Chegando ao mainstream dos quadrinhos – Parte 3

30 de julho de 2009

Vale dar uma olhada: o post sobre a homossexualidade do Batman, a Parte 1 do presente texto e a Parte 2 do mesmo.

Junho de 2009. Enquanto na DC Comics a personagem lésbica Kathy Kane ganha destaque em uma das revistas mais vendidas da editora, na Marvel uma acontecimento agita fãs e escritores: na revista X-Factor de número 45 os personagens masculinos Rictor e Shatterstar protagonizaram um beijo gay. Foi uma grande polêmica que suscitou discussões nos mais diversos fóruns, fossem eles de fãs de comics ou de homossexuais ativistas. Aqueles que ficam no meio termo, como leitores de quadrinhos E homossexuais, ou ainda simpatizantes da causa, comemoraram por finalmente ter se concretizado um romance que já era mais que óbvio e, ao manifestar-se apenas implicitamente, começava a beirar o ridículo. Porém Rob Liefeld, desenhista e escritor ícone da década de 90, posicionou-se radicalmente contra a “conversão” de Shatterstar, criação sua.

Independente da intervenção do editor da Marvel no assunto, quando disse que Shatterstar era um personagem da Marvel e não de Liefeld, e da postura desafiadora do escritor Peter David, que já venceu anteriormente um prêmio do GLAAD, é inevitável nos perguntarmos: porque um beijo entre duas pessoas do mesmo sexo ainda é motivo para tanta discussão, em pleno 2009?

Rictor e Shatterstar: só um beijinho

Rictor e Shatterstar: só um beijinho

Sebas Martín, um autor espanhol de hqs gays, arrisca uma resposta. Para Martín, muitas das manifestações homossexuais nas histórias de super-heróis são supérfluas e comerciais. Além disso, as personagens lésbicas vêm ganhando muito mais divulgação do que os gays nesse meio. “Talvez seja porque a homossexualidade feminina contribui para as fantasias sexuais dos homens e comercialmente tem tiragem”, aponta Martín.

O autor não está nem um pouco errado. Somente na DC Comics, nesses últimos anos, notamos saídas do armário de diversas mulheres como Nocaute, Escândalo Savage, Grace Choi, Tormenta, Renee Montoya e a famosa Batwoman. Entre os homens, contamos apenas com Todd Rice, o Sombra, personagem secundário da série Manhunter. O fato de esse único herói gay ter sido escrito por um roteirista abertamente homossexual, Marc Andreyko, é ainda mais preocupante: porque apenas homens gays podem se preocupar com aparições de homens gays?

Grace Choi e Escândalo Savage

Grace Choi e Escândalo Savage

É claramente mais fácil mostrar duas belas mulheres em colants se beijando – ou inserir isso na imaginação do leitor – do que assumir as dificuldades de retratar um homem que goste de homens sem preconceitos (ou mesmo mostrar com profundidade a relação entre duas mulheres). Alan Moore, um dos maiores referenciais de qualquer fã e escritor da nona arte, diz que “os personagens brancos e heterossexuais nunca têm de estar afirmando serem brancos e heterossexuais. Mas porque ser homem heterossexual é a norma, eu acho que muitos dos homens brancos e heterossexuais que estão publicando esses quadrinhos [que tem a participação de personagens LGBT] pensa que todo mundo está em conflito com isso, porque esses personagens NÃO são homens brancos e heterossexuais. Eles não conseguem imaginar pessoas gays no mesmo planeta que todo mundo. Os retratam, então, no mesmo planeta gay especial e não integram uma sociedade mainstream, o que é claramente inútil e sem efeitos”.

Mas Mark Millar, aquele que casou Apollo e Midnighter em 2002, aponta isso como um acontecimento natural: “acho que algumas vezes tem gente procurando manchetes e divulgação desesperadamente. Mas mesmo aí, na vida real normalmente algum tio que era casado e com filhos repentinamente sai do armário e choca a família toda. De maneira similar, acredito, isso poderia ocorrer nos universos Marvel e DC”.

De fato, os dois grandes fantasmas do desenvolvimento gay nos comics vêm se dissolvendo ultimamente. O primeiro deles era a censura. Super-heróis eram publicados para crianças, mas a faixa-etária do público-alvo só cresceu nas últimas duas décadas. Conforme os leitores cresceram os temas passaram a ser mais abrangentes e, porque não, adultos. Dessa forma, a sexualidade passou a ser assunto lidado mais abertamente, e com ela também a diversidade sexual. O segundo grande fantasma poderia ser ainda a revolta de certos pais que não querem que suas crianças entrem em contato com homossexuais de forma alguma, mas as reclamações não vêm atingindo as vendas, logo, sequer chegam aos ouvidos dos editores.

