O retrato cor de rosa da Veja

10 de maio de 2010

Caros leitores da área do marketing, por favor, me auxiliem a compreender as últimas semanas da revista Veja. A julgar pela foto meiga de José Serra em uma capa e as frases inventadas atribuídas ao antropólogo Viveiros de Castro, a estratégia de divulgação do veículo guinou para o “fale mal, mas fale de mim”. A última capa da revista, que traz como destaque a crescente facilidade em assumir-se gay na adolescência, não escapa às críticas, nem mesmo – ou principalmente – de integrantes da tal “Geração Tolerância”.

Não estamos dizendo aqui que o fato retratado pela revista não exista. Ninguém seria tolo ao ponto de rejeitar a ideia de que assumir-se gay ou lésbica (a matéria não trata de bissexuais ou transgêneros) em nossa sociedade está mais fácil hoje. O assunto deixou de ser tabu, avançamos consideravelmente no plano dos direitos, conhecemos cada vez mais pessoas assumidas – na mídia, em nossas relações sociais – para termos e citarmos como exemplo. E o fato de os adolescentes conseguirem encarar cada vez mais cedo o momento de se assumir deve sim ser encarado como positivo. É um sinal de que essa identidade não é mais vista como um fardo a carregar ou algo a esconder.

O problema está na simplicidade com que a reportagem trata essa mudança, uniformizando a abrangência desse fenômeno da “tolerância” e apresentando-o de forma totalmente acrítica. Em primeiro lugar, o problema é de texto: o tom da matéria é quase comemorativo, e tende a minimizar as dificuldades encontradas pelos personagens. Nesse mundo cor de rosa, o preconceitopraticamente não existe mais. Em segundo lugar, a matéria cita uma série de pesquisas descontextualizadas, em que os números são jogados de forma a comprovar a hipótese dos repórteres. Podemos citar uma passagem:

“Em 1993, uma aferição do Ibope cravou um número assustador: quase 60% dos brasileiros assumiam, sem rodeios, rejeitar os gays. Hoje, o mesmo porcentual declara achar a homossexualidade “natural”, segundo um novo levantamento com 1.500 adolescentes de onze regiões metropolitanas, encabeçado pelo instituto TNS Research International.”

Novamente, não estamos descartando a possibilidade de o percentual de brasileiros a “rejeitar os gays” ter diminuído de 93 para cá. Apenas sustentamos que “achar a homossexualidade ‘natural’” não é um argumento suficiente para validar a ideia de que temos, ao menos entre os jovens, 60% de simpatizantes em vez de 60% de homofóbicos. Se pensarmos em natural como “referente à natureza”, um avanço pensar na homossexualidade como algo “natural” e não uma “perversão”, mas também devemos manter em mente o fato de que a cor também é determinada por fatores “naturais”, e isso não impede a existência do racismo. Por outro lado, se pensarmos em “natural” como “comum, rotineiro, sem dificuldades”, temos que levar em conta a compreensão da pergunta e a autocensura de quem responde. Para continuar citando pesquisas: uma pesquisa conduzida em 2008 pela Fundação Perseu Abramo – um dado que a matéria da Veja poderia ter pesquisado – constatou que cerca de 90% das pessoas concordava com a “existência de preconceito” contra os LGBT, ainda que aproximadamente 70% dos entrevistados negassem ser, eles próprios, preconceituosos em relação a essa população. Onde foram parar os intolerantes, então? Eles se revelam em outras perguntas: 92% dos entrevistados por essa pesquisa concordaram com a frase “Deus fez o homem e a mulher com sexos diferentes para que cumpram seu papel e tenham filhos”, 62% defendiam que “casais de gays ou de lésbicas não deveriam andar abraçados ou ficar se beijando em lugares públicos”, e 40% acreditavam que “a homossexualidade é uma doença que precisa ser tratada”.

Enquanto os números acima exigem o uso da interpretação e da compreensão da subjetividade dos envolvidos, existem números muito mais claros que a matéria em questão deixa de lado. Estamos falando das estatísticas levantadas pela ONG Conexão G no grupo de favelas cariocas conhecido como Complexo da Maré. Essa organização sustenta que nas comunidades do Rio ocorre pelo menos um incidente por dia de violência motivada pela sexualidade da vítima. Certamente, nem todos os ataques devem envolver integrantes da tal “Geração Tolerância”, mas já nas primeiras linhas da reportagem que o jornal O Dia fez sobre essa estimativa encontramos o depoimento de uma lésbica de 24 anos:

“Além de bater nos gays e travestis, os bandidos ficam ameaçando estuprar as lésbicas. Fazem um terror psicológico insuportável”, conta. “Quando descobrem uma lésbica no morro, dizem que a garota só se tornou homossexual porque não conheceu homens de verdade. E que darão ‘um jeito’.”

