Destaque da Semana: Casamento gay em Portugal

10 de janeiro de 2010

Se levarmos em consideração que até 1982 a homossexualidade era considerada formalmente como crime em terras lusas, não nos restam dúvidas de que a comemoração em torno da aprovação da proposta de lei favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo é mais do que merecida.

Nessa sexta-feira (08 de janeiro de 2010), a Assembléia da República Portuguesa aprovou a lei que colocaria o país junto dos 5 demais países europeus que também permitem o casamento civil entre gays. Ao que tudo indica, agora além da Holanda, Suécia, Noruega, Bélgica e Espanha teremos Portugal, consolidando uma Península Ibérica mais igualitária, ao menos no discurso.

Acontece que, o primeiro passo em direção da obtenção desse direito foi dado, mas mesmo com a aprovação defendida pelo primeiro-ministro José Socrátes, ainda se faz necessária a confirmação do presidente da república, Aníbal Cavaco da Silva. O presidente tem poder de veto sobre a lei, que nesse caso voltaria para votação na Assembléia. Caso contrário, se aprovada por Cavaco da Silva, os primeiros casamentos lusitanos começariam já em abril de 2010.

Presidente português Aníbal Cavaco da Silva e o primeiro-ministro José Sócrates

Embora Cavaco da Silva seja o primeiro presidente de direita eleito após 1974 (fim da ditadura Salazarista) poucos acreditam que ele vá vetar a lei, tendo em vista a ampla base favorável a mesma na própria Assembléia portuguesa.

A euforia em torno dessa primeira fase justifica-se não só na improvável recusa do presidente, como no nó desfeito na garganta de muitos portugueses que viram ainda em 2008 a possibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo se esfacelar ao ser, como eles próprios chamam, “chumbada” ainda na Assembléia.

Portugal, país em que maioria da população é católica e que no ano passado adotou medida controversa a respeito da doação de sangue, ao proibir homens gays alegando que estes constituem um “grupo de risco”, não foi preenchido unicamente de comemorações e festas com a aprovação do casamento. Além de protestos por parte da população, a própria bancada política encontra-se em constante conflito que parece agravado pela votação da lei.

A base de apoio é formada pela esquerda e pelos verdes, que juntos compõe a maioria das cadeiras. O restante divide-se entre aqueles que defendem questões morais e os que julgam essa como sendo uma questão de menor relevância frente aos problemas econômicos enfrentados pelo país, como a alta taxa de desemprego. A própria imprensa portuguesa grifou a postura adotada pelos comunistas como discreta e omissa:

Comunistas muito apagados do debate

Já o PCP, bastante calado durante o debate, declarou que os comunistas vão abster-se na votação dos projectos do Bloco de Esquerda e dos Verdes, uma vez que «tal como na anterior legislatura» o PCP «continua a considerar que esta é um matéria mais complexa cujo debate é necessário prosseguir», disse o deputado João Oliveira.

Vale lembrar que a a lei não contempla a adoção por casais homossexuais, que parece ser a próxima pauta dos ativistas uma vez que o casamento se concretize como já é esperado. Questionado a respeito dessa questão, o primeiro-ministro Sócrates, retrocedeu em seu discurso igualitário, alegando: “No casamento trata-se da liberdade individual. Na adopção é diferente, há o interesse de terceiros. O mandato do PS é com o casamento, não com a adopção.”

(obs.: A decisão do presidente não tem uma data exata, aguardaremos torcendo para que nas próximas semanas uma resposta positiva seja dada.)

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Milk: 30 anos depois

28 de outubro de 2009

Eis um nome que fora do eixo norte-americano certamente não significava muito, ou mesmo nada, até o começo de 2009: Harvey Milk. A produção e posterior premiação do filme de Gus Van Sant foram responsáveis pela propagação da imagem e até iconização do ativista, ao menos no cenário LGBT.

Sean Penn no papel de Harvey Milk (2008)

Sean Penn no papel de Harvey Milk (2008)

Não foram só a interpretação de Sean Penn e a qualidade do roteiro, posteriormente premiados com Oscars, ou mesmo a temática da história, pouco contemplada em geral pelo cinema do mainstream, que impulsionaram a bilheteria do filme. Percebe-se a presença de um tino comercial para o lançamento de uma película como essa, no contexto em que foi lançada. Além de resgatar com esmero a figura política de Milk, ela também reproduz o cenário conservador em que Harvey viveu e militou – e que, notadamente, não se transfigurou tanto assim até hoje.

