Cuidado! Sua homofobia pode ser um machismo

10 de junho de 2010

Duas publicações desse semestre me chamaram muito a atenção. No melhor estilo “livro de banca”, ambas abordam a homossexualidade sob perspectivas bastante perigosas. Estou falando de “Cuidado! Seu Príncipe Pode Ser uma Cinderela – Guia Prático para Identificar um Gay no Armário” (editora Best Seller) e “Porque toda Mulher Precisa de um Gay em Sua Vida” (editora Matrix).

O primeiro é fruto de uma pesquisa de duas jornalistas que para escrever sua obra entrevistaram “médicos, psicanalistas, arquitetos, empresários, hostess de boates gays, modelos que atuam como damas de companhia de enrustidos e, é claro, mulheres que caíram no conto do Príncipe-Cinderela”. A ideia é ajudar mulheres casadas a identificar se seus maridos são homossexuais enrustidos.

A equipe da Veja se prontificou a ler o livro e fazer uma síntese dele, criando um teste rápido no site da revista para ajudar as inquietas de plantão a desmascarar seus maridos. Conforme as perguntas do teste vão sendo respondidas, são marcadas em rosa as respostas que indicariam homossexualidade do cônjuge. Confira o exemplo abaixo: as respostas em cinza são as que denotariam heterossexualidade.

Ao fim do questionário, um gaydar aponta para a esquerda, onde meias sujas e luvas de boxe estão representadas, ou para a direita, onde vemos uma chapinha e um retrato do Village People. A maior inclinação para um lado ou outro indicam se o dito cujo é príncipe ou princesa.

O segundo livro, “Porque toda Mulher Precisa de um Gay em Sua Vida”, é basicamente um ensaio sobre as amizades entre gays e mulheres. Diz que é ótimo para elas ter amigos homo porque eles são divertidos, bem informados, gostam de olhar vitrines, fofocar e dar conselhos.

Poder-se-ia direcionar a crítica a essas obras sob o aspecto da estereotipificação. Mas confesso que me vi muito mais preocupado com outro assunto que também está presente nos dois livros.

O público alvo, tanto do “Príncipe” quanto do “Amigo”, é feminino. E o tema central é a relação da mulher com o homossexual – enquanto amizade ou enquanto enganação. Os parâmetros para se chegar ao ponto principal de cada obra, além da estereotipificação do gay, são também, de modo mais sutil, a definição do que é o verdadeiro homem hetero e do que deve ser uma genuína relação heterossexual.

Estabelecem-se regras do que uma mulher realmente deve esperar de um casamento quando se diz “se seu marido é arrumado demais, ele é gay” ou “você precisa ter um amigo gay para falar sobre moda e fofoca”. É uma forma de reafirmar a construção da mulher romântica e submissa, da dona de casa que trabalha feliz e se contenta, pois afinal seu marido é, com certeza, heterossexual. Uma das questões do teste da Veja exemplifica bem essa questão, quando diz nas entrelinhas: homem que é homem não mostra afeto ou mostra pouco, e a mulher tem que se contentar com isso.

Além de ofender aos gays, o livro apresenta descrença na relação hetereossexual quando diz que ela não pode ser afetiva demais

A homofobia não existe isolada nem opera sozinha no mundo em que vivemos. Ela é fruto de uma visão binária, de uma polarização dos sexos que estabelece funções e comportamentos para masculino e feminino. Machismo e sexismo andam, por isso, de mãos dadas com o preconceito com homossexuais, e lutar contra um isoladamente é ignorar a origem que todos têm em comum. “Cuidado! Seu Príncipe Pode Ser uma Cinderela” e “Porque toda Mulher Precisa de um Gay em Sua Vida” são, mais do que perpetuadores de ideias superficiais e bobas sobre gays, reforçadores da opressão à mulher.