O preconceito e a cura

6 de agosto de 2009

Vítima frequente de uma dor de cabeça insuportável, o poeta João Cabral de Melo Neto acostumou-se à aspirina. Mais do que acostumar-se, criou com ela uma relação de incrível proximidade, a ponto de dedicar um poema ao famoso comprimido. Milhares de pílulas depois, uma cirurgia para curar uma úlcera no duodeno acabou também com a cefaