A coroação do Mister Diferença

10 de setembro de 2010

Bom, em primeiro lugar vamos falar sobre concursos de beleza femininos. Não é preciso ser daquelas feministas antiquadas e anedóticas que povoam o senso comum – com direito a sutiã queimado e tudo – para detestá-los. Não consigo ver, nesses concursos, sequer um ponto favorável ou um aspecto que não seja totalmente nocivo à vida em sociedade. A total objetificação da mulher; a obsessão pela juventude; a banalização da sensualidade; a padronização da estética. Ad infinitum.

Só por esses motivos já deveria ser ruim o suficiente haver tal convenção como um “Mister Gay” ou genéricos. Mas onde uns podem ver apenas uma atividade ingênua, talvez até divertida, eu vejo grandes problemas. Vejamos por que.

Realizar um concurso de beleza masculino e com a restrição de participantes gays pode parecer uma tentativa de analogia da “comunidade gay” com as atividades da “comunidade hetero”. Mas só poderíamos estabelecer a relação de analogia a partir do momento que temos como certo que há diferenças básicas entre os praticantes da hetero e da homossexualidade. Uma analogia, afinal, é a construção de semelhança de propriedades entre sujeitos de natureza diferenciada.

Aceitar o uso da analogia consistiria em reconhecer que a comunidade gay seria análoga à hetero, e natural seria que houvesse nela toda uma nova representação dos elementos existentes na comunidade heterossexual. Assim, o dano causado por um Mister Gay seria análogo ao causado por um Miss Universo, mas sempre com a adição da palavra “gay” ao final de cada frase: a total objetificação do homem (gay); a obsessão pela juventude (gay); a banalização da sensualizade (gay); a padronização da estética (gay). Ad gay infinitum. Dessa forma, os problemas enfrentados dentro do microcosmos homossexual reproduzem os do cosmos heterossexual.

Mas a analogia como método analítico, para mim, não é válida nesse caso. Não é, porque quando tratamos de heteros e gays, estamos lidando com indivíduos iguais, com uma diferença socialmente construída entre eles: o dispositivo da sexualidade. A diferenciação dos sujeitos com base nas práticas sexuais, a naturalização de comportamentos inerentes aos praticantes de determinadas atividades com base no sexo desses sujeitos. Constituir uma comunidade gay, com suas práticas análogas à hetero, é reafirmar essa diferença que, friso, foi construída. É colocar os oprimidos em um lugar seguro para os opressores – distanciado, segregado, categorizado – e manter conceitos totalmente construídos, como a “heterossexualidade”, intocados em seu lugar seguro.

Assim, constituir uma comunidade gay não é um ato de coragem. Antes, de conivência com a diferenciação que dá origem ao preconceito. De busca por reconhecimento como minoria por parte da suposta maioria hetero. “Temos nossa própria comunidade, logo somos como vocês”. Uma frase pobre e contraditória, uma vez que opõe “nós” a “vocês”.

Percebe-se que essa própria comunidade é totalmente restritiva e excludente. Procure a mídia “especializada” para constatar isso. Aquela mídia que gosta de se denominar como “gay”. Vá ler um Mix Brasil. Compre uma Revista Júnior. Faça esse exercício, mas, recomendo, não em ambiente de trabalho, se quiser evitar constrangimentos. Observe como o gay é homem, branco, de classe média, masculinizado, musculoso. Observe como a mulher e o negro não aparecem, a não ser que sejam a Lady Gaga ou um esterotipado negão ativo.

Sim, o “gay” da “comunidade” é totalmente heteronormativizado. Ao invés de análogo ao heterossexual, ou seja, semelhante dentro de suas diferenças, ele persegue o heterossexual. É um igual que reconhece a diferença que lhe foi imposta e, aceitando essa diferença inventada, persegue uma igualdade esquizofrênica que nem ele próprio acredita existir.

Assim, o Mister Gay passa de comemoração inocente para aparato repressivo dentro de um grupo que já é bastante esmagado por um sistema de falsa diferenciação. O homem afeminado que foi rejeitado na escola tem sim a chance de se encontrar em outro lugar: na “comunidade gay”. Mas é claro, para tal, ele tem de abrir mão de sua afetação e perseguir uma masculinidade comportamental e corporal, traduzida em trejeitos e músculos. Ele tem de fazer tudo o que um homem encaixado na norma heterossexual faz, exceto, é claro, praticar sexo com mulheres, afinal ele é dotado do sufixo “gay”. Enfim, ele tem de abrir mão daquilo que ele é, para lutar pelo direito de ser algo que nunca foi. Quem sabe assim ele ganhe algum prêmio. Uma linda faixa que diga: este está enquadrado.

