O beijo da capa

11 de março de 2010

Via Observatório da Imprensa:

Pelo menos 27 pessoas cancelaram suas assinaturas do Washington Post depois que o diário americano publicou, em sua primeira página, uma fotografia de dois homens de beijando. A foto foi tirada na quarta-feira da semana passada (3/3), dia em que a Suprema Corte dos EUA autorizou o distrito de Colúmbia a realizar casamentos entre pressoas do mesmo sexo, e publicada no dia seguinte.

Essa notícia me chamou muito a atenção. Em primeiro lugar, a confirmação da incômoda sensação de que a lei está muito aquém da opinião comum. A exagerada ênfase na luta pelos direitos parece criar a ilusão de que poder casar e ter leis antihomofobia garante respeito alheio. Pois bem: não garante coisa nenhuma. Tão aí os Estados Unidos, que mesmo assistindo a um avanço progressivo das leis homoafetivas, convivem com manifestações violentíssimas de homofobia. “Esse tipo de coisa faz pessoas normais quererem vomitar”, disse um dos leitores do Washington Post sobre a fotografia. Mais comedida, outra leitora reclamou: “eu preferia que as imagens de capa não fossem tão perturbadoras, já que meus filhos podem vê-las na mesa do café da manhã”.

A foto da capa, pra vocês darem aquela vomitadinha

Mas prossigamos:

Leitores descontentes sugeriram que a imagem poderia ter sido estampada na seção metropolitana, e não na primeira página; outros, mais radicais, defenderam que ela não deveria ter sido publicada de jeito nenhum. O ombdusman do jornal, Andrew Alexander, diz que é normal receber reclamações após a publicação de fotos consideradas polêmicas. Ele cita como exemplo recente as imagens de vítimas do terremoto no Haiti.

De que adianta casarmos e o raio que o parta se um beijo nosso faz as pessoas quererem vomitar? Se é tão “pesado” para a cabeça das pessoas quanto imagens de vítimas de um terremoto? Não, sério. Esse parelelo do ombudsman é tão absurdo que beira o engraçado.

É claro que os direitos são prioritários em vários aspectos, mas vejo alguns militantes tão obcecados com eles que parecem esquecer a força da mentalidade e da cultura. Para eles, repito duas palavrinhas – constantes aqui no blog: mídia e educação.

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Destaque da Semana: Dia Mundial da Luta Contra a AIDS

6 de dezembro de 2009

Nessa terça-feira foi comemorado o vigésimo primeiro Dia Mundial da Luta Contra a Aids. Vinte e um anos depois, a visibilidade da luta estende-se de campanhas na televisão às luzes do Cristo Redentor e da Torre Eiffel, passando pelo hypado Twitter e pelo novo site da administração do Obama (AIDS.gov). A abertura para se falar do assunto advém também da tranquilidade que ele passa hoje em dia, se relacionado ao pânico que evocava em meados da década de 90. Tornou-se uma data – e um ativismo, de modo geral – menos alarmista. Cabe lembrar alguns dados, trazidos por sites diversos, para fazermos o balanço do que já foi conquistado por essa luta – e do que ainda há para se fazer.

– Hoje em dia, por volta de 33 milhões de pessoas no mundo inteiro vivem com HIV/AIDS, e em alguns grupos específicos – incluindo o de homens homossexuais – os números de infecção têm crescido. Nos Estados Unidos, por exemplo, a cada dez minutos uma pessoa é infectada. (Change.Org)

– Há uma estimativa de que uma a cada cinco pessoas infectadas não está ciente disso. Isso significa que ela pode não estar protegendo seus parceiros e disseminando o HIV. (Bilerico)

– Entre 1980 a 2009 os casos de AIDS no Brasil, em homens com idade igual ou superior a 13 anos, totalizam 92.289 em heterossexuais, 62.203 em homossexuais e 36.147 em bissexuais. Já em mulheres o total é de 131.624 entre heterossexuais. (Dolado)

– O site Todos Contra o Preconceito, do Ministério da Saúde, oferece uma quantidade absurda de informações para quem se interessa, que vão desde o feijão-com-arroz do “como se contrai” até pesquisas e estimativas a respeito da situação da AIDS no Brasil.

