O retrato cor de rosa da Veja

10 de maio de 2010

Caros leitores da área do marketing, por favor, me auxiliem a compreender as últimas semanas da revista Veja. A julgar pela foto meiga de José Serra em uma capa e as frases inventadas atribuídas ao antropólogo Viveiros de Castro, a estratégia de divulgação do veículo guinou para o “fale mal, mas fale de mim”. A última capa da revista, que traz como destaque a crescente facilidade em assumir-se gay na adolescência, não escapa às críticas, nem mesmo – ou principalmente – de integrantes da tal “Geração Tolerância”.

Não estamos dizendo aqui que o fato retratado pela revista não exista. Ninguém seria tolo ao ponto de rejeitar a ideia de que assumir-se gay ou lésbica (a matéria não trata de bissexuais ou transgêneros) em nossa sociedade está mais fácil hoje. O assunto deixou de ser tabu, avançamos consideravelmente no plano dos direitos, conhecemos cada vez mais pessoas assumidas – na mídia, em nossas relações sociais – para termos e citarmos como exemplo. E o fato de os adolescentes conseguirem encarar cada vez mais cedo o momento de se assumir deve sim ser encarado como positivo. É um sinal de que essa identidade não é mais vista como um fardo a carregar ou algo a esconder.

O problema está na simplicidade com que a reportagem trata essa mudança, uniformizando a abrangência desse fenômeno da “tolerância” e apresentando-o de forma totalmente acrítica. Em primeiro lugar, o problema é de texto: o tom da matéria é quase comemorativo, e tende a minimizar as dificuldades encontradas pelos personagens. Nesse mundo cor de rosa, o preconceitopraticamente não existe mais. Em segundo lugar, a matéria cita uma série de pesquisas descontextualizadas, em que os números são jogados de forma a comprovar a hipótese dos repórteres. Podemos citar uma passagem:

“Em 1993, uma aferição do Ibope cravou um número assustador: quase 60% dos brasileiros assumiam, sem rodeios, rejeitar os gays. Hoje, o mesmo porcentual declara achar a homossexualidade “natural”, segundo um novo levantamento com 1.500 adolescentes de onze regiões metropolitanas, encabeçado pelo instituto TNS Research International.”

Novamente, não estamos descartando a possibilidade de o percentual de brasileiros a “rejeitar os gays” ter diminuído de 93 para cá. Apenas sustentamos que “achar a homossexualidade ‘natural’” não é um argumento suficiente para validar a ideia de que temos, ao menos entre os jovens, 60% de simpatizantes em vez de 60% de homofóbicos. Se pensarmos em natural como “referente à natureza”, um avanço pensar na homossexualidade como algo “natural” e não uma “perversão”, mas também devemos manter em mente o fato de que a cor também é determinada por fatores “naturais”, e isso não impede a existência do racismo. Por outro lado, se pensarmos em “natural” como “comum, rotineiro, sem dificuldades”, temos que levar em conta a compreensão da pergunta e a autocensura de quem responde. Para continuar citando pesquisas: uma pesquisa conduzida em 2008 pela Fundação Perseu Abramo – um dado que a matéria da Veja poderia ter pesquisado – constatou que cerca de 90% das pessoas concordava com a “existência de preconceito” contra os LGBT, ainda que aproximadamente 70% dos entrevistados negassem ser, eles próprios, preconceituosos em relação a essa população. Onde foram parar os intolerantes, então? Eles se revelam em outras perguntas: 92% dos entrevistados por essa pesquisa concordaram com a frase “Deus fez o homem e a mulher com sexos diferentes para que cumpram seu papel e tenham filhos”, 62% defendiam que “casais de gays ou de lésbicas não deveriam andar abraçados ou ficar se beijando em lugares públicos”, e 40% acreditavam que “a homossexualidade é uma doença que precisa ser tratada”.

Enquanto os números acima exigem o uso da interpretação e da compreensão da subjetividade dos envolvidos, existem números muito mais claros que a matéria em questão deixa de lado. Estamos falando das estatísticas levantadas pela ONG Conexão G no grupo de favelas cariocas conhecido como Complexo da Maré. Essa organização sustenta que nas comunidades do Rio ocorre pelo menos um incidente por dia de violência motivada pela sexualidade da vítima. Certamente, nem todos os ataques devem envolver integrantes da tal “Geração Tolerância”, mas já nas primeiras linhas da reportagem que o jornal O Dia fez sobre essa estimativa encontramos o depoimento de uma lésbica de 24 anos:

“Além de bater nos gays e travestis, os bandidos ficam ameaçando estuprar as lésbicas. Fazem um terror psicológico insuportável”, conta. “Quando descobrem uma lésbica no morro, dizem que a garota só se tornou homossexual porque não conheceu homens de verdade. E que darão ‘um jeito’.”

A reportagem, portanto, ignora o que se passa nas camadas mais pobres; a própria reportagem frisa que “A tolerância às diferenças (…) está se tornando uma regra – especialmente entre os escolarizados das grandes cidades brasileiras” (grifo meu). Esse retrato da juventude a partir de uma juventude específica, a juventude de classe média e principalmente classe média alta, não surpreende – afinal de contas, é a Veja. O que surpreende é notarmos que mesmo aqueles que são retratados pela reportagem sofrem ou sofreram alguma discriminação em virtude de sua homossexualidade. A família de Lucas El-Osta, por exemplo, levou o rapaz ao psicólogo e à igreja quando soube de seu interesse por outros meninos; Hector Gutierrez era chamado de “bicha” no colégio. Mesmo dentro do universo de Veja, a tolerância não é instantânea. Fora dele, ela não se estende a todos os casos (quem é LGBT, tem cerca de 20 anos e sofreu algum grau de bullying por isso no colégio, por favor “levante a mão” na caixa de comentários).

