Eles contra elas

4 de janeiro de 2011

Há mais de mês aconteceu o Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher. Aí a Lola do Escreva Lola Escreva, um dos meus blogs favoritos, fez um post especial para os homens. Com o título “Homem, faça a sua parte”, ela sugere algumas coisas que os homens poderiam fazer para participar da luta contra o machismo.

A blogueira explica que logicamente não são todos os homens que estupram e agridem mulheres, mas que essas agressões são feitas por homens. E que esse assunto, o da violência contra a mulher, deveria dizer respeito a todos, independente do sexo. Não precisa ser agressor nem agredido pra se envolver nessa luta e querer que a situação acabe, logo, homens que não agrediram e mulheres que não foram agredidas podem e devem participar.

Aí vêm algumas dicas de coisas que podem ser feitas por homens que querem participar desse conjunto de práticas que engloba a luta feminista.

Permita-me algumas sugestões: se você tiver um blog, escreva sobre isso. Escreva sobre quando você começou a autoanalisar o seu sentimento de posse. Escreva sobre o que viu de desigual no relacionamento entre os seus pais. Escreva sobre o ciúme doentio que você sentiu aquela vez da sua namorada. Escreva quando descobriu que as mulheres merecem respeito.

Copiado esse trecho, preciso fazer alguns comentários.

Pra começar, quero questionar essa ideia de que os homens “também” podem se interessar pelo feminismo. Tenho certeza que a Lola sabe que ser mulher não significa ter interesse automático por aquele conjunto de coisas que se entende como “emancipação feminina”, mas a premissa do texto não deixa isso claro. A leitura me fez remexer na cadeira porque parecia que bom, nem precisamos falar sobre como o feminismo é caro às mulheres, agora vamos aos homens.

O machismo é um sistema simbólico que não foi deliberadamente criado. Não houve um momento em que homens se opuseram a mulheres e submeteram elas, contra a sua vontade, e desde então elas vêm umas sendo submissas e outras reparando o quanto essa situação é horrorosa. Não é dualista, mas totalmente complexo e enraizado culturalmente. O feminismo, no entanto, se organizou em torno de mulheres, e vem sendo caracterizado como “luta feminina”. Se cria aí essa visão polarizada que é extremamente problemática.

Quando um marido oprime a esposa de alguma forma não estamos falando de uma situação em que um homem dominador e possessivo violentou uma esposa submissa que, se pudesse, estaria numa relação diferenciada. A relação já se estruturou assim desde o começo porque os dois quiseram. Tanto o homem escolheu uma parceira-objeto quanto a mulher procurou um parceiro que a objetificasse, e essas escolhas foram condicionadas e impostas a eles desde que nasceram.

A sugestão de Lola é que homens esclarecidos falem sobre o momento da quebra, em que repararam que não é legal ter o sentimento de posse, desrespeitar as mulheres, sentir ciúme doentio e outras coisas mais. Que eles colaborem com relatos que possam ser lidos por machos chauvinistas, que quem sabe possam se sensibilizar.

Mas acontece que esses homens sensíveis de Lola vivem em um mundo em que a grande maioria das mulheres busca por objetificação, luta por submissão e reafirma diferenças categóricas entre os sexos que acabam sempre diminuindo a mulher. Pra dar um exemplo: há alguns meses falei sobre um livro chamado “Cuidado! Seu príncipe pode ser uma Cinderela” que é um manual para a mulher identificar se o seu marido é um gay enrustido que quer manter as aparências. Os parâmetros? Se ele for muito carinhoso, se vestir bem, tiver uma boa relação com a própria mãe, ele é gay e você está sendo enganada. O livro diz à mulher o que NÃO se esperar de uma relação heterossexual, ou seja, carinho, companheirismo, etc. E, que surpresa: foi escrito por duas MULHERES, visando “ajudar” MULHERES.

Esses dias li um tweet dizendo que acusar as mulheres de serem perpetuadoras da pior espécie de machismo seria a configuração de um neomachismo, um machismo dois ponto zero. Realmente é de uma pobreza enorme desculpabilizar homens, mais ou menos como aquela premissa escrota de que “são os negros que são racistas consigo e se excluem”. Mas não é dentro desse esquema argumentativo que quero me inserir.

Quero dizer mais ou menos o que falei no meu post anterior, só que trazendo isso pro feminismo, porque é importante. Não se trata de vítima contra opressor, mocinho contra bandido. Não são mulheres (e homens esclarecidos) lutando contra homens machistas. São pessoas que pensam uma coisa se opondo a pessoas que pensam outra coisa. É muito ingênuo endereçar “também” aos homens os objetivos feministas, como se qualquer mulher entendesse o que são estes e se interessasse por eles. Qualquer mulher está apta a perceber que existe essa violência específica, mas não a perceber que as origens dessa violência são simbólicas e perpetuadas em todos os cantos diariamente. E é essa percepção, na minha opinião, que difere uma mulher feminista de uma mulher que se diz feminista.

Uma coisa que me chateou bastante em outro texto da Lola, e eu até reclamei pra ela no twitter sem obter resposta, foi ela dizer que tanto mulheres quanto homens podem sofrer violência sexual, mas apenas homens a cometem. Isso não é verdade: mulheres podem abusar de mulheres, e de homens também. E é um absurdo, uma falta de sensibilidade dizer o contrário. Eu não sei em que momento essa obviedade escapou da Lola, mas acho que foi quando ela começou a colocar as mulheres no pedestal de vítimas.

Esses dias vinha relendo os textos da época em que o Homomento não era um blog semimorto e bissexto e percebi que a grande maioria das nossas críticas foi tecida em relação à militância/mídia/comunidade gay. Nunca nos interessou pressupor um todo LGBT organizado para, em cima disso, partir para as críticas do “mundo hetero”. Reparamos que muitas vezes práticas que se pretendem inclusivas entre os LGBTs são normativas, machistas, racistas e escondem uma profunda decepção interna por não serem heterossexuais. Não estou falando da “homofobia internalizada”, esse que se tornou um recurso ativista gay para falar de qualquer homossexual que não se comporte como a militância pede, mas de práticas celebrativas e enquadradoras como o já analisado Mister Gay Brasil.

Adoraria pensar que lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros partilham todos do mesmo desejo emancipatório, e que se assumir significa ser fazer algo de diferente e efetivo para os gays, independente do contexto e da forma como vai ser administrada essa homossexualidade escancarada. Adoraria escrever longas cartas para meus amigos heteros “esclarecidos”, incitando-os a participarem da luta pelos gays. Mas não divido o mundo em preto e branco e sei que o buraco é sempre, sempre mais embaixo.