A associação do 1o de Dezembro com os LGBTs é tão forte que a data acaba se tornando favorável à visibilidade da comunidade. Foi nessa terça, por exemplo, que o governo sueco anunciou que passaria a aceitar a doação de sangue por homossexuais a partir de março de 2010 – passando assim à frente de uma grande quantidade de países que nem considera a possibilidade por conta da ideia de “grupo de risco”. Mesmo assim, o tratamento dado aos homossexuais soa desrespeitoso: além de preencherem um questionário com diversas questões que atestam a condição saudável – comum para todos os doadores -, os homossexuais precisam afirmar que não tiveram relações sexuais no último ano. Dessa maneira, me parece que quem pode doar não são os homossexuais, e sim os assexuados.

Essa terça-feira também havia sido a data escolhida por Alex Freyre e José María di Bello para se consumar o primeiro casamento gay da América Latina, que ocorreria na Argentina. Duas semanas atrás, a medida havia sido aprovada pela juíza Gabriela Seijas, e a cerimônia estava já marcada – e sendo comemorada por ativistas de todo o continente. No entanto, uma manobra legal operada pela juíza Marta Gómez Alsina garantiu o cancelamento do matrimônio, um dia antes de sua consumação. O casal, que é soropositivo e ativista, não deixou de protestar e a medida ainda está sob discussão.

Uma visão panorâmica dos acontecimentos deixa uma sensação desagradável em relação a esse primeiro de dezembro de 2009. Entre abundantes gestos e discursos politicamente corretos em relação a uma doença sexualmente transmissível, os acontecimentos mostram que as sociedades são simplesmente incapazes de lidar com assuntos referentes à sexualidade.


Maine, Detroit e o armário

13 de novembro de 2009

Os frequentadores mais assíduos desse blog já devem ter notado que andamos um pouco reticentes. Esse é o problema de escrever como hobby – trabalho e estudo são prioritários e eventualmente o tempo aperta. Dentre as coisas que deixamos de mencionar nos últimos tempos, está a derrota na aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo no estado americano do Maine. O projeto de igualdade no casamento chegou a ser aprovado pelo Legislativo, mas uma manobra dos conservadores levou a decisão para votação popular.

E por que os conservadores deixaram matéria tão delicada nas mãos do povo? Os números explicam folgadamente essa estratégia: nas 31 vezes em que o casamento homossexual foi levado a referendos, o resultado foi o NÃO, diz a matéria da Associated Press (via Folha de SP). (Divagação breve: está literalmente em nossas mãos – no clique de nosso mouse – a chance de um resultado inclusivo numa votação de assunto LGBT: a enquete do Senado, que consulta a opinião popular acerca do PLC 122/2006. Ok, não tem o poder de um referendo, mas é importante que a gente não dê aos fundamentalistas o gostinho de dizer que a maior parte da população é contra o projeto. Se você ainda não opinou, corre lá!)

Toda essa enrolação é só para introduzir a tradução de hoje, sobre a derrota no Maine. O original foi publicado na coluna que John Corvino mantém no site 365gay. Pra quem lê em inglês, sugerimos também o texto de Amélie Chopkins, do The New Gay, sobre esse referendo.

Maine, Detroit e o Armário

Por John Corvino (escritor e professor de filosofia da Universidade Estadual do Wayne, em Detroit)

Quando eu era a “bicha” na pracinha da escola, apanhar doía mesmo quando eu sabia o que ia acontecer. Foi o que aconteceu com o Maine semana passada.

Como muitos, eu estava desanimado, mas não fiquei surpreso quando perdemos. Os direitos das minorias (gays, especialmente), geralmente não se saem bem quando submetidos à votação popular. E a mensagem central da oposição – que os gays querem influenciar crianças em idade escolar – mantém-se tão eficaz quanto sinistra.

A mensagem evoca a imagem de gays como molestadores de crianças, um mito desmascarado, mas nunca totalmente extinto.

A versão um pouco menos sinistra (mas ainda assim falsa) nos retrata como anti-família e anti-moral. Ainda há uma outra mentira que é a de que estamos tentando “recrutar”.

Então aí está a verdade subjacente que sustenta o mito como plausível. Sim, é claro que a igualdade da união homossexual irá afetar o que as crianças aprendem nas escolas, porque se o casamento entre pessoas do mesmo sexo for legal, elas naturalmente aprenderão que ele é legal. Que o casamento é uma opção para os adultos que assim consentem e desejam. Que às vezes mulheres se apaixonam por mulheres e homens por homens, e vivem felizes para sempre.

