Malcom X era bissexual. Aceitem isso.

20 de novembro de 2009

Dia 20 de Novembro é o Dia da Consciência Negra no Brasil – data importante em um país com histórico escravista e racista como o nosso. Aproveitando a oportunidade, buscamos, para a tradução da semana, um texto que abordasse tanto a questão negra quanto a LGBT: encontramos um interessante protesto de Peter Tatchell, do Guardian, a respeito do Mês da História Negra e do Mês da História LGBT. Você pode ler a nossa tradução ou o original em inglês.

Malcom X era bissexual. Aceitem isso.
por Peter Tatchell

Outubro é Mês da História Negra na Grã-Bretanha – uma maravilhosa celebração da enorme, importante e valiosa contribuição que os negros têm feito à humanidade e à cultura popular.

Também vale a pena comemorar que muitos dos principais ícones negros foram lésbicas, gays, bissexuais ou transgêneros (LGBT), mais notadamente o herói da libertação negra nos EUA Malcolm X. Outros LGBTs negros a serem destacados incluem a cantora de jazz Billie Holiday, o escritor e ativista de direitos civis James Baldwin , o cantor e compositor soul Luther Vandross, a cantora de blues Bessie Smith, o poeta e contista Langston Hughes, o cantor Johnny Mathis, a romancista Alice Walker, o ativista dos direitos civis e organizador da Marcha de 1963 em Washington Bayard Rustin, a cantora de blues Ma Rainey, o dançarino e coreógrafo Alvin Ailey, a atriz, cantora e dançarina Josephine Baker, o medalhista olímpico Greg Louganis, o cantor e compositor Little Richard, a ativista política e filósofa Angela Davis, a cantora e compositora Tracy Chapman e a cantora e drag queenRuPaul.

Poucos destes proeminentes ícones negros LGBT estão listados no site mais completo sobre o Mês da História Negra no Reino Unido, que hospeda as biografias de notáveis homens e mulheres negros. Na seção sobre personalidades, somente Angela Davis é mencionada e seu lesbianismo não é reconhecido. O site não consegue identificar a maioria dos figuras públicas e históricas negras que são LGBT. O Guia Oficial do Mês da História Negra no Reino Unido é igualmente omisso. Por que essas omissões? Os negros não são uma massa homogênea heterossexual. Onde está o reconhecimento da diversidade sexual dentro da história negra e de suas comunidades?

Em contraste, o Mês da História LGBT, que acontece no Reino Unido em fevereiro, dedica uma seção inteira do seu site para as vidas dos líderes negros LGBT, e exibe links para os sites do Mês da História Negra. Lamentavelmente, essa solidariedade não é recíproca. Nos sites do Mês da História Negra, eu não consegui encontrar uma seção LGBT ou um link para o Mês da História LGBT.

É bem possível que isso não seja intencional, mas às vezes o Mês da História Negra parece o Mês da História Negra Heterossexual. Negros LGBT famosos não são reconhecidos e celebrados. Ou a sua contribuição para a história e cultura negra é ignorada, ou a sua sexualidade é varrida para fora de suas biografias.

Um bom exemplo dessa negligência é a negação em torno da bissexualidade de um dos maiores heróis modernos da libertação dos negros: Malcolm X. A falta de reconhecimento talvez não seja surpreendente, dado que alguns dos seus familiares e muitos ativistas negros têm feito grandes esforços para negar suas relações com pessoas do mesmo sexo e suprimir o reconhecimento da integralidade de sua sexualidade.

Por que essa fachada? Que diferença faz se Malcolm X era bissexual? Será que isso diminui sua reputação e conquistas? Claro que não. Se ele era gay, hetero ou bissexual, isso não deveria fazer diferença. Sua importância continua, independentemente da sua orientação sexual. Contudo, muitas das pessoas que o reverenciam parecem relutantes em aceitar que o seu herói, e o meu, era bissexual.