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Eles contra nós contra eles

19 de outubro de 2010

Uma coisa é fazer uso de um discurso sofista e conservador, dizendo que “não se pode ser preconceituoso com o preconceituoso”. Outra coisa é se propor um tratamento crítico das discriminações, sem categorizá-las identificando bons e maus de forma maniqueísta.

Os evangélicos, ou crentes como alguns preferem ser chamados, formam um grupo que tem sua própria vivência com a discriminação. Nossa cultura católica não gosta desses filhos rebeldes e taxa-os de fanáticos, ignorantes, etc. O “eu” brasileiro é homem, branco, católico e hetero, e pensa que qualquer sujeito que não se encaixa nesses padrões tem de estar à margem.

O que acontece é que as essas “minorias” exclusas, na busca por inclusão, não quebram o padrão masculino, branco, católico e hetero: apenas transgridem o que lhe diz respeito e continuam operando na lógica que lhes esmagou. Temos, assim, feministas brancas, católicas e hetero excluindo lésbicas; homens negros, católicos e heteros menosprezando mulheres e homossexuais; homens gays, brancos e católicos discriminando negros e mulheres e assim vai. Assim, embora partilhem da experiência de ser o “outro” social, todos esses grupos não-masculinos, não-brancos, não-católicos e/ou não-heterossexuais, dentro das infinitas combinações que podemos ter aí, brigam entre si por preciosismos e casualidades, sem a percepção de que continuam todos subjugados e diminuídos no meio em que se encontram. No caso dos gays versus evangélicos isso é muito mais acentuado; se nem movimentos sociais conseguem se conciliar, que dirá um religioso e um social?

Além disso, temos um fator importantíssimo que é o teor da doutrina evangélica. Num tempo em que o politicamente correto predomina e ser preconceituoso é feio, cafona, fora de moda, muitos neopentecostalistas têm uma postura de clara discordância em relação às práticas homossexuais. A polarização entre os dois grupos vem ficando ainda mais nítida com os debates no Congresso, especialmente em torno do PLC 122/06, que se na opinião de LGBTs é importante para criminalizar a homofobia, na opinião de muitos religiosos é absurda por vetar elementos constituintes do seu código de crenças. Essa questão separaria definitavamente os interesses de ambas as minorias e faria das lutas de ambos coisas totalmente diferenciadas, certo? Errado.

Acontece que a voz evangélica no congresso, ao tentar barrar medidas pró homossexuais, além de evitar o progresso dos direitos humanos no Brasil comete um equívoco ao fazer o interesse religioso pesar mais que o político na balança das prioridades. Quero dizer que esses evangélicos não podem esquecer que operam sob uma democracia liberal, e que lutar contra qualquer tipo de liberdade – religiosa inclusive, como buscam fazer com os cultos afrobrasileiros – significa lutar contra a própria, de certa forma.

É claro que é uma coisa muito séria dizer que os evangélicos têm de deixar a política pesar mais que a religião na balança de prioridades. Sabemos, afinal, que as religiões não funcionam dessa forma em sua episteme. Mas historicamente tem sido assim; as instituições religiosas vão cedendo às transformações sociais e suas doutrinas são reinterpretadas. Sabemos, por exemplo, que esses grupos evangélicos – e mesmo os católicos tradicionais – são essencialmente contra o divórcio, mas se dentro das igrejas pode-se falar bastante disso, fazer do casamento novamente um laço vitalício não está em questão em âmbito sociopolítico. Ninguém foi preso por discordar do divórcio, assim como ninguém seria preso por discordar da homossexualidade; as leis apenas buscam gantir que o direito de se divorciar e de ter relações homossexuais não fossem negados aos integrantes da sociedade em questão. E que, no caso dos homossexuais, não houvesse possibilidade de alguém difamá-los, tratá-los como doentes e promover um discurso odioso contra eles na esfera social.

Tomo como equívoco sobrepor interesse religioso a político porque sabemos que os evangélicos formem paradoxalmente um grupo político com interesses próprios no atual Estado brasileiro e ao mesmo tempo não formam grupo nenhum, uma vez que estão espalhados da esquerda à direita, com direito a boas doses de centro. Então ao mesmo tempo que alguns dizem que se deve reconhecer que faz parte do processo democrático se formar uma junta evangélica que queira lutar por seus interesses, o argumento é falho porque esses senhores reconhecem a laicidade de seu ofício e se sujeitam a jogos partidaristas que no fim das contas pouco dizem respeito a princípios bíblicos.

Fui longe, dei um nó e agora volto pra enfim ir direto ao ponto: os interesses dos homossexuais e dos evangélicos são os mesmos; a garantia do reconhecimento de sua igualdade e da manutenção de suas liberdades dentro do nosso esquema civilizacional que é a democracia liberal. O que acontece é que determinada parcela do grupo evangélico não pensa dessa maneira, querendo garantir sua primazia de seu recém conquistado lugar enquanto homens, evangélicos, brancos e heterossexuais, lutando contra os direitos de mulheres, não-evangélicos, não-brancos e não-heterossexuais. Uma prática realmente nada nobre, mas que não determina que os crentes sejam cruéis, preconceituosos ou maus.

O que luto contra é uma perspectiva dualista, de que os evangélicos são os piores inimigos dos gays. Não o são, e pensar assim é uma coisa muito séria, muito feia. Evangélicos não são animais estúpidos e fanáticos. Talvez alguns sejam, mas alguns LGBTs também o são. Em verdade, é bem mais possível que um evangélico trate bem a uma lésbica do que uma pessoa que declaradamente “adora gays”, porque não só esse discurso de “adorar gays” é totalmente homofóbico como os mesmos evangélicos que pregam a homossexualidade como antinatural também pregam a solidariedade e o amor. Deve se considerar ainda que muitos desses crentes, por mais que na igreja sejam coniventes com certos tipos de discurso, não necessariamente compactuam com eles na prática e nem mesmo percebem isso. Não há que se rotular todas essas pessoas e presumir que elas pensam e vivem a religiosidade da mesma maneira.