Uma outra característica importante a ser destacada nessa “tolerância” retratada pela revista é que ela se aplica à homossexualidade, mas não necessariamente inclui outras sexualidades. Os bissexuais foram deixados de fora da reportagem, e mesmo a fronteira tênue que confunde homos e bissexuais na adolescência não é sequer mencionada. Na “geração que rejeita os rótulos”, a reportagem só encontrou homossexuais. Se formos pensar em termos de identidade de gênero, o buraco é ainda mais embaixo. Se nem bissexuais entram na matéria, o que esperar em termos de identidades trans? Evidentemente, esse é mais um silêncio da “Geração Tolerância”. Podemos ir mais longe: uma entrevistada salienta: “nunca fiz o tipo masculino nem quis chocar ninguém com cenas de homossexualidade”, um casal afirma “andar de mãos dadas às vezes, nunca se beijando em público”. A tolerância dessa juventude é maior quanto menos visíveis estiverem as diferenças, e a própria sexualidade é vista como motivo para “choque”.

Recapitulando então: essa mudança de mentalidade não acontece em todos os casos, nem com todas as identidades sexuais; é um fenômeno que, como a matéria mostra, é característico de uma geração específica e, principalmente, não acontece em todos os lugares nem em todas as classes sociais. Não estamos dizendo que essa mudança não é importante. Só defendemos que ela precisa ser minimizada e compreendida dentro do contexto social em que ela acontece.

E agora que já demos à Veja a atenção que ela merecia, que tal pararmos de dar corda à estratégia de dar audiência para matérias ruins? A última Piauí tem uma reportagem bem legal sobre mudança de sexo!

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Sugestão de filme: If The Walls Could Talk 2 (ou Desejo proibido)

14 de janeiro de 2010

Hoje o Homomento traz uma indicação: If The Walls Could Talk 2 (2000), título tragicamente adaptado para “Desejo Proibido” no Brasil. Essa péssima adequação no nome já pode afastar alguns leitores, por isso peço que desconsiderem esse ponto falho. Para quem já assistiu vale a reflexão.

Eu poderia dizer que em ITWCT 2 o assunto principal são lésbicas, mas estaria sendo simplista (para não dizer ignorante). Para mim a temática é baseada na construção da família homossexual, com foco em relações entre mulheres.  A história é uma semi-continuação do If The Walls Could Talk (1996), que explorou a compreensão do aborto em diferentes períodos.  Já o If The Walls Could Talk 2 opta por uma narrativa segmentada em épocas, totalizando três histórias curtas, focadas em sentimentos e relacionamentos completamente diferentes uns dos outros. O resgate de emoções inaceitáveis (ou mascaradas na contemporaneidade) sustenta a capacidade reflexiva do filme, e essa é, para mim, a principal qualidade.

A primeira short history conta a história de duas lésbicas casadas por 50 anos em pleno 1961. As senhorinhas vivem em uma casa e levam um relacionamento duradouro e feliz, até que em um acidente domésticos uma delas morre.

A história de Abby (Marian Seldes) e Edith (Vanessa Redgrave) é a mais emocionante

A tragédia é ambientada na mesma casa que abrigou por anos aquela família pacificamente transgressora e que agora acolhe a solidão e o desespero da parte restante do casal. A concepção de família é completamente ignorada por todas as personagens que ficam à margem da trama, com exceção, é claro, da própria família: o casal de lésbicas. No mínimo emocionante.

A segundo história, de 1972, aborda o melhor tópico. Quando eu e minha namorada assistimos ficamos horas discutindo sobre o comportamento das personagens e a atualidade do tema. Bem resumidamente, Linda (Michelle Williams) conhece Amy (Chloë Sevigny) em um bar. Linda faz parte de um grupo feminista. As amigas de Linda recriminam o contato dela e de Amy por discordarem da forma como a nova namorada se veste. Amy usa roupas tipicamente masculinas e possui comportamentos e trejeitos que destoam dos princípios que, até então, regiam a vida de Linda. Mesmo se passando em 1972, o discurso verborrágico das lésbicas feministas é um retrato da ignorância e a discriminação do gay para com o próprio gay. A negação e a repreensão das lésbicas em relação a personagem de Chloë Sevigny  mostram que, mesmo indivíduos que teoricamente estariam predispostos a aceitar níveis diferentes de expressão/comportamento, e entender as ramificações infinitas da sexualidade humana, continuam, invariavelmente, a limitar o pensamento. No mínimo questionador.

O casal divertido: Sharon Stone e Ellen degeneresA terceira e última short history se passa no ano 2000 e narra a luta de um casal de lésbicas que desejam ter um filho. Fran (Sharon Stone) e Kal (Ellen DeGeneres, sim, a própria!) são atrapalhadas e engraçadinhas, o que acaba maquiando a narrativa meio bobinha. No mínimo divertido.

Fica a minha dica para quem gosta de filmes LGBT/drama. Segue abaixo o download em RMVB com as legendas em português:


Entrevista: Michael Eichler, do The New Gay

16 de setembro de 2009

Não é a primeira nem será a última vez que The New Gay vai aparecer aqui no Homomento, pelo simples motivo de que muitas das idéias dos dois blogs são bastante alinhadas. Eu e a Carol tivemos a oportunidade de entrevistar um dos co-fundadores do site, Michael Eichler, que simpática e articuladamente respondeu nossas perguntas. Vale a pena ler a tradução da entrevista (uma versão em inglês foi publicada no The New Gay), que segue na íntegra:

Michael, antes de qualquer coisa, por favor apresente-se brevemente.
Bom, eu sou Michael Eichler (a pronúncia é “ike-ler”), tenho 36 anos e trabalho numa planejadora de transportações. Eu também sou co-fundador do The New Gay, que é uma fonte online para idéias, culturas e eventos relacionados à comunidade LGBT.

Os sites LGBT normalmente são cheios de fotos de homens nus ou notícias de fofoca. Nós temos, porém, ótimos exemplos de bom trabalho como o Box Turtle Bulletin. No cenário dessa mídia específica, como você descreveria o The New Gay?
Nós somos um blog/publicação online abrangente, feito por pessoas comuns, que quer ver mais assuntos na mídia LGBT. Se você mostrar fotos de torsos nus, ignora metade dos homossexuais (se pensarmos que a divisão de gênero é 50% masculina e 50% feminina). Nós tentamos achar um tema em comum para todos os LGBT que vai além da conexão básica de todos nós: o sexo. Exploramos maneiras singulares e diversificadas de ser homossexual, dando oportunidades para as pessoas explorarem seus interesses genuínos ao invés de gostarem das mesmas coisas que todo mundo só para serem aceitas.