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O retrato cor de rosa da Veja

10 de maio de 2010

Caros leitores da área do marketing, por favor, me auxiliem a compreender as últimas semanas da revista Veja. A julgar pela foto meiga de José Serra em uma capa e as frases inventadas atribuídas ao antropólogo Viveiros de Castro, a estratégia de divulgação do veículo guinou para o “fale mal, mas fale de mim”. A última capa da revista, que traz como destaque a crescente facilidade em assumir-se gay na adolescência, não escapa às críticas, nem mesmo – ou principalmente – de integrantes da tal “Geração Tolerância”.

Não estamos dizendo aqui que o fato retratado pela revista não exista. Ninguém seria tolo ao ponto de rejeitar a ideia de que assumir-se gay ou lésbica (a matéria não trata de bissexuais ou transgêneros) em nossa sociedade está mais fácil hoje. O assunto deixou de ser tabu, avançamos consideravelmente no plano dos direitos, conhecemos cada vez mais pessoas assumidas – na mídia, em nossas relações sociais – para termos e citarmos como exemplo. E o fato de os adolescentes conseguirem encarar cada vez mais cedo o momento de se assumir deve sim ser encarado como positivo. É um sinal de que essa identidade não é mais vista como um fardo a carregar ou algo a esconder.

O problema está na simplicidade com que a reportagem trata essa mudança, uniformizando a abrangência desse fenômeno da “tolerância” e apresentando-o de forma totalmente acrítica. Em primeiro lugar, o problema é de texto: o tom da matéria é quase comemorativo, e tende a minimizar as dificuldades encontradas pelos personagens. Nesse mundo cor de rosa, o preconceitopraticamente não existe mais. Em segundo lugar, a matéria cita uma série de pesquisas descontextualizadas, em que os números são jogados de forma a comprovar a hipótese dos repórteres. Podemos citar uma passagem:

“Em 1993, uma aferição do Ibope cravou um número assustador: quase 60% dos brasileiros assumiam, sem rodeios, rejeitar os gays. Hoje, o mesmo porcentual declara achar a homossexualidade “natural”, segundo um novo levantamento com 1.500 adolescentes de onze regiões metropolitanas, encabeçado pelo instituto TNS Research International.”

Novamente, não estamos descartando a possibilidade de o percentual de brasileiros a “rejeitar os gays” ter diminuído de 93 para cá. Apenas sustentamos que “achar a homossexualidade ‘natural’” não é um argumento suficiente para validar a ideia de que temos, ao menos entre os jovens, 60% de simpatizantes em vez de 60% de homofóbicos. Se pensarmos em natural como “referente à natureza”, um avanço pensar na homossexualidade como algo “natural” e não uma “perversão”, mas também devemos manter em mente o fato de que a cor também é determinada por fatores “naturais”, e isso não impede a existência do racismo. Por outro lado, se pensarmos em “natural” como “comum, rotineiro, sem dificuldades”, temos que levar em conta a compreensão da pergunta e a autocensura de quem responde. Para continuar citando pesquisas: uma pesquisa conduzida em 2008 pela Fundação Perseu Abramo – um dado que a matéria da Veja poderia ter pesquisado – constatou que cerca de 90% das pessoas concordava com a “existência de preconceito” contra os LGBT, ainda que aproximadamente 70% dos entrevistados negassem ser, eles próprios, preconceituosos em relação a essa população. Onde foram parar os intolerantes, então? Eles se revelam em outras perguntas: 92% dos entrevistados por essa pesquisa concordaram com a frase “Deus fez o homem e a mulher com sexos diferentes para que cumpram seu papel e tenham filhos”, 62% defendiam que “casais de gays ou de lésbicas não deveriam andar abraçados ou ficar se beijando em lugares públicos”, e 40% acreditavam que “a homossexualidade é uma doença que precisa ser tratada”.