A bissexualidade de Malcolm X é mais do que apenas uma questão de verdade e factualidade histórica. Nunca houve qualquer pessoa negra com destaque e reconhecimento global semelhantes aos de Malcolm que tenha sido publicamente reconhecida por ser gay ou bissexual. Jovens lésbicas, gays e bissexuais negros podem, como os seus semelhantes brancos, muitas vezes se sentir isolados, culpados e inseguros quanto à sua sexualidade. Eles seriam beneficiados pela presença de modelos positivos, que tiveram sucesso na vida, para dar-lhes confiança e inspiração. Quem melhor do que Malcolm X? Ele inspirou o meu ativismo pelos direitos humanos e foi um pioneiro na luta pela liberdade dos negros. Ele pode inspirar outras pessoas LGBT também.

Neste momento, não há uma única pessoa negra viva, cujo nome seja conhecido no mundo inteiro e que também seja abertamente gay. É por isso que a questão da sexualidade de Malcolm X é tão importante. Ter um ícone gay ou bissexual negro de renome internacional iria ajudar muito no combate à homofobia, especialmente nas comunidades negras e particularmente na África e no Caribe, onde a homossexualidade e a bissexualidade muitas vezes são desprezadas como uma “doença de homem branco”.

Então, quais são as evidências da orientação bissexual de Malcolm X? A maioria das pessoas se lembram dele como o principal líder nacionalista negro americano da década de 1960. Apesar das desvantagens de sua retórica anti-branco, de seu separatismo negro e de sua superstição religiosa, ele foi o principal porta-voz da consciência, orgulho e auto-ajuda negra na América. Ele falava com eloqüência e rebeldia feroz em nome da liberdade e da inspiração para os negros.

A sexualidade mutante e complexa de Malcolm nunca foi parte da narrativa de sua vida até a publicação da aclamada biografia realizada por Bruce Perry, Malcolm – The Life of a Man Who Changed Black America. Perry é um grande admirador e defensor de Malcolm X, mas isso não o impede de fazer críticas. Ele escreveu os fatos, baseado em entrevistas com mais de 420 pessoas que conheceram pessoalmente Malcolm em várias fases da sua vida, desde a infância até o seu trágico assassinato em 1965. Seu livro não é uma crítica destrutiva como alguns críticos negros afirmam, é exatamente o oposto. Perry apresenta uma história honesta e “redonda” da vida e das realizações de Malcolm que, na minha opinião, é muito mais comovente e humana que a mais conhecida (mas um pouco hagiográfica) The Autobiography of Malcolm X: As Told To Alex Haley.

Baseado em entrevistas com os amigos mais próximos de Malcolm, Perry sugere que os líder da libertação negra dos EUA não era tão solidamente heterossexual como seus colegas da Nação do Islã e do nacionalismo negro sempre afirmaram. Ainda que Perry não faça da sexualidade de Malcolm uma grande parte de sua biografia – na verdade, esse é um aspecto bastante minoritário dela – ele não se coíbe de escrever sobre o que ouviu em suas várias entrevistas.

Ele documenta muitas relações de Malcolm com outros homens e suas atividades como profissional do sexo, que durou pelo menos um período de 10 anos, de sua adolescência até seus 20 e poucos anos, como descrevi mais detalhadamente em um artigo anterior para o Guardian. Embora Malcolm tenha se casado mais tarde e, tanto quanto sabemos, abandonado o sexo com homens, suas relações sexuais anteriores com homens sugerem que ele era bissexual e não heterossexual. Abster-se de sexo gay depois de seu casamento não muda os fundamentos da sua orientação sexual e não significa que ele era totalmente hétero.

Perto do fim de sua vida, as idéias de Malcolm estavam evoluindo em novas direções. Politicamente, ele gravitava para a esquerda. Guiado pela fé, depois de sua viagem a Meca, ele começou a abraçar o Islã mainstream, não-racial. Sua mente estava se abrindo a novas idéias e valores.

