminação. Nossa cultura católica não gosta desses filhos rebeldes e taxa-os de fanáticos, ignorantes, etc. O “eu” brasileiro é homem, branco, católico e hetero, e pensa que qualquer sujeito que não se encaixa nesses padrões tem de estar à margem.

O que acontece é que as essas “minorias” exclusas, na busca por inclusão, não quebram o padrão masculino, branco, católico e hetero: apenas transgridem o que lhe diz respeito e continuam operando na lógica que lhes esmagou. Temos, assim, feministas brancas, católicas e hetero excluindo lésbicas; homens negros, católicos e heteros menosprezando mulheres e homossexuais; homens gays, brancos e católicos discriminando negros e mulheres e assim vai. Assim, embora partilhem da experiência de ser o “outro” social, todos esses grupos não-masculinos, não-brancos, não-católicos e/ou não-heterossexuais, dentro das infinitas combinações que podemos ter aí, brigam entre si por preciosismos e casualidades, sem a percepção de que continuam todos subjugados e diminuídos no meio em que se encontram. No caso dos gays versus evangélicos isso é muito mais acentuado; se nem movimentos sociais conseguem se conciliar, que dirá um religioso e um social?

Além disso, temos um fator importantíssimo que é o teor da doutrina evangélica. Num tempo em que o politicamente correto predomina e ser preconceituoso é feio, cafona, fora de moda, muitos neopentecostalistas têm uma postura de clara discordância em relação às práticas homossexuais. A polarização entre os dois grupos vem ficando ainda mais nítida com os debates no Congresso, especialmente em torno do PLC 122/06, que se na opinião de LGBTs é importante para criminalizar a homofobia, na opinião de muitos religiosos é absurda por vetar elementos constituintes do seu código de crenças. Essa questão separaria definitavamente os interesses de ambas as minorias e faria das lutas de ambos coisas totalmente diferenciadas, certo? Errado.

Acontece que a voz evangélica no congresso, ao tentar barrar medidas pró homossexuais, além de evitar o progresso dos direitos humanos no Brasil comete um equívoco ao fazer o interesse religioso pesar mais que o político na balança das prioridades. Quero dizer que esses evangélicos não podem esquecer que operam sob uma democracia liberal, e que lutar contra qualquer tipo de liberdade – religiosa inclusive, como buscam fazer com os cultos afrobrasileiros – significa lutar contra a própria, de certa forma.

É claro que é uma coisa muito séria dizer que os evangélicos têm de deixar a política pesar mais que a religião na balança de prioridades. Sabemos, afinal, que as religiões não funcionam dessa forma em sua episteme. Mas historicamente tem sido assim; as instituições religiosas vão cedendo às transformações sociais e suas doutrinas são reinterpretadas. Sabemos, por exemplo, que esses grupos evangélicos – e mesmo os católicos tradicionais – são essencialmente contra o divórcio, mas se dentro das igrejas pode-se falar bastante disso, fazer do casamento novamente um laço vitalício não está em questão em âmbito sociopolítico. Ninguém foi preso por discordar do divórcio, assim como ninguém seria preso por discordar da homossexualidade; as leis apenas buscam gantir que o direito de se divorciar e de ter relações homossexuais não fossem negados aos integrantes da sociedade em questão. E que, no caso dos homossexuais, não houvesse possibilidade de alguém difamá-los, tratá-los como doentes e promover um discurso odioso contra eles na esfera social.

Tomo como equívoco sobrepor interesse religioso a político porque sabemos que os evangélicos formem paradoxalmente um grupo político com interesses próprios no atual Estado brasileiro e ao mesmo tempo não formam grupo nenhum, uma vez que estão espalhados da esquerda à direita, com direito a boas doses de centro. Então ao mesmo tempo que alguns dizem que se deve reconhecer que faz parte do processo democrático se formar uma junta evangélica que queira lutar por seus interesses, o argumento é falho porque esses senhores reconhecem a laicidade de seu ofício e se sujeitam a jogos partidaristas que no fim das contas pouco dizem respeito a princípios bíblicos.

Fui longe, dei um nó e agora volto pra enfim ir direto ao ponto: os interesses dos homossexuais e dos evangélicos são os mesmos; a garantia do reconhecimento de sua igualdade e da manutenção de suas liberdades dentro do nosso esquema civilizacional que é a democracia liberal. O que acontece é que determinada parcela do grupo evangélico não pensa dessa maneira, querendo garantir sua primazia de seu recém conquistado lugar enquanto homens, evangélicos, brancos e heterossexuais, lutando contra os direitos de mulheres, não-evangélicos, não-brancos e não-heterossexuais. Uma prática realmente nada nobre, mas que não determina que os crentes sejam cruéis, preconceituosos ou maus.