Enquanto os números acima exigem o uso da interpretação e da compreensão da subjetividade dos envolvidos, existem números muito mais claros que a matéria em questão deixa de lado. Estamos falando das estatísticas levantadas pela ONG Conexão G no grupo de favelas cariocas conhecido como Complexo da Maré. Essa organização sustenta que nas comunidades do Rio ocorre pelo menos um incidente por dia de violência motivada pela sexualidade da vítima. Certamente, nem todos os ataques devem envolver integrantes da tal “Geração Tolerância”, mas já nas primeiras linhas da reportagem que o jornal O Dia fez sobre essa estimativa encontramos o depoimento de uma lésbica de 24 anos:

“Além de bater nos gays e travestis, os bandidos ficam ameaçando estuprar as lésbicas. Fazem um terror psicológico insuportável”, conta. “Quando descobrem uma lésbica no morro, dizem que a garota só se tornou homossexual porque não conheceu homens de verdade. E que darão ‘um jeito’.”

A reportagem, portanto, ignora o que se passa nas camadas mais pobres; a própria reportagem frisa que “A tolerância às diferenças (…) está se tornando uma regra – especialmente entre os escolarizados das grandes cidades brasileiras” (grifo meu). Esse retrato da juventude a partir de uma juventude específica, a juventude de classe média e principalmente classe média alta, não surpreende – afinal de contas, é a Veja. O que surpreende é notarmos que mesmo aqueles que são retratados pela reportagem sofrem ou sofreram alguma discriminação em virtude de sua homossexualidade. A família de Lucas El-Osta, por exemplo, levou o rapaz ao psicólogo e à igreja quando soube de seu interesse por outros meninos; Hector Gutierrez era chamado de “bicha” no colégio. Mesmo dentro do universo de Veja, a tolerância não é instantânea. Fora dele, ela não se estende a todos os casos (quem é LGBT, tem cerca de 20 anos e sofreu algum grau de bullying por isso no colégio, por favor “levante a mão” na caixa de comentários).

Uma outra característica importante a ser destacada nessa “tolerância” retratada pela revista é que ela se aplica à homossexualidade, mas não necessariamente inclui outras sexualidades. Os bissexuais foram deixados de fora da reportagem, e mesmo a fronteira tênue que confunde homos e bissexuais na adolescência não é sequer mencionada. Na “geração que rejeita os rótulos”, a reportagem só encontrou homossexuais. Se formos pensar em termos de identidade de gênero, o buraco é ainda mais embaixo. Se nem bissexuais entram na matéria, o que esperar em termos de identidades trans? Evidentemente, esse é mais um silêncio da “Geração Tolerância”. Podemos ir mais longe: uma entrevistada salienta: “nunca fiz o tipo masculino nem quis chocar ninguém com cenas de homossexualidade”, um casal afirma “andar de mãos dadas às vezes, nunca se beijando em público”. A tolerância dessa juventude é maior quanto menos visíveis estiverem as diferenças, e a própria sexualidade é vista como motivo para “choque”.

Recapitulando então: essa mudança de mentalidade não acontece em todos os casos, nem com todas as identidades sexuais; é um fenômeno que, como a matéria mostra, é característico de uma geração específica e, principalmente, não acontece em todos os lugares nem em todas as classes sociais. Não estamos dizendo que essa mudança não é importante. Só defendemos que ela precisa ser minimizada e compreendida dentro do contexto social em que ela acontece.

E agora que já demos à Veja a atenção que ela merecia, que tal pararmos de dar corda à estratégia de dar audiência para matérias ruins? A última Piauí tem uma reportagem bem legal sobre mudança de sexo!


Dogmas da Razão

23 de abril de 2010

Abril tem sido um mês de declarações absurdas vindas de sujeitos importantes, dotados de poder e visibilidade. Na segunda-feira da semana passada, dia 12, o cardeal Tarcisio Bertone afirmou que “diversos psicólogos e psiquiatras já declararam que não há relação entre o celibato e a pedofilia, enquanto muitos outros disseram, pelo que fui recentemente informado, que há a relação entre pedofilia e homossexualismo (sic)”. Quem também nos agraciou com sua sabedoria na última terça, 20, foi o presidente boliviano Evo Morales, dizendo que “o frango que comemos está carregado de hormônios femininos. Por isso, os homens que comem esses frangos têm desvios em seu ser como homens”.

Felizmente a contestação veio como resposta para ambos: contra o cardeal, ativistas gays de todo o mundo e o próprio Vaticano; contra o presidente, os exportadores de frango (!). É que a base argumentativa dos senhores, por mais científica que seja, é já ultrapassada, considerada ridícula pela comunidade acadêmica. Dentro dessa lógica, se Bertone e Morales fossem leitores mais assíduos, influenciados por um conhecimento atualizado e politicamente correto, não profeririam tais besteiras.