30 anos depois: a semelhança dos cenários

A 27 de novembro de 1978, Harvey Bernard Milk foi assassinado em San Francisco. 30 anos depois, a data escolhida para a estréia de sua biografia cinematográfica, a população dos Estados Unidos enfrentava uma situação política de avanços e retrocessos. Foi em novembro de 2008 que ocorreu a aprovação da Proposition 8 na Califórnia, tendo o apoio de 52,24% dos cidadãos votantes e representando um largo passo para trás na luta pelos direitos igualitários não só no estado como no país: cententas de casamentos entre pessoas do mesmo sexo foram anuladas, e um direito que recém havia sido concedido lhes foi novamente negado. Em novembro, também, os norte-americanos foram às urnas para eleger seu novo presidente, Barack Obama.

Se em 1978 conferimos a primeira vitória política de um homossexual assumido, em 2008 foi eleito o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Ainda que sejam cargos e minorias diferentes entre si, é inevitável fazer essa associação; além do mais, tanto um quanto outro discursaram com a intenção de combater desigualdades e preconceitos na sociedade norte-americana, cada um dentro de seus alcances.

Na ordem social e midiática, também conferimos algumas semelhanças. No ínicio de 2009, com a Prop 8 recém aprovada – e muito contestada pelos homossexuais da California -, aconteceu o tradicional concurso Miss USA. A candidata predileta era justamente a californiana Carrie Prejan, que, indagada a respeito do matrimônio homossexual, se posicionou negativamente. Ao fim do concurso ela ficou na 2º posição, havendo especulação a respeito de um desfavorecimento por conta do comentário preconceituoso. Em contrapartida, Carrie recebeu o título informal de símbolo da luta contra o casamento gay. Até mesmo porque reafirmou sua opinião em entrevistas e aparições posteriores, dando voz ao discurso cristão.

Anita Bryant (1964) e Carrie Prejan (2008)

Anita Bryant (1964) e Carrie Prejan (2008)

Semelhante é o caso de Anita Bryant, ícone de beleza e famosa cantora/garota propaganda dos anos 60-70. Anita, que é retratada no filme, liderou a partir de 1977 uma espécie de cruzada pelos Estados Unidos contra a aprovação de leis favoráveis aos direitos homossexuais. Apelando para a fantasiosa “ameaça” que os gays representavam aos bons costumes e principalmente as crianças “indefesas e puras”, Bryant encabeçou a criação e foi a principal porta-voz do movimento “Save Our Children”.

"SIM, ANITA! Eu quero ajudar você a trazer de volta aos Estados Unidos a moralidade e Deus." Cartão-reposta distribuído pelo território americano para angariar fundos e recrutar apoio

Cartão-reposta distribuído pelo território americano para angariar fundos e recrutar apoio, com os dizeres: SIM, ANITA! Eu quero ajudar você a trazer de volta aos Estados Unidos a moralidade e Deus.

Sejam por essas, ou outras eventuais semelhanças mais sutis aqui não citadas, que uma maior identificação com a obra foram possíveis, acabando por sublinhar a trajetória de Milk no cinema e refletir diretamente na imagem do mesmo fora das telas.

A consagração do ícone

Fato é, que no dia 12 de agosto de 2009, o mesmo presidente Barack Obama distribuiu uma Medalha Presidencial de Honra à cidadãos que auxiliaram a melhoria nas mais diversas categorias do país. Harvey Milk foi agraciado com a medalha póstuma, num gesto que simboliza a forte revitalização de sua imagem, posterior ao filme, como símbolo da luta pelos direitos LGBT.

Outra medida considerável foi a recente assinatura de uma lei, pelo governador da Califórnia (também conhecido ator) Arnold Schwarzenegger, em que oficializa o dia 22 de maio como Harvey Milk day, em celebração a data de nascimento do político.