Outro co-fundador do TNG, o Ben, define o site como “um movimento inclusivo de indivíduos atraídos pelo mesmo sexo que se recusam a ser definidos pelo passado e lutam para expandir as barreiras do futuro”. De fato, como você disse, muitos dos artigos do site falam sobre como é importante que essas pessoas parem de se estereotipar, e o quão diferentes os LGBT podem ser entre si. Em dois anos de trabalho e reflexões sobre essa temática, o que você aprendeu? O que mudou e o que permaneceu, entre as suas opiniões?
Durante esses últimos dois anos, uma coisa que eu aprendi foi a necessidade de incluirmos todas as minorias sexuais. A parte mais complicada é o fato de que os transexuais normalmente não se expõem e é muito difícil sempre fazer e falar as coisas certas para ser inclusivo com os trans. Como gays e lésbicas, como pessoas que “amam pessoas do mesmo sexo”, nós não conhecemos bem as dificuldades enfrentadas pelos trans e isso não faz parte da nossa forma de pensar, normalmente voltada para autopreservação. Nós, todos os queers, precisamos aprender mais uns sobre os outros e descobrir similaridades. Acho que o trabalho do TNG começou com a exploração das diferenças maravilhosas entre os LGBT, mas agora é o momento para nos unirmos e caminharmos como “um só povo” apesar de todas essas diferenças.

Já que você falou em trans: recentemente vocês participaram de um protesto relacionado à morte de uma transexual em Washington DC. Além desse tipo de manifestação, como nós podemos lutar contra a homofobia no “mundo real”? Nós lemos recentemente um artigo da Jean no TNG sobre o “ativismo gay 2.0” que nos lembra sobre os riscos de nos limitarmos à web.
Eu não participei pessoalmente daquela vigília, mas ajudei a divulgá-la e nós mandamos o nosso fotógrafo. De qualquer forma, eu acho que a melhor maneira de lutarmos contra a homofobia no mundo real é alcançando a visibilidade. Há grandes chances de que cada homofóbico tenha no mínimo um parente ou amigo que seja gay. Se essas pessoas puderem se pronunciar, se assumir e se fazer visíveis, causando uma impressão positiva junto aos que são potenciais perpetuadores da violência contra os LGBT, veremos esse potencial reduzido.
Nós precisamos ser vistos como pessoas, crianças, pais, colegas, amigos, vizinhos, membros da comunidade. Acredito que até nós verem como tal, e não como “o outro”, teremos a violência e a homofobia sempre muito próximas de nós.

Você disse que “se você mostrar fotos de torsos nus, ignora metade dos homossexuais”. Aqui no Brasil, muitos dos sites auto-intitulados “LGBT” são dirigidos aos homens gays, com fotos homens seminus e etc. Há também alguns dirigidos a lésbicas, mas nada que possamos chamar de “neutros” em relação ao gênero para LGBTs.
Exatamente. Esse é um grande problema.

A mídia LGBT norte-americana é muito mais sofisticada que a nossa nesse aspecto. Quanto tempo você acha que ela demorou para se desenvolver dessa maneira? Ou: o que nós, brasileiros, poderíamos fazer para obter algo semelhante?
Ah, espera aí. Nós somos um dos poucos sites que eu conheço que têm a intenção de abranger todos os gêneros e sexualidades. Outros blogs temáticos como Towerload.com ou Queerty.com, ou ainda os “after” (AfterEllen, AfterElton), são voltados para apenas um gênero. Não há unidade. Os jornais LGBT como o Washington Blade estão muito comprometidos com seus anunciantes, que vêem os homens gays apenas como consumidores, e seu conteúdo (não noticioso) não faz muita coisa para desmentir esse fato.

Esse é um problema de qualquer publicação: lidar com seu público E com seus anunciantes. Na sua opinião, o quão grande é a influência dos anunciantes na mídia LGBT? Você acha que a relação entre veículos e anunciantes impede-a de pensar e falar sobre assuntos que realmente importam?
É enorme, e sim, eu acho. Muitas publicações dependem demais dos anunciantes e sofrem por isso. Ouvi rumores de matérias que não saíram por motivos como “já publicamos um artigo lésbico na semana passada”. Essas mídias dificilmente são justas e imparciais. Zack, o outro co-fundador do TNG, trabalhava para o Blade, então ele pode falar mais sobre isso. Mas eu não me identifico com qualquer um desses anúncios voltados para os LGBT (na verdade, especificamente para os homens gays e brancos) e eu mesmo sou um homem gay e branco. Imagine como os membros da comunidade LGBT que não são homens ou brancos não se sentem olhando para esses anúncios?

Sim, e acho que isso também impede que algumas pessoas consumam a “mídia gay”. Aqui no Brasil, na mídia impressa, nós só temos revistas dirigidas ao público masculino. Não consigo ver nenhuma razão para uma lésbica comprar alguma delas. Dessa maneira, muitas pessoas dentro da nossa comunidade estão excluídas da nossa própria mídia! Mas seguindo adiante: Zack disse, no artigo “The Beginning of Gay Culture”, que seria bom para os LGBTs recriarem o mundo heterossexual numa versão menor, só para eles. Acho que ele quis dizer que nós deveríamos criar espaços onde pudéssemos conviver apenas com LGBTs parecidos conosco, enquanto lutamos da nossa maneira contra a homofobia. Mas você não acha que deveríamos estar lá fora lutando para fazer do mundo um lugar melhor para todo mundo? Será que não podemos ficar confortáveis nos lugares que já frequentamos? Nós realmente precisamos criar todo um mundo novo (e GAY)?
Zack está falando sobre criarmos espaços sociais que expressem a diversidade da comunidade LGBT. E eu concordo. Nós precisamos de diversidade em nossos espaços sociais. De outra maneira, qualquer um que não se encaixe no “molde gay” vai se sentir rejeitado e não pertencer a comunidade nenhuma. Ao invés disso, nós precisamos achar uns aos outros no mundo real e nos conectarmos. Esses pequenos grupos e conexões podem se tornar a base para uma unidade maior. Se tudo o que temos é o mainstream e um monte de indivíduos que não se identificam com ele, nós nunca acharemos uma base comum. Nós ainda temos muito trabalho a fazer para nos organizarmos internamente antes de realmente encontrarmos a força para marcar presença fora de nossa comunidade. Isso não significa que nós não possamos começar pressionando a sociedade por aceitação, mas nós só teremos o poder necessário para tal se nos organizarmos internamente primeiro.
Imagine lutar numa guerra onde 20% dos nossos soldados são membros de uma tropa e os outros 80% não têm lealdade ao sargento, agindo por conta própria. Não funcionaria.