Sou contra o preconceito contra evangélicos porque sou contra qualquer tipo de preconceito. É problemático assumir uma premissa como “aquilo no que eles acreditam é errado” porque é circular. Enquanto um diz que é errado ser algo, outro responde que é errado acreditar em algo. Cada surdo gritando sua verdade para fazer-se ouvir mais alto. Lutar pela garantia dos direitos humanos é lutar pela liberdade de opinião, e como venho enfaticamente falando desde o início do texto, isso é algo prezado por ambos os grupos. É claro que a linha entre a opinião e a difamação é tênue, coisa que todo esse debate em torno da lei da homofobia deixou bastante claro, mas antagonizar não é solução.

Atribuir a evangélicos o papel de nossos maiores inimigos é análogo a tapar o sol com a peneira. É mais confortável e mais fácil, afinal, apontar como opositor um pequeno grupo que declaradamente não gosta de homossexuais do que a grande maioria (inclusive a própria “comunidade gay”), cujo preconceito ganhou tanta malandragem que sabe até mesmo se disfarçar de progressista e pró direitos humanos. Não digo que não se deva brigar com a empreitada esquizofrênica dessa bancada no congresso e nem que não seja nítido o quanto pastores como Silas Malafaya promovem o preconceito. Apenas que não está nessas atitudes a origem da repressão a LGBTs, e que lutar SÓ contra elas, ver nelas o grande X da questão, é ilusório. E é, além de tudo isso, reafirmar um preconceito de origem católica. E entrar de vez na corrida maluca em que as minorias, preocupadas demais com a sua fatia do bolo, não se importam com todas as outras que também querem comer.


Destaque da semana: enquete sobre a PLC 122

15 de novembro de 2009

Na semana que passou, o PLC 122/2006 deixou de ser assunto somente entre militantes e políticos. Graças a um ataque hacker, admitido pela administração do site do Senado na segunda-feira, uma enquete sobre o projeto recomeçou do zero. Religiosos atribuem o reinício a um sistema tendencioso, pois o “não” ao PLC vencia. Entre os que defendem a necessidade da criminalização, o projeto foi até tema de corrente de e-mails, pedindo votos a favor da iniciativa. Pelos comentários no Twitter, a galera está acompanhando bem de perto a votação. É o maior engajamento na rede em relação ao projeto desde a campanha no Twitter por assinaturas no abaixo-assinado Não Homofobia.

O Gay.Com.Br fez uma lista de argumentos, encontrados no Twitter, contrários ao PLC. O rol de motivos inclui tanto razões religiosas, como a crença em uma associação entre a homossexualidade e o Diabo, quanto consequências esdrúxulas como o possível desemprego de humoristas (se bem que levando em conta a quantidade de gente na mídia que só sabe fazer piada com gays, isso parece bem plausível). Podemos adicionar à lista tweets que denotam preocupação com o avanço dos direitos dos LGBT, outros que afirmam que isso é uma proibição da heterossexualidade, os que dizem que Cristo seria contra o projeto (a vantagem de crer em alguém que viveu no passado é poder apoiar-se em argumentos que ele teria, como se essa suposição – altamente subjetiva – tivesse validade). Os mais exaltados levam à potência máxima a figura da mordaça gay ao denunciar que homossexuais ameaçam de morte seus opositores.

Uma visão mais simplista da defesa do PLC 122 poderia levar a crer que somos contrários a esses argumentos listados. Pelo contrário, estamos abertos ao diálogo. Quando tais posições são assumidas, temos a chence de confrontá-las, de expor quais são as verdadeiras implicações do projeto e por que ele é necessário. Não vamos entrar no absurdo de responder às ideias exaltadas expostas no parágrafo anterior, mas já defendemos aqui que os principais temores dos fundamentalistas em relação ao PLC 122 – superprivilégios para os gays, glamurização da homossexualidade – são mentiras.

É muito bom que estejamos atentos ao projeto. Na terça-feira, o substitutivo apresentado por Fátima Cleide (PT-RO) foi aprovado pela Comissão de Assuntos Sociais, e segue para apreciação da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. De lá, volta para a Câmara, pois o texto do projeto sofreu alterações, criminalizando também a discriminação a idosos e portadores de deficiência. E mesmo a nova redação é atacada pelos opositores da iniciativa, que defendem que a mudança é apenas uma manobra para facilitar a aprovação do projeto de lei. No afã de combater os direitos dos homossexuais, fecham os olhos para as injustiças sofridas por outras minorias. A oposição ao PLC 122 não tem vergonha de se mostrar conivente com o preconceito.

Update: no momento em que esse texto foi escrito, o “sim” ao projeto vencia com 53% dos votos na enquete do site do Senado.


História Queer e História Americana

30 de outubro de 2009

No encerramento de nossa semana dedicada à História LGBT, a tradução dessa sexta ressalta um ponto muito importante: quando se estuda a vida de LGBTs em outras épocas, não se pode perder a noção do conjunto. É impossível desvincular a história dos LGBTs do restante da História que estudamos no colégio – afinal, a sociedade que ainda hoje resiste a aceitar as sexualidades não-hétero é a mesma que hoje nega a existência do racismo, por exemplo, e os mecanismos que impedem a conquista plena da igualdade para um e outro grupo remontam ao mesmo passado.

Mais uma vez, traduzimos um artigo da Enciclopédia GLBTQ, de onde já tiramos a história das marchas em Washington. Hoje, em vez de um verbete, trazemos uma coluna de opinião.  Vicki Eaklor, a autora, é membro da American Historical Association e publicou o livro Queer America: A GLBT History of the 20th Century (Greenwood Press, 2008).

História Queer / História Americana

por Vicki Eaklor

Conforme eu ia escrevendo Queer America, o meu objetivo era o de oferecer uma fonte completa, ainda que concisa, para alunos, professores e qualquer outra pessoa que procurasse aprender alguma coisa sobre a experiência GLBTQ nos Estados Unidos nos últimos cem anos.

A necessidade desse livro surgiu a partir do meu próprio trabalho: cerca de quinze anos antes, eu tinha introduzido o curso “História Gay Americana” ao currículo da Alfred University, e de início achei difícil organizar uma lista de leituras. Desde então, como sabemos, o campo da história GLBTQ explodiu, com centenas de estudos maravilhosos sobre indivíduos e movimentos, abordagens e argumentos, constantemente levando-me a reconsiderar o conteúdo e o método de meu curso e minha pesquisa.

No entanto, dois temas com os quais comecei minha trajetória no ensino permanecem os mesmos e, na verdade, tiveram sua importância ampliada conforme eu escrevia o livro: a magnitude de nossa história – ela é tão vasta -, e o fato de que o passado GLBTQ, longe de ser “mais uma história” é parte integrante da história americana.