Mas será que o problema se resume a isso? Uma mera falta de atualização?

Quem tem alguma leitura sobre o tema da sexualidade sabe que a ciência natural foi, historicamente, uma das ferramentas mais eficientes na sua repressão. Nos séculos XVIII e XIX, quando a razão iluminista se abateu sobre os homens, as justificativas católicas para a privação do sexo já não eram satisfatórias, e o controle do Estado sobre o corpo se justificou pouco a pouco através de estudos cientificamente comprovados.

Muito se fala que o homem pré-moderno era tolo, imerso numa escuridão de ignorância que era gerada e operada pelo cristianismo, mas há algumas decadas há pensadores que apontam para uma simples mudança de paradigma: do religioso para o científico. Se antes a religião era a forma de enxergar e explicar o mundo, além de código normativo de conduta do ser humano, agora era vez da ciência ditar as regras. Tornou-se verdade absoluta e incontestável, com um lugar de alto prestígio nas sociedades.

A crítica aqui não é no sentido de se construir uma anarquia do saber, em que a intuição é mais válida que o empirismo, mas de se levar em conta que a episteme e o método são suscetíveis a falhas. Não se pode apenas tirar a religião do altar para substituí-la pela Razão. Deve-se destruir o próprio altar.

Os dois casos, do cardeal e do presidente, exemplificam bem essa substituição de prioridades. O preconceito com homossexuais é antigo, de origem cristã, mas a justificativa é científica. Até o representante de uma das maiores instituições religiosas do mundo reconhece que o mundo em que vive é cético, e, adepto de uma teologia que convive em paz com a ciência, se vale de argumentos científicos para tentar fazer imprensa e sociedade concordarem com seu preconceito, que tem origem religiosa. Mantém-se os valores e as construções sociais, alteram-se os meios para legitimá-las.

Os senhores bem poderiam buscar novos estudos biológicos e psiquiátricos sobre a sexualidade, buscando novas formas de embelezar sua homofobia, e talvez até tivessem sucesso em seu objetivo. Alguns cientistas naturais insistem em estudar as sexualidades e suas “origens”, pensando que podem explicar tudo. A antropologia, que por relativizar a cultura ocidental ensaiou um rompimento com os paradigmas iluministas, nos diz no entanto que a sexualidade é assunto cultural, manifestando-se de maneira distinta em cada sociedade e fora portanto do escopo dos estudiosos da natureza. Fato que o cardeal e o presidente, limitados pelos dogmas da Razão, estão inaptos a enxergar.


Merecido

15 de março de 2010

Só uma notinha pra registrar: a revista Detective Comics, um dos títulos mais antigos da DC Comics, foi recém agraciada com um prêmio da GLAAD (não sabe do que se trata? Dê uma olhada aqui). O título, que conta com histórias do mais rentável personagem da editora – o Batman – foi utilizado pelo escritor Greg Rucka para desenvolver a personagem Batwoman, assumidamente lésbica.

Em julho do ano passado eu escrevi uma reflexão sobre LGBTs nos quadrinhos do mainstream norteamericano e cobri a Batwoman e seu roteirista de elogios. Por enxergar Kathy Kane como uma personagem – e não uma “personagem lésbica”, o resultado do trabalho é positivo, por ser totalmente espontâneo.

Que venham outras Batwomans e outros Greg Rucka em diversas mídias! #comicgeek


Sugestão de filme: If The Walls Could Talk 2 (ou Desejo proibido)

14 de janeiro de 2010

Hoje o Homomento traz uma indicação: If The Walls Could Talk 2 (2000), título tragicamente adaptado para “Desejo Proibido” no Brasil. Essa péssima adequação no nome já pode afastar alguns leitores, por isso peço que desconsiderem esse ponto falho. Para quem já assistiu vale a reflexão.

Eu poderia dizer que em ITWCT 2 o assunto principal são lésbicas, mas estaria sendo simplista (para não dizer ignorante). Para mim a temática é baseada na construção da família homossexual, com foco em relações entre mulheres.  A história é uma semi-continuação do If The Walls Could Talk (1996), que explorou a compreensão do aborto em diferentes períodos.  Já o If The Walls Could Talk 2 opta por uma narrativa segmentada em épocas, totalizando três histórias curtas, focadas em sentimentos e relacionamentos completamente diferentes uns dos outros. O resgate de emoções inaceitáveis (ou mascaradas na contemporaneidade) sustenta a capacidade reflexiva do filme, e essa é, para mim, a principal qualidade.