Agora entendi o seu ponto, e acho que o exemplo das tropas ilustra muito bem essa ideia. Uma das lutas internas do movimento LGBT que podemos destacar é aquela pela aceitação nas instituições militares, já que alguns dos ativistas mais radicais não vêem sentido em lutar contra o Don’t Ask, Don’t Tell (DADT).
Exato, eles preferem acabar com os militares a lutar contra eles. E, na verdade, gostam de não poderem ser chamados para o serviço. Pessoalmente, eu não concordo com o militarismo de maneira geral e não lutaria pelo fim da DADT, mas apoio essa luta e todos os nossos soldados gays aí fora. Mas um caso que ilustra ainda melhor a necessidade de união nos EUA é a questão do Ato pela Não-Discriminação no Emprego (ENDA, na sigla em inglês), em que a organização Human Rights Campaign recomendou um pacote de leis contra discriminação que exclui os transgêneros. Como uma coisa dessas pode ser possível em 2009?

Então você acha que devemos viver de acordo com nossos valores, gostos e interesses, como propõe Zack, e nos unirmos apenas por nossos direitos e para lutarmos contra a discriminação?
Nós LGBTs não temos uma cultura inerente. Não temos uma força unificadora. Nós não nascemos numa população LGBT – temos que construir nossa própria cultura, e a cultura que atualmente ocupa esse espaço não abrange todos nós. Num post anterior, Finding Unity in Community, eu disse que, como nós não nascemos na nossa comunidade, temos que procurá-la. E nada na nossa cultura encoraja a entender a nossa própria história e a similaridade que temos com outros LGBTs. Espere, por exemplo, que nos reunamos em torno da Madonna. Isso nunca vai acontecer. O que mais temos em comum? O que eu tenho em comum com a Shunda K, do Yo Majesty, além de uma mesma orientação sexual?

Vocês também têm um monte de posts sobre música indie, chega a ser comum que as pessoas pensem que o TNG é um blog hipster. Será que não é perigoso se definir como um “movimento inclusivo” e falar só sobre músicas que vocês gostam ao mesmo tempo? Vocês não temem que leitores LGBT que não sejam hipsters acabem se afastando do site de vocês por causa das discussões sobre música?
Desde o início, convidamos todas as pessoas possíveis para que usassem o Tng como uma plataforma para compartilhar suas ideias e interesses, encorajando diferentes perspectivas sobre cada assunto, e dando destaque a todos os tipos de cultura que existem – filmes, literatura, teatro, etc. Não vamos deixar de escrever sobre o que nós (os fundadores) gostamos porque até agora ninguém mais se habilitou a contribuir com outras perspectivas sobre outros tipos de cultura. Estamos disponibilizando opiniões de LGBTs descrevendo um monte de coisas que não são gays, e esse conjunto de coisas não-gays definitivamente poderia ser maior. Nós adoraríamos que pessoas se juntassem a nós e começassem a escrever sobre música clássica, por exemplo. Mas nós (a equipe atual) não podemos fazer isso, porque não é a nossa praia. Nosso cofundador Ben ama hip hop e até escreveria sobre isso de vez em quando, mas ele não estava interessado em escrever sobre música. Na verdade, estávamos hesitantes quanto a adicionar mais um colunista sobre música, porque ele queria trazer mais indie rock. No fim das contas, ele é uma pessoa LGBT que quer escrever sobre música. É exatamente o que queríamos, ainda que não seja um novo gênero.

Michael, muito obrigado pela entrevista. Continue com o trabalho bom (e original) do TNG. E só uma pergunta final: como podemos lutar contra os preconceitos que nossa “cultura gay mainstream” ainda evoca, e construir nossa própria cultura?
Seja você mesmo, seja um indivíduo, seja visível, se expresse. É tudo que posso dizer. Ah, e não seja um imbecil.


O que é, literalmente, ser homossexual?

9 de setembro de 2009

Muito nos é perguntado a respeito de como se sente um homossexual: como e quando “descobrimos” ser, e por que somos? Perguntas essas que têm as mais variadas respostas, satisfatórias ou não, isso quando as temos. Indo um pouco mais além, pergunto agora: O que na verdade somos?

Para obter um esboço da resposta, resolvi recorrer ao dicionário. Explico a escolha de um dicionário, é simples: queria ver qual é o significado comum, qual é o entendimento mais básico que é proposto sobre os gays. A primeira definição que encontrei vem do Caldas Aulete, na sua edição digital:

Homossexual 1 Ref. a homossexualidade (relação homossexual). 2 Que sente atração por e/ou tem relações sexuais com pessoas do mesmo sexo. 3 Pessoa homossexual (2).

A resposta oferecida é pontual, sem se aprofundar nem discorrer sobre o tema, cumprindo perfeitamente o papel de um dicionário. Sem maiores decepções, porém instigado, resolvi averiguar qual foi, se é que existiu, o progresso ao entendimento geral da sociedade em relação aquilo que é considerado “atípico”, nesse caso a homossexualidade.