Se não tivesse sido assassinado em 1965, Malcolm poderia ter eventualmente se associado ao movimento de libertação gay e lésbica, como fizeram Huey Newton dos Panteras Negras e a líder Black Power Angela Davis, como parte da luta pela emancipação humana. Em vez disso, para servir a sua agenda política homofóbica, por mais de meio século a Nação do Islã e muitos nacionalistas negros têm reprimido o conhecimento das relações homossexuais de Malcolm. É chegado o tempo para que o Mês da História Negra conte a verdade. Malcolm X era bissexual. Aceitem isso.


História Queer e História Americana

30 de outubro de 2009

No encerramento de nossa semana dedicada à História LGBT, a tradução dessa sexta ressalta um ponto muito importante: quando se estuda a vida de LGBTs em outras épocas, não se pode perder a noção do conjunto. É impossível desvincular a história dos LGBTs do restante da História que estudamos no colégio – afinal, a sociedade que ainda hoje resiste a aceitar as sexualidades não-hétero é a mesma que hoje nega a existência do racismo, por exemplo, e os mecanismos que impedem a conquista plena da igualdade para um e outro grupo remontam ao mesmo passado.

Mais uma vez, traduzimos um artigo da Enciclopédia GLBTQ, de onde já tiramos a história das marchas em Washington. Hoje, em vez de um verbete, trazemos uma coluna de opinião.  Vicki Eaklor, a autora, é membro da American Historical Association e publicou o livro Queer America: A GLBT History of the 20th Century (Greenwood Press, 2008).

História Queer / História Americana

por Vicki Eaklor

Conforme eu ia escrevendo Queer America, o meu objetivo era o de oferecer uma fonte completa, ainda que concisa, para alunos, professores e qualquer outra pessoa que procurasse aprender alguma coisa sobre a experiência GLBTQ nos Estados Unidos nos últimos cem anos.

A necessidade desse livro surgiu a partir do meu próprio trabalho: cerca de quinze anos antes, eu tinha introduzido o curso “História Gay Americana” ao currículo da Alfred University, e de início achei difícil organizar uma lista de leituras. Desde então, como sabemos, o campo da história GLBTQ explodiu, com centenas de estudos maravilhosos sobre indivíduos e movimentos, abordagens e argumentos, constantemente levando-me a reconsiderar o conteúdo e o método de meu curso e minha pesquisa.

No entanto, dois temas com os quais comecei minha trajetória no ensino permanecem os mesmos e, na verdade, tiveram sua importância ampliada conforme eu escrevia o livro: a magnitude de nossa história – ela é tão vasta -, e o fato de que o passado GLBTQ, longe de ser “mais uma história” é parte integrante da história americana.

Dada a forma como a história é dividida em campos, tem sido relativamente fácil aceitar a guetificação desenvolvida desde os anos 60, quando os novos historiadores sociais começaram a reintegrar trabalhadores, mulheres, afroamericanos, indígenas, e, claro, os americanos homossexuais, entre outros, para a “história americana”. Tal era a força da história tradicional (branca, masculina, privilegiada, presumidamente heterossexual, política), porém, que a integração plena dessas histórias “minoritárias” tem acontecido lentamente, e isso quando chega a ser realizada.

O resultado é que a história dos EUA que a maioria dos americanos aprende ainda se assemelha menos a um picadinho composto por muitos elementos do que a uma refeição sofisticada feita de pratos separados, a maioria dos quais é “extra” e pode ser descartada dando preferência ao prato principal, a velha carne de sempre. É chegada a hora de resistir ao impulso e à conveniência desta abordagem, mostrando a natureza integrada de uma história com a outra. Assim, chego ao meu argumento de que a história queer é história americana, e vice-versa.