A reportagem, portanto, ignora o que se passa nas camadas mais pobres; a própria reportagem frisa que “A tolerância às diferenças (…) está se tornando uma regra – especialmente entre os escolarizados das grandes cidades brasileiras” (grifo meu). Esse retrato da juventude a partir de uma juventude específica, a juventude de classe média e principalmente classe média alta, não surpreende – afinal de contas, é a Veja. O que surpreende é notarmos que mesmo aqueles que são retratados pela reportagem sofrem ou sofreram alguma discriminação em virtude de sua homossexualidade. A família de Lucas El-Osta, por exemplo, levou o rapaz ao psicólogo e à igreja quando soube de seu interesse por outros meninos; Hector Gutierrez era chamado de “bicha” no colégio. Mesmo dentro do universo de Veja, a tolerância não é instantânea. Fora dele, ela não se estende a todos os casos (quem é LGBT, tem cerca de 20 anos e sofreu algum grau de bullying por isso no colégio, por favor “levante a mão” na caixa de comentários).

Uma outra característica importante a ser destacada nessa “tolerância” retratada pela revista é que ela se aplica à homossexualidade, mas não necessariamente inclui outras sexualidades. Os bissexuais foram deixados de fora da reportagem, e mesmo a fronteira tênue que confunde homos e bissexuais na adolescência não é sequer mencionada. Na “geração que rejeita os rótulos”, a reportagem só encontrou homossexuais. Se formos pensar em termos de identidade de gênero, o buraco é ainda mais embaixo. Se nem bissexuais entram na matéria, o que esperar em termos de identidades trans? Evidentemente, esse é mais um silêncio da “Geração Tolerância”. Podemos ir mais longe: uma entrevistada salienta: “nunca fiz o tipo masculino nem quis chocar ninguém com cenas de homossexualidade”, um casal afirma “andar de mãos dadas às vezes, nunca se beijando em público”. A tolerância dessa juventude é maior quanto menos visíveis estiverem as diferenças, e a própria sexualidade é vista como motivo para “choque”.

Recapitulando então: essa mudança de mentalidade não acontece em todos os casos, nem com todas as identidades sexuais; é um fenômeno que, como a matéria mostra, é característico de uma geração específica e, principalmente, não acontece em todos os lugares nem em todas as classes sociais. Não estamos dizendo que essa mudança não é importante. Só defendemos que ela precisa ser minimizada e compreendida dentro do contexto social em que ela acontece.

E agora que já demos à Veja a atenção que ela merecia, que tal pararmos de dar corda à estratégia de dar audiência para matérias ruins? A última Piauí tem uma reportagem bem legal sobre mudança de sexo!


Nada de crianças na Parada!

24 de setembro de 2009

Do Diário do Pará (os grifos são meus):

O Comissariado de Menores, no desempenho da função fiscalizadora de competência do juizado da 1ª Vara da Infância e Juventude, recebeu despacho do juiz José Maria Teixeira do Rosário para fiscalizar a presença de menores na parada do orgulho LGBT, programada para ser realizada em Belém no próximo domingo, 27. A providência quer proteger menores dos riscos em ambientes e eventos incompatíveis com as respectivas faixas etárias.

Segundo a assessoria do TJE, a fiscalização atenta para “atitudes e práticas consideradas inadequadas aos menores de 18 anos, principalmente ingestão de bebidas alcoólicas, uso de produtos restritos a adultos e a exposição a cenas, expressões e gestos atentatórios à moral e aos bons costumes, considerados pela legislação pertinente prejudiciais às crianças e aos adolescentes e, por isso, considerados com a personalidade ainda em formação”.

De início, precisamos admitir: a espetacularização da Parada oferece, de fato, algumas cenas que não seriam consideradas adequadas à população infantil – tal como drags seminuas, go go boys dançando sensualmente, etc. Mas não acho que esse seja o cerne dessa fiscalização. A expressão “moral e bons costumes” ali no meio do texto diz muito – ou vocês já viram essas palavras na boca de alguém que não seja conservador?

O que eu vejo de mais grave para as crianças na Parada é, como já destaquei, algumas nudezes e performances. Mas isso está presente em outras manifestações culturais também, certamente não tão combatidas. O que ofende a moral e os bons costumes nesse caso não é tanto a nudez ou o sexo quanto quem os pratica – no caso, gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. A nudez da drag é diferente da nudez na Playboy – e é por isso que o juiz determina que se aplique fiscalização aos menores na Parada, e não nas bancas de revistas.