Acredito que, longe de minimizar a importância de Milk ou desmerecer a honraria, a lei evidencia bem a crescente relevância do nome no cenário atual, seja ligado a luta pelos direitos, como também, agora a reafirmação do mesmo como ícone da cultura gay.

milk 1

O caso de Milk é importante, pois acaba tornando mais nítida a inserção de uma figura primeiramente política em posterior referencial cultural. Principalmente em meios, como o LGBT, em que militância e cultura tem seus limites definidos por uma linha tênue que poucas vezes pode ser identificada.

Falar mais da biografia dele seria apenas tentar reproduzir uma imagem grosseira do que Gus Van Sant conseguiu captar com delicadeza e apuro. Resta inspirar-se, fazer repercutir o legado e levar adiante a luta de Harvey Milk.

* Embora o filme de 2008 tenha alcançado um número ímpar de espectadores, dando uma projeção internacional ao nome, não foi a primeira produção que se propôs a contar a vida de Harvey Milk. Em 1984 um documentário chamado “The Times of Harvey Milk” foi realizado e premiado com o Oscar de melhor documentário do ano.

(Edição final: Pedro)


Em busca dos valores tradicionais

14 de outubro de 2009
Você disse: "Até que a morte nos separe." Você não está morto ainda.

Você disse: "Até que a morte nos separe." Você não está morto ainda.

Essa é a estampa das camisetas da mais nova iniciativa que visa proibir o divórcio na Califórnia, EUA. Isso mesmo, depois da Prop 8, é o segundo passo em direção à uma interpretação mais fiel dos valores cristãos, tão apregoados pelos defensores da lei que baniu o casamento gay do estado. Não só a camiseta como toda a idéia foram idealizadas por John Marcotte, cidadão que se diz católico e defensor da família.

No dia 1º de setembro de 2009, ele mesmo deu entrada na Secretária do Estado da Califórnia à uma solicitação de reconhecimento e realização do que pede que seja chamado de: ATO DE PROTEÇÃO AO CASAMENTO DA CALIFÓRNIA 2010. No que consiste? A adição de um artigo na constituição do estado onde o divórcio seria proibido. Uma defesa ao retorno dos valores tradicionais, que nas palavras do rapaz: “Já começaram a ser retomados com sucesso a partir da aprovação da Prop 8.”

A petição realizado por John Marcotte

A petição realizado por John Marcotte

“O divórcio é tão artificial como o poliéster, o vidro, os bolinhos de creme…”

No site oficial do Ato, chamado Rescue Marriage temos essa e outras frases que denunciam o real intuito da proposta, que em nenhum momento se oficializa satírica, mas que com um pouco de atenção e lendo as entrevistas do próprio Marcotte, observamos ser uma resposta interessante à situação vivenciada pelos gays da região.
Utilizando-se de um humor sagaz aliado a intenção de expor as falhas no discurso dos defensores da Prop 8, John Marcotte utiliza um discurso idêntico ao dos engajados na proibição do casamento de pessoas do mesmo sexo, só substituindo isso pela palavra divórcio. Observe na entrevista realizado pelo site Cockeyed:

RC: Você irá as ruas coletar assinaturas para a iniciativa?

John: Iremos montar uma mesa na frente do Wal*Mart e pedir para que as pessoas assinem a petição que protege o casamento tradicional. Iremos questioná-las o porquê acham que o casamento tradicional é importante, então diremos que estamos tentando banir o divórcio.

Pessoas que aprovaram a Prop 8 não estavam tentando tirar os direitos dos homossexuais, elas só queria proteger o casamento tradicional. É por isso que estou confiante que irão apoiar a minha iniciativa, mesmo sabendo que dessa vez o direito delas é que será diminuído. Não apoiar seria hipócrita.

Nós também recolheremos assinaturas na frente do “Faces”, que é a maior boate gay de Sacramento.

Mais adiante quando questionado novamente sobre a interferência nos direitos dos casais responde que:
“Vivemos em uma sociedade “divórcio-promíscual”. O divórcio está na televisão, nos filmes, nos jornais, até mesmo nos livros didáticos de nossos filhos. Eu sou católico. Na minha religião divórcio é um pecado, e é completamente inadmissível.”