A história queer e a costumeira saga americana são interdependentes, de várias maneiras. Deixando de lado os efeitos evidentes da história dos EUA sobre as pessoas queer (relatados como eras de maior ou menor grau de homofobia, de acordo com as políticas existentes contra a homossexualidade), aqui vou me focar brevemente no contrário – o impacto das pessoas e movimentos queer na história dos EUA, e a centralidade do gênero como um tema agregador.

A discussão deveria avançar sem a necessidade de dizermos que é evidente que as pessoas GLBTQ, visíveis ou não, são parte da história nacional pelo simples fato de estarem entre “o povo americano”; nós servimos nas forças armadas na guerra e na paz, fizemos parte de todas as forças de trabalho, todos os movimentos pelos direitos civis, em todos os partidos políticos, e, pelo menos no caso de James Buchanan (se não também Lincoln), podemos ter vivido também na Casa Branca.

Além disso, como Lillian Faderman argumentou brilhantemente em To Believe in Women, não é apenas a presença óbvia dos queers que deve ser reconhecida, mas muitas vezes o papel crucial que eles desempenharam em alguns dos principais eventos do país. (Faderman mostra, por exemplo, o papel central das lésbicas em todas as grandes reformas educativas e sociais nos últimos 100 anos.)

Outros exemplos de vozes queer (exploradas com mais profundidade no meu livro) incluem as do Renascimento do Harlem e do desenvolvimento do blues como uma forma de arte (Alain Locke, Langston Hughes, Bessie Smith, Ma Rainey), o desenvolvimento da arte moderna e música (Andy Warhol, John Cage); teatro e música tipicamente americanos (Tennessee Williams, Aaron Copland, Leonard Bernstein); e também aqueles que influenciaram profundamente o pensamento, a literatura e o ativismo pelos direitos civis e o feminismo no pós-guerra (Bayard Rustin, Adrienne Rich, Rita Mae Brown).

Além de modificar a história tradicional dos “nomes famosos”, contudo, a história queer sugere que esses eventos e movimentos específicos para pessoas GLBTQ estão totalmente alinhados à trajetória da história americana como ela é concebida com frequência: como uma história de extensão gradual dos direitos civis (quando não chega a uma igualdade plena) para uma proporção cada vez maior da população.

Se pensarmos nas nossas origens como nação, quando só homens brancos com posses e 21 anos ou mais de idade eram considerados cidadãos plenos, as fileiras de eleitores potenciais expandiram-se ao longo dos dois últimos séculos, com os excluídos da participação social e econômica repetidamente organizando-se em movimentos para exigir o seu lugar. O resultado disso é uma “política de identidade”, em que as mesmas características (raça, religião, sexo) usadas para justificar a discriminação tornam-se a base para a organização de grupos para combater a desigualdade.

Os chamados “homossexuais” também começaram a pensar nesses termos nos meados do século XX, e se organizar como um movimento político. Ao fazer isso, cada grupo – da sociedade Mattachine da década de 1950 e os piqueteiros da década de 1960, até a Força-Tarefa Nacional Gay e Lésbica da década de 1970, a Campanha de Direitos Humanos de 1980, e GenderPAC da década de 1990 – oferece insights importantes para a evolução da política GLBTQ, e da política da nação como um todo.

Finalmente, qualquer tentativa séria de reintegrar as pessoas queer novamente à história americana nos leva não só a repensar o que é a história e por que estudá-la, mas nos lembra o tempo todo que toda a história que omita o gênero como tema é incompleta.

No mínimo, a nossa insistência nacional na conformidade de gênero (na ideia de que os papéis de gênero são atribuídos em conformidade com o sexo das pessoas) explica muito sobre a história que temos de homofobia, já que gênero e sexualidade são confundidos com tanta frequência ( aquela pressuposição de que os homens efeminados e mulheres masculinas são também gays ou lésbicas).

O gênero também aparece em nossa história econômica e política. Será que podemos realmente compreender o capitalismo ou o militarismo sem notar que o sucesso nessas áreas depende de um culto da masculinidade?

