O retrato cor de rosa da Veja

10 de maio de 2010

Caros leitores da área do marketing, por favor, me auxiliem a compreender as últimas semanas da revista Veja. A julgar pela foto meiga de José Serra em uma capa e as frases inventadas atribuídas ao antropólogo Viveiros de Castro, a estratégia de divulgação do veículo guinou para o “fale mal, mas fale de mim”. A última capa da revista, que traz como destaque a crescente facilidade em assumir-se gay na adolescência, não escapa às críticas, nem mesmo – ou principalmente – de integrantes da tal “Geração Tolerância”.

Não estamos dizendo aqui que o fato retratado pela revista não exista. Ninguém seria tolo ao ponto de rejeitar a ideia de que assumir-se gay ou lésbica (a matéria não trata de bissexuais ou transgêneros) em nossa sociedade está mais fácil hoje. O assunto deixou de ser tabu, avançamos consideravelmente no plano dos direitos, conhecemos cada vez mais pessoas assumidas – na mídia, em nossas relações sociais – para termos e citarmos como exemplo. E o fato de os adolescentes conseguirem encarar cada vez mais cedo o momento de se assumir deve sim ser encarado como positivo. É um sinal de que essa identidade não é mais vista como um fardo a carregar ou algo a esconder.

O problema está na simplicidade com que a reportagem trata essa mudança, uniformizando a abrangência desse fenômeno da “tolerância” e apresentando-o de forma totalmente acrítica. Em primeiro lugar, o problema é de texto: o tom da matéria é quase comemorativo, e tende a minimizar as dificuldades encontradas pelos personagens. Nesse mundo cor de rosa, o preconceitopraticamente não existe mais. Em segundo lugar, a matéria cita uma série de pesquisas descontextualizadas, em que os números são jogados de forma a comprovar a hipótese dos repórteres. Podemos citar uma passagem:

“Em 1993, uma aferição do Ibope cravou um número assustador: quase 60% dos brasileiros assumiam, sem rodeios, rejeitar os gays. Hoje, o mesmo porcentual declara achar a homossexualidade “natural”, segundo um novo levantamento com 1.500 adolescentes de onze regiões metropolitanas, encabeçado pelo instituto TNS Research International.”

Novamente, não estamos descartando a possibilidade de o percentual de brasileiros a “rejeitar os gays” ter diminuído de 93 para cá. Apenas sustentamos que “achar a homossexualidade ‘natural’” não é um argumento suficiente para validar a ideia de que temos, ao menos entre os jovens, 60% de simpatizantes em vez de 60% de homofóbicos. Se pensarmos em natural como “referente à natureza”, um avanço pensar na homossexualidade como algo “natural” e não uma “perversão”, mas também devemos manter em mente o fato de que a cor também é determinada por fatores “naturais”, e isso não impede a existência do racismo. Por outro lado, se pensarmos em “natural” como “comum, rotineiro, sem dificuldades”, temos que levar em conta a compreensão da pergunta e a autocensura de quem responde. Para continuar citando pesquisas: uma pesquisa conduzida em 2008 pela Fundação Perseu Abramo – um dado que a matéria da Veja poderia ter pesquisado – constatou que cerca de 90% das pessoas concordava com a “existência de preconceito” contra os LGBT, ainda que aproximadamente 70% dos entrevistados negassem ser, eles próprios, preconceituosos em relação a essa população. Onde foram parar os intolerantes, então? Eles se revelam em outras perguntas: 92% dos entrevistados por essa pesquisa concordaram com a frase “Deus fez o homem e a mulher com sexos diferentes para que cumpram seu papel e tenham filhos”, 62% defendiam que “casais de gays ou de lésbicas não deveriam andar abraçados ou ficar se beijando em lugares públicos”, e 40% acreditavam que “a homossexualidade é uma doença que precisa ser tratada”.