Para isso, recorri novamente ao dicionário, ou melhor, aos dicionários. Me vali de um acervo considerável, com exemplares de variadas épocas e regiões nos quais fiz um pequeno levantamento dos significados propostos nos seguintes verbetes:

homossexual
homossexualidade
gay/guei
lésbica
lesbianismo

O recorte é simples e até mesmo excludente, no sentido que poderia consultar também palavras como safismo, pederastia ou termos associados à homossexualidade, mas limitei-os na crença de que teríamos, já aí, um resultado interessante. Para o texto não se tornar muito repetitivo, vamos apenas comentar os resultados aqui, mas quem quiser ver todas as definições encontradas pode acessar o PDF dessa pesquisa.

De acordo com o Dicionário Internacional de Psicanálise, o termo “homossexual” foi criado pelo escritor e jornalista austro-húngaro K.M. Benkert, também conhecido pela forma húngara de seu nome, Károly Mária Kertbeny, que foi uma importante voz na defesa dos direitos sexuais na época e até hoje é homenageado em eventos LGBT da Hungria. A palavra “homossexual” aparece publicada pela primeira vez em 1869, em um panfleto em que Kertbeny discute a proibição da sodomia pelo Código Penal prussiano. Em outros textos, o autor defendeu a ideia de que a orientação sexual era inata e que atos sexuais consensuais não deveriam ser matéria penal.

Manuscrito de Kertbeny em que aparece, pela primeira vez, o termo "homossexual"

Manuscrito de Kertbeny em que aparece, pela primeira vez, o termo "homossexual"

As concepções encontradas nos dicionários mais antigos a que tive acesso, no entanto, não apresentam uma visão tão amigável da homossexualidade. No Novo Diccionario Encyclopedico Illustrado da Lingua Portugueza, de 1926, o “homosexualismo” (grafia original) é descrito como um “vício sexual”. Em 1931, o Diccionário Prático Illustrado diz que “homosexuais” são homens, que praticam entre si actos contra a natureza” (grifo meu).

Não que não houvesse um termo para a homossexualidade feminina na época: em 1939, o Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa define “lesbianismo” como sendo “Um dos vícios sensuais contra a natureza; aberração do instinto sexual”. A preocupação em destacar o caráter aberrante dessa manifestação do instinto sexual é tão grande que deixa de lado a definição mais importante para o termo, ignorando completamente o fato de que um ato, para ser lésbico, precisa ocorrer entre duas mulheres.

Esse mesmo dicionário de 1939 traz o termo “homossexual” como um adjetivo, “Referente a atos sensuais entre indivíduos do mesmo sexo; que pratica esses atos”. Essa definição é semelhante à encontrada na maioria dos dicionários consultados, e é interessante notar como ela prioriza o ato, apresentando a identidade em segundo lugar. Vale ressaltar que essa definição já exclui a ideia de “vício”. A palavra “aberração” continua sendo vinculada ao verbete “lesbianismo” por muito mais tempo, aparecendo no Novíssimo Dicionário Ilustrado Urupês, de 1977.

Não é preciso nenhum acordo ortográfico para que um dicionário se torne ultrapassado

Não é preciso nenhum acordo ortográfico para que um dicionário se torne ultrapassado

Nos dicionários consultados, a primeira ocorrência da expressão “homossexualidade”, ocorre em 1953, no Dicionário Brasileiro Contemporâneo, tornando-se frequente a partir daí como sinônimo de “homossexualismo”. Falando em sinônimos, é interessante ressaltar que localizamos algumas ocorrências da concepção de homossexualidade como antônimo de heterossexualidade, o que evidencia a polarização entre sexualidade “normal” e sexualidade “desviante”

O dicionário mais recente consultado foi o Dicionário Didático, publicado em 2007 pela Editora SM. Espero não ser pura coincidência, mas é também o mais “acertado” por assim dizer. Embora a definição não seja completamente satisfatória (não traz distinção entre “homossexualidade”, palavra que preferimos, e “homossexualismo”, que consideramos inadequada, por estar muito ligada à ideia de patologia sexual), merece destaque por ser o único, dentre todos os que pesquisei, a definir a homossexualidade a partir da “atração sexual por indivíduos do mesmo sexo”, não necessariamente por atos homossexuais.

Sei dos muitos poréns podem ser apontados nesse levantamento (não utilizei todos os dicionários publicados, só os que tive acesso, assim como não só os anos são diferentes, como as editoras e autores). Mas acredito que já podemos notar aí um reflexo na mudança de concepções e abordagens à respeito do tema, o que seria por si só um avanço; Só que acho importante salientar a seguinte questão: junto a eles todas as mentalidades vem sofrendo uma alteração ou os verbetes apenas foram gradualmente adaptados ao que se enquadra hoje em politicamente correto?

(Contribuição e edição: Carolina Maia)


Razões para se assumir numa entrevista de emprego

4 de setembro de 2009

Na sua vida privada, é bem possível que você já tenha vencido o medo de sair do armário, e até já tenha se assumido para os seus pais (se você não fez nada disso ainda, vale a pena pensar bem a respeito e seguir algumas dicas quando resolver contar ao mundo que você é gay). E no seu trabalho, as pessoas já sabem da sua homossexualidade?

O Homomento encontrou, no site Lesbilicious, um guia com 9 motivos para se assumir no ambiente de trabalho desde o primeiro contato com a chefia. Alguns fatos citados só se aplicam à realidade britânica, mas de maneira geral as dicas servem para nós também. Confira a tradução do artigo!

9 motivos para se assumir em uma entrevista de emprego

“Desempregada” é uma palavra assustadora, e “desempregada no meio da recessão” é uma frase ainda mais assustadora.

Então quando você finalmente consegue uma entrevista de emprego, todo mundo sabe que você deve se vestir bem, sorrir bastante e não fazer nada que possa lhe prejudicar… como revelar que você é lésbica. Certo? Errado errado errado, escreve Rosie Kirk.

Assumir-se

Imagine essa cena: é o fim da entrevista de emprego. Tudo correu bem, e sua nova chefe está apenas encerrando a entrevista com algumas amenidades. Ela pergunta como você chegou até o escritório. “Vim de carona com meu bebê”, você diz. “Que legal da parte dele”, ela diz.