Trans na Parada, e Viviane Castro, dona do menor tapa-sexo conhecido. Se o problema é nudez e sexo, proíba-se o Carnaval

Trans na Parada, e Viviane Castro, dona do menor tapa-sexo conhecido. Se o problema é nudez e sexo, proíba-se o Carnaval

Preciso ressaltar, para evitar mal-entendidos: não sou contra a proteção da criança pelo Estado, só acho que existem prioridades. Se o problema é a ingestão de álcool por menores, não adianta fiscalizar só na Parada – os bares dos arredores, os ambulantes vendendo cerveja e batidas continuarão na cidade quando todos os queers se recolherem ao seu dia a dia monótono, bem como os menores. Se o problema é sexualização da infância, que fiscalize-se também a programação de televisão, onde prosperam mulheres-fruta. E, se a intenção é proteger a infância e a adolescência de ambientes e eventos incompatíveis, que se dedique um esforço mais efetivo ao combate da exploração sexual infantil. Uma pesquisa organizada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos documentou prostituição de crianças e adolescentes em 29 municípios do Pará, sendo que outros sete apresentam menores em situação de vulnerabilidade à violência sexual. Isso insere esse Estado entre os que ostentam o maior número de casos de exploração sexual infantil.

Falando em “fiscalização efetiva”, me pergunto o que essa fiscalização fará. A Parada acontece na rua – as crianças serão vendadas? Levadas para onde? Se há algum lugar que possa acolhê-las, por que muitas ainda são vendidas aos caminhoneiros em troca de comida? E outra coisa – menores não têm sexo, orientação sexual? Desejo, identidade? Se um adolescente de 15 anos quiser ficar com outros meninos, ele deve ser retirado à força da Parada? Aliás, será exigida a apresentação de documento de identidade para desfilar, provando que já se completou 18?

Sim, a Parada tem muitas coisas que não deveriam ser expostas aos olhos de uma criança. Assim como o mundo. Poupar os menores da Parada não vai isolá-los do mundo do sexo – apenas do conhecimento de uma sexualidade mais diversa.


23 de setembro: dia internacional da bissexualidade

23 de setembro de 2009

Fiquei sabendo da comemoração de hoje pela revista espanhola LGBT AG Magazine. O site da revista conta que a data foi escolhida por marcar a morte de Freud, o primeiro teórico a conceber a possibilidade de existência da bissexualidade.

Foi a 23 de setembro de 1999 que se celebrou pela primeira vez essa data, durante a XXII Conferência Mundial da ILGA (International Lesbian and Gay Association) em Jogannesburgo, África do Sul, e hoje em dia se realizam atividades comemorativas em todos os continentes: dos EUA ao Japão, da Austrália à Europa.

Na sexta-feira da semana passada, o Homomento publicou seu primeiro post sobre bissexualidade, o texto Bi-bi-bi-bi, traduzido da revista mexicana Pride is Dead, que aborda o preconceito sofrido pelos bissexuais tanto na mão dos héteros quanto dos também oprimidos homos. Aproveitamos o dia de hoje para aprofundar essa discussão, abordando alguns dos principais problemas enfrentados (há muito tempo, como podemos ver nessa matéria publicada na revista Istoé em 1995) pelos bissexuais e tentando desconstruir alguns dos principais argumentos contrários à aceitação da bissexualidade.

O problema do sistema binário

É sempre importante lembrar que a construção de uma identidade sexual não depende somente da orientação do desejo. Ainda que não exista uma “escolha” da orientação sexual, a construção da identidade envolve uma influência do meio. O desejo é biológico, mas a identidade é socialmente construída. Por exemplo: os termos “heterossexual” e “homossexual” foram criados no século XIX, mas isso não quer dizer que antes disso não existissem pessoas que se relacionassem majoritariamente com um ou outro sexo. O que não havia era a denominação para um ou outro comportamento frente à orientação sexual.

O desenvolvimento de uma ciência sexual no Ocidente nos últimos séculos tratou inicialmente da sexualidade humana como uma realidade binária: existem homens e existem mulheres, existem heterossexuais e homossexuais. Branco versus preto. Os tons de cinza começam a aparecer com mais clareza quando o sexólogo Arthur Kinsey divulga sua famosa escala, que prevê uma certa gradação no desejo e no comportamento sexual. Com a publicação desse trabalho, em 1948, reconhece-se que não existem apenas dois padrões de comportamento sexual, e a sociedade descobre que a porcentagem de indivíduos que se envolve em relacionamentos sexuais com pessoas de diferentes sexos é bem maior do que se imaginava.