Enquanto os números acima exigem o uso da interpretação e da compreensão da subjetividade dos envolvidos, existem números muito mais claros que a matéria em questão deixa de lado. Estamos falando das estatísticas levantadas pela ONG Conexão G no grupo de favelas cariocas conhecido como Complexo da Maré. Essa organização sustenta que nas comunidades do Rio ocorre pelo menos um incidente por dia de violência motivada pela sexualidade da vítima. Certamente, nem todos os ataques devem envolver integrantes da tal “Geração Tolerância”, mas já nas primeiras linhas da reportagem que o jornal O Dia fez sobre essa estimativa encontramos o depoimento de uma lésbica de 24 anos:

“Além de bater nos gays e travestis, os bandidos ficam ameaçando estuprar as lésbicas. Fazem um terror psicológico insuportável”, conta. “Quando descobrem uma lésbica no morro, dizem que a garota só se tornou homossexual porque não conheceu homens de verdade. E que darão ‘um jeito’.”

A reportagem, portanto, ignora o que se passa nas camadas mais pobres; a própria reportagem frisa que “A tolerância às diferenças (…) está se tornando uma regra – especialmente entre os escolarizados das grandes cidades brasileiras” (grifo meu). Esse retrato da juventude a partir de uma juventude específica, a juventude de classe média e principalmente classe média alta, não surpreende – afinal de contas, é a Veja. O que surpreende é notarmos que mesmo aqueles que são retratados pela reportagem sofrem ou sofreram alguma discriminação em virtude de sua homossexualidade. A família de Lucas El-Osta, por exemplo, levou o rapaz ao psicólogo e à igreja quando soube de seu interesse por outros meninos; Hector Gutierrez era chamado de “bicha” no colégio. Mesmo dentro do universo de Veja, a tolerância não é instantânea. Fora dele, ela não se estende a todos os casos (quem é LGBT, tem cerca de 20 anos e sofreu algum grau de bullying por isso no colégio, por favor “levante a mão” na caixa de comentários).

Uma outra característica importante a ser destacada nessa “tolerância” retratada pela revista é que ela se aplica à homossexualidade, mas não necessariamente inclui outras sexualidades. Os bissexuais foram deixados de fora da reportagem, e mesmo a fronteira tênue que confunde homos e bissexuais na adolescência não é sequer mencionada. Na “geração que rejeita os rótulos”, a reportagem só encontrou homossexuais. Se formos pensar em termos de identidade de gênero, o buraco é ainda mais embaixo. Se nem bissexuais entram na matéria, o que esperar em termos de identidades trans? Evidentemente, esse é mais um silêncio da “Geração Tolerância”. Podemos ir mais longe: uma entrevistada salienta: “nunca fiz o tipo masculino nem quis chocar ninguém com cenas de homossexualidade”, um casal afirma “andar de mãos dadas às vezes, nunca se beijando em público”. A tolerância dessa juventude é maior quanto menos visíveis estiverem as diferenças, e a própria sexualidade é vista como motivo para “choque”.

Recapitulando então: essa mudança de mentalidade não acontece em todos os casos, nem com todas as identidades sexuais; é um fenômeno que, como a matéria mostra, é característico de uma geração específica e, principalmente, não acontece em todos os lugares nem em todas as classes sociais. Não estamos dizendo que essa mudança não é importante. Só defendemos que ela precisa ser minimizada e compreendida dentro do contexto social em que ela acontece.

E agora que já demos à Veja a atenção que ela merecia, que tal pararmos de dar corda à estratégia de dar audiência para matérias ruins? A última Piauí tem uma reportagem bem legal sobre mudança de sexo!


Homomento discute a décima edição do BBB

29 de janeiro de 2010

Já faz duas semanas que o assunto da vez, tanto nos sites gays quanto na mídia em geral, é a décima edição do Big Brother Brasil: em especial, a presença de integrantes abertamente homossexuais na casa. A equipe do Homomento, que vem desde então discutindo suas opiniões sobre a questão, quis reunir algumas ideias soltas, sem o compromisso de um texto organizado e coerente. Convidamos todos à leitura e à discussão.

O óbvio ululante: a existência de homossexuais

Acho que o primeiro e mais óbvio ponto é que, bem ou mal, contamos com a presença de três homossexuais assumidos em um programa de altíssima audiência. É interessante compararmos a porcentagem de LGBTs no programa, de 17%, com a estimada para homos no “mundo real”, que varia de 10 a 19% de acordo com o contexto. Sabendo que a escala está mais ou menos correta, nos perguntamos: porque então toda a polêmica? Porque os apelidos como “Big Brother Gay”, se tem tantos lá dentro quanto aqui fora? A questão evidencia o quanto a homossexualidade é deixada à margem das discussões.