Nós não devíamos ter vergonha de dizer essas coisas, mas temos. Sem dúvida, a feiúra das versões sinistras – sem esquecer a propensão dos nossos adversários para nos citar fora de contexto – nos deixa nervosos sobre discutir a versão verdadeira. E isso é certamente uma lição dessa perda: o armário ainda é poderoso, e os nossos adversários o usam em proveito próprio.

Mas nós não vamos voltar para o armário novamente.

Nós vamos continuar contando nossas histórias. Continuaremos mostrando nossos rostos. Vamos continuar nos casando, mesmo se – por ora – o estado do Maine não reconhecer legalmente os nossos relacionamentos. Nós não vamos voltar ao armário novamente.

E apesar de termos perdido essa batalha específica, vamos continuar a ganhar a guerra.

No mesmo dia em que os eleitores do Maine não aprovaram a igualdade no casamento, Detroit (a cidade onde vivo) elegeu um presidente do conselho municipal abertamente gay. Isso, em uma cidade composta por 84% de afro-americanos e onde as igrejas exercem influência política considerável. O resto do país quase não percebeu, mas Detroit desafiou vários estereótipos na terça-feira.

Seu nome é Charles Pugh. Antes de concorrer para a Câmara Municipal, Pugh era um apresentador popular e foi aprovado tanto pelo Conselho de Pastores Batistas quanto pela AME Ministerial Alliance (Aliança Ministerial). Eles sabiam que ele era gay e aprovaram seu nome mesmo assim.

Alguém poderia argumentar que Pugh foi indicado – e venceu – por causa do reconhecimento de seu nome. Detroit elege todos os nove conselheiros-gerais, e o mais votado torna-se automaticamente presidente do conselho. É um sistema estúpido por vários motivos que, no passado, resultou na nomeação de membros de conselho famosos mas incompetentes – Martha Reeves, de Martha and the Vandellas, salta à mente. (Aliás, nas votações primárias deste ano, Reeves foi deixada de fora, e na eleição geral uma esmagadora parte dos eleitores aprovaram um referendo para os conselhos distritais).

Mas mesmo que a enxurrada de votos de Pugh possa ser atribuída à sua popularidade enorme, isso nos envia uma mensagem encorajadora sobre o modo como o mundo está mudando. Ser abertamente gay não é mais um obstáculo absoluto para a obtenção de apoio público. E mesmo aqueles que regularmente se opõem a nós, por vezes, vão deixar outros fatores triunfarem sobre o que nos tornava assustadores em outros momentos.
Enquanto isso, quanto mais eles nos conhecem, menos assustadores nos tornamos.

É injusto e lamentável que tenhamos que trabalhar mais do que os nossos adversários para vencer. Eles ganham por explorar o medo, o que é fácil de fazer quando se está em maioria. Nós ganhamos construindo relações – deixando os eleitores saberem quem realmente somos. Isso leva tempo.

Assim, os nossos adversários têm a vantagem de poder nos tirar do contexto, mas temos uma vantagem a longo prazo. O armário está desmoronando.

Na esteira da perda de Maine, vamos tomar fôlego e prosseguir. Nós continuaremos a viver nossas vidas, vamos continuar falando a nossa verdade. Vamos fincar o pé na firme convicção de que nosso amor é real, é valioso, e é digno de tratamento igual perante a lei.

Porque, seja qual for o obstáculo legal que possam colocar em nosso caminho, nós nunca mais vamos voltar ao armário novamente.

(Agradecimentos mil à minha digníssima consorte, Germana Etges, pela tradução do texto)

 

 


O matrimônio gay: termômetro da modernidade

2 de outubro de 2009

Daniel Borrillo é professor na Universidad Paris Ouest, especialista em direito privado e direitos LGBT. O seguinte texto foi extraído de seu blog, mas chegou até mim pela AG Magazine, que o repassou. Vale a pena como objeto de leitura crítica, análise e reflexão.

O matrimônio gay: termômetro da modernidade
por Daniel Borrillo

Na controvérsia atual sobre o direito ao casamento para os casais do mesmo sexo, é normal abordar a questão como uma ruptura com a tradição. Mas de que tradição estamos falando?

