Top 10 Momentos Gays da Década

18 de dezembro de 2009

Enquanto o Homomento tornou-se praticamente um blog fantasma, por conta do término do semestre – e do merecido descanso destes blogueiros – pipocam por aí listas de fim de ano. Top discos, filmes, séries; top qualquer coisa. Como fã dessas listinhas, não pude deixar de me entusiasmar quando li esse texto do Michael Jones, do Change.Org, que traduzi pra hoje.

Com o ar otimista desse artigo, deixo os votos de feliz ano novo para todos os leitores e amigos que frequentam, comentam e divulgam o Homomento – e a promessa de que em breve retomaremos as atividades com o devido gás.

Top 10 Momentos Gays da Década
por Michael Jones

Os historiadores não podem lançar para esta última década um olhar descontraído. Houve um genocídio no Sudão, uma guerra contra o terrorismo, uma crise econômica, o seriado “Jon and Kate Plus 8”. Nem mesmo Tiger Woods pôde sobreviver a esta década sem ver seu navio afundar. Apesar dos desafios e tribulações dos últimos dez anos, essa década foi repleta de doces conquistas quando falamos de direitos LGBTs. Esse foi o retorno para o ativismo incansável de todos nós, que fizemos bom proveito dos acontecimentos sociais para desenvolver assuntos LGBTs, mesmo com as dificuldades em termos políticos.

Dez anos atrás, o casamento igualitário só existia na imaginação das pessoas e em muitos estados do país (e do mundo), LGBTs poderiam ser presos simplesmente por ter relações consensuais nos seus próprios quartos. Caminhamos muito em dez anos e ainda temos muito a caminhar. Mas, por enquanto, façamos algumas reflexões sobre as dez melhores vitórias LGBTs, surpresas e momentos de glória desses tempos recentes. Concorda? Discorda? Tem outros a adicionar? Deixe-nos saber na caixa de comentários.

10. Bispos quebrando tetos de vidro
Primeiro houve a eleição para o primeiro bispo abertamente gay, Eugene Robinson, em 2003, que chocou tanto a Igreja Episcopal norte-americana que a mesma decidiu não permitir mais tais ordenações pelos próximos anos. Membros conservadores da Igreja responderam a ordenação do bispo Robinson com descaso, e algumas dioceses individuais romperam com a Igreja norte-americana. Mas o bispo Robinson segue até hoje como um dos mais queridos líderes religiosos LGBTs. Em breve ele terá novos colegas, como a Rev. Mary Glasspool, que recém foi eleita bispo auxiliar na diocese da Igreja Episcopal de Los Angeles. Ah, e nós mencionamos que a Igreja Luterana da Suécia elegeu a primeira bispa luterana recentemente?

9. De Portia a Adam
A década que começou com poucas celebridades assumidas (Ellen, Rupert… Bom, apenas Ellen e Rupert) tornou-se o tempo em que celebridades fora do armário causaram grande impacto. Portia de Rossi. Adam Lambert. Neil Patrick Harris. Wanda Sykes. Clay Aiken. Rachel Maddow. Chris Colfer. Jane Lynch. Lance Bass. Mika. Suze Orman. E a lista prossegue. E quando estamos falando do número de seriados e filmes que abordam temáticas LGBTs, essa foi uma das melhores décadas. Brokeback Mountain se tornou popular a ponto de “Brokeback” virar expressão corrente, Milk ganhou vários Oscars, isso para citar apenas alguns. E quem poderia esquecer dos personagens LGBTs em Six Feet Under, Glee, Ugly Betty, Queer as Folk, The L Word, Modern Family e outros? Se os 90 foram definidos pela declaração de Ellen, “I’m Gay”, em seu programa, essa década no entretenimento foi definida pela quantidade de portas que programas como o da Ellen abriram.

8. Adeus à proibição do trânsito de soropositivos
Embora ainda seja válida até 31 de Dezembro de 2009, a administração de Obama realizou a promessa de banir a proibição de tráfego de soropositivos. A proibição, que opera desde 1987, privava os soropositivos de viagens pelo país. Por muitos anos, isso significou que soropositivos eram separados de seus amigos e familiares, além de significar que muitas das conferências internacionais sobre HIV/AIDS não podiam ser realizadas nos Estados Unidos. Não obstante, nesse último Dia Internacional da Luta Contra a AIDS a Secretária de Estado Hilary Clinton anunciou que em breve os Estados Unidos vão sediar a International AIDS Conference, marcada para 2012. Boas notícias, e uma importante vitória para organizações como a Immigration Equality, que trabalharam incansavelmente contra a medida proibitiva.