Trazendo a discussão à tona do lado de fora

Observar três homossexuais como ratos de laboratório pode ser instigante, e levar as pessoas a questionamentos diversos: “mas o que são homossexuais? Como eles são, o que fazem? Porque fazem? Qual a diferença entre eles e as outras pessoas?”. Por mais que seja condicionada pela edição do programa, essa curiosidade pode ser proveitosa.

61% das buscas na primeira semana de programa foram motivadas pela dúvida em relação a palavra Homofobia

Em um dos programas da primeira semana o participante Dicesar, conhecido como Drag Queen Dimmy Kieer, acusou outro competidor, Marcelo Dourado, de homofóbico. Em resposta, o Homomento foi selecionado para sanar, em diversas buscas, a seguinte questão: “Qual o significado de homofobia?”. Acredito que o post “Sobre a homofobia e seus significados” tenha suprimido a curiosidade de vários internautas, entretanto alguns curiosos mais práticos optaram pelo bom e velho dicionário, fato constatado pelo nosso blog:

O Priberam é o primeiro dicionário nas opções de busca do Google

Lidando com estereótipos

Enquanto Dicésar e Sérgio são gays mais característicos, com comportamento beirando o anedótico, Angélica é uma lésbica discreta e que não dá pinta nenhuma. Em outras palavras: notadamente, nessa edição o estereótipo da bicha é reforçado e o da sapatão já cai por terra. Mas pensemos um pouco além. Como se trata de um reality show longo, o comportamento dos participantes é exibido por semanas a fio, e é possível que os espectadores esqueçam um pouco da caricatura para enxergar as pessoas por trás delas, pondo em jogo vários preconceitos.

A ilha gay e a divisão forçada das tribos

A separação dos participantes em grupos também é intrigante. Não é preciso uma análise muito inteligente para perceber que a divisão não é exatamente lucrativa para os gays. Os LGBTS não criaram vínculos fortes de amizade entre si e preferiram se relacionar com pessoas de fora dos “Coloridos”. Até aí nenhum problema, afinal a intenção é o atrito, a grande falha na nossa visão é a segmentação forçada entre clãs, que reforça estereótipos e valida a marginalização do gay. A impressão do telespectador é que a repartição aconteceu da seguinte maneira “ok, temos três gays, gostaríamos de colocá-los em um nicho segmentado então vamos inventar outra denominação para os moradores que sobraram”.

Um diálogo que acompanhei entre a participante Angélica (assumidamente homossexual) e Cláudia (do grupo “sarados”) serve como exemplo. Na conversa a participante “sarada” falava que não entendia porque estava em seu próprio grupo porque em comparação a outros competidores, como por exemplo Eliéser (tribo dos belos), pouco frequenta a academia. Digo isso porque com exceção dos coloridos (em que todos compartilham algo: ser gay) nenhum outro grupo realmente tem alguma coisa em comum, visto que nem todos os “sarados” são realmente sarados, tão pouco os “belos” são todos “belos”, os cabeças nem comento, e os “ligados”, bom, os “ligados”, o que viria a ser “ligado”?

A normatização do politicamente correto

Uma contribuição que as edições anteriores do Big Brother já haviam trazido foi a vilanização da homofobia. Por incrível que pareça, todavia, não se sabe até que ponto isso é realmente positivo.

É nítido que na dinâmica do programa costuma-se construir heróis e vilões, simpáticos e malditos, coitadinhos e opressores. Nessa necessidade às vezes involuntária de divisão binária e estática, podemos observar uma série de comportamentos e posturas respeitosas a homossexuais que não se configuram exatamente a favor de esclarecimento e discussão por parte dos espectadores, mas como fomento à postura moralista e politicamente correta dos mesmos.

Condenar o comportamento de um participante abertamente homofóbico não significa em momento algum a aceitação automática do filho ou filha homossexual, por exemplo. Ou seja, não existe uma correspondencia real entre os valores aplicados ao programa de televisão e a vida prática de cada espectador. Por vezes a reprodução do comportamento padrão, como de condenação a atitudes homofóbicas, só respeita a necessidade de não se mostrar inadequado ao círculo social a que se pertence, sem haver o que se mostra realmente necessário, que seria a saudavel discussão do assunto.