Desde a Revolução Francesa, o matrimônio deixa de ser concebido como um sacramento. Se, em âmbito canônico, a diferença de sexos é essencial à união, pois o matrimônio tem a finalidade reprodutiva, no âmbito civil, ao contrário, o que importa é a vontade das partes. Não é a consumação (união de corpos) que conta, mas sim o consentimento (união das vontades). Nesse sentido, o matrimônio gay se insere plenamente nessa tradição que se denomina “a modernidade”.

Ao se referir ao casamento, muitos opositores faziam referência não tanto à dimensão civil das bodas, e sim ao seu passado sacramental. Mas deixemos essa outra tradição aos integristas*.

O movimento LGBT produziu o triunfo de uma visão moderna, individualista, contratualista e dessacralizada da vida familiar, concebida de agora em diante como a serviço do indivíduo, e não este a serviço da vida familiar.

Se o movimento feminista pôs fim ao “contrato de gênero”, denunciado como a perpetuação da desigualdade social e política da mulher, o movimento LGBT radicaliza essa evolução, pois rompe com essa mesma base da diferença de sexos como constitutiva do contrato matrimonial.

Por isso os códigos modernos não falam de “marido” e “mulher”, nem de “pai” e “mãe”, denominações de tipo residual que fazem referência à especificidade das funções masculinas e femininas, e sim de “cônjuges” e “genitores”, terminologia mais adequada com a exigência de igualdade entre as partes, já que os direitos e obrigações não estão determinados pelo sexo dos contraintes. A abertura do direito ao matrimônio para os casais do mesmo sexo nos obriga a assumir sem ressalvas os princípios políticos da modernidade. A dessacralização das núpcias, a dissociação entre sexualidade e reprodução, a fundação da filiação em vontade e não em biologia, assim como a contratualização das relações familiares, deixam clara a radicalização da modernidade que produz o casamento entre pessoas do mesmo sexo. De agora em diante não podemos seguir fingindo que as instituições familiares estão fundadas em uma ordem natural que transcende a vontade individual: cada cidadão, homo ou heterossexual, constrói sua própria família.

O rechaço do matrimônio homossexual muitas vezes não é mais que a hostilidade à modenidade política, social e jurídica. O horror que produz a homoparentalidade é proporcional ao temor de fundar a vida social em valores imanentes e não em uma metafísica naturalista.

Os argumentos que se utilizam contra a igualdade para os casais homossexuais não são novos, foram usados contra os matrimônios inter-raciais, contra a livre disposição do corpo pelas mulheres, contra o sufrágio universal, contra o estado de bem estar… Todas essas evoluções foram também consideradas pelos conservadores como situações apocalípticas. Mas deixemos para os reacionários o medo irracional da modernidade…

A modernidade é sempre um projeto inacabado, um objetivo a se alcançar, com um grande potencial utópico. Por isso cada pedra que se traz ao edifício da modernidade constitui um aporte extraordinário que devemos celebrar. Hoje devemos essa contribuição ao movimento gay, que reatualiza todos os combates anteriores das minorias que enriqueceram a democracia.

* Integrismo é a atitude de determinados grupos desde os princípios da doutrina tradicional, de maneira que rechaçam qualquer mudança doutrinária, com a intenção de manter íntegros e inalterados esses princípios.


O boom casamenteiro dos EUA

22 de setembro de 2009

Uma notícia veiculada no Pink News afirma que de acordo com o órgão do governo americano responsável pelos censos, mais de um quarto dos casais gays dos Estados Unidos está oficialmente casado.

O primeiro censo dos EUA relativo a uniões civis entre homossexuais revelou que quase 150 mil casais do mesmo sexo no país estão casados. O número estimado de casais gays nos EUA, no geral, é de 564 743 e, de acordo com o Census Bureau, 27% declarou que vive numa relação igual à de casais heterossexuais em matrimônio. Estima-se que se registraram 100 mil casamentos, uniões civis e estáveis entre homossexuais em 2008.

Uma leitura apressada dessa notícia poderia conduzir à conclusão de que, no campo do estado civil, os LGBTs norte-americanos já não têm muito pelo que lutar. Ledo engano. Convido o leitor a fazer uma leitura não só dessa notícia, mas do mapa da Wikipedia para uniões homossexuais nos Estados Unidos.