A primeira short history conta a história de duas lésbicas casadas por 50 anos em pleno 1961. As senhorinhas vivem em uma casa e levam um relacionamento duradouro e feliz, até que em um acidente domésticos uma delas morre.

A história de Abby (Marian Seldes) e Edith (Vanessa Redgrave) é a mais emocionante

A tragédia é ambientada na mesma casa que abrigou por anos aquela família pacificamente transgressora e que agora acolhe a solidão e o desespero da parte restante do casal. A concepção de família é completamente ignorada por todas as personagens que ficam à margem da trama, com exceção, é claro, da própria família: o casal de lésbicas. No mínimo emocionante.

A segundo história, de 1972, aborda o melhor tópico. Quando eu e minha namorada assistimos ficamos horas discutindo sobre o comportamento das personagens e a atualidade do tema. Bem resumidamente, Linda (Michelle Williams) conhece Amy (Chloë Sevigny) em um bar. Linda faz parte de um grupo feminista. As amigas de Linda recriminam o contato dela e de Amy por discordarem da forma como a nova namorada se veste. Amy usa roupas tipicamente masculinas e possui comportamentos e trejeitos que destoam dos princípios que, até então, regiam a vida de Linda. Mesmo se passando em 1972, o discurso verborrágico das lésbicas feministas é um retrato da ignorância e a discriminação do gay para com o próprio gay. A negação e a repreensão das lésbicas em relação a personagem de Chloë Sevigny  mostram que, mesmo indivíduos que teoricamente estariam predispostos a aceitar níveis diferentes de expressão/comportamento, e entender as ramificações infinitas da sexualidade humana, continuam, invariavelmente, a limitar o pensamento. No mínimo questionador.

O casal divertido: Sharon Stone e Ellen degeneresA terceira e última short history se passa no ano 2000 e narra a luta de um casal de lésbicas que desejam ter um filho. Fran (Sharon Stone) e Kal (Ellen DeGeneres, sim, a própria!) são atrapalhadas e engraçadinhas, o que acaba maquiando a narrativa meio bobinha. No mínimo divertido.

Fica a minha dica para quem gosta de filmes LGBT/drama. Segue abaixo o download em RMVB com as legendas em português:


O caso Holmes: um comentário

13 de janeiro de 2010

O bafafá das últimas semanas foi o comentário do Robert Downey Jr, durante a divulgação do filme Sherlock Holmes: que o detetive e seu auxiliar Watson poderiam ter entre si uma relação maior que a simples amizade. Convivência excessiva, uso mútuo de roupas um do outro e o compartilhamento de uma cama foram as pistas apontadas pelo ator. A mera possibilidade dos próximos filmes da franquia lidarem com essa temática deixou os detentores dos direitos da personagem de cabelo em pé: em nome da “fidelidade ao livro”, mas com um cheirinho de heteronormatividade, ameaçaram o estúdio de retirar a concessão dos copyrights caso tal heresia fosse cometida.

Downey Jr. no Letterman: o início da polêmica

Essa argumentação foi muito questionável porque bom, adaptação é adaptação. Já implica infidelidade porque literatura é diferente de cinema, e porque os roteiristas certamente quiseram fazer do filme algo minimamente comercial. Os trailers fazem parecer um blockbuster de ação, e não uma película de suspense e mistério. Vejam vocês mesmos.

Uma postagem do blog da Época Mulher 7×7 me fez abrir os olhos pra outra questão: um Holmes musculoso e supramasculino não foi motivo de estranhamento e comentários na imprensa. Por mais que essas características distoem das idealizadas por Sir Doyle, não parecem incomodar ninguém. E versão gay é subversão da arte? Ok então.

Um texto do Womanist Musings coloca muito bem que poxa, um Holmes gay não utilizaria o pênis para investigar ao invés da clássica lupa, sabe. Não seria tão diferente porque enfim, gays não são diferentes das outras pessoas. É todo aquele bla bla bla de sempre: sem representatividade, nunca alcançaremos um status de normalidade.