Só que não foi legal da parte “dele”, foi legal da parte “dela”. O que você faz? Você deveria sair do armário em uma entrevista de emprego? Sim. E aqui há 9 motivos para isso.

1. Mostra que você é corajosa

Assumir-se não é fácil. A homofobia prevalece, e você nunca sabe como as pessoas vão reagir. Assumir-se para um desconhecido que detém poder sobre você é, então, uma decisão corajosa. Um empregador esperto reconhecerá isso, e verá os benefícios de contratar alguém que tem coragem e que vai se impor em nome da companhia.

2. Mostra que você é honesta

A verdade desagradável é que quando você não corrige uma presunção de heterossexualidade você está sendo desonesta. Afinal, você pode sorrir e concordar quando alguém pergunta se você tem um namorado, mas o que acontece quando lhe perguntam o nome dele? Minta uma vez e você se verá criando mais e mais mentiras, até que você terá inventado uma vida inteira.

3. É lisonjeador para a empresa

A maioria das empresas gosta de pensar que eles são lugares receptivos e cabeça aberta, que não discriminariam LGBTs nem em sonho. Assumindo-se na entrevista, você de certa forma os elogia, por mostrar que acredita nessa imagem da empresa. No fim das contas, ela pode até ser verdadeira.

4. Pontos a mais no questionário de seleção

Discriminação positiva: a ruína de todos os homens brancos, leitores do Daily Mail, cheios de privilégios. É verdade que muitas empresas estão tentando recrutar mão-de-obra mais diversificada, mas infelizmente sua sexualidade não vai lhe garantir o emprego. Afinal, se fosse tão fácil, todos se declarariam como pessoas LGBT cadeirantes não caucasianas…, certo?

5. Torna a homossexualidade normal

Para um número cada vez maior de pessoas – e isso inclui potencialmente seu novo chefe – sexualidade simplesmente não é uma grande coisa. Mencione o assunto no meio da conversa e eles não vão nem ficar chocados, e você se perguntará por que tanto barulho por nada.

6. Você não tem nada a perder

Na Inglaterra, na verdade é ilegal que uma empresa se recuse a contratar alguém por causa de sua sexualidade. Se você tem certeza de que ter se assumido fez com que você perdesse a vaga, então você tem motivos para levar o caso para a Justiça. Claro que o grande problema é provar que sua sexualidade é a razão pela qual você não conseguiu o emprego. Mas se você acha que tem um caso concreto, especialmente se você tem qualquer prova, procure orientação jurídica.

7. Corta as piadas com gays

É deprimente e um sinal de fraqueza, mas às vezes gerentes fazem vista grossa para piadas feitas contra gays/imigrantes/insira outras minorias aqui. Afinal, essas piadas são “inofensivas” – ou seja, não há ninguém dessa minoria por perto que possa ficar chateado. Mas, magicamente, ter alguém faz parte de uma minoria na sala imediatamente deixa a piada sem graça nenhuma, e as piadinhas acabam.

8. Economiza tempo

Saia do armário na entrevista e se tudo der certo os rumores vão fazer boa parte do trabalho antes que você comece. As pessoas podem fingir que não sabem que você é lésbica, mas é provável que elas saibam – e isso quer dizer que elas não vão cometer nenhuma gafe que constrangeria tanto eles quanto você em seu primeiro dia de trabalho.

9. Livra você dos homofóbicos

Claro que você quer um emprego, mas você realmente quer estar presa 40 horas por semana em um escritório cheio de homofóbicos daqui a seis meses? Só Deus sabe o quão miserável você estará se sentindo se isso acontecer.

Sair do armário como “estilo de vida”

Assumir-se é um processo que dura a vida toda. Você pode ser 100% assumida, mas a cada vez que você conhece alguém novo, seja um conhecido, vizinho ou colega de trabalho, você terá que se dizer lésbica de novo.

Lembre-se que não se trata de “exibir” sua sexualidade, ou “jogar na cara das pessoas” – é só corrigir aquela presunção, na maioria das vezes concebida por heterossexuais, e assumida por heterossexuais na maior parte do tempo, de que todo mundo é hétero também.

E essa presunção se aplica a você também – enquanto estiver preocupada se deve ou não se assumir, considere isso: como você tem tanta certeza de que seu chefe é heterossexual?


Conquistando neutralidade

3 de setembro de 2009

Diariamente tenho meu contato físico com os jornais impressos gaúchos, e não é uma questão de bairrismo e sim de necessidade. Normalmente o trato da homossexualidade nessas publicações e na maioria dos veículos é feito muito sutilmente, de forma equivocada, através da sátira ou deboche. Até aí sem novidades.

Eis que ontem, ao abrir a Zero Hora levei um tapa na cara.

zhcapa

Como bem se sabe, para qualquer veículo impresso a capa é Môira que desenrola todo blablablá das próximas páginas, e mais:  é o retrato perfeito das concepções burocráticas e intrínsecas que articulam toda teia midiática.

Não costumo ser uma pessoa otimista e sei que meu contentamento pode ser rapidamente dizimado pela realidade. Sim amiguinhos, eu sei que é uma quarta-feira, que a circulação é baixa, que a preocupação maior é com a participação da população no censo…

Mas mesmo assim. É a palavra G-A-Y estampada na capa do jornal de maior circulação do Rio Grande do Sul, acompanhada de uma belíssima matéria assinada pela Letícia Duarte que não faz nenhuma menção a preconceito, e  trata o termo “homossexuais” tão naturalmente que me senti lendo uma reportagem sobre promoções natalinas.

Zero Hora | 02.09.09 | Geral - p.36
Zero Hora | 02.09.09 | Geral – p.36

Infelizmente meus outros colegas comunicadores do Correio do Povo não tiveram a mesma inspiração. A matéria veiculada na editoria de Geral (p.23) de hoje NÃO FAZ REFERÊNCIA NENHUMA a inclusão da união gay nos números do IBGE.