A escala Kinsey, com os graus de orientação sexual e a porcentagem deles na sociedade americana

A escala Kinsey, com os graus de orientação sexual e a porcentagem deles na sociedade americana

Fritz Klein, autor do livro The Bisexual Option, defende que a bissexualidade é um problema para héteros e homos à medida que ameaça a distinção clara entre uma e outra identidade sexual.

As preferências e aversões eróticas dos heterossexuais normalmente não permitem uma compreensão da homossexualidade. Homossexuais também se sentem desconcertados frente à atração por pessoas do sexo oposto. Isso cria dois campos distintos a partir dos quais bandeiras podem ser erguidas. E ainda que possam ser ameaças ideológicas uns para os outros, esses dois campos são claramente distintos. (…) [Um homem] confrontado com um homem bissexual precisa, ainda que inconscientemente, lidar com a possibilidade de que sua própria sexualidade seja ambígua. A razão pela qual ele fica aliviado ao ouvir que bissexuais não existem é que, assim, ele evita seu próprio conflito interior.

O padrão binário, contudo, deixa marcas. Até hoje, há quem não acredite na existência da bissexualidade. Frequentemente, bissexuais são estimulados (tanto por gays quanto por héteros) a “se decidirem”, como se somente as sexualidades homo e hétero fossem possíveis. Essa pressão por uma definição às vezes faz com que algumas pessoas acabem adotando identidades mais fluidas, determinando-se ora héteros, ora homos, afirmando por vias tortas que a bissexualidade não é uma fase.

Bissexualidade e descrédito

Um dos argumentos mais frequentes entre aqueles que dizem não acreditar na bissexualidade, especialmente masculina, é aquele que diz que as pessoas que se autodenominam bissexuais são na realidade homossexuais enrustidos. Recentemente, um estudo (criticado por ativistas LGBTs devido à metodologia questionável e a um posicionamento pouco isento do pesquisador) defendeu esse ponto de vista, negando a possibilidade da existência de homens bissexuais. Esse pensamento é frequente entre gays e lésbicas, que normalmente definem-se como bis na “fase da descoberta” e passam a adotar uma identidade homossexual na idade adulta.

Esse posicionamento baseado na própria experiência ignora, em primeiro lugar, que as sexualidades são diversas (o que me surpreende bastante, quando vindo de homossexuais), e que o fato de alguns homossexuais passarem por uma “fase” bissexual não quer dizer que todas as bissexualidades sejam transitórias. Além disso, é importante ressaltar que a adolescência é uma fase de definição (não só sexual, mas em todos os aspectos) para todos, e a experimentação faz parte desse processo. Por isso, é importante separar a identidade adulta, mais ponderada, das “fases” que caracterizam a adolescência. Usando um exemplo não sexual: eu me identificava politicamente como “comunista” quando tinha lá meus 14 anos. Hoje, com um pouco mais de maturidade e conhecimento, sei que nunca fui verdadeiramente comunista, o que não me impede de reconhecer a existência do comunismo real.

Afirma-se com frequência que a crescente presença de homos e bissexuais na mídia pode “influenciar” adolescentes, especialmente meninas, a experimentarem. Com isso, considera-se a bissexualidade – ou, antes, o comportamento bissexual – como uma “moda”. Essa pecha de “modinha” prejudica tanto bis como homos, mas como falei antes, a experimentação faz parte da adolescência e o melhor a fazer é aprender a lidar com isso. Se a cultura atual cria um clima favorável à experimentação, melhor – acredito que os adolescentes que experimentam hoje são os adultos bem-resolvidos do futuro.

Preconceito duplo

Por parte dos heterossexuais, os bissexuais sofrem os mesmos preconceitos que os LGT. Assim como ocorre com estes, a bissexualidade desafia a heteronormatividade, por conceber atração sexual e afetiva fora da relação com pessoa do sexo oposto. No caso das mulheres, frequentemente a sexualidade bi é aceita e a afetividade não: ao mesmo tempo que existe um fetiche masculino que fantasia com duas mulheres na cama e estimula a mulher a experimentar, uma bissexual que assumir um relacionamento afetivo com outra mulher passa pelo mesmo preconceito enfrentado pelas lésbicas. Essa questão do fetiche masculino evidencia a influência da pornografia na aceitação ou não das bissexualidades. Clarissa Carvalho, bissexual assumida, escreve:

Pode-se transar com uma amiga para excitar o namorado, mas não se pode apaixonar-se por ela. E aí, eu pergunto onde está a tal da “aceitação”? O mais interessante é que a noção de gênero está muito presente nessa forjada e hipócrita “aceitação”. Pois nas fantasias heterossexuais raramente há aceitação de homens bissexuais. (…) Muito difícil é ver relações sexuais entre homens em filmes direcionados a pessoas heterossexuais. Se homem transou com homem, acabou: é gay. Se mulher transou com mulher: obviamente ela só está excitando o expectador/a.