Podemos compreender plenamente o impacto da Guerra Fria, enquanto omitirmos a mania contra homossexuais subversivos que superou até mesmo o Pavor Vermelho, seja em Washington ou em Hollywood?

Essas perguntas poderiam ser multiplicadas para incluir cada era e cada evento em nosso passado, e a resposta tácita delas (não, nos dois casos) abre mais linhas de investigação, que só podem melhorar a compreensão do nosso presente, bem como do nosso passado.


Milk: 30 anos depois

28 de outubro de 2009

Eis um nome que fora do eixo norte-americano certamente não significava muito, ou mesmo nada, até o começo de 2009: Harvey Milk. A produção e posterior premiação do filme de Gus Van Sant foram responsáveis pela propagação da imagem e até iconização do ativista, ao menos no cenário LGBT.

Sean Penn no papel de Harvey Milk (2008)

Sean Penn no papel de Harvey Milk (2008)

Não foram só a interpretação de Sean Penn e a qualidade do roteiro, posteriormente premiados com Oscars, ou mesmo a temática da história, pouco contemplada em geral pelo cinema do mainstream, que impulsionaram a bilheteria do filme. Percebe-se a presença de um tino comercial para o lançamento de uma película como essa, no contexto em que foi lançada. Além de resgatar com esmero a figura política de Milk, ela também reproduz o cenário conservador em que Harvey viveu e militou – e que, notadamente, não se transfigurou tanto assim até hoje.

30 anos depois: a semelhança dos cenários

A 27 de novembro de 1978, Harvey Bernard Milk foi assassinado em San Francisco. 30 anos depois, a data escolhida para a estréia de sua biografia cinematográfica, a população dos Estados Unidos enfrentava uma situação política de avanços e retrocessos. Foi em novembro de 2008 que ocorreu a aprovação da Proposition 8 na Califórnia, tendo o apoio de 52,24% dos cidadãos votantes e representando um largo passo para trás na luta pelos direitos igualitários não só no estado como no país: cententas de casamentos entre pessoas do mesmo sexo foram anuladas, e um direito que recém havia sido concedido lhes foi novamente negado. Em novembro, também, os norte-americanos foram às urnas para eleger seu novo presidente, Barack Obama.

Se em 1978 conferimos a primeira vitória política de um homossexual assumido, em 2008 foi eleito o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Ainda que sejam cargos e minorias diferentes entre si, é inevitável fazer essa associação; além do mais, tanto um quanto outro discursaram com a intenção de combater desigualdades e preconceitos na sociedade norte-americana, cada um dentro de seus alcances.

Na ordem social e midiática, também conferimos algumas semelhanças. No ínicio de 2009, com a Prop 8 recém aprovada – e muito contestada pelos homossexuais da California -, aconteceu o tradicional concurso Miss USA. A candidata predileta era justamente a californiana Carrie Prejan, que, indagada a respeito do matrimônio homossexual, se posicionou negativamente. Ao fim do concurso ela ficou na 2º posição, havendo especulação a respeito de um desfavorecimento por conta do comentário preconceituoso. Em contrapartida, Carrie recebeu o título informal de símbolo da luta contra o casamento gay. Até mesmo porque reafirmou sua opinião em entrevistas e aparições posteriores, dando voz ao discurso cristão.

Anita Bryant (1964) e Carrie Prejan (2008)

Anita Bryant (1964) e Carrie Prejan (2008)

Semelhante é o caso de Anita Bryant, ícone de beleza e famosa cantora/garota propaganda dos anos 60-70. Anita, que é retratada no filme, liderou a partir de 1977 uma espécie de cruzada pelos Estados Unidos contra a aprovação de leis favoráveis aos direitos homossexuais. Apelando para a fantasiosa “ameaça” que os gays representavam aos bons costumes e principalmente as crianças “indefesas e puras”, Bryant encabeçou a criação e foi a principal porta-voz do movimento “Save Our Children”.