Correio do Povo | 02.02.09 | Geral - p.23
Correio do Povo | 02.02.09 | Geral – p.23 Gays? Ahn?

Ah! Só para fins de clipagem incluí também a nota do O Sul, que discretamente substitiu as palavras gays/homossexuais por um ‘existência de cônjuge ou companheiro do mesmo sexo no domicílio’, afinal, deixemos palavras como essas (“tão polêmicas”) para hard-news estilo: Homossexual mata namorado e come seu rim em Kansas City nos EUA.

O Sul | 02.02.09 | p.12

O Sul | 02.02.09 | p.12

Anteriormente, meus parceiros e amigos de blog Pedro Cassel e Carol Maia apresentaram textos repudiando o posicionamento e a qualidade dos textos publicados pelo colunista  Paulo Sant´anna da Zero Hora, contudo, acho imprescindível evidenciar matérias como essas de Letícia.  O bom gosto e a sensibilidade da jornalista alegraram minha manhã, e me fizeram relembrar e refletir que existem milhares de profissionais como eu, ou como minha colega Carol Maia, que tentarão sempre, independente do veículo conquistar a naturalidade.

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Para quem não leu, ou não compreendeu como funcionará a inclusão da união gay nas estatísticas do IBGE, minha amiga Carol Maia dá uma ajudinha…

entendendosenso

  • O Censo Demográfico visita todas as residências do País de dez em dez anos, contando a população e pesquisando dados referentes às pessoas (sexo, idade, cor ou raça, educação, rendimento) e características de seus domicílios (abastecimento de água, esgotamento sanitário, existência de energia elétrica, destino do lixo)
  • Em 2010, aparecerá a possibilidade de resposta “cônjuge, companheiro de mesmo sexo” para o questionamento sobre a relação da pessoa com o responsável pelo domicílio onde ela vive. A orientação sexual da população brasileira não será pesquisada, mas será possível saber quantas pessoas vivem em união homoafetiva no País. Essa é a primeira vez em que a homossexualidade aparece no questionário do Censo
  • Em 2007, a Contagem da População (uma pesquisa semelhante ao Censo, mas com menos dados) trouxe o primeiro reconhecimento de uniões entre pessoas do mesmo sexo pelo IBGE. 17 mil pessoas (sendo 9 mil homens e 8 mil mulheres) declararam estar em união com cônjuge de mesmo sexo. Somente os estados de Minas Gerais, Bahia e São Paulo registram mais de mil casais em seu território. Esse número é bem baixo considerando-se que 108 milhões de pessoas foram ouvidas na Contagem, que não incluiu municípios com mais de 170 mil habitantes (estima-se que 75 milhões de pessoas vivam nessas grandes cidades que não foram pesquisadas, onde se acredita que viva a maioria dos homossexuais do País)
  • Nas pesquisas, o IBGE trabalha com autodeclaração: vale o que os entrevistados declararem ser verdadeiro. Quem responder ao recenseador que “mora junto” com o responsável pelo domicílio é contado como “convivente”, não como “cônjuge”. Todos os dados levantados pelo IBGE são sigilosos, ou seja, não há por que ficar dentro do armário quando o Censo chegar. Em 2010, é importante que as respostas sejam o mais verdadeiras possível, para que a sociedade saiba quantas são as uniões homoafetivas do Brasil

Colaboração do leitor: Heteronormatividade e Subculturação

28 de agosto de 2009

Ao fim do esforço para coletar informações, pensar sobre elas e escrever a saga “A crise da cultura gay monolítica”, recebi como recompensa o melhor presente possível: um contraponto. O leitor Paulo Simas, em seu comentário, trouxe uma elaboração muito bem argumentada para afirmações bastante diferentes das que postei aqui nas últimas semanas.

Solicitei, então, a autorização do Paulo para postar o comentário como colaboração independente, tirando-o da marginal caixinha de comentários e trazendo-o para o lugar merecido: o de destaque. Espero que a experiência de repostagem do comentário enriqueça a discussão que procurei suscitar e desperte nos demais leitores a vontade de também participar do Homomento, mandando colaborações, sugestões e contrapontos. Porque relações de uma só via são sempre muito tediosas, não acham?

Heteronormatividade e Subculturação

por Paulo Simas

Li com muita atenção a excelente série de textos “A crise da cultura gay monolítica”, que entendo como um convite ao debate. Tomo a liberdade, portanto, de participar.

Pergunto, primeiro, se podemos falar em uma “cultura gay”. Creio que não. O termo mais preciso, a meu ver, é “subcultura gay”, visto que se trata de um conjunto de significados, crenças e comportamentos que não se sobrepõe à cultura heteronormativa, que é majoritária e muito mais abrangente. Mesmo os homossexuais são educados sob essa cultura e alguns ainda têm dificuldade de questioná-la – muito relacionamentos entre homens, por exemplo, ainda são baseados no modelo bicha/bofe, em que um dos parceiros reproduz o estereótipo de masculinidade e o outro, de feminilidade.

Distinguir “cultura gay” de “subcultura gay” não é frescura minha. Quando falamos em subcultura resgatamos uma característica fundamental dela: seu caráter de resistência, de desafio. Só existe uma subcultura gay porque existe uma cultura heteronormativa que pune e reprime qualquer manifestação cultural contrária às regras. É importante ressaltar isto: o fato de existir uma subcultura gay se deve muito mais à heteronormatividade do que aos próprios gays. Não fosse a necessidade de criar espaços livres de repressão, provavelmente não existiram as boates, os clubes de sexo e outros ambientes que ficaram marcados como “tipicamente gays”, por exemplo.

Como se vê, a subcultura gay, entendida como a possibilidade de um grupo minoritário criar sua própria versão do mundo, é algo libertador. O que oprime os gays “desajustados” é a necessidade de fazer parte de uma maioria, de qualquer maioria. A subcultura gay não é uma só. Existem as subculturas da subcultura. Não é preciso ir muito longe para descobrir isso e a internet ajuda muito a encontrar diversas formas de manifestação da homossexualidade: barbies, rockers, ursos, nerds, drags etc. O problema é que muitos homossexuais se ressentem por não fazerem parte da subcultura gay aceita pela maioria das pessoas como a única e verdadeira.