O Cavalcanti se questionou no 23B se essa história não é decorrente de uma febre gay, uma homomoda. Porque, lembremos, nunca houve um Holmes gay. Esse debate todo se deu em torno de um comentário de Robert Downey Jr no programa do David Letterman. Não acho que seja uma moda, mas sei lá, porque uma coisinha de nada tem que deixar todo mundo tão histérico? Fecho os olhos e imagino, com prazer, o impacto que teria um filme com um superman gay.


Malcom X era bissexual. Aceitem isso.

20 de novembro de 2009

Dia 20 de Novembro é o Dia da Consciência Negra no Brasil – data importante em um país com histórico escravista e racista como o nosso. Aproveitando a oportunidade, buscamos, para a tradução da semana, um texto que abordasse tanto a questão negra quanto a LGBT: encontramos um interessante protesto de Peter Tatchell, do Guardian, a respeito do Mês da História Negra e do Mês da História LGBT. Você pode ler a nossa tradução ou o original em inglês.

Malcom X era bissexual. Aceitem isso.
por Peter Tatchell

Outubro é Mês da História Negra na Grã-Bretanha – uma maravilhosa celebração da enorme, importante e valiosa contribuição que os negros têm feito à humanidade e à cultura popular.

Também vale a pena comemorar que muitos dos principais ícones negros foram lésbicas, gays, bissexuais ou transgêneros (LGBT), mais notadamente o herói da libertação negra nos EUA Malcolm X. Outros LGBTs negros a serem destacados incluem a cantora de jazz Billie Holiday, o escritor e ativista de direitos civis James Baldwin , o cantor e compositor soul Luther Vandross, a cantora de blues Bessie Smith, o poeta e contista Langston Hughes, o cantor Johnny Mathis, a romancista Alice Walker, o ativista dos direitos civis e organizador da Marcha de 1963 em Washington Bayard Rustin, a cantora de blues Ma Rainey, o dançarino e coreógrafo Alvin Ailey, a atriz, cantora e dançarina Josephine Baker, o medalhista olímpico Greg Louganis, o cantor e compositor Little Richard, a ativista política e filósofa Angela Davis, a cantora e compositora Tracy Chapman e a cantora e drag queenRuPaul.

Poucos destes proeminentes ícones negros LGBT estão listados no site mais completo sobre o Mês da História Negra no Reino Unido, que hospeda as biografias de notáveis homens e mulheres negros. Na seção sobre personalidades, somente Angela Davis é mencionada e seu lesbianismo não é reconhecido. O site não consegue identificar a maioria dos figuras públicas e históricas negras que são LGBT. O Guia Oficial do Mês da História Negra no Reino Unido é igualmente omisso. Por que essas omissões? Os negros não são uma massa homogênea heterossexual. Onde está o reconhecimento da diversidade sexual dentro da história negra e de suas comunidades?

Em contraste, o Mês da História LGBT, que acontece no Reino Unido em fevereiro, dedica uma seção inteira do seu site para as vidas dos líderes negros LGBT, e exibe links para os sites do Mês da História Negra. Lamentavelmente, essa solidariedade não é recíproca. Nos sites do Mês da História Negra, eu não consegui encontrar uma seção LGBT ou um link para o Mês da História LGBT.

É bem possível que isso não seja intencional, mas às vezes o Mês da História Negra parece o Mês da História Negra Heterossexual. Negros LGBT famosos não são reconhecidos e celebrados. Ou a sua contribuição para a história e cultura negra é ignorada, ou a sua sexualidade é varrida para fora de suas biografias.

Um bom exemplo dessa negligência é a negação em torno da bissexualidade de um dos maiores heróis modernos da libertação dos negros: Malcolm X. A falta de reconhecimento talvez não seja surpreendente, dado que alguns dos seus familiares e muitos ativistas negros têm feito grandes esforços para negar suas relações com pessoas do mesmo sexo e suprimir o reconhecimento da integralidade de sua sexualidade.

Por que essa fachada? Que diferença faz se Malcolm X era bissexual? Será que isso diminui sua reputação e conquistas? Claro que não. Se ele era gay, hetero ou bissexual, isso não deveria fazer diferença. Sua importância continua, independentemente da sua orientação sexual. Contudo, muitas das pessoas que o reverenciam parecem relutantes em aceitar que o seu herói, e o meu, era bissexual.