Obviamente são casos e casos, culminando em alguns nos quais de fato existe dialogo e mudança positiva de percepção do outro. O que já suscita a pergunta: só esses casos já não tornam a iniciativa válida? A resposta fica a critério dos parametros de cada um.

A reprodução de opiniões é muito mais simples do que a real assimilação e mudança de postura. Resta a nós não torcer necessariamente para Sérgio, Dicésar ou Angélica, e sim para que esta postura amigavel da mídia e dos telespectadores não seja efemera tal qual tudo que resta das edições do Big Brother Brasil.

O universo externo gay

Esse post foi feito com muito carinho por toda equipe do Homomento. Agora que já opinamos, também queremos saber o que os leitores pensam sobre a presença dos gays na casa do Big Brother Brasil 10.


Sugestão de filme: If The Walls Could Talk 2 (ou Desejo proibido)

14 de janeiro de 2010

Hoje o Homomento traz uma indicação: If The Walls Could Talk 2 (2000), título tragicamente adaptado para “Desejo Proibido” no Brasil. Essa péssima adequação no nome já pode afastar alguns leitores, por isso peço que desconsiderem esse ponto falho. Para quem já assistiu vale a reflexão.

Eu poderia dizer que em ITWCT 2 o assunto principal são lésbicas, mas estaria sendo simplista (para não dizer ignorante). Para mim a temática é baseada na construção da família homossexual, com foco em relações entre mulheres.  A história é uma semi-continuação do If The Walls Could Talk (1996), que explorou a compreensão do aborto em diferentes períodos.  Já o If The Walls Could Talk 2 opta por uma narrativa segmentada em épocas, totalizando três histórias curtas, focadas em sentimentos e relacionamentos completamente diferentes uns dos outros. O resgate de emoções inaceitáveis (ou mascaradas na contemporaneidade) sustenta a capacidade reflexiva do filme, e essa é, para mim, a principal qualidade.

A primeira short history conta a história de duas lésbicas casadas por 50 anos em pleno 1961. As senhorinhas vivem em uma casa e levam um relacionamento duradouro e feliz, até que em um acidente domésticos uma delas morre.

A história de Abby (Marian Seldes) e Edith (Vanessa Redgrave) é a mais emocionante

A tragédia é ambientada na mesma casa que abrigou por anos aquela família pacificamente transgressora e que agora acolhe a solidão e o desespero da parte restante do casal. A concepção de família é completamente ignorada por todas as personagens que ficam à margem da trama, com exceção, é claro, da própria família: o casal de lésbicas. No mínimo emocionante.

A segundo história, de 1972, aborda o melhor tópico. Quando eu e minha namorada assistimos ficamos horas discutindo sobre o comportamento das personagens e a atualidade do tema. Bem resumidamente, Linda (Michelle Williams) conhece Amy (Chloë Sevigny) em um bar. Linda faz parte de um grupo feminista. As amigas de Linda recriminam o contato dela e de Amy por discordarem da forma como a nova namorada se veste. Amy usa roupas tipicamente masculinas e possui comportamentos e trejeitos que destoam dos princípios que, até então, regiam a vida de Linda. Mesmo se passando em 1972, o discurso verborrágico das lésbicas feministas é um retrato da ignorância e a discriminação do gay para com o próprio gay. A negação e a repreensão das lésbicas em relação a personagem de Chloë Sevigny  mostram que, mesmo indivíduos que teoricamente estariam predispostos a aceitar níveis diferentes de expressão/comportamento, e entender as ramificações infinitas da sexualidade humana, continuam, invariavelmente, a limitar o pensamento. No mínimo questionador.

O casal divertido: Sharon Stone e Ellen degeneresA terceira e última short history se passa no ano 2000 e narra a luta de um casal de lésbicas que desejam ter um filho. Fran (Sharon Stone) e Kal (Ellen DeGeneres, sim, a própria!) são atrapalhadas e engraçadinhas, o que acaba maquiando a narrativa meio bobinha. No mínimo divertido.