Ou seja: a existência desse fetiche estimula a experimentação por parte da mulher, o que leva a uma aceitação maior de sua bissexualidade, ao menos no que se refere ao sexo (conduzindo, contudo, a outra encruzilhada: quem disse que, por gostar também de mulheres, uma bissexual deve necessariamente querer participar de um ménage à trois?). Quanto aos homens, a mentalidade binária ainda se faz muito presente, e o sexismo determina que existe o macho, e o que foge disso é automaticamente classificado como gay. Isso explica por que o rótulo de “homo enrustido” é aplicado com mais frequência aos homens bissexuais.

Da parte dos homossexuais, os bis são discriminados através do descrédito, como já exposto, e pela ideia de que ao assumirem uma relação heterossexual, socialmente aceita, estariam procurando um meio de fugir da discriminação. Ainda do texto de Clarissa Carvalho:

Quem diz que ser bi é mais aceito é porque não entende o que é ser bi. A questão aqui não é se eu não sou discriminada quando estou com um homem, a questão é entender como que o meu desejo funciona. E te digo, meu desejo não é heterossexual de dia no restaurante com a família e homossexual à noite na boate “GLS”.

Associação entre bissexualidade e promiscuidade

Partindo de uma “normalidade” heterossexual, só é possível compreender as outras sexualidades através do que as diferencia, ou seja, do comportamento sexual. Assim, a explicação da identidade sexual através do desejo leva a uma associação entre sexualidade e sexo, criando uma visão dos não heterossexuais como indivíduos hipersexualizados. Quando a atração ocorre pelos dois sexos, o estigma da promiscuidade se torna maior, e esse é provavelmente um dos principais traços da bifobia.

Assim, é necessário questionar a máxima de que “para bissexuais, todo mundo é um amante em potencial”. Seria a mesma coisa que dizer “para uma mulher hétero, todo homem é um amante em potencial”. Amantes em potencial são definidos pelos gostos e histórias próprias de cada pessoa, e não pela identidade sexual a que ela se atribuiu.

Essa associação da bissexualidade ao comportamento promíscuo leva também a outro equívoco, aquele que diz que “bissexuais nunca estão satisfeitos com o parceiro”, que “sempre lhes falta alguma coisa” e que, em virtude disso, eles traem ou abandonam o parceiro com mais facilidade. Em qualquer relacionamento, seja hétero ou homo, existem pessoas diferentes do parceiro, e invariavelmente haverá alguma atração por outras pessoas, quer se admita ou não. Uma tara por loiros não vai fazer ninguém trair o namorado negro, certo? No caso dos bissexuais, o desconforto em lidar com um parceiro que se admita atraído por pessoas de ambos os sexos, motivado em parte por insegurança e em parte por preconceito, pode acabar sepultando relacionamentos que tinham tudo para dar certo.

O futuro é bissexual

Antes da invenção do termo “bissexualidade”, o que se via nesses indivíduos eram “heterossexuais predominantes com tendências homossexuais”. Hoje, falamos em L, G, B e T, mas as identidades sexuais passam por uma pulverização cada vez maior, incluindo até a possibilidade de não ostentar nenhum rótulo. Isso se torna cada vez mais frequente (e, dizem alguns, essa é a tendência para o futuro) entre pessoas que, ainda que se relacionem mais frequentemente com um ou outro sexo, eventualmente sentem desejo por indivíduos do outro e não veem problema nisso, sem necessariamente assumir uma identidade bissexual.

Existem sim o bissexual da modinha, o bissexual que na verdade é homo enrustido, o bissexual do fetiche. Mas existe também o bissexual adulto, esclarecido, sem preconceitos na hora de se apaixonar e de se relacionar sexualmente. A luta dos LGBTs é, antes de tudo, uma luta contra a heteronormatividade, e não pode se restringir à defesa de uma ou outra identidade. Antes disso, nosso objetivo deve ser a defesa de toda sexualidade sadia, que se manifeste consensualmente entre adultos, sem julgar motivos ou tentar decidir se o desejo do outro é verdadeiro ou não.

(Post escrito com apoio e pesquisa – tão grandes quanto o texto – do Pedro.)