Ainda na mesma entrevista fecha com a seguinte afirmação:

RC: Parece que você quer proteger as crianças de aprender mais sobre o divórcio.

John: Eu não quero que o governo ensine os meus filhos que o divórcio é “normal” ou “legalmente permitido”. Essa conversa tem que ser feita dentro da família. É papel da família ensinar os filhos sobre o mundo real — não do Estado.

O artifício de utilizar os mesmos exemplos que na visão dos californianos justificava a aprovação da Proposition 8 não acaba aí, John Marcotte é enfático ao repetir em diversos momentos e em divertidos artigos publicados no site do ato, que Jesus em diversas passagens da bíblia condena o divórico e atenta ao fato dele não mencionar em nenhuma hipótese a existência ou mesmo condenação de gays. A frase na capa do site já denuncia: Jesus continuará te amando se você se divorciar – só que um pouco menos.

Em um dos ápices da sátira refinada que nos proporciona, discursa sobre o impasse que vivenciou ao saber de um caso ocorrido em Indiana, estado americano onde o casamento gay não é legal. Aconteceu que um casal de lésbicas, que casou-se em um estado onde o mesmo é permitido, solicitou o divórcio em Indiana, e o juiz negou, pois o estado não aceita a união de pessoas do mesmo sexo, logo não desfaz essa união também. Pois a partir daí o “católico” John apresenta que o juiz negava à elas o divórcio, mantendo assim os valores tradicionais, mas em contrapartida perpetuava um casal gay, ferindo os valores tradicionais. E pouco adiantaria desfazer o casal gay, favorecendo os valores tradicionais divorciando-as, pois o divórcio corrompe os valores tradicionais. Logo, ele botou nas mãos de Deus a decisão do que seria o certo nessa situação. Recorrendo ao livro sagrado e as suas citações conclui que ser gay é pecado, mesmo que Deus nunca tenha se referido a isso, mas que ser desquitado é ainda pior, pois “o que Deus uniu não cabe ao homem separar”.
A solução que apresenta é curiosa: “Os gays que se casaram não tem outra escolha que não permanecer casados, pois o desquite é o pior dos pecados, mas devem dormir em camas separadas e evitar o sexo, como os casais heterossexuais fazem. Igualdade acima de tudo.”

A campanha de defesa do casamento tradicional vem repercutindo e tomando grandes proporções, ganhou até vídeos promocionais:

E comentários nos telejornais do estado:

Embora muito inteligente e engraçada, nem todos pegaram o espírito da piada. Mas isso era previsto, pois quem é que vai rir ao ver a possibilidade de ter os seus direitos diminuidos? Não vejo aí um revanchismo, como uns e outros vem alegando, acredito que se aproxime mais de um trote inteligente, que usa os mesmos valores que vinham sendo defendidos até então, mudando apenas o foco, do gay para o “cidadão de bem”.
Mesmo tendo consciência de que a medida não será aprovada, pois altera a vida da maioria e não mais da minoria, não custa nada ficarmos atentos e verificar quais serão as desculpas arranjadas para que a medida não seja aprovada.

Arrisco o palpite de que Deus vai ficar muito triste com a hipocrisia que provavelmente observaremos, mas talvez fique um pouco aliviado, pois deixará de servir de escudo pra muita gente.


Destaque da Semana: Guido Westerwelle

3 de outubro de 2009

Essa semana tivemos a reeleição de Angela Merkel, que encabeçou a coligação entre CDU (União Democrata Cristã) e CSU (União Social Cristã), para mais um mandato como chanceler da Alemanha, resultado não inusitado, tendo em vista que Merkel é uma das figuras políticas mais solidas do cenário europeu atual. A novidade está no nome do vice-chanceler eleito, Guido Westerwelle.

Guido é de um partido que também estava coligado a candidatura de Merkel, o FDP (Democratas Liberais), mas enquanto o avanço nas urnas por parte dos partidos cristãos foi o segundo menor desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Democratas Liberais sentiram nessa eleição um aumento significativo nos votos. Nas ultimas eleições realizadas, em 2005, não haviam alcançado sequer os dois digitos decimais, e agora obtiveram 14,6% dos votos alemães.