Fica a minha dica para quem gosta de filmes LGBT/drama. Segue abaixo o download em RMVB com as legendas em português:


“Por que você tem duas mães?”

25 de setembro de 2009

A tradução dessa sexta-feira é de uma autora no mínimo inusitada. Sophie Brescia tem 10 anos e escreveu esse texto como colunista convidada do jornal LGBT britânico Bay Windows. Você pode ler a versão original ou conferir a tradução do Homomento, logo abaixo.

Famílias Diferentes
por Sophie Brescia

Eu posso não ser o que você considera uma colunista qualificada, mas aprendi algumas coisas ao crescer com duas mães em uma pequena cidade perto de Boston. Se você tem alguma curiosidade em saber como é ter 10 anos e viver com duas mães e uma irmã, eu tenho algumas coisas pra contar.

Algumas pessoas perguntam coisas bastante pessoais sobre a sua vida, e outras olham de um jeito engraçado. É importante ser verdadeiro consigo ao invés de mudar seu comportamento só porque outras pessoas estão curiosas, nervosas ou desconfortáveis perto de você ou da sua família – mesmo se eles disserem coisas ruins para você ou sobre você. Vou falar agora sobre as perguntas que me são feitas com mais frequência.

No topo da lista, está essa pergunta: ‘porque você tem duas mães?’.

Eu tenho duas mães porque elas se amam e queriam constituir uma família. Eu e minha irmã nascemos na China. Nós não temos ligação sanguínea com elas, mas nos amamos e somos uma família que se uniu por causa dessas duas pessoas.

Quando a minha irmã era muito pequena, os amigos da pré-escola achavam que ela era sortuda por ter duas mães. Se uma saía para as compras, ainda havia outra em casa com ela. Conforme fomos crescendo, as crianças não achavam mais que ter duas mães era uma coisa boa – especialmente se as duas nos dessem ordens simultaneamente.

Muitos perguntam: ‘onde está seu pai?’ ou ‘porque você não tem um pai?’. Antes eu pensava que tinha de contar toda a história da minha família quando alguém numa loja ou num restaurante perguntava isso. Conforme fiquei mais velha, notei que algumas vezes as pessoas não queriam saber porque eu não tenho um pai, mas apenas que adulto estava me acompanhando naquele dia específico. Depois de um tempo, pude perceber a diferença entre esse tipo de questionamento igênuo e o que era feito com curiosidade. Hoje em dia, se noto que é com curiosidade, respondo: ‘eu tenho duas mães’. Só isso.

Às vezes me fazem essas perguntas porque estão realmente interessados na minha vida ou em entender melhor a minha família. Você pode perceber pelo tom de voz qual é o tipo de pessoa está perguntando. Se há quase um receio na voz, ela quer saber de verdade. Mas se há um tom arrogante, percebo que ela só quer me deixar desconfortável.

Como eu e minha irmã somos adotadas, também costumam indagar se eu sei quem são meus pais ‘de verdade’. Eu digo que minhas mães ‘de verdade’ são as que cuidaram de mim por toda a minha vida. Frequentemente me pressionam a falar sobre meus pais biológicos, mas eu nem sempre tenho vontade de fazê-lo. Então, quando me solicitam isso, eu ajo de acordo com a minha vontade.

Quando caminho na rua com toda a minha família, percebo que os que lançam os olhares mais esquisitos são os adolescentes. Adolescentes gostam que tudo seja sempre do mesmo jeito, então até eles crescerem e passarem dessa fase, eu só os ignoro.

Crianças que cresceram perto da nossa família costumam ser mais legais porque não têm preconceito com o nosso tipo de família. Adultos também.

O mais importante a se lembrar é que sempre que alguém lhe faz uma pergunta, você só tem que dar a resposta que você queira e se sinta confortável a dar. Sempre seja verdadeiro consigo mesmo.