Dada a forma como a história é dividida em campos, tem sido relativamente fácil aceitar a guetificação desenvolvida desde os anos 60, quando os novos historiadores sociais começaram a reintegrar trabalhadores, mulheres, afroamericanos, indígenas, e, claro, os americanos homossexuais, entre outros, para a “história americana”. Tal era a força da história tradicional (branca, masculina, privilegiada, presumidamente heterossexual, política), porém, que a integração plena dessas histórias “minoritárias” tem acontecido lentamente, e isso quando chega a ser realizada.

O resultado é que a história dos EUA que a maioria dos americanos aprende ainda se assemelha menos a um picadinho composto por muitos elementos do que a uma refeição sofisticada feita de pratos separados, a maioria dos quais é “extra” e pode ser descartada dando preferência ao prato principal, a velha carne de sempre. É chegada a hora de resistir ao impulso e à conveniência desta abordagem, mostrando a natureza integrada de uma história com a outra. Assim, chego ao meu argumento de que a história queer é história americana, e vice-versa.

A história queer e a costumeira saga americana são interdependentes, de várias maneiras. Deixando de lado os efeitos evidentes da história dos EUA sobre as pessoas queer (relatados como eras de maior ou menor grau de homofobia, de acordo com as políticas existentes contra a homossexualidade), aqui vou me focar brevemente no contrário – o impacto das pessoas e movimentos queer na história dos EUA, e a centralidade do gênero como um tema agregador.

A discussão deveria avançar sem a necessidade de dizermos que é evidente que as pessoas GLBTQ, visíveis ou não, são parte da história nacional pelo simples fato de estarem entre “o povo americano”; nós servimos nas forças armadas na guerra e na paz, fizemos parte de todas as forças de trabalho, todos os movimentos pelos direitos civis, em todos os partidos políticos, e, pelo menos no caso de James Buchanan (se não também Lincoln), podemos ter vivido também na Casa Branca.

Além disso, como Lillian Faderman argumentou brilhantemente em To Believe in Women, não é apenas a presença óbvia dos queers que deve ser reconhecida, mas muitas vezes o papel crucial que eles desempenharam em alguns dos principais eventos do país. (Faderman mostra, por exemplo, o papel central das lésbicas em todas as grandes reformas educativas e sociais nos últimos 100 anos.)

Outros exemplos de vozes queer (exploradas com mais profundidade no meu livro) incluem as do Renascimento do Harlem e do desenvolvimento do blues como uma forma de arte (Alain Locke, Langston Hughes, Bessie Smith, Ma Rainey), o desenvolvimento da arte moderna e música (Andy Warhol, John Cage); teatro e música tipicamente americanos (Tennessee Williams, Aaron Copland, Leonard Bernstein); e também aqueles que influenciaram profundamente o pensamento, a literatura e o ativismo pelos direitos civis e o feminismo no pós-guerra (Bayard Rustin, Adrienne Rich, Rita Mae Brown).

Além de modificar a história tradicional dos “nomes famosos”, contudo, a história queer sugere que esses eventos e movimentos específicos para pessoas GLBTQ estão totalmente alinhados à trajetória da história americana como ela é concebida com frequência: como uma história de extensão gradual dos direitos civis (quando não chega a uma igualdade plena) para uma proporção cada vez maior da população.

Se pensarmos nas nossas origens como nação, quando só homens brancos com posses e 21 anos ou mais de idade eram considerados cidadãos plenos, as fileiras de eleitores potenciais expandiram-se ao longo dos dois últimos séculos, com os excluídos da participação social e econômica repetidamente organizando-se em movimentos para exigir o seu lugar. O resultado disso é uma “política de identidade”, em que as mesmas características (raça, religião, sexo) usadas para justificar a discriminação tornam-se a base para a organização de grupos para combater a desigualdade.

Os chamados “homossexuais” também começaram a pensar nesses termos nos meados do século XX, e se organizar como um movimento político. Ao fazer isso, cada grupo – da sociedade Mattachine da década de 1950 e os piqueteiros da década de 1960, até a Força-Tarefa Nacional Gay e Lésbica da década de 1970, a Campanha de Direitos Humanos de 1980, e GenderPAC da década de 1990 – oferece insights importantes para a evolução da política GLBTQ, e da política da nação como um todo.

Finalmente, qualquer tentativa séria de reintegrar as pessoas queer novamente à história americana nos leva não só a repensar o que é a história e por que estudá-la, mas nos lembra o tempo todo que toda a história que omita o gênero como tema é incompleta.

No mínimo, a nossa insistência nacional na conformidade de gênero (na ideia de que os papéis de gênero são atribuídos em conformidade com o sexo das pessoas) explica muito sobre a história que temos de homofobia, já que gênero e sexualidade são confundidos com tanta frequência ( aquela pressuposição de que os homens efeminados e mulheres masculinas são também gays ou lésbicas).

O gênero também aparece em nossa história econômica e política. Será que podemos realmente compreender o capitalismo ou o militarismo sem notar que o sucesso nessas áreas depende de um culto da masculinidade?

Podemos compreender plenamente o impacto da Guerra Fria, enquanto omitirmos a mania contra homossexuais subversivos que superou até mesmo o Pavor Vermelho, seja em Washington ou em Hollywood?

Essas perguntas poderiam ser multiplicadas para incluir cada era e cada evento em nosso passado, e a resposta tácita delas (não, nos dois casos) abre mais linhas de investigação, que só podem melhorar a compreensão do nosso presente, bem como do nosso passado.


Outubro: Mês da História LGBT

27 de outubro de 2009

O senso comum pouco conhece o ativismo gay. Acredito que mesmo Stonewall, marco das lutas LGBTs, ganha pouca atenção da grande mídia – visto que está completando 40 anos em 2009 e pouco foi mencionada por aí.

É sabido que o preço da fama de alguns movimentos sociais foi alto para seus manifestantes. Queimação de sutiã e instauração do matriarcado são clichês contra os quais as feministas têm de lutar constantemente, explicando à exaustão que ser feminista não significa abdicar da feminilidade, ser lésbica ou querer que todos os homens morram. Mas se a alta exposição é prejudicial, não podemos deixar de esquecer que a invisibilidade também tem seus malefícios: se uma menina inconformada com a submissão que lhe é sugerida sabe, mesmo através da visão esterotipada, que existem mulheres que combatem tal situação, não necessariamente uma menino afeminado tem conhecimento da existência de toda uma estrutura ativista, com uma história própria, que visa a defesa da diversidade sexual.