7. A luta para expandir as leis contra crimes de ódio
Judy e Denis Shepard encerraram a década de 1990 com a notícia que seu filho, Matthew Shepard, havia sido assassinado por causa de sua orientação sexual. Passados dez anos, depois de muito trabalho no Congresso, os Shepard encontravam-se na Casa Branca no dia em que o presidente Obama assinava a legislação expandindo a lei federal de crimes de ódio para incluir a proteção à orientação sexual, identidade de gênero, gênero e deficiência. Pode-se chamar isso de mudança histórica: uma mudança de corações e mentes. Com o registro de 1700 crimes de ódio cometidos no ano passado por motivação na orientação sexual ou identidade de gênero da vítima, essa lei não poderia ter chegado em melhor hora.

6. A emergência da Blogosfera LGBT
Onde estaríamos sem o Pam’s House Blend? Ou o Towerload? Joe.My.God. AmericaBLOG. The Bilerico Project. Open Left. Queers United. Sim, a nova mídia LGBT ganhou formato recentemente, em parte pela necessidade de cobrir os diversos assuntos relacionados a LGBT. Mas também em parte por causa da sua habilidade para criar uma boa base, se organizar rapidamente e incitar a ação. A National Equality March desse ano é um exemplo, tal como outras manifestações ativistas. E não esqueçamos que foram os bloggers LGBT que divulgaram os escândalos que aconteciam nos bastidores do cenário político conservador americano (como com republicano Mark Foley e com o senador Larry Craig).

5. Descriminalize!
Os direitos gays internacionais ganharam base nos últimos dez anos, com países como Espanha, África do Sul e Canadá legalizando o casamento homossexual e com países como a Índia se esforçando em direção da descriminalização da sodomia. Vários países também assinaram a um chamado da ONU para a comunidade internacional descriminalizar a homossexualidade, chamado este que foi uma das maiores manifestações de apoio da ONU aos direitos LGBT.

4. Lutando contra a homofobia por onde ela começa
A explosão de alianças Gay-Straight (gay-hétero) em instituições de ensino de todo o país foram uma das maiores conquistas dos direitos LGBTs, lutando contra a homofobia por onde ela começa – na juventude, dentro das salas de aula, parques ou nos vestiários. Hoje a GLSEN (Gay, Straight, Lesbian Education Network) estima que haja por volta de 34 mil alianças Gay-Straight por todo o país, trabalhando para melhorar o ambiente escolar para os estudantes LGBTs. Ah, isso sem mencionar as dezenas de programas de estudos Queer que surgiram nas universidades por todo o país, fazendo dessa uma ótima década na frente educacional.

3. Johanna, nós te amamos
Ela pode ter um dos nomes de mais difícil pronúncia no mundo inteiro, mas Johanna Sigurdardottir é um nome para os livros de história. Depois que o governo islandês basicamente colapsou, Sigurdardottir se tornou Primeira Ministra do país – e, assim, o primeiro líder abertamente LGBT da nossa era. Pra todos aqueles que ainda se perguntam se um LGBT pode ser presidente, olhe para a Islândia. Sigurdardottir foi também eleita uma das 100 mulheres mais poderosas no mundo.

2. Lawrence vs. Texas
Quem diria que o Supremo que nos deu George W. Bush nos daria também o fim das leis norteamericanas contra a sodomia. A Corte definiu em 2003 que esse tipo de lei era totalmente antiquada, além de incongruente com os direitos concedidos a todos os americanos. Como os juízes expressaram, “a íntima e consensual relação entre adultos faz parte da liberdade protegida pelos componentes da Quarentésima Emenda”. Em outras palavras? A Constituição dos Estados Unidos não quer que o governo regule o que acontece entre quatro paredes – ou mesmo na mesa da cozinha. Uma grande decisão, com implicações nacionais.