O que luto contra é uma perspectiva dualista, de que os evangélicos são os piores inimigos dos gays. Não o são, e pensar assim é uma coisa muito séria, muito feia. Evangélicos não são animais estúpidos e fanáticos. Talvez alguns sejam, mas alguns LGBTs também o são. Em verdade, é bem mais possível que um evangélico trate bem a uma lésbica do que uma pessoa que declaradamente “adora gays”, porque não só esse discurso de “adorar gays” é totalmente homofóbico como os mesmos evangélicos que pregam a homossexualidade como antinatural também pregam a solidariedade e o amor. Deve se considerar ainda que muitos desses crentes, por mais que na igreja sejam coniventes com certos tipos de discurso, não necessariamente compactuam com eles na prática e nem mesmo percebem isso. Não há que se rotular todas essas pessoas e presumir que elas pensam e vivem a religiosidade da mesma maneira.

Sou contra o preconceito contra evangélicos porque sou contra qualquer tipo de preconceito. É problemático assumir uma premissa como “aquilo no que eles acreditam é errado” porque é circular. Enquanto um diz que é errado ser algo, outro responde que é errado acreditar em algo. Cada surdo gritando sua verdade para fazer-se ouvir mais alto. Lutar pela garantia dos direitos humanos é lutar pela liberdade de opinião, e como venho enfaticamente falando desde o início do texto, isso é algo prezado por ambos os grupos. É claro que a linha entre a opinião e a difamação é tênue, coisa que todo esse debate em torno da lei da homofobia deixou bastante claro, mas antagonizar não é solução.

Atribuir a evangélicos o papel de nossos maiores inimigos é análogo a tapar o sol com a peneira. É mais confortável e mais fácil, afinal, apontar como opositor um pequeno grupo que declaradamente não gosta de homossexuais do que a grande maioria (inclusive a própria “comunidade gay”), cujo preconceito ganhou tanta malandragem que sabe até mesmo se disfarçar de progressista e pró direitos humanos. Não digo que não se deva brigar com a empreitada esquizofrênica dessa bancada no congresso e nem que não seja nítido o quanto pastores como Silas Malafaya promovem o preconceito. Apenas que não está nessas atitudes a origem da repressão a LGBTs, e que lutar SÓ contra elas, ver nelas o grande X da questão, é ilusório. E é, além de tudo isso, reafirmar um preconceito de origem católica. E entrar de vez na corrida maluca em que as minorias, preocupadas demais com a sua fatia do bolo, não se importam com todas as outras que também querem comer.

10 respostas para Eles contra nós contra eles

  1. Oi, Pedro

    Não acredito que uma coisa anule a outra no caso do link ao post lá do blog. Estado laico e Estado ateu são coisas diferentes. Temos feriados religiosos, crucifixos em órgãos públicos e a frase “Deus seja louvado” impressa em notas de 1 Real. Se queremos mudar nossa base constitucional precisamos olhar o todo, não só os “evangélicos”, que são, além de tudo, minoria.

    Assumir que grupos religiosos têm direito a pressão é assumir que também outros grupos o tenham. A bancada armamentista tem, e armas são aparentemente, segundo um discurso puramente racional, mais perigosas do que religiões. Em ambos os casos, o problema não está no revólver ou na bíblia, mas em quem os empunha.

    Grande abraço,

    • Claudio F. disse:

      Bom ver de novo o blog movimentado.

      Achei excelente o texto, concordo com boa parte dele. Mas acredito que devido às nossas fraquezas enquanto seres humanos, os “maus” evangélicos, ou seja, quem utiliza a bíblia como metralhadora giratória (caso do Silas Malafaia) se aproveitam de uma população toda para acumular poder e com este poder realizar atos conservadores deletérios para toda a sociedade, mas bons para seus bolsos.
      (Utilizei a boa resposta do Demori prá ilustrar)

      No ambulatório de AIDS, onde executei pesquisa, me deparei demais com isso. Não me cabe julgar uma pessoa vivendo com HIV/AIDS que torna-se evangélica (muitas vezes quando descobre o diagnóstico). Entretanto, me cabe tentar entender como ela vai lidar com uma doença tão impactante socialmente dentro de um meio completamente preconceituoso (e por isso vetor de ignorâncias). Além disso, é claro, como ela vai seguir o tratamento e como vai se prevenir também me interessa. Pois discutir sexo com pessoas tão fechadas para tal é muito complicado. Isso é um desafio na Saúde Coletiva e na prevenção da AIDS, aliás, desafio imensamente maior que distribuir camisinha em porta de boate gay. Levantei a possibilidade de grupo de risco evangélico, evidentemente oriundo de um comportamento de risco omisso as questões das DST’s e AIDS.

      E acredito sim nos evangélicos não preconceituosos, conheci alguns. Inclusive há as igrejas evangélicas progressistas, com pastores Gays! Então, na realidade depende de como se processa isso…

  2. Cris Spiegel disse:

    Oi. Coisa de uma ou duas semanas atrás, mandei ao blog por email o link do meu último vídeocast e gostaria de saber se de alguma forma esse post é uma resposta a ele e, caso não seja mera coincidência de assunto, peço o posicionamento claro do autor do texto sobre o vídeo já que isso me ficou obscuro. Caso uma coisa não tenha nada a ver com a outra, peço desculpas.

