Carta Capital e a fome gay de informação

19 de janeiro de 2010

Folheando a Carta Capital dessa semana, centrada na polêmica abordagem da Lei da Anistia feita pelo Programa Nacional de Direitos Humanos, tive uma agradável surpresa: uma matéria de 3 páginas sobre homossexualidade masculina na Índia atualmente. Lembrando que há seis meses a sodomia foi enfim descriminalizada por lá, o artigo traz informações interessantes que fazem lembrar a distância entre legislação e realidade social. Nos conta que um clima de clandestinidade ainda paira sobre a vida gay indiana, que é bastante restrita à classe média.

Além das boas informações, com um trabalho competente de pesquisa, fotografia e entrevista, fiquei muito contente com a temática. Estamos acostumados a ler matérias sobre LGBTs apenas quando alguma polêmica os traz à tona: seja uma manifestação grave de homofobia – como o caso de Uganda, que chamou a atenção da comunidade internacional – ou seja uma controversa discussão em torno de leis. As histórias da reportagem, que dariam muito mais pano pra manga do que simples três páginas, são tão ricas que nos fazem inclusive questionar a importância de assuntos da moda, passados e repassados em sites de notícias.

Não entendo muito da profissão, mas percebo que às vezes o jornalista se perde procurando pautas de mainstream sem perceber a abundância de histórias que o cerca. Quando falamos de gays, trajetórias individuais de orgulho ou mesmo de conformismo serviriam como boa representação da realidade que nos cerca, cumprindo o papel essencial do jornalismo enquanto provedor de informação.

Quando constato a pobreza de conteúdo das ditas revistas gays que circulam por aí, mais preocupadas em ensinar a “dieta do tanquinho” do que em contar como vivem os homossexuais no Brasil e no mundo, e depois leio matérias como essa, sinto o peso da falta de uma mídia gay forte e representativa. O problema não é o fato de existirem revistas gays absurdamente semelhantes à Nova ou à Cláudia, mas o fato de não existir uma publicação mais séria para dar a opção. Assim, nas bancas, “gay” entende-se por “sarado”.

Ler a matéria da Carta Capital foi um discreto lamento e um suspiro de alívio, porque ao passo que senti a falta de me sentir bem informado em relação à comunidade, percebi que sempre teremos o interesse de bons profissionais inseridos em outros veículos midiáticos.


Nota:
Maurício Horta e Willian Vieira são os autores da belíssima reportagem da Carta Capital. Para quem gostou da abordagem vale a pena conferir o blog, twitter (@24tz) e flickr dos jornalistas. Neles eles relatam as histórias das viagens pela Ásia. Excelente trabalho, serve tanto para conhecer as peculiaridades da cultura oriental como também para reavaliar nossos axiomas ocidentais e verdades  inquestionáveis. Termino o post com um incentivo à leitura e uma demonstração da qualidade do texto do 24 Time Zones:

“Embora durmam juntos, não são gays. Sim, homens indianos tendem a demonstrar carinho entre si em níveis que ocidentais identificariam necessariamente como gay. Mas demorará muito ainda para que nós consigamos entender o que cada olhar que se troca no metrô ou cada elogio pode realmente significar”

[Texto por Pedro; nota por Mariana]

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Fernanda Young, Playboy e as mulheres

18 de novembro de 2009

Fernanda Young autografa sua edição da Playboy

Graças a um atraso na distribuição da Playboy, só ontem pude comprar (ou melhor, ganhar – thanks, wifey!) a edição cuja capa traz Fernanda Young vestida de coelhinha. E não, minha intenção aqui evidentemente não é a de fornecer um relato desnecessário e apelativo da minha interação com a revista. Na verdade, a escritora já poderia ter figurado no Homomento há mais tempo: em setembro, ela disse que tentou ser gay e não conseguiu. Recentemente, ao avaliar o impacto de seu ensaio entre nosotras, ela disse se orgulhar de ser atraente para as lésbicas. Além disso, um de seus romances, O Efeito Urano, publicado em 2001, trata de uma relação entre duas mulheres.

Mas nosso comentário à edição se deve a outro fato potencialmente homoerótico: tenho observado muitos comentários de mulheres héteros acerca dessa edição, e mesmo de homens que disseram que suas parceiras adoraram o ensaio. Esse interesse feminino pela Playboy deve-se, no meu entender, a dois fatores: o público-alvo da edição e a identificação com um determinado padrão de beleza.

O público fiel da Playboy critica a decisão editorial de retratar uma mulher “que nem bonita é” (visão que explicita a concepção de que a beleza feminina é loira e peituda). Eu, que não faço parte do público-alvo das revistas masculinas, posiciono Fernanda Young exatamente dentro do meu padrão de beleza: ela é intelectual, tatuada, forte, desbocada, segura dentro de seu próprio corpo. É a cultura (compreendida aqui como conjunto de valores socialmente compartilhados, não como formação escolar, que fique claro) de cada um que define o que lhe será bonito. Em entrevista à revista Quem (via ACapa), a escritora demonstrou ter consciência de que o público que comprará a sua Playboy não é o mesmo das demais edições da revista.