A bissexualidade de Malcolm X é mais do que apenas uma questão de verdade e factualidade histórica. Nunca houve qualquer pessoa negra com destaque e reconhecimento global semelhantes aos de Malcolm que tenha sido publicamente reconhecida por ser gay ou bissexual. Jovens lésbicas, gays e bissexuais negros podem, como os seus semelhantes brancos, muitas vezes se sentir isolados, culpados e inseguros quanto à sua sexualidade. Eles seriam beneficiados pela presença de modelos positivos, que tiveram sucesso na vida, para dar-lhes confiança e inspiração. Quem melhor do que Malcolm X? Ele inspirou o meu ativismo pelos direitos humanos e foi um pioneiro na luta pela liberdade dos negros. Ele pode inspirar outras pessoas LGBT também.

Neste momento, não há uma única pessoa negra viva, cujo nome seja conhecido no mundo inteiro e que também seja abertamente gay. É por isso que a questão da sexualidade de Malcolm X é tão importante. Ter um ícone gay ou bissexual negro de renome internacional iria ajudar muito no combate à homofobia, especialmente nas comunidades negras e particularmente na África e no Caribe, onde a homossexualidade e a bissexualidade muitas vezes são desprezadas como uma “doença de homem branco”.

Então, quais são as evidências da orientação bissexual de Malcolm X? A maioria das pessoas se lembram dele como o principal líder nacionalista negro americano da década de 1960. Apesar das desvantagens de sua retórica anti-branco, de seu separatismo negro e de sua superstição religiosa, ele foi o principal porta-voz da consciência, orgulho e auto-ajuda negra na América. Ele falava com eloqüência e rebeldia feroz em nome da liberdade e da inspiração para os negros.

A sexualidade mutante e complexa de Malcolm nunca foi parte da narrativa de sua vida até a publicação da aclamada biografia realizada por Bruce Perry, Malcolm – The Life of a Man Who Changed Black America. Perry é um grande admirador e defensor de Malcolm X, mas isso não o impede de fazer críticas. Ele escreveu os fatos, baseado em entrevistas com mais de 420 pessoas que conheceram pessoalmente Malcolm em várias fases da sua vida, desde a infância até o seu trágico assassinato em 1965. Seu livro não é uma crítica destrutiva como alguns críticos negros afirmam, é exatamente o oposto. Perry apresenta uma história honesta e “redonda” da vida e das realizações de Malcolm que, na minha opinião, é muito mais comovente e humana que a mais conhecida (mas um pouco hagiográfica) The Autobiography of Malcolm X: As Told To Alex Haley.

Baseado em entrevistas com os amigos mais próximos de Malcolm, Perry sugere que os líder da libertação negra dos EUA não era tão solidamente heterossexual como seus colegas da Nação do Islã e do nacionalismo negro sempre afirmaram. Ainda que Perry não faça da sexualidade de Malcolm uma grande parte de sua biografia – na verdade, esse é um aspecto bastante minoritário dela – ele não se coíbe de escrever sobre o que ouviu em suas várias entrevistas.

Ele documenta muitas relações de Malcolm com outros homens e suas atividades como profissional do sexo, que durou pelo menos um período de 10 anos, de sua adolescência até seus 20 e poucos anos, como descrevi mais detalhadamente em um artigo anterior para o Guardian. Embora Malcolm tenha se casado mais tarde e, tanto quanto sabemos, abandonado o sexo com homens, suas relações sexuais anteriores com homens sugerem que ele era bissexual e não heterossexual. Abster-se de sexo gay depois de seu casamento não muda os fundamentos da sua orientação sexual e não significa que ele era totalmente hétero.

Perto do fim de sua vida, as idéias de Malcolm estavam evoluindo em novas direções. Politicamente, ele gravitava para a esquerda. Guiado pela fé, depois de sua viagem a Meca, ele começou a abraçar o Islã mainstream, não-racial. Sua mente estava se abrindo a novas idéias e valores.

Se não tivesse sido assassinado em 1965, Malcolm poderia ter eventualmente se associado ao movimento de libertação gay e lésbica, como fizeram Huey Newton dos Panteras Negras e a líder Black Power Angela Davis, como parte da luta pela emancipação humana. Em vez disso, para servir a sua agenda política homofóbica, por mais de meio século a Nação do Islã e muitos nacionalistas negros têm reprimido o conhecimento das relações homossexuais de Malcolm. É chegado o tempo para que o Mês da História Negra conte a verdade. Malcolm X era bissexual. Aceitem isso.