"SIM, ANITA! Eu quero ajudar você a trazer de volta aos Estados Unidos a moralidade e Deus." Cartão-reposta distribuído pelo território americano para angariar fundos e recrutar apoio

Cartão-reposta distribuído pelo território americano para angariar fundos e recrutar apoio, com os dizeres: SIM, ANITA! Eu quero ajudar você a trazer de volta aos Estados Unidos a moralidade e Deus.

Sejam por essas, ou outras eventuais semelhanças mais sutis aqui não citadas, que uma maior identificação com a obra foram possíveis, acabando por sublinhar a trajetória de Milk no cinema e refletir diretamente na imagem do mesmo fora das telas.

A consagração do ícone

Fato é, que no dia 12 de agosto de 2009, o mesmo presidente Barack Obama distribuiu uma Medalha Presidencial de Honra à cidadãos que auxiliaram a melhoria nas mais diversas categorias do país. Harvey Milk foi agraciado com a medalha póstuma, num gesto que simboliza a forte revitalização de sua imagem, posterior ao filme, como símbolo da luta pelos direitos LGBT.

Outra medida considerável foi a recente assinatura de uma lei, pelo governador da Califórnia (também conhecido ator) Arnold Schwarzenegger, em que oficializa o dia 22 de maio como Harvey Milk day, em celebração a data de nascimento do político.

Acredito que, longe de minimizar a importância de Milk ou desmerecer a honraria, a lei evidencia bem a crescente relevância do nome no cenário atual, seja ligado a luta pelos direitos, como também, agora a reafirmação do mesmo como ícone da cultura gay.

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O caso de Milk é importante, pois acaba tornando mais nítida a inserção de uma figura primeiramente política em posterior referencial cultural. Principalmente em meios, como o LGBT, em que militância e cultura tem seus limites definidos por uma linha tênue que poucas vezes pode ser identificada.

Falar mais da biografia dele seria apenas tentar reproduzir uma imagem grosseira do que Gus Van Sant conseguiu captar com delicadeza e apuro. Resta inspirar-se, fazer repercutir o legado e levar adiante a luta de Harvey Milk.

* Embora o filme de 2008 tenha alcançado um número ímpar de espectadores, dando uma projeção internacional ao nome, não foi a primeira produção que se propôs a contar a vida de Harvey Milk. Em 1984 um documentário chamado “The Times of Harvey Milk” foi realizado e premiado com o Oscar de melhor documentário do ano.

(Edição final: Pedro)


Outubro: Mês da História LGBT

27 de outubro de 2009

O senso comum pouco conhece o ativismo gay. Acredito que mesmo Stonewall, marco das lutas LGBTs, ganha pouca atenção da grande mídia – visto que está completando 40 anos em 2009 e pouco foi mencionada por aí.

É sabido que o preço da fama de alguns movimentos sociais foi alto para seus manifestantes. Queimação de sutiã e instauração do matriarcado são clichês contra os quais as feministas têm de lutar constantemente, explicando à exaustão que ser feminista não significa abdicar da feminilidade, ser lésbica ou querer que todos os homens morram. Mas se a alta exposição é prejudicial, não podemos deixar de esquecer que a invisibilidade também tem seus malefícios: se uma menina inconformada com a submissão que lhe é sugerida sabe, mesmo através da visão esterotipada, que existem mulheres que combatem tal situação, não necessariamente uma menino afeminado tem conhecimento da existência de toda uma estrutura ativista, com uma história própria, que visa a defesa da diversidade sexual.

Essa ausência de referenciais históricos relativos ao ativismo gay vem sendo notada e, progressivamente, diferentes iniciativas vêm tentando suprí-la. É nessa onda que foi instituído o GLBT History Month.