Guido Westerwelle é assumidamente gay, já chegou a participar da versão alemã do Big Brother e anda pra cima e pra baixo com o seu parceiro Michael Mronz. O resultado é bom, mas não chega a ser inédito, afinal o prefeito de Berlim, Klaus Wowereit, também é gay assumido e isso não o impossibilitou de vencer as eleições da capital do país, assim como Hamburgo tem o curioso caso do prefeito atual, Ole von Beust, do partido conservador cristão, que também é gay.

Klaus Wowereit (E) e Ole von Beust (D)

Klaus Wowereit (E) e Ole von Beust (D)

A grande questão é que temos uma onda de otimismo envolvendo a escolha de Guido Westerwelle como vice-chanceler e ministro das relações exteriores. Ele é gay, ok. Mas não podemos ignorar que ainda assim, a coligação de Merkel é quem continua mandando de fato no parlamento, e isso é significativo pois o CDU e o CSU são os únicos partidos que condenam as medidas a favor dos homossexuais na Alemanha e em toda a Europa. Todos os outros partidos, inclusive o de Westerwelle, tinham um programa mais próximos do gay friendly, com exceção do partido Neo-nazista NPD.

O casal Michael Mronz e Guido Westerwelle

O casal Michael Mronz e Guido Westerwelle

E agora? Comemorar ou não? Cabe a visão de cada um, o passo de fato foi dado, mas bom mesmo é ficarmos atentos para ver o real desenrolar dessa nova configuração política alemã. Não podemos ignorar que na frente de uma das potências européias temos uma mulher e um gay, eleitos pelo povo, uma conservadora e um liberal, reflexo da pluralidade bem sucedida no país. Vamos torcer para que isso afete também os direitos à respeito da diversidade por lá.


Cultura nerd colorida

30 de setembro de 2009

Há muito vem se conversando aqui sobre os guetos e as diversidades dentro da concepção formada e divulgada de “mundo gay”. Por isso resolvi divulgar uma iniciativa que além de válida comprova que os interesses não devem, nem podem, ser generalizados, fato esse que causaria a mutilação da própria comunidade que prega a diversidade.

Falo aqui do Gaylactic Network que foi criado em 1986 na cidade de Boston, nos EUA, visando a divulgação e a discussão em torno das representações LGBT (ou até mesmo a falta delas) nas diferentes mídias, mas o diferencial é que dedicam-se à genêros tipicamente “nerds” como a ficção cientifica, mundos fantásticos e horror.

Hoje a Gaylactic Network já conta com 12 grupos afiliados, dentro dos Estados Unidos (exemplo do Lambda Sci-Fi (DC Area Gaylaxians) em Washington, DC) e também no Canadá (o Gaylactic Toronto Alliance, Toronto, Ontário).

Gaylactic_logo

O intuito de conectar os interessados que partilham interesses parecidos vem funcionando, desde grupos de discussão na internet até a organização de eventos, como o Gaylaxicon.

O Gaylaxicon

gaylaxicon

É um evento anual, realizado desde 1988, e sediado em diferentes cidades do país – já abrigaram o encontro cidades como Philadelphia (1992), San Diego (2004) e Atlanta (2007). Os participantes e organizadores encaram o evento como uma maneira de incentivar, divulgar e discutir assuntos que normalmente não teriam espaço nos convencionais, tradicionais e famosos encontros sobre o tema. Buscam então abordar tanto as publicações e produções independentes que abordam assuntos do interesse da comunidade LGBT, como debates mais especificos, como por exemplo, sobre o que é produzido no mainstream dos quadrinhos, repercussão de seriados com personagens lésbicas (de Xena a L World) e a inclusão de personagens gays nos jogos de video game.

Mesa de discussões do Gaylaxicon 2008 (Bethesda, Maryland)

Mesa de discussões do Gaylaxicon 2008 (Bethesda, Maryland)

Na edição de 2009, que será realizada dos dias 9 a 11 de outubro na cidade de Minneapolis, Minnesota, vemos uma programação plural, que contempla um variado número de interessados, seja na cultura geek, na queer, ou mesmo simples curiosos:

Do Gay Writers Do It Better? : Escritores heterossexuais conseguem abordar assuntos LGBT com sucesso ou necessariamente é preciso ser gay para tratar do assunto?