Essa ausência de referenciais históricos relativos ao ativismo gay vem sendo notada e, progressivamente, diferentes iniciativas vêm tentando suprí-la. É nessa onda que foi instituído o GLBT History Month.

O GLBT History Month

Em 1994 o professor Rodney Wilson inaugurou a iniciativa, nos Estados Unidos, escolhendo Outubro por ser o mês de outra data ativista – o National Coming Out Day (o recém trazido para o Brasil “Dia de Sair do Armário”). A idéia foi apoiada por instituições gays como o GLAAD e o HRC e reforçada com a ajuda da National Education Association. Desde 2006, o Equality Forum se responsabilizou pela manutenção do interessantíssimo site da iniciativa.

LGBTHM

Inspirado nos Black and Women’s History Months, o GLBT History Month destaca anualmente as realizações de, de 31 ícones gays, lésbicos, bissexuais ou transgêneros. (…) Começando no dia 1 de outubro de 2009, um novo ícone GLBT é apresentado a cada dia. Você terá acesso a um vídeo, uma biografia e outros recursos, juntamente com informações sobre todos os ícones anteriores. Basta clicar sobre o nome do ícone, correspondente ao dia do mês.

Os vídeos e minibiografias já abordaram desde figuras conhecidas pelo grande público como Leonardo da Vinci, Michelangelo, Alan Turing, Cole Porter, Basquiat e Andy Warhol, a personalidades que apenas o público ativista mais experiente conheceria, como Alfred Kinsey, Rachel Maddow, Cleve Jones e Tammy Baldwin, passando ainda por celebridades como Ellen DeGeneres, Ian McKellen e Melissa Etheridge.

A versão britânica do Mês da História LGBT ocorre em fevereiro, devido a conquistas próprias de direitos dos gays britânicos, e começou em 1997. O site inglês explica a necessidade do evento e deixa claro que não quer reafirmar noções modernas de sexualidade, encaixando as personalidades históricas nas letras L, G, B ou T, mas apenas reparar o dano realizado pela heteronormatividade, levando assim ao ambiente educacional a noção de que a realidade da sexualidade humana é muito mais abrangente do que pensamos.

Além da consistência do projeto, a versão britânica conta com uma seção de sugestões de atividades para o dito mês, para cada interessado poder organizar e agir diretamente na sua comunidade. Desde seminários e conferências até exposições de arte com temática LGBT estão nessa pauta.

Acredito que a explicação do site para a iniciativa seja bem escrita a ponto de merecer ser reproduzida na íntegra:

Ao longo da história, podemos encontrar muitos exemplos de pessoas que, por uma razão ou outra, se recusaram a obedecer às premissas em relação ao sexo da sociedade em que nasceram. Também encontramos muitas histórias de pessoas que amavam outras de seu próprio sexo. Algumas dessas pessoas eram famosas, alguns deles obscuras. Algumas deles sofreram perseguições graves, outros tiveram mais sorte. Algumas são lembradas pelas contribuições que fizeram para a nossa cultura e sociedade. Suas vidas pessoais são geralmente reprimidas ou censuradas, exceto em publicações especializadas.

Para entender o nosso presente e imaginar o nosso futuro, precisamos primeiro obter clareza sobre nosso passado. Isto é válido para nós como indivíduos, mas também é aplicável para as sociedades. O LGBT History Month é um momento em que podemos explorar e partilhar alguns aspectos ocultos do passado do nosso país, tanto recente quanto remoto. Esta história escondida pertence a todos nós, é parte de nossa herança.

A configuração de personagens históricos: ônus e bônus

A execução dessa iniciativa pode render ótimos frutos. Por um lado, é importante que o grande público desenquadre suas noções e seu conhecimento do que é ser gay ou lésbica, saiba que estes têm uma trajetória particular em busca da garantia de seu – ainda não obtido – lugar ao sol. Isso pode estimular até mesmo o avanço dos direitos e do respeito aos LGBTs.

Por outro lado, é muito importante para os próprios gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros mais jovens tenham fácil acesso a essa história, sintam-se parte de um todo e não condenados a sufocar e morrer fora do aquário dos ditos heterossexuais.

Mas acredito que deva se ter aguns tópicos em mente, pois tarefa de educar em relação a essas figuras é delicada sob vários aspectos. Primeiro, como já mencionado pelos ingleses, é bom que não se categorize as pessoas. É importante que saibam que Leonardo da Vinci se relacionava com outros homens, mas ele não era gay, porque o gay é uma categoria recente. Deixar claro que a sexualidade humana tem várias facetas e, ao mesmo tempo, que ela não precisa se encaixar dentro de alguma delas é uma tarefa difícil.

Em segundo lugar, existe o fator da criação herói. A imagem mistificada e a supervalorização das atitudes podem ser consequências de uma mensagem mal transmitida. O importante é ter em mente que, seja comportando-se sob os moldes do ativismo clássico ou apenas tendo uma sexualidade aberta com naturalidade, todas essas figuras deixaram como lição uma vivência espontânea da sexualidade humana e a mensagem de que é preciso contestar, sempre, toda forma de discriminação ou privação dessa vivência.

Que o Mês da História LGBT sirva não como momento saudosista das antigas formas de ativismo, pois estamos em tempos diferentes e ainda há muito pelo que lutar, mas como injeção de inspiração e ânimo para as reivindicações de hoje e amanhã. E que seja, em algum momento, importada para solo tupiniquim, em cuja história não faltam personalidades admiráveis para se explorar nessa área.


A luta contra a AIDS e a Era de Aquário

23 de outubro de 2009

Outubro é o mês da história LGBT, e procuramos refletir isso em nossas traduções. Na semana passada, falamos sobre as primeiras marchas em Washington. Hoje, trazemos um relato que resgata os tristes dias das primeiras mortes pela AIDS.

A Caminhada contra a AIDS, a Era de Aquário, e pessoas como eu

Karen Ocamb

A maioria de nós não se emociona com eventos históricos, DSC_4195 raramente parando para pensar que uma vez aconteceu algo importante naquele dia.

Os feriados religiosos, por outro lado, exigem envolvimento – nem que seja apenas comprar presentes e dividir o pão.