O tiro bem dado da Arezzo

23 de setembro de 2009

Há uns dias atrás, olhando alguns blogs com minha namorada, me deparei com uma situação um tantinho desconfortável.  Ao visitar um o blog Alice in lesboland, li o texto intitulado “Sapataria Arezzo” que falava sobre o comentadíssimo ensaio das globais Juliana Paes e Cléo Pires. Nada de novo até então, até um certo atraso dada a data de divulgação (julho). Mas o que quero comentar não são as fotografias ou a campanha, e sim o comentário da blogueira. Transcrevo:

“Nós gays sempre reclamamos que somos excluídos da mídia, especialmente no que se refere a programas de TV e anúncios. Agora que se lembraram de nós, acho que merecem um elogio, não? Até porque deve ter um monte de homofóbico-chato-careta metendo o pau, e nós não queremos que a Arezzo ache que teve uma má idéia em colocar aquelas duas gatas se insinuando dentro d’água, queremos? Vai que na próxima campanha ela põe a Cleo se esfregando num Cauã Reymond da vida? Cruzes! Então faça a sua parte, sapa! Manda um e-mail bem fofo para eles aqui, manda! Eu já mandei o meu.”

Juliana Paes e Cléo Pires para Arezzo, inclusão?

Juliana Paes e Cléo Pires para Arezzo. Inclusão? Onde?

Sei que o escopo do blog é totalmente diferente do Homomento e que trata de assuntos mais leves, usando artifícios como o humor e a naturalidade. Infelizmente nenhum desses métodos justifica, para mim, uma visão tão ingênua. O ensaio pode ser bem feito, ter uma estética bacana, bons efeitos, mulheres bonitas, ser pouco apelativo em relação ao que normalmente tange nossa realidade, não importa. A última coisa que se pode imaginar é que em um ensaio como esse ajude, mesmo que minimamente, qualquer lésbica nesse brasil varonil, minha gente!

Um tiro certeiro para não ricochetear

Engana-se a blogueira, leitor, ou consumidor da Arezzo que enxerga essa campanha como um ensaio ‘lésbico’. A boa estratégia de marketing, feita com carinho pelos marketeiros/publicitários/assessores da marca, inteligentemente associa o comportamento das mulheres a uma relação homossexual. Mas na verdade não é isso que acontece, aliás, se a análise das fotos for feita com um pouquinho mais de carinho, é possível observar que se trocada qualquer uma das atrizes por um homem, um se simplesmente excluída da foto, o que temos é mais um ensaio exatamente igual a tantos outros.

A Arezzo opta por contratar para suas campanhas os principais destaques das telenovelas, e nessa eles não fugiram à regra. Talvez o que mais chame atenção seja a concomitância da campanha com a entrevista concedida ao portal A Capa pela Juliana. Um trechinho:

“O que você acha do preconceito contra homossexuais?
Acho uma atitude tão besta e muito pequena. Afinal, o mundo é feito de pessoas diferentes em todos os sentidos. O ser humano tem que saber viver com as diferenças e respeitar o próximo, não só pela sua opção sexual (sic), mas pela raça, condição social, intelectual.

Qual a sua opinião da adoção por casais gays?
Família se constitui por amor e existe amor entre iguais. Para mim, um casal gay tem a mesma condição de criar e educar uma criança que um casal heterossexual.”

Obviamente mora aí um excelente assessor, que habilmente distribuiu o bom e velho release amigo para um dos principais sites LGBT do Brasil, e com certeza tratou de responder com muito carinho e atenção as perguntas enviadas a Juliana. Essa iniciativa inteligente reprimiu qualquer levante homossexual, tendo por base a postura gay-friendly e o suposto ensaio pró-lésbico. Caso encerrado.

Eu não sei qual é a postura real da Juliana Paes, se a Cléo Pires curte gays, se as duas acharam bacana a iniciativa e por isso aceitaram ou se foi porque o pagamento foi satisfatório. Enfim, para mim pouco interessa, porque tudo (e quando eu digo tudo é TUDO) relacionado a campanhas comerciais tem uma estratégia, um objetivo e um interesse. Os LGBT são, enquanto grupo, um nicho a ser exploradíssimo no mercado brasileiro dos próximos anos, então é imprescindível que se filtre os estimulos para não cair em jogadas de marketing bestinhas, como essa.

juju


Destaque da semana: Visibilidade Lésbica

31 de agosto de 2009

29 de agosto é Dia da Visibilidade Lésbica. No domingo, marchas lésbicas e shows encerraram a semana dedicada às sapas, que começou em 19 de agosto, dia do Orgulho Lésbico (o Homomento publicou uma entrevista com a ativista Miriam Martinho nessa data).