Lesfic Fantasy – Beyond the Blonde and the Brunette: Após o sucesso do casal Xena e Grabrielle, uma discussão a respeito dos novos rumos das histórias que tangem temas homoeróticos.

Putting the GAY in Games: Uma revisão das aparições de personagens gays nos jogos de video game.

Wonder Woman Appreciation Panel: O que faz a Mulher Maravilha ser um ícone, tanto dos homens quanto mulheres (gays)?

As mesas se dividem nos mais peculiares assuntos e recortes, podendo ser acessado na integra no site do Gaylaxicon. O número de frequentadores vem crescendo desde seu ano inaugural e já são esperadas pessoas de todo o país para a edição deste ano.

Caso os assuntos lhe despertem interesse vale ressaltar que por mais que nos encontremos geograficamente impossibilitados de comparecer, é só mandar um e-mail, ou se comunicar com eles através de algum dos vários meios que eles disponibilizam e ficar sabendo o que foi discutido. Afinal, tecnologia é com eles mesmo.


O que é, literalmente, ser homossexual?

9 de setembro de 2009

Muito nos é perguntado a respeito de como se sente um homossexual: como e quando “descobrimos” ser, e por que somos? Perguntas essas que têm as mais variadas respostas, satisfatórias ou não, isso quando as temos. Indo um pouco mais além, pergunto agora: O que na verdade somos?

Para obter um esboço da resposta, resolvi recorrer ao dicionário. Explico a escolha de um dicionário, é simples: queria ver qual é o significado comum, qual é o entendimento mais básico que é proposto sobre os gays. A primeira definição que encontrei vem do Caldas Aulete, na sua edição digital:

Homossexual 1 Ref. a homossexualidade (relação homossexual). 2 Que sente atração por e/ou tem relações sexuais com pessoas do mesmo sexo. 3 Pessoa homossexual (2).

A resposta oferecida é pontual, sem se aprofundar nem discorrer sobre o tema, cumprindo perfeitamente o papel de um dicionário. Sem maiores decepções, porém instigado, resolvi averiguar qual foi, se é que existiu, o progresso ao entendimento geral da sociedade em relação aquilo que é considerado “atípico”, nesse caso a homossexualidade.

Para isso, recorri novamente ao dicionário, ou melhor, aos dicionários. Me vali de um acervo considerável, com exemplares de variadas épocas e regiões nos quais fiz um pequeno levantamento dos significados propostos nos seguintes verbetes:

homossexual
homossexualidade
gay/guei
lésbica
lesbianismo

O recorte é simples e até mesmo excludente, no sentido que poderia consultar também palavras como safismo, pederastia ou termos associados à homossexualidade, mas limitei-os na crença de que teríamos, já aí, um resultado interessante. Para o texto não se tornar muito repetitivo, vamos apenas comentar os resultados aqui, mas quem quiser ver todas as definições encontradas pode acessar o PDF dessa pesquisa.

De acordo com o Dicionário Internacional de Psicanálise, o termo “homossexual” foi criado pelo escritor e jornalista austro-húngaro K.M. Benkert, também conhecido pela forma húngara de seu nome, Károly Mária Kertbeny, que foi uma importante voz na defesa dos direitos sexuais na época e até hoje é homenageado em eventos LGBT da Hungria. A palavra “homossexual” aparece publicada pela primeira vez em 1869, em um panfleto em que Kertbeny discute a proibição da sodomia pelo Código Penal prussiano. Em outros textos, o autor defendeu a ideia de que a orientação sexual era inata e que atos sexuais consensuais não deveriam ser matéria penal.

Manuscrito de Kertbeny em que aparece, pela primeira vez, o termo "homossexual"

Manuscrito de Kertbeny em que aparece, pela primeira vez, o termo "homossexual"

As concepções encontradas nos dicionários mais antigos a que tive acesso, no entanto, não apresentam uma visão tão amigável da homossexualidade. No Novo Diccionario Encyclopedico Illustrado da Lingua Portugueza, de 1926, o “homosexualismo” (grafia original) é descrito como um “vício sexual”. Em 1931, o Diccionário Prático Illustrado diz que “homosexuais” são homens, que praticam entre si actos contra a natureza” (grifo meu).