Mapa

A proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo ocorre nos estados que aparecem em tons avermelhados. Em alguns estados, como é o caso de NY, o registro dessas uniões não é permitido, mas as certidões emitidas em outros lugares são reconhecidas. Em razão disso, muitos casais literalmente cruzam o país para oficializar sua união – com exceção de Iowa, localizado no centro dos EUA, todos os estados que reconhecem o casamento homossexual (Massachussetts, Connecticut e Vermont) localizam-se no extremo nordeste do território americano.

Com isso, multiplicam-se pacotes de viagem específicos para LGBTs que pretendem se casar e guias de viagem listando hotéis e restaurantes gay-friendly nos estados de destino. Assim, essas cerimônias acabam por movimentar a economia desses estados. Um estudo realizado pelo Williams Institute (que também analisa esses dados do censo), vinculado à Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia, estima que nos próximos três anos o turismo gerado pelas uniões civis vai gerar aproximadamente US$3,3 milhões em impostos somente para o estado de Vermont, estado que foi o primeiro dos EUA a reconhecer uma união civil homossexual, ainda em 2000.

O instituto do casamento entre pessoas do mesmo sexo só foi aprovado em Vermont em abril deste ano, tendo validade a partir do dia primeiro de setembro. Uma matéria da Associated Press nos conta que muitas cerimônias de casais que não queriam mais esperar foram realizadas às pressas nesse estado a partir dessa data.

Bill Slimback e Bob Sullivan vieram de uma cidade do estado de Nova Iorque para se casar no mesmo dia em que aprovaram a união em Vermont

Bill Slimback e Bob Sullivan vieram de uma cidade do estado de Nova Iorque para se casar no mesmo dia em que aprovaram a união em Vermont

Essa verdadeira corrida pelo casamento é bastante interessante quando relacionada às afirmações corriqueiras de que homossexuais são instáveis e promíscuos, incapazes de manter relações amorosas verdadeiras e saudáveis. A última ocorrência que vi desse argumento está no relato de um “ex-gay” contido em um manual de tratamento para homossexuais que a Carol me mostrou no GReader:

Ao longo dos anos vivi com uma série de companheiros de quarto, alguns dos quais eu dizia amar. Eles juravam que me amavam. Mas as ligações homossexuais começam e acabam com o sexo. Além do sexo há bem pouco para fazer [grifo meu]. Depois desse período inicial apaixonado, o sexo torna-se cada vez menos frequente; os parceiros ficam nervosos, começam a enganar-se um ao outro, primeiro às escondidas, depois cada vez mais às claras… Há então cenas de ciúmes e mexericos. Nessa altura dá-se o afastamento e cada um parte à procura de um novo amante.

Notem como a descrição depois do grifo é totalmente aplicável a qualquer relacionamento, independente do gênero de seus integrantes. É quase hilário que a argumentação de que “no começo há muito sexo mas depois a relação esfria” seja apresentada como comprovação de que a homoafetividade é inviável por conta da natureza perversa do homossexual.

É sabido que toda pesquisa tem lá sua margem de erro, especialmente no que tange à quantificação da orientação sexual de uma população, e que não devemos nos apoiar em números para argumentar contra o preconceito. De qualquer maneira, os 27% surpreendem, demonstrando que as uniões civis entre pessoas do mesmo sexo são uma realidade muito mais presente na sociedade americana do que seria esperado em razão da falta de unidade na legislação sobre o assunto.

(Edição e redação final: Carol)


Permissões

14 de setembro de 2009

Pra começar a semana de bom humor, uma notícia bem legal que vi no PinkNews.

Mês que vem, o parlamento irlandês vai debater a respeito de uniões civis entre casais do mesmo sexo. No embalo da expectativa, o MarriagEquality da Irlanda estreiou no GAZE – o festival lésbico e gay de cinema de Dublin – um comercial a ser veiculado na televisão local. (ATENÇÃO: se você sabe falar inglês, assista ao vídeo antes de ler o texto logo abaixo, para que a propaganda não perca o impacto.)

Nele Hugh O’Conor, um ator irlandês bastante popular, sai de porta em porta nas ruas de Dublin perguntando se pode se casar com Sinead, nome feminino muito comum na Irlanda. Depois do homem pedir a permissão para várias pessoas, aparece a seguinte mensagem: como você se sentiria se tivesse de pedir permissão a quatro milhões de pessoas para se casar? Lésbicas e gays não têm acesso ao casamento na Irlanda.