O GLBT History Month

Em 1994 o professor Rodney Wilson inaugurou a iniciativa, nos Estados Unidos, escolhendo Outubro por ser o mês de outra data ativista – o National Coming Out Day (o recém trazido para o Brasil “Dia de Sair do Armário”). A idéia foi apoiada por instituições gays como o GLAAD e o HRC e reforçada com a ajuda da National Education Association. Desde 2006, o Equality Forum se responsabilizou pela manutenção do interessantíssimo site da iniciativa.

LGBTHM

Inspirado nos Black and Women’s History Months, o GLBT History Month destaca anualmente as realizações de, de 31 ícones gays, lésbicos, bissexuais ou transgêneros. (…) Começando no dia 1 de outubro de 2009, um novo ícone GLBT é apresentado a cada dia. Você terá acesso a um vídeo, uma biografia e outros recursos, juntamente com informações sobre todos os ícones anteriores. Basta clicar sobre o nome do ícone, correspondente ao dia do mês.

Os vídeos e minibiografias já abordaram desde figuras conhecidas pelo grande público como Leonardo da Vinci, Michelangelo, Alan Turing, Cole Porter, Basquiat e Andy Warhol, a personalidades que apenas o público ativista mais experiente conheceria, como Alfred Kinsey, Rachel Maddow, Cleve Jones e Tammy Baldwin, passando ainda por celebridades como Ellen DeGeneres, Ian McKellen e Melissa Etheridge.

A versão britânica do Mês da História LGBT ocorre em fevereiro, devido a conquistas próprias de direitos dos gays britânicos, e começou em 1997. O site inglês explica a necessidade do evento e deixa claro que não quer reafirmar noções modernas de sexualidade, encaixando as personalidades históricas nas letras L, G, B ou T, mas apenas reparar o dano realizado pela heteronormatividade, levando assim ao ambiente educacional a noção de que a realidade da sexualidade humana é muito mais abrangente do que pensamos.

Além da consistência do projeto, a versão britânica conta com uma seção de sugestões de atividades para o dito mês, para cada interessado poder organizar e agir diretamente na sua comunidade. Desde seminários e conferências até exposições de arte com temática LGBT estão nessa pauta.

Acredito que a explicação do site para a iniciativa seja bem escrita a ponto de merecer ser reproduzida na íntegra:

Ao longo da história, podemos encontrar muitos exemplos de pessoas que, por uma razão ou outra, se recusaram a obedecer às premissas em relação ao sexo da sociedade em que nasceram. Também encontramos muitas histórias de pessoas que amavam outras de seu próprio sexo. Algumas dessas pessoas eram famosas, alguns deles obscuras. Algumas deles sofreram perseguições graves, outros tiveram mais sorte. Algumas são lembradas pelas contribuições que fizeram para a nossa cultura e sociedade. Suas vidas pessoais são geralmente reprimidas ou censuradas, exceto em publicações especializadas.

Para entender o nosso presente e imaginar o nosso futuro, precisamos primeiro obter clareza sobre nosso passado. Isto é válido para nós como indivíduos, mas também é aplicável para as sociedades. O LGBT History Month é um momento em que podemos explorar e partilhar alguns aspectos ocultos do passado do nosso país, tanto recente quanto remoto. Esta história escondida pertence a todos nós, é parte de nossa herança.

A configuração de personagens históricos: ônus e bônus

A execução dessa iniciativa pode render ótimos frutos. Por um lado, é importante que o grande público desenquadre suas noções e seu conhecimento do que é ser gay ou lésbica, saiba que estes têm uma trajetória particular em busca da garantia de seu – ainda não obtido – lugar ao sol. Isso pode estimular até mesmo o avanço dos direitos e do respeito aos LGBTs.

Por outro lado, é muito importante para os próprios gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros mais jovens tenham fácil acesso a essa história, sintam-se parte de um todo e não condenados a sufocar e morrer fora do aquário dos ditos heterossexuais.