Não que não houvesse um termo para a homossexualidade feminina na época: em 1939, o Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa define “lesbianismo” como sendo “Um dos vícios sensuais contra a natureza; aberração do instinto sexual”. A preocupação em destacar o caráter aberrante dessa manifestação do instinto sexual é tão grande que deixa de lado a definição mais importante para o termo, ignorando completamente o fato de que um ato, para ser lésbico, precisa ocorrer entre duas mulheres.

Esse mesmo dicionário de 1939 traz o termo “homossexual” como um adjetivo, “Referente a atos sensuais entre indivíduos do mesmo sexo; que pratica esses atos”. Essa definição é semelhante à encontrada na maioria dos dicionários consultados, e é interessante notar como ela prioriza o ato, apresentando a identidade em segundo lugar. Vale ressaltar que essa definição já exclui a ideia de “vício”. A palavra “aberração” continua sendo vinculada ao verbete “lesbianismo” por muito mais tempo, aparecendo no Novíssimo Dicionário Ilustrado Urupês, de 1977.

Não é preciso nenhum acordo ortográfico para que um dicionário se torne ultrapassado

Não é preciso nenhum acordo ortográfico para que um dicionário se torne ultrapassado

Nos dicionários consultados, a primeira ocorrência da expressão “homossexualidade”, ocorre em 1953, no Dicionário Brasileiro Contemporâneo, tornando-se frequente a partir daí como sinônimo de “homossexualismo”. Falando em sinônimos, é interessante ressaltar que localizamos algumas ocorrências da concepção de homossexualidade como antônimo de heterossexualidade, o que evidencia a polarização entre sexualidade “normal” e sexualidade “desviante”

O dicionário mais recente consultado foi o Dicionário Didático, publicado em 2007 pela Editora SM. Espero não ser pura coincidência, mas é também o mais “acertado” por assim dizer. Embora a definição não seja completamente satisfatória (não traz distinção entre “homossexualidade”, palavra que preferimos, e “homossexualismo”, que consideramos inadequada, por estar muito ligada à ideia de patologia sexual), merece destaque por ser o único, dentre todos os que pesquisei, a definir a homossexualidade a partir da “atração sexual por indivíduos do mesmo sexo”, não necessariamente por atos homossexuais.

Sei dos muitos poréns podem ser apontados nesse levantamento (não utilizei todos os dicionários publicados, só os que tive acesso, assim como não só os anos são diferentes, como as editoras e autores). Mas acredito que já podemos notar aí um reflexo na mudança de concepções e abordagens à respeito do tema, o que seria por si só um avanço; Só que acho importante salientar a seguinte questão: junto a eles todas as mentalidades vem sofrendo uma alteração ou os verbetes apenas foram gradualmente adaptados ao que se enquadra hoje em politicamente correto?

(Contribuição e edição: Carolina Maia)


Agora falando sério

15 de agosto de 2009
O primeiro conselho que dou é direto: se não assistiu o filme e pretende faze-lo, não leia o que vem a seguir. Não chego a revelar o conteudo do filme, nem creio que vá estragar alguma surpresa que a película reserva. Mas simplesmente acredito ser mais proveitosa a audiencia sem a influencia de opiniões exteriores, sejam elas quais forem, assim como eu fiz.
Agora, se você já viu Brüno, ou mesmo não pretende, segue minha opinião (minha, não do blog):
O ator Sasha Baron Cohen, conhecido pela maioria dos brasileiros como Borat (2006), volta aos cinemas com um novo filme: Brüno (2009). Sai de cena o segundo melhor repórter do Cazaquistão para dar lugar ao personagem da vez, um fashionista austriaco gay homonimamente batizado. E é justamente na orientação e práticas sexuais, assim como no comportamento e atitudes incomuns do personagem que temos a polêmica do filme. Não, não estamos falando de mais um longa sobre as dificuldades enfrentadas por um jovem que se “descobre homossexual”, até porque esse não é o estilo do trabalho de Cohen, tampouco estamos falando de um longa convencional, tanto no tema, abordagem, humor como no formato.
Sasha mantém algumas fórmulas de Borat, aquela mistura de filme de comédia com documentário, tendo que recorrer a sempre presente narração feita pelo próprio personagem para explicar exatamente o que está acontecendo, tendo em vista que só o roteiro não sustenta o que chamamos de lógica.