Em Porto Alegre, lésbicas se reúnem em frente ao palco antes da Marcha

Em Porto Alegre, lésbicas se reúnem em frente ao palco antes da Marcha

Vale a pena ler o texto de Laura Bacellar, colunista do Dykerama e editora da Malagueta, sobre a importância do Dia da Visibilidade. Afinal, não é só por simbolismo que essa data mereceu nosso destaque: ao longo da semana, a homossexualidade feminina pautou debates em várias capitais brasileiras, como Porto Alegre, Recife, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Em Teresina, um fato curioso: o que encerrou o mês da Visibilidade não foi uma mera marcha, e sim a própria Parada da Diversidade dessa capital. Quem disse que o Orgulho Lésbico não pode ser celebrado com o resto do movimento homossexual, mesmo?


Dia do Orgulho Lésbico: entrevista com Míriam Martinho

19 de agosto de 2009

Em 1983, no dia 19 de agosto, as lésbicas que frequentavam o Ferro’s Bar, em São Paulo, revoltaram-se contra a discriminação que as ativistas do Grupo de Ação Lésbico-Feminista (GALF) sofriam no local. A ocupação do bar é considerada o “Stonewall brasileiro“. Por isso, a data de 19 de agosto é celebrada como o Dia do Orgulho Lésbico desde 1996 (embora uma parte do movimento lésbico tenha decidido comemorar o dia 29 de agosto como Dia da Visibilidade Lésbica, o que gera polêmica até hoje).

A comemoração desse dia se torna ainda mais importante em 2009 porque o movimento lésbico brasileiro completou 30 anos no último mês de maio. Para marcar esse dia, conversamos com Míriam Martinho, ativista do GALF que participou da ocupação do Ferro’s Bar. Atualmente, ela escreve nos blogs Contra o Coro dos Contentes e Memória/História MHB-MLGBT, e edita o site lésbico Um Outro Olhar.

Como surge o Grupo Lésbico-Feminista? Quantas mulheres faziam parte do coletivo, na época? Quais foram suas primeiras ações?
MM: O Grupo Lésbico-Feminista surgiu em maio de 1979 quando as mulheres do Grupo Somos de Afirmação Homossexual, de São Paulo (primeiro grupo homossexual do Brasil), foram convidadas a redigir uma matéria sobre lésbicas para o jornal Lampião da Esquina, publicação de temática homossexual do Rio de Janeiro que circulou de 1978 a meados de 1981. Após a publicação dessa matéria, decidiram continuar juntas e formaram o primeiro grupo lésbico brasileiro, chamado Grupo Lésbico-Feminista (LF), cujo coletivo se desfez em meados de 1981. Duas remanescentes deste coletivo, resolveram dar continuidade a organização especificamente lésbica e fundaram o Grupo Ação Lésbica Feminista (outubro/1981).

O LF surgiu dentro do Somos, dentro de um jornal gay. Até hoje as lésbicas reclamam de pouco espaço e visibilidade no movimento homossexual. Foi difícil abrir espaço para as demandas lésbicas no movimento?
MM: Sim, foi difícil. Nem tanto na primeira geração do movimento homossexual (a da década de 80), pois o feminismo estava no auge e influenciava todo mundo, inclusive os homens homossexuais que já pensavam na especificidade lésbica e faziam paralelos entre a questão da homofobia e a situação da mulher. Mais na segunda geração, a da década de 90, quando o movimento homossexual renasce das cinzas. Foi preciso uma batalha campal para simplesmente inserir a palavra lésbica no nome do encontro nacional em 1993. Hoje não sei dizer o quanto as reclamações das ativistas lésbicas sobre mais espaço e visibilidade no movimento homossexual também não são consequência da relativa ausência das mesmas no MLGBT. A maioria vem se reunindo fundamentalmente em separado e em ligação com o movimento feminista, então fica difícil saber o quanto essas queixas procedem. Os gays tendem a ser gaycêntricos mesmo, mas se as lésbicas também não estão presentes para questionar essa situação com pertinência, a tendência é que ela se mantenha.