Essa subcultura gay teoricamente genuína nada mais é do que a forma como a heteronormatividade enxerga a homossexualidade. Gays musculosos, consumistas, hedonistas e drogados existem, claro. Mas só viraram norma na cabeça dos heterossexuais – e de alguns homossexuais desavisados. Em sociedades complexas, onde várias subculturas coexistem, a cultura normativa cria estereótipos para poder lidar com a diversidade. Algumas vezes, eles são positivos: gays têm bom gosto, negros envelhecem em melhores condições, judeus são bons empresários. Outras vezes, são negativos: gays são fúteis, negros são intelectualmente inferiores, judeus são avarentos.

Num dado momento histórico, é verdade, os próprios homossexuais se encarregaram de desenvolver a noção de subcultura gay uniforme ou monolítica, como o autor dos textos muito bem nomeou. Mas era uma estratégia política, uma forma de sobreviver e ganhar visibilidade. Foi assim nos anos 70 e nos anos 80, nesta última época principalmente por causa da epidemia de AIDS. Nesses períodos certamente coexistiam vários embriões de subculturas gays além daquela valorizada pela militância do Rio e de São Paulo. Já existiam os gays góticos e os gays punks, por exemplo. Eles só não se organizavam em grupos e dividiam suas crenças porque sequer se enxergavam como homossexuais, já que assumir essa identidade significava aderir automaticamente a um certo “estilo de vida”.

Essa subcultura gay urbana e de classe média chegou aos anos 90 e encontrou no nascente mercado gay um aliado. Grandes marcas transformaram os homossexuais em um nicho de mercado. Qualquer homossexual? Claro que não: só aquele branco, de classe média, morador de grandes cidades, de gosto cultural refinado, hedonista etc. Ou seja, o típico indivíduo adepto da subcultura gay. Essa adesão do marketing à subcultura gay, usando e abusando dos estereótipos, é um indício de que existe um modelo de homossexual esperado e até desejado pela heteronormatividade. Basta ver os personagens de novelas e os anúncios em revistas para saber o que os heterossexuais esperam do homossexual “típico”. Os homossexuais “desajustados”, por sua vez, acabam não se reconhecendo nesse modelo de homossexual aperfeiçoado pelas brilhantes mentes de nossos publicitários.

Mas vejam: gays não são os únicos a sofrer com isso. Esse procedimento é adotado com todas as minorias sociais e subculturas existentes. Ou alguém acha que todas as mulheres gostam dos programas de culinária da TV? Ou que todos os jovens negros gostam de hip hop? É claro que não. Mas esses são os lugares e os papéis reservados pela cultura majoritária às mulheres e aos jovens negros. Quem ousa agir diferente pode receber a reprovação e o estranhamento – exatamente o que acontece com os gays que não se ajustam ao que a cultura heteronormativa considera como sendo a genuína e legítima subcultura gay.

Se ela está em crise? Entre os heterossexuais, aposto que não. A imensa maioria da população brasileira continua acreditando que gays são seres que, por terem optado por uma vida de hedonismo absoluto, são incapazes de constituir família, de criar crianças. De tão forte, essa crença impede qualquer avanço legal que garanta os direitos civis a homens e mulheres que amam pessoas do mesmo sexo. A noção de “cultura gay monolítica” por parte da heteronormatividade continua de pé, talvez mais forte do que nunca.

Mas ela está em crise, sim, entre os gays, que cada vez menos acreditam que de fato exista uma “cultura gay monolítica”. Com as mudanças trazidas pela internet – e nisso o artigo do Homomento é preciso –, estamos descobrindo as diversas subculturas gays possíveis. E que só são possíveis porque a militância, lá atrás, usou a identidade homossexual monolítica como estratégia política, relativizando a discriminação. Porque é graças ao pioneirismo e à coragem das drags, dos gays dândis e de toda a galera das décadas de 70 e 80, que hoje é possível assumir-se gay sem pagar um preço muito alto por isso (pelo menos nos centros urbanos, claro).

Graças às conquistas do movimento homossexual e a outros fenômenos sociais e culturais que não convém abordar agora, hoje é possível combinar diversas identidades sem ter que aderir integralmente a nenhuma delas: o sujeito é gay, nerd, umbandista, punk, nordestino, tudo junto, tudo com seu devido valor na constituição do indivíduo. Dessa combinação emergem infinitas subculturas gays, infinitas formas de se reconhecer e ser reconhecido como homossexual.

Essas infinitas subculturas gays sempre tiveram potencial para existir, mas eram limitadas pela impossibilidade de pessoas encontrarem outras pessoas com os memos interesses. Com as novas tecnologias, é fácil encontrar quem compartilhe os mesmos significados, crenças e comportamentos conosco. Antes, buscávamos alguém que correspondesse a apenas um desses aspectos: a atração sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo. Era o que dava para conseguir em sociedades tomadas pela homofobia estatal, pela culpa religiosa, pelo patrulhamento da vizinhança. Com a internet, todas as cidades do mundo ganharam o que antes só era possível nas metrópoles: anonimato e pluralidade. E mesmo os habitantes da cidade grande ganharam ferramentas que facilitaram a socialização e a formação de grupos por pessoas que têm afinidades.

Tudo isso para dizer aos gays “desajustados”: parem de se lamentar e aproveitem as múltiplas interações sociais e culturais que são possíveis hoje em dia. E não se importem com o estereótipo, porque ele é o ônus de ser minoria. Por mais “comum” que você seja, basta um beijo em alguém do mesmo sexo para que todos os lugares-comuns sobre gays se apliquem automaticamente a você. São assim que as coisas funcionam, e a culpa definitivamente não é dos homossexuais. Não acreditem na heteronormatividade, duvidem do mercado gay. Nós não podemos aderir a essa visão estreita de mundo. Que a cultura gay monolítica só sobreviva na cabeça dos heterossexuais monolíticos.