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O ator Sasha Baron Cohen, conhecido pela maioria dos brasileiros como Borat (2006), volta aos cinemas com um novo filme: Brüno (2009). Sai de cena o segundo melhor repórter do Cazaquistão para dar lugar ao personagem da vez, um fashionista austriaco gay. E é justamente na orientação e práticas sexuais, assim como no comportamento e atitudes incomuns do personagem que temos a polêmica do filme. Não, não estamos falando de mais um longa sobre as dificuldades enfrentadas por um jovem que se “descobre homossexual”, até porque não é essa a linha do trabalho de Cohen. Seria muito convencional; exatamente o que não encontramos na apresentação do tema ou na abordagem deste, muito menos no humor pretendido.

Sasha mantém o seu estilo, que já havia mostrado em Borat e que parece ter funcionado, aquela mistura de filme de comédia com documentário, tendo que recorrer a sempre presente narração feita pelo próprio personagem para explicar exatamente o que está acontecendo, tendo em vista que só o roteiro não sustenta a história, e acredito nem ser mesmo esse o real foco do humorista. Os primeiros vinte minutos parecem ser dedicados aos fãs saudosos de Borat, com situações bem similares (dentro de seus devidos contextos) ao que já vinha sido apresentado pelo personagem anterior: temos uma necessária apresentação do protagonista e o porque de sua jornada, seguido de alguns takes com exposição de “famosos” a situações bizarras, evidenciando o contraste entre o discurso e a prática.

Sequência da cena com Paula Abdul, exposição do contraste entre discurso e prática aplicada aos "famosos"

Sequência da cena com Paula Abdul, sentados em móveis humanos discursa sobre seus projetos humanitários. Exposição do contraste entre discurso e prática aplicada aos "famosos"

A partir de então as semelhanças com o outro trabalho de Sasha se tornam cada vez menores. Falo isso porque é a partir daí que a sexualidade do personagem começa a ser de fato explorada de maneira mais nítida, esse enfoque é gradual e crescente, chegando ao ápice no final do filme. Objetivo alcançado? Não sei… Mas qual seria afinal o objetivo do filme? Resposta fácil, fazer rir. Improvavel não escapar uma risada sequer ao longo da mais de uma hora de filme, pois o comediante ataca em todas as frentes, do humor negro ao pastelão, da crítica sutil ao escracho, não perdendo nenhum perfil de espectador, ficando assim impossível de errar.

Mas se formos analisar o primeiro nome divulgado para o filme: Brüno – Deliciosas jornadas através da América com o propósito de deixar homens heterossexuais visivelmente desconfortáveis na presença de um estrangeiro gay em uma camiseta de malha; Vemos aí o foco da crítica social, a exposição da homofobia na atual sociedade (machista ou não). Sasha, ou melhor, Brüno expõe de diversas maneiras e em diversas situações as pessoas aquilo que muitas vezes elas preferem ignorar quando não apenas dar comentários isentos e politicamente corretos, a polêmica é o objetivo que é alcançado e que só auxilia na divulgação, e a reflexão de fato não é feita.

Bom, é lógico que cabe ao espectador, à sua memória pós-sessão e à sua capacidade de refletir levar o trabalho de Sasha a um pensamento mais elaborado. Mas devemos considerar que as cenas longas e propositalmente apelativas que durante todo o filme impressionam, quando não chocam, acabam por desvirtuar e ofuscar qualquer real discussão mais acalorada que pudesse surgir sobre o tema, invalidando o argumento de que Brüno serve como meio de combate a homofobia. Não serve.

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Seria sonhar alto demais contar que  o lançamento de um filme, como Brüno, servisse para amenizar o preconceito no mundo ou quaisquer outras agruras que nos assombram. A única esperança que tenho é, que ao menos, o número de pessoas que saiam da sala de cinema com a mente um pouco mais aberta seja inversamente proporcional ao de vezes que o nome Brüno será utilizado pejorativamente como sinônimo de agressão e chacota ao mesmo público que dizem estar sendo defendido.