“O público que imagino que vá comprar minha revista é a pessoa que tem a intenção erótica de me ver nua, o gay que se interessa por mim, a pessoa que está chocada e quer me “chochar”… mas sei que muita mulher vai comprar! A gente gosta de se ver”

Sobre O Efeito Urano, a autora comentou que acha "muito libertária" a possibilidade de uma leitora se identificar com o amor entre duas mulheres

O fato de incluir mulheres no público-alvo desde a concepção do ensaio já é um diferencial em relação à esmagadora maioria dos produtos pornográficos. Salvo raras exceções, nenhuma delas no Brasil (que eu conheça, ao menos – vou adorar descobrir que estou errada, se alguém tiver novidades para me contar nos comentários), a pornografia é produzida por e para homens. O consumo de produtos pornográficos por mulheres é tratado como marginal, incidental. E se por um lado isso leva a um estranhamento geral da nudez masculina, por outro leva a uma maior familiaridade com o corpo da mulher. Na entrevista à Quem, a própria Fernanda Young admite essa relação com o nu.

“Não perco tempo vendo revista de homem pelado”, revela. “Acho nojento. Aquela coisa horrorosa de barriga tanquinho, músculos… É tão musculoso que fica com a cabeça pequena. Me lembra um açougue. E eu, como vegetariana, não gosto de açougues [risos]. Esteticamente, a mulher tem um corpo lindo. O ventre é lindo, a bunda é bonita. Não precisa ter atração, mas o feminino é belo.”

Beleza masculina e consumo de G Magazines e afins por mulheres (bem como o consumo de revistas masculinas por lésbicas) são temas que mereceriam um post à parte, e infelizmente tenho que deixá-los de lado nesse artigo que já começa a ficar muito grande. A questão é que a identificação é uma forma de sentir desejo e, por conseguinte, consumir pornografia. Se as mulheres não são sujeitos para as revistas masculinas, uma das formas de desfrutá-las é pensando não em possuir o objeto retratado, mas em como seria ocupar o seu lugar.

Encontrei, nos comentários da coluna de Arnaldo Branco na Revista Zé Pereira, uma avaliação dessa edição da Playboy que ilustra bem o que estou dizendo. É Marina, “uma mulher comum” como a própria se define, quem contesta o texto (bastante grosseiro) do cartunista, que critica a alegria das mulheres com a nudez da escritora.

Tenho certeza que a FY não quis salvar o erotismo visto pelos olhos dos machos reprodutores que coçam o saco e salivam quando as gostosas passam na rua com a calça jeans enfiada no rego. FY também não quis fazer um ensaio pseudo-intelectual, pois, como ela mesmo disse, isso não existe. Ensaio de nu na playboy é simplesmente um ensaio de nu na playboy. (…) Por fim, eu como mulher comum, adorei ver FY nua, e, pra mim, seu ensaio realmente me serve como uma tentativa de trazer à tona um outro tipo de erotismo: aquele que a gente aprecia e até se vê ali, aquele que tem um contexto e que chama atenção por isso. Nesse ponto, FY arrasou. (…) O belo é relativo e a maior graça de todas é justamente poder ter como escolher. Pra mim, mulheres com coxas de cavalo e alaranjadas de tanto bronzeamento artificial me dão um nojinho. FY me dá tesão. Você não concorda? Ótimo. Viva as diferenças. Mas todo mundo tem que ter a chance de celebrar isso, não?

Ao aparecer vestida na capa, FY deixa claro que o erotismo de seu ensaio vai muito além da nudez

O ensaio, de fato, traz um erotismo que não é o dos retratos ginecológicos. Acostumada a brincar com a cultura pop, Fernanda Young veste a icônica fantasia de coelhinha já na capa. Nas demais fotos, resgata outros elementos da cultura erótica – espartilhos, bondage, meias de seda. A produção caprichada não deixa que o ensaio caia na vulgaridade.

Mas o mais legal é a possibilidade, que podemos supor a partir da revista e das declarações da escritora após sua publicação, de que aquele ensaio não tenha sido pensado para seus leitores e sim para a própria Fernanda Young. Ela alfineta a ala masculina de seu público, dizendo que fica feliz ao notar que os homens continuam sentindo medo dela. Depois, provoca a totalidade dos compradores de sua Playboy: “São fotos eróticas. Espero que muita gente se masturbe. Vou ficar felicíssima se isso acontecer.”

Acima de tudo, fica a sensação de que Fernanda Young está se divertindo (e muito) com a repercussão de sua passagem pela publicação cujo nome tornou-se sinônimo de revista masculina. Para quem não treinou seu olhar para a crueza da pornografia, acho que isso – a demonstração de estar genuinamente gostando da coisa – é o que torna tudo muito mais interessante.