Segundo os ativistas do MarriagEquality, a intenção era familiarizar bastante os telespectadores com a personagem e os ambientes, para facilitar uma identificação com a situação e, dessa maneira, levar as pessoas a pensarem sobre as uniões entre homossexuais. E parece que deu certo: pelo menos no YouTube, onde foi postada dia 19 de agosto, a propaganda já foi assistida mais de 160 mil vezes.

A idéia é ótima no sentido de demonstrar que a luta pelo reconhecimento das uniões civis entre pessoas do mesmo sexo nada mais é do que a busca por um direito básico. Estamos, afinal, tendo de pedir a milhares de pessoas, que nada têm a ver com nossas vidas particulares, autorização para nos unirmos com quem amamos. Contudo, a criatividade não foi especificamente desses ativistas; descobri, através dos comentários do YouTube, que em 2007 uma propaganda com o mesmo conteúdo foi executada nos Estados Unidos. Confira essa versão original logo abaixo.

Bem que poderia ser realizada uma semelhante aqui no Brasil, para dar um gás ao lento avanço da discussão em torno da união homoafetiva, não acham?


Sorvete na luta dos outros é refresco

1 de setembro de 2009

Li hoje de manhã, no Parou Tudo, essa notícia:

Enquanto muitas empresas apenas querem o dinheiro do público homossexual, mas não direcionam a ele nenhuma ação de marketing específico com “medo de comprometer a imagem”, a empresa de sorvetes Ben & Jerry’s, dos EUA, foi além.

Para comemorar o início do casamento homo no estado de Vermont nesta terça-feira 1° de setembro, a marca mudou o nome de um de seus sorvetes de Chubby Hubby (marido gorducho) para Hubby Hubby (marido-marido). O presidente da empresa disse que a permissão deve ser comemorada com amor, paz, e, claro, muito sorvete. A edição comemorativa será vendida por 30 dias. Veja aqui uma iniciativa no Brasil que tem semelhança com essa, o Guara Gay.

Hubby Hubby

Não pensei muito no assunto, encarando como mais uma entre as notícias bobas do dia. Quando cheguei à noite em casa, vi no Bilerico Project um post intitulado “I’m not about to get some Hubby Hubby”. Lembrei que era o nome do sorvete e fiquei curioso para saber os motivos da implicância do colaborador Alex Blaze. Ele conta que o produto existe desde a década de 80, mas que foi comprado pela Unilever na década de 2000. Foca então nas críticas à própria Unilever, mencionando casos como o do produto da multinacional que prometia branqueamento a mulheres africanas e asiáticas. E vai além:

Eu não gosto de ver eles se posicionando como se sempre tivessem apoiado a luta ativista pelo casamento igualitário em Vermont, como fossem uma empresa local [e não multinacional] ou como se estivessem preocupados com movimentos de justiça social enquanto vendem cremes branqueadores na Índia. Obrigado, Unilever, por tomar parte num movimento pelo qual sequer se importaria a 50 anos atrás e fazer dele um produto nos dias de hoje.

Agora que é chique, agora que nós lutamos o suficiente para abrir caminho para a Levis utilizar nós brancos nos seus manequins, a American Apparel vender camisetas que dizem “Legalize Gay” e todas as celebridades ganharem status dizendo o quanto nos apoiam, a Unilever acha que pode utilizar o nosso movimento, a nossa luta, pra vender um sorvete ruim.

Eu sei que nós deveríamos estar felizes que boas empresas queiram celebrar o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a luta por direitos LGBT, mas esse não é o caso aqui.

Talvez, de fato, Blaze esteja sendo rabujento e associando demais a Unilever a um produto que já tem uma história anterior e pode até ter tido associação com movimentos sociais, vai saber. Mas isso não importa: a desconfiança dele é válida e deveria ser tomada como exemplo.

Já é constatado que a tendência é que, cada vez mais, empresas se declarem gay-friendly. Isso é uma coisa boa? Pode ser que sim. Só, antes de entupirmos nossas geladeiras com Guara Gays da vida, tenhamos o bom senso de observar as circunstâncias de seus lançamentos.

(Para terminar mais otimista, minha parabenização ao pessoal de Vermont e a veiculação da notícia no Dolado e no Mix Brasil, a quem interessar.)