1. Case-se comigo
Não importa o que você pensa sobre casamentos, não há dúvidas que essa década foi a década do casamento gay. Primeiro Massachusetts, depois Connecticut, depois Iowa, Vermont e New Hampshire. California e Maine contam, também, mesmo que iniciativas antigay os tenham removido da lista temporariamente. No fim de 2009, poderemos adicionar New Jersey, e no começo de 2010, parece que teremos também o distrito da Columbia. Isso fecha 10% do país inteiro. É claro que uma estratégia de “um estado por vez” para o casamento igualitário ainda mantém um certo número de benefícios federais longe dos casais LGBT. Mas vencer em cada um desses lugares significou uma grande vitória em âmbito geral, levando a discussão do casamento entre pessoas do mesmo sexo para toda a nação. A maioria de nós termina esse ano pensando que quando o assunto é casamento igualitário, a questão é “quando”, e não “se”. Eu não sei quantos de nós falaríamos dessa maneira há dez anos atrás.


Destaque da Semana: Dia Mundial da Luta Contra a AIDS

6 de dezembro de 2009

Nessa terça-feira foi comemorado o vigésimo primeiro Dia Mundial da Luta Contra a Aids. Vinte e um anos depois, a visibilidade da luta estende-se de campanhas na televisão às luzes do Cristo Redentor e da Torre Eiffel, passando pelo hypado Twitter e pelo novo site da administração do Obama (AIDS.gov). A abertura para se falar do assunto advém também da tranquilidade que ele passa hoje em dia, se relacionado ao pânico que evocava em meados da década de 90. Tornou-se uma data – e um ativismo, de modo geral – menos alarmista. Cabe lembrar alguns dados, trazidos por sites diversos, para fazermos o balanço do que já foi conquistado por essa luta – e do que ainda há para se fazer.

– Hoje em dia, por volta de 33 milhões de pessoas no mundo inteiro vivem com HIV/AIDS, e em alguns grupos específicos – incluindo o de homens homossexuais – os números de infecção têm crescido. Nos Estados Unidos, por exemplo, a cada dez minutos uma pessoa é infectada. (Change.Org)

– Há uma estimativa de que uma a cada cinco pessoas infectadas não está ciente disso. Isso significa que ela pode não estar protegendo seus parceiros e disseminando o HIV. (Bilerico)

– Entre 1980 a 2009 os casos de AIDS no Brasil, em homens com idade igual ou superior a 13 anos, totalizam 92.289 em heterossexuais, 62.203 em homossexuais e 36.147 em bissexuais. Já em mulheres o total é de 131.624 entre heterossexuais. (Dolado)

– O site Todos Contra o Preconceito, do Ministério da Saúde, oferece uma quantidade absurda de informações para quem se interessa, que vão desde o feijão-com-arroz do “como se contrai” até pesquisas e estimativas a respeito da situação da AIDS no Brasil.

A associação do 1o de Dezembro com os LGBTs é tão forte que a data acaba se tornando favorável à visibilidade da comunidade. Foi nessa terça, por exemplo, que o governo sueco anunciou que passaria a aceitar a doação de sangue por homossexuais a partir de março de 2010 – passando assim à frente de uma grande quantidade de países que nem considera a possibilidade por conta da ideia de “grupo de risco”. Mesmo assim, o tratamento dado aos homossexuais soa desrespeitoso: além de preencherem um questionário com diversas questões que atestam a condição saudável – comum para todos os doadores -, os homossexuais precisam afirmar que não tiveram relações sexuais no último ano. Dessa maneira, me parece que quem pode doar não são os homossexuais, e sim os assexuados.

Essa terça-feira também havia sido a data escolhida por Alex Freyre e José María di Bello para se consumar o primeiro casamento gay da América Latina, que ocorreria na Argentina. Duas semanas atrás, a medida havia sido aprovada pela juíza Gabriela Seijas, e a cerimônia estava já marcada – e sendo comemorada por ativistas de todo o continente. No entanto, uma manobra legal operada pela juíza Marta Gómez Alsina garantiu o cancelamento do matrimônio, um dia antes de sua consumação. O casal, que é soropositivo e ativista, não deixou de protestar e a medida ainda está sob discussão.

Uma visão panorâmica dos acontecimentos deixa uma sensação desagradável em relação a esse primeiro de dezembro de 2009. Entre abundantes gestos e discursos politicamente corretos em relação a uma doença sexualmente transmissível, os acontecimentos mostram que as sociedades são simplesmente incapazes de lidar com assuntos referentes à sexualidade.