Mas para pessoas como eu, LGBTs e já com uma certa idade, certos eventos são tão históricos como espirituais, senão religiosos – eventos como a Caminhada da APLA contra a Aids no domingo.

Atrevo-me a dizer que muitos, se não a maioria, dos mais de 30.000 caminhantes cadastrados participaram pela bondade do seu coração, não pela necessidade de FAZER ALGUMA COISA para combater a impotência avassaladora que nos possuiu durante o tsunami da crise da AIDS entre 5 de junho de 1981 – quando o CDC publicou um relatório dos médicos LA Michael Gottlieb e Joel Weisman sobre os primeiros 5 casos de homens gays com uma nova doença rara – e 1995, quando os inibidores da protease foram aprovados pelo FDA. Até o final daquele ano, estima-se que 9,2 milhões de pessoas no mundo tenham morrido de AIDS.

A morte em massa de gays nos Estados Unidos começou a diminuir no próximo ano. Na 11 ª Conferência Internacional sobre Aids em Vancouver, em 1996, cientistas anunciaram que uma terapia de combinação de medicamentos poderia transformar a AIDS de uma sentença de morte imediata a uma doença crônica controlável. E a doença começou a passar de homens gays – que então já haviam criado organizações de apoio para a educação, prevenção e tratamento de pessoas com HIV/AIDS – para outras populações com problemas acesso a saúde.

Em Los Angeles, na verdade, o HIV/AIDS apareceu pela primeira vez na Clínica de DSTS no Centro de Serviços Comunitários Gays, em 1979. E, como os gays começaram a ficar doentes e morrer dentro de algumas semanas – e outros simplesmente desapareceram – o centro criou uma central de atendimento por telefone para tentar responder a tantas perguntas tão assustadas quanto possível, sem explicações científicas claras. Essa central de atendimento cresceu lugar ao AIDS Project Los Angeles, que também começou a oferecer capacitações sobre a AIDS com médicos como Mark Katz, que lutavam não só contra a ignorância sobre a doença, mas também contra a hostilidade da sociedade e do governo. Pelo menos 25% da sociedade, de acordo com a pesquisa Pew Research mais recente, concordou com o pronunciamento do Reverendo Jerry Falwell, que disse que “a AIDS não é apenas um castigo de Deus para os homossexuais, é castigo de Deus para a sociedade que tolera os homossexuais”.

Então a comunidade LGBT veio em sua própria ajuda, criando e financiando novas organizações. A Caminhada da APLA contra a AIDS Bradley foi criada por Craig Miller, que tinha 25 anos na época. Os organizadores esperavam arrecadar US$ 100.000 naquele 28 de julho de 1985 – mas a estrela de cinema Rock Hudson tinha acabado de anunciar que tinha AIDS e 4.500 caminhantes apareceram nos estúdios da Paramount em Melrose – arrecadando $ 673.000.

Perdi a primeira Caminhada contra a AIDS – eu ainda era relativamente nova em LA, e meio que ainda estava no armário. Mas eu acompanhei as notícias sobre ela. E é aqui que os números – de cinco homens gays em Los Angeles em junho de 1981 para 7.699 casos de Aids e 3.665 mortes por AIDS nos E.U.A. até o final de 1984 – se tornam pessoais.

Eu recém havia produzido a cobertura dos Jogos Olímpicos de 1984 para as afiliadas da CBS News – que foi minha última tarefa após dez anos de CBS News – e eu comecei a estudar para ser uma dramaturga, tendo aulas de teatro com a incrível Salome Jens.

Foi lá que aprendi minhas primeiras lições sobre a AIDS.

Um jovem que Salomé dizia estar destinado à grandeza como ator/diretor repentinamente foi parar na sala de emergência com uma doença cerebral inexplicável. Salomé correu para perto dele; ele morreu três dias depois. Na aula, sussurrava-se que ele era gay e teve a nova doença. Depois disso, vários jovens atores vigorosos começaram a definhar. Ninguém sabia o que estava acontecendo; todos tinham medo.

Quando Johnnie Pipkin internou-se pela primeira vez no hospital, ele foi mantido em isolamento, sua comida era frequentemente deixado do lado de fora, e fomos obrigados a usar máscaras, luvas e uma bata cirúrgica antes de vê-lo. Ele queria tanto ser tocado – sua família havia simplesmente lhe abandonado -, e nós – a trupe de atores, seus companheiros de AA, seu ex-amante – éramos as únicas pessoas que aquele jovem de alma boa, outrora descarado e engraçado, tinha para amá-lo.

Não avia uma ala ou ambulatório para AIDS (5P21) na época, e uma crise de Johnny o levou para o hosptal do condado onde, por não ter plano de saúde, ele foi colocado em um quarto grande, junto a homens heterossexuais com uma variedade de doenças. Eles não se importaram muito com o “gay pervertido” escondido atrás da cortina do hospital.

Outro ataque deu-lhe um quarto todo seu. Mas como o County era um hospital escola da USC, ele era refém dos caprichos da equipe de enfermagem, por vezes, cruel. Muitas vezes ele foi obrigado a suportar os estagiários repetidamente furando-o com agulhas como uma almofada, tentando, muitas vezes sem sucesso, encontrar uma veia. Eu queria gritar para eles – para exigir que eles parassem de tratá-lo como se ele não era humano. Mas em vez disso Johnnie gritou para mim, pedindo-me para não aborrecê-los para que não se recusassem a fornecer a medicação para dor quando ele mais precisava dela, à noite.

Então, eu blasfemava contra Deus. E eu me repreendia por não ser Jesus, não sendo capaz de entrar, estender minhas mãos e curá-lo. Eu estava totalmente impotente.

Eu falhei com Johnnie, também. Antes que ele perdesse a voz para o câncer em seu esôfago – o câncer que se somava à infecção por fungos na boca, à variedade de fungos em seu corpo e aos vírus agindo como Pac-Man em suas entranhas, como se a Aids foi comê-lo vivo – Johnnie pediu que eu o ajudasse a morrer. Era fácil, sério – ele insistiu. Ele beberia uma garrafa de uísque ou duas, desmaiaria, e então eu seguraria um travesseiro sobre seu rosto. Eu disse que não – eu não iria ajudá-lo a renunciar a sua sobriedade e morrer com o demônio do álcool gritando em seu cérebro. Eu ainda tenho conflitos com essa decisão.