Mas acredito que deva se ter aguns tópicos em mente, pois tarefa de educar em relação a essas figuras é delicada sob vários aspectos. Primeiro, como já mencionado pelos ingleses, é bom que não se categorize as pessoas. É importante que saibam que Leonardo da Vinci se relacionava com outros homens, mas ele não era gay, porque o gay é uma categoria recente. Deixar claro que a sexualidade humana tem várias facetas e, ao mesmo tempo, que ela não precisa se encaixar dentro de alguma delas é uma tarefa difícil.

Em segundo lugar, existe o fator da criação herói. A imagem mistificada e a supervalorização das atitudes podem ser consequências de uma mensagem mal transmitida. O importante é ter em mente que, seja comportando-se sob os moldes do ativismo clássico ou apenas tendo uma sexualidade aberta com naturalidade, todas essas figuras deixaram como lição uma vivência espontânea da sexualidade humana e a mensagem de que é preciso contestar, sempre, toda forma de discriminação ou privação dessa vivência.

Que o Mês da História LGBT sirva não como momento saudosista das antigas formas de ativismo, pois estamos em tempos diferentes e ainda há muito pelo que lutar, mas como injeção de inspiração e ânimo para as reivindicações de hoje e amanhã. E que seja, em algum momento, importada para solo tupiniquim, em cuja história não faltam personalidades admiráveis para se explorar nessa área.


Breves apontamentos para a história da homossexualidade

26 de outubro de 2009

O autor da mais completa obra sobre história da homossexualidade no Brasil, João Silvério Trevisan, costuma dizer que a história dos homossexuais foi sempre escondida, tornada invisível. A reticência em relação à presença de amantes do mesmo sexo em todas as épocas pode ser interpretada diversamente: seja como intencional, advindo da tentativa de normativizar a heterossexualidade, ou como acidental, descaso mesmo, se considerarmos que a história reflete muito o contexto em que é produzida – no ocidente, um contexto em que o sexo entre membros de gêneros diferenciados, e apenas ele, é visto como correto, comum e natural.

Falar de história da homossexualidade consiste em falar de apenas uma faceta da história da sexualidade humana, que é absurdamente rica e plural. Consiste em compreender que as relações sexuais foram encaradas de formas distintas de acordo com cada tempo e sociedade, sem a presença da dicotomia hetero x homo, fruto da mentalidade moderna. Afastemo-nos, por isso, da perspectiva errônea que tenta anacronizar as categorias identitárias, partindo da premissa que “houve gays e lésbicas em todas as épocas”.

Afastemo-nos, também, do ativismo barato, da história com fins. Se vivemos em uma sociedade homofóbica, não é o trabalho acadêmico que vai transformar a situação. Não adianta muito desconstruir as idéias erradas a respeito da trajetória histórica da sexualidade sem propor uma nova leitura para elas. O objetivo aqui não pode ser simplesmente esfregar na cara da academia a existência comprovada do homoerotismo em todos os tempos. Esse trabalho, além de não levar a nada, já foi realizado por outros.

Se queremos inverter a situação descrita por Trevisan, façamos de maneira digna, correta e compenetrada. A formação de uma memória histórica com a qual o ativismo LGBT possa contar e utilizar em suas lutas políticas é um assunto que pode ser próximo, mas deve ser visto como nitidamente distinto. Encaremos a história da homossexualidade não como ferramenta para visibilidade gay, mas para a construção de um conhecimento mais aprofundado da humanidade e de sua trajetória.

Semana da História LGBT no Homomento

Outubro é, oficialmente, o Mês da História LGBT. Se já constam aqui no Homomento duas traduções voltadas para esse propósito, essa semana resolvemos nós mesmos refletir a respeito do tema. Ao longo dessa última semana do mês serão publicadas algumas postagens dentro dessa temática, na tentativa de enriquecer a discussão.