Pelo que li no seu livreto sobre os 30 anos do movimento lésbico, vocês já enfrentavam algumas dificuldades para vender o ChanaComChana no Ferro’s Bar há algum tempo… qual foi a “gota d’água” para o levante em 19/08/1983?
MM: A gota d’água foi no dia 23 de julho de 1983, quando o dono do bar, o segurança e o porteiro tentaram nos pôr para fora do Ferro’s, puxando a gente pelo braço, dando empurrões. Nós resistimos, e as mulheres que estavam no bar nos apoiaram. Eles chamaram a polícia que extraordinariamente permitiu que a gente ficasse por lá naquele dia, mas naquela base do só hoje e nunca mais. E fomos proibidas de voltar a vender o boletim lá, embora se vendesse de tudo no bar, inclusive substâncias ilícitas. Só não podia vender publicação de lésbica num bar sustentado por lésbicas. Daí organizamos o levante para acabar com a proibição.

Depois desse incidente, as lésbicas continuaram frequentando o bar? Como foi a repercussão da invasão na mídia?
MM: Não só continuaram como houve um acréscimo de tribos lésbicas ao público do bar, pois as feministas homossexuais passaram a frequentar o “pedaço” – como se dizia – também com mais frequência. Em relação à imprensa, houve uma grande repercussão na mídia porque foi a Folha de São Paulo que cobriu a invasão e com um enfoque positivo, coisa inédita no período. Outros jornais e a revista Visão (da época) reproduziram a matéria e reverberaram o assunto.

A invasão do Ferro’s Bar é bastante semelhante ao levante de Stonewall dez anos antes, considerado um marco para o movimento homossexual. Mas o 19 de agosto não costuma ser lembrado com tanto destaque pela imprensa gay brasileira quanto o 18 de junho, e mesmo as lésbicas têm mais uma data oficial para celebrar (29 de agosto, Dia da Visibilidade Lésbica). Você não sente que o caso do Ferro’s Bar é pouco valorizado?
MM: O dia 19 de agosto foi lançado oficialmente em 2003 e novamente divulgado pela Folha de São Paulo, com as matérias sendo replicadas por outros jornais, dando grande repercussão ao assunto. Mas o pessoal do dia da visibilidade, que havia sido proposto em 1996, mas não comemorado efetivamente, ficou temeroso que o 19 de agosto sobrepujasse seu dia e iniciou uma grande propaganda contra a data do orgulho, encontrando respaldo e repercussão na conjuntura política que se iniciou em 2003 e está aí até hoje. O dia da visibilidade se tornou então a data oficial das ativistas lésbicas dessa conjuntura que são majoritárias. Então foi essa propaganda contrária que determinou e ainda determina a valorização inadequada do dia do orgulho. Agora, as pessoas que combatem a visibilidade do dia do orgulho são como aquelas que caíram numa areia movediça: quanto mais lutam contra mais rápido a credibilidade delas afunda, pois o levante do Ferro’s é um fato histórico indiscutível. De qualquer forma, já se percebe que algumas pessoas vêm contestando esse silêncio imposto – que de fato é constrangedor para tod@s – e passando a dar o valor que o dia merece.

Para encerrar: As lésbicas ocupam cada vez mais espaço na mídia (em novelas, com seriados como The L Word, com portais como o Dykerama e o Parada Lésbica, além de uma editora própria, a Malagueta). Bem ou mal, a “visibilidade” lésbica avança. Em termos de “orgulho lésbico”, o que temos que conquistar ainda?
MM: Bem, como costumo dizer, sem orgulho não há visibilidade. Essas manifestações de visibilidade que cita são fruto do orgulho de lésbicas que têm a coragem de ser explicitamente lésbicas numa sociedade que insiste em dizer que deveríamos nos envergonhar de amar outras mulheres. Lésbicas sem orgulho não têm visibilidade. Contiuam cultuando o enrustimento, a vida dupla, a falta de integridade e pagando um preço muito alto em termos de qualidade de vida por isso, além de colaborar com o preconceito. Pior: ainda são a maioria infelizmente. Então continua havendo muito que conquistar em termos de orgulho e consequentemente de visibilidade. Feliz dia do orgulho lésbico!