Um dia antes que Johnnie morresse em 1986, ajudei a enfermeira domiciliar a erguer seu esqueleto de sua cama para a cadeira de rodas, para que ele pudesse olhar mais uma vez para o seu precioso Silver Lake Garden. Eu não sabia como dizer adeus, então eu só disse que eu iria vê-lo amanhã. No dia seguinte, um domingo, eu estava falando em uma reunião do AA em Pacific Palisades, quando de repente senti uma ordem espiritual para falar sobre o que estava acontecendo com os meus amigos gays. Falei com o coração, e várias pessoas choraram, inclusive eu. Quando cheguei em casa, descobri que Johnnie morreu enquanto eu falava. Eu sabia. Eu pude senti-lo.

Johnnie Pipkin foi a minha segunda morte por Aids. A primeira foi a do ator/ antor Stephen Pender, no início daquele ano. Eu estava com Stephen quando ele morreu. Eu tinha ficado com ele dia e noite, à medida que seus amigos iam e vinham de seu quarto na ala Betty Ford do Cedars Sinai Hospital. Stephen foi meu padrinho no AA e, milagrosamente, ele lembrava de mim nos meus primeiros dias de sobriedade, na reunião atrás da porta vermelha em Greenwich Village. Não deixá-lo ficar sozinho quando morreu foi a minha maneira de agradecer a ele e todos os homens gays por estarem comigo quando eu lutava contra a morte pelo vício. Muitas vezes me perguneio: por que eles e não eu?

Stephen Pender morreu no dia 15 de março de 1986. Ele tinha 35 anos. Nesse ano eu andei na Caminhada da APLA contra a Aids. Eu chorei o caminho inteiro. Eu chorei porque Stephen tinha recém aparecido em “Hill Street Blues”, e falava-se em retomar sua carreira – talvez o começo de sua carreira na TV, depois de dois musicais na Broadway. Eu fazia parte de um grupo de amigos que cuidaram de Stephen quando ele estava doente – limpando sua casa todos os dias, cozinhando alimentos macrobióticos, tentando Cantina multidão (ADJ) BW exercícios espirituais alternativos, com os quais ele não se importava muito na verdade – os 12 passos dos AA eram espiritualidade suficiente para ele – e tentando abraçá-lo sem mover o cateter de Hickman em seu peito. Todo o tempo nós sabíamos que ele estava definhando lentamente e não havia nada que pudéssemos fazer para salvá-lo.

Nessa primeira caminhada, eu chorei a perda de Stephen e a minha própria impotência. Chorei pela perda de Johnnie, que estava definhando nessa época – mas queria saber tudo sobre a Caminhada contra a AIDS: quem estava lá, o que aconteceu, qual foi a sensação de estar com tantas outras pessoas passando pela mesma coisa.

A sensação era de amor. Era de um elo comum, forjado a partir de tristeza e raiva e perda, sabendo que os estranhos ao seu lado também sabiam no fundo de suas almas qual era a sensação do coração partido e daimpotência – e, ironia da ironia – também sabiam que quanto mais profunda a dor, mais espaço para o amor.

Parecia que a Era de Aquário estava sobre nós. A era de paz e da compreensão que muitos cantamos quando os nossos entes queridos estavam sendo convocados para lutar na guerra do Vietnã, alguns voltando para casa em sacos, alguns mentalmente e emocionalmente perdidos – todos mudados.

No início, a despedida foi semelhante – dizendo adeus aos amigos na pista, quando se preparavam para lutar no exterior em uma guerra em que eles não acreditam – e dizendo adeus aos entes queridos, quando entraram em hospitais para o tempo final.

cadeira de rodas Mas a Aids foi diferente. Agora meus amigos estavam literalmente morrendo nos meus braços. Uma geração de amigos e colegas. E aqueles que caminhavam ao meu lado conheciam a profundidade daquele amor e daquela perda, também. Era o tipo de conhecimento compartilhado que poderia curar o mundo, se o mundo quisesse ouvir.

Mas o mundo não deu ouvidos para nós, então andamos. E a nossa caminhada levou à coragem de ver e ajudar outro amigo a morrer. E a nossa visibilidade era uma posição orgulhosa e desafiadora contra os Jerry Falwells e Ronald Reagans do mundo, que – em nome de Deus – condenaram a todos nós.

E a Caminhada contra a AIDS permitiu que lutássemos com os nossos corações. No início dos anos 90, o famoso cantor e ativista da People With AIDS Coalition (PWA) Michael Callen iria se despedir de nós com sua canção, “Love Don’t Need a Reason” – uma canção sobre o amor autêntico, sem vergonha. O refrão diz

0011 Pois o amor não precisa de um motivo

O amor nem sempre rima

E o amor é tudo que temos por agora

O que nós não temos é tempo.

Michael cantou essa música na Marcha em Washington de 1993, ainda que seus pulmões estivessem cheios de sarcomas de Kaposi. Ele morreu naquele 27 de dezembro – apenas horas depois que eu o deixei – Eu era uma de seus amigos e cuidadores.

Nos dias de hoje, Michael é melhor conhecido como o cara cantando em falsete em “Where the Boys Are” no filme sobre AIDS “Filadélfia”. Foi aí que a maior parte da América aprendeu sobre a Aids – e, em particular, sobre o Sarcoma de Kaposi. Essas são as manchas roxas que o personagem de Tom Hanks mostrou em seu peito durante a cena do tribunal.

Danny-Warner Sabíamos sobre os sarcomas. Na verdade, assim como a lipodistrofia ensinou a todos nós como abandonar a “imagem corporal”, os sarcomas nos ensinaram sobre o desapego da vaidade. E o ato de abandonar todos os preconceitos em relação a como um homem gay deve parecer – e ser – era em si um ato de enorme coragem espiritual. Homens como Danny Warner, um dos co-fundadores em 1983 do extinto LA Shanti em West Hollywood – uma das primeiras organizações em HIV/AIDS do mundo – se despiram da vergonha e foram ao trabalho e a eventos com marcas bem visíveis de sarcoma no rosto.

Agora, à medida que me preparo para publicar este post, aquelas 30.000 pessoas estão caminhando pelas ruas de West Hollywood e Los Angeles. Eles estão caminhando por suas próprias razões. Mas eles também estão caminhando para Johnny Pipkin e Pender Stephen e Michael Callen e Warner Danny – e para pessoas como eu, que se assumiram por causa da AIDS, que aprenderam a amar tão profundamente por causa da AIDS, e que continuam a sofrer sozinhas em pequena e grande escala.