Como em diversos âmbitos da mídia e da cultura, notamos então uma abertura lenta e gradual à comunidade LGBT no mainstream dos quadrinhos de super-heróis. A idéia de uma postura aberta seduz às grandes instituições e editoras, além de levá-las ao topo dos tablóides em segundos, mas devemos estar sempre atentos ao real caráter dessas abordagens. A escritora bissexual Devin Greyson pondera com sabedoria: “eu sei de muitas pessoas podersosas nessa indústria atualmente que são bastante abertas e dedicadas a uma idéia de representação justa – sexual, racial, de gênero, enfim. Mas isso não significa, necessariamente, que elas saibam como fazer essas mudanças ou tenham coragem para tal. Os quadrinhos estão bem atrasados em relação à mídia mainstream na inclusão dos personagens gays, e eu não esperaria que essa indústria lutasse a favor dos direitos civis em tempos próximos. Mesmo assim, a inclusão vem sendo lenta e positiva, e quando as pessoas certas estão nos lugares certos e com a mentalidade certa, a mídia será capaz de realmente dar passos efetivos adiante”.

Estamos colhendo desde já alguns frutos dessas boas casualidades. Nunca tivemos tanto a comemorar, na verdade: o morcego vermelho no peito da Batwoman talvez seja o grande símbolo da comunidade LGBT nos quadrinhos na década de 2000. Esperamos que Greg Rucka seja um referencial não só pela competência nos roteiros e êxitos nas vendas, mas também pela respeitabilidade que dá a qualquer ser humano, independente de sua sexualidade.

Três vivas para a Batwoman

Três vivas para a Batwoman

Contudo, é inevitável dizer que nós, os fãs LGBT desse tão antigo e querido gênero, ainda esperamos sentados pela aparição de um herói masculino de destaque retratado com respeito e profundidade. Como diz um comentário da notícia sobre o beijo entre Rictor e Shatterstar no MDM, “eu só vou me espantar quando algum medalhão sair do armário, dois buchas como esses é só pra cumprir cota de HQ”.


Chegando ao mainstream dos quadrinhos – Parte 1

9 de julho de 2009

O tema das personagens homossexuais dá muito pano pra manga. A respeito das novelas brasileiras, por exemplo, temos no Homomento já dois posts sobre o assunto (aqui e aqui), contando mais decepções do que alegrias até agora.

No campo mainstream dos quadrinhos, no entanto, arrisco dizer que a presença de gays e lésbicas já é um pouco mais notável e digna. Desde Watchmen (1986) e Sandman (1988-1996), dois dos maiores referenciais dessa forma de arte, personagens assumidos tem surgido aqui e ali. Porém, seria otimista demais dizer que existe ampla aceitação no meio. Ao ler um site como o Gay League, por exemplo, que garimpa personagens LGBT na nona arte e todas as informações possíveis sobre cada um deles, percebemos que talvez seja um pouco cedo para comemorar tanto: ainda estamos lidando com migalhas esparsas e não com respeito e convivência reais. De qualquer forma, vale a pena conferir o trabalho dos caras, que conta ainda com fantásticas linhas do tempo mapeando as aparições de personagens LGBT nos quadrinhos.

Na década de 2000, bons autores de várias editoras incluíram personagens homossexuais em suas histórias. De aparição em aparição, vamos notando uma presença mais maciça e mais consistente: na aclamada revista Authority ocorre o primeiro casamento gay num título de altas vendas e divulgação – e melhor ainda, é entre dois dos personagens principais da série. Criados por Warren Ellis em 1999 casados por Mark Millar em 2002, Apollo e Midnighter são referências óbvias a Superman e Batman, visual e caracteristicamente: o primeiro tem super-força, voa e drena energia do sol enquanto o segundo destaca-se pela inteligência em análise e combate. Eles representam um grande avanço porque Warren Ellis e Mark Millar são dois dos melhores escritores do gênero hoje em dia, admirados massivamente por público e crítica, e porque Authority ocupa um lugar na prateleira de qualquer leitor de quadrinhos atento aos lançamentos de qualidade no gênero dos super-heróis.

O casamento de Apollo e Midnighter, em Authority #29

O casamento de Apollo e Midnighter, em Authority #29

Authority, porém, por mais que seja sucesso de vendas, tem um caráter mais alternativo e adulto do que qualquer outra coisa; o gênero dos super-heróis ainda precisava ser penetrado pelos LGBT em sua essência, em seus clássicos de maior circulação. Estou falando de peixes grandes como X-Men, Homem-Aranha, Batman e Superman. No próximo post, um pouco da história de Greg Rucka e de como uma personagem abertamente lésbica chegou a, em junho de 2009, protagonizar as histórias de uma das revistas mais antigas e mais vendidas de todos os tempos: a Detective Comics.