  3. Rafael disse:

    Interessante notar o lado, digamos, “perverso” dos movimentos sociais: o enrijecimento das identidades, assim como o uso dessas identidades nas relações de poder…
    Como sempre, um excelente texto! Parabéns!

  4. Ana A. disse:

    Ótima atitude lembrar alguns militantes que a luta é pelos direitos de LGBTs, e não contra os evangélicos :)

  5. walter disse:

    Tadinhos dos evangélicos.Fiquei realmente com dó,sensibilizado pelo ”preconceito” que eles sofrem.
    Vou fingir que o ativismo de ódio e antigay não é exclusivamente gestado, mantido e alimentado por religiosos.
    E vou elevar meu pensamento até o empíreo,e procurar crer que meus 78 direitos civis negados na realidade são uma demonstração de preconceito contra os meus opressores,que são discriminados em seu direito de me condenar ao inferno…

  6. Muito bom o texto ! Parabéns !

  7. Oscar Santos disse:

    Conheci o blog agora, e quero dizer que as discussões que encontrei por aqui são muito bem vindas a mim neste momento. Digo isto porque estamos nos organizando aqui em Passo Fundo – RS, e criando um coletivo LGBT. Estamos disseminando a discussão em vários grupos da cidade, principalmente na área da educação em instituições de ensino superior, mas temos o objetivo de realizar oficinas na rede pública. Tomei a liberdade de publicar este post no meu Blog: http://www.janeladaparedeazul.blogspot.com. Motivo: vivo escrevendo longos textos um tanto quanto impulsivos sobre esta questão evangélicos X LGBT’s, e sei que fujo um pouco do que foi exposto neste texto, opinião da qual compartilho. A repressão da comunidade LGBT tem um contexto histórico muito mais longo e complexo do que simplesmente atribuí-la inteiramente ao Malafaia, seus fiéis e outros. Outro ponto muito importante que o texto traz, é a desconstrução do discurso dos que se dizem “isentos de preconceitos”. Mostrar a hipocrisia de quem levanta as bandeiras feminista, LGBT ou do movimento negro, e não expande suas reflexões para as outras tantas diversas lutas sociais, é um caminho muito propício para a reconstrução de paradigmas que não são questionados.

    A partir de hoje, sou visitante do Homomento!

  8. Acho complicado o lance dos evangélicos particularmente, e dos cristãos em geral, poque o cristão mediano está à mercê de um conjunto de crenças milenares, e ele não “pode” sair assim, mudando suas crenças de uma hora pra outra. Além disso, eles acreditam em um livro como sendo divino (a saber, a Bíblia). Não quero aqui discutir quem acha isso idiota ou não, ou se os evangélicos acreditam em histórias da caronchinha, tem amigos imaginários, etc. O caso é: só o fato de imaginarem que não poderão mais ensinar seus ensinamentos milenares nos púlpitos de suas igrejas torna um projeto de lei numa “lei de mordaça” (como, aliás, chamam o PL 122/06: “mordaça gay”), e isso é alimentado por pastores mal intencionados e membros da bancada evangélica em geral.

    Confesso que esta situação toda me incomoda, porque eu, como cristão (já fui evangélico, mas hoje sou só um cristão “sem igreja”, rs), entendo que, para o evangélico (sem generalizar), não é uma questão de ódio dizer que a homossexualidade é pecado, e que um homossexual, se não se “converter”, vai pro Inferno. Contudo, a bíblia tem um discurso que ensina os cristãos a propagarem sua fé “pelo amor ou pela dor” (Jesus morreu por seus ideais, bem como os mártires e outros exemplos notáveis). Em uma passagem, um dos apóstolos diz que “mais interessa agradar a Deus do que aos homens”. Sendo assim, os evangélicos, embora não estejam disposto a hostilizar ninguém, também estão dispostos a ir até as últimas consequências para que a sua verdade seja propagada e ouvida.

    Ao mesmo tempo, me sinto incomodado, porque o cristianismo que eu sigo e acredito não suportaria uma situação em que você indiretamente faz uma pessoa se sentir mal por ser considerada “pecadora” por algo que ela sequer pediu (ser gay). No meu cristianismo, eu procuro uma solução para isso, e digo que perco o sono com isso, às vezes, porque eu ainda acredito em um Deus que não erra, embora acredite que alguns elementos da religião possam conter erros (como a Bíblia, por exemplo).

    Corro o risco de ser apedrejado pelo que vou dizer, mas creio que em algum momento a Ciência dará provas conclusivas de que a homossexualidade não é uma doença. Digo “provas conclusivas” porque andei conversando com muitos biólogos que nem são cristãos, nem homofóbicos, e estes dizem que afirmar que homossexualidade não é doença ainda é um assunto que divide os bancos acadêmicos devido à inconclusividade em que se está neste assunto, seja por motivos bioéticos, seja por falta de tecnologia para estudar mais a fundo a questão genética, e outras correlatas.

    Mas, só pra terminar, continuo sendo um cara de fé: acredito, pela fé na religião, que Deus não está preso às palavras de qualquer livro sagrado. E acredito, pela fé na Ciência, que ela está certa ao “convencionar” que homossexualidade não é doença.

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