Awla 08 A Caminhada da APLA contra a AIDS hoje é histórico – ela marca o 25o aniversário do evento. Também marca onde estivemos – na vanguarda espiritual, os artistas pavimentando a estrada de tijolos amarelos para a Era de Aquário.

Mas devemos prestar atenção ao eco desses passos, porque mais
uma vez o HIV está aumentando entre os jovens homossexuais, enquanto a homofobia e o estigma ainda nos garantem um discreto apoio das mulheres e pessoas de cor.

Então, deixe os aplausos dos apoiadores e a luz da verdade agirem sobre os caminhantes hoje. Amanhã, o dinheiro arrecadado pode salvar uma vida e capacitar uma nova geração para a AÇÃO! LUTEM! PAREM A AIDS!


Destaque da semana: Parada proibida

18 de outubro de 2009

Na semana passada, o destaque foi a Marcha Nacional pela Igualdade que aconteceu nos EUA e o discurso de Obama na véspera do 11 de outubro, o Dia de Sair do Armário, data também escolhida para as Paradas de São Leopoldo, Rondônia, Maceió e Vitória. Também estava prevista uma outra parada para esse domingo, que acabou não acontecendo: a do município fluminense de Duque de Caxias. Por volta das 13h da tarde, com a multidão já nas ruas, a organização recebeu a notícia de que a manifestação havia sido proibida pela Prefeitura comandada por José Camilo Zito (PSDB). Do O Dia Online:

Ele alegou ter “queixas do governo passado e cartas assinadas por pastores e pela Igreja Católica que condenam o evento e que há uma insatisfação da sociedade pela vinda de gente de fora”. “Digo e repito: não tenho nada contra o homossexualismo, mas contra eventos que apresentam um certo tipo de conduta que é contra os valores da família e que trazem problemas para a cidade”, declarou o prefeito. “Aconselhei que fizessem em um clube, não ao ar livre, mas eles não vieram a mim abrir diálogo”.

A justificativa da obscenidade é a mesma que embasou a proibição da presença de menores nos arredores da Parada de Belém do Pará. Quando houve o caso dessa cidade, ressaltamos a impossibilidade de manter todos os menores longe da parada e dos males que ela ofereceria a um infante (sexo e oferta de álcool), pois a parada ocorre na rua. Para o prefeito de Duque de Caxias, é fácil manter os “maus valores” longe dos olhos da sociedade de bem: basta isolar os LGBTs, tirando sua manifestação das ruas e levando a festa para algum lugar reservado. “Que Parada Gay de 2010 seja realizada na vila olímpica do município. Não adianta pressionar porque a lei municipal não vai ser desrespeitada, tanto que vamos buscar um lugar mais adequado para eles se exibirem, disse Zito (o grifo é nosso).

A declaração anterior explicita a visão que o prefeito tem da Parada (e o fato de a proibição ter surgido minutos antes do evento desconstroi a versão do governo, de que a documentação fornecida pela organização do evento estava incompleta – se havia um problema nas licenças, como isso só foi constatado na hora?). Só fala em “exibição” quem não acredita no caráter político de uma manifestação. Zito não consegue crer que boa parcela dos LGBTs estejam na rua lutando por seus direitos – prefere tratar o caso como se fosse uma mera festa.

Ao propor que seja realizada em um ambiente fechado, ele oficializa essa imagem: como não há mensagem nenhuma a ser passada, o contato com a sociedade (ou seja: estar na rua) não se justifica, e é melhor manter a festa longe dos olhos de quem não participa dela. Felizmente, a estratégia do prefeito não conseguiu esvaziar a data: com somente um carro de som, que foi autorizado a permanecer por uma hora no local, a Parada converteu-se em uma marcha silenciosa e de protesto.

Com a proibição da Parada de Duque de Caxias, o público deixou a festa de lado, estendeu a bandeira e marchou (Foto: Lucíola Villela/O Dia)

Com a proibição da Parada de Duque de Caxias, o público deixou a festa de lado, estendeu a bandeira e marchou (Foto: Lucíola Villela/O Dia)

Para tentar dissipar a animosidade, o Prefeito publicou um artigo em O Dia:

Não sou contra a liberdade de expressão nem tenho preconceito com relação ao homossexualismo, pois tenho integrantes no meu governo que são declarados ou simpatizantes. Cada pessoa tem o direito de se relacionar com o grupo de sua preferência.

Mas a livre manifestação não pode ser “passaporte” para a anarquia e a conduta de atos que choquem a moral, descaracterizando por completo todo o movimento que, na verdade, busca o apoio da sociedade.

Nós, do Homomento, ficamos bem desconfiados quando alguém tira da manga a carta do amigo gay para se provar simpatizante. Da mesma forma, a tentativa de se provar amigável à causa LGBT por condenar atos contrários à moral que descaracterizam por completo o movimento também não basta para nos convencer de que não houve preconceito na decisão de proibir a Parada às pressas.

Ao longo da semana, a decisão da Prefeitura teve desdobramentos.  O  governo autorizou uma nova data para a Parada, que acontecerá em 15 de novembro – desde que não haja imoralidade, razão pela qual os organizadores contratarão seguranças particulares para coibir atos obscenos. Ainda assim, o Ministério Público deve ser notificado para gerar uma ação civil pública contra Zito.

O incidente atraiu atenção para a Parada, e acredita-se que a nova data marcada pode atrair um público ainda maior. O fato de a caminhada ter acontecido mesmo sem som no dia 11 prova que os LGBTs de Duque de Caxias estão preparados para uma Parada mais protesto e menos festa. Esperamos que a censura tenha um efeito reverso, motivando um engajamento mais passional na luta contra a homofobia. Afinal, se aprendemos alguma coisa com a história das marchas em Washington publicada aqui na sexta, foi que as dificuldades podem trazer um novo gás à militância LGBT.

** Aproveitamos para destacar a qualidade da cobertura que o jornal O Dia fez desse caso, com uma matéria por dia (confira: , , feiras – na 6ª, foi publicado o supracitado artigo do prefeito), conferindo profundidade à discussão e não deixando que o assunto fosse esquecido ao longo da semana. O Dia já tinha se provado competente e sensível aos assuntos LGBT ao promover, no início de setembro, uma série de reportagens retratando a homofobia, informando que ao menos um homossexual é vítima de violência nas favelas por dia nas mãos de traficantes e milícias ou mesmo da PM, e que 20% dos LGBTs abandonam a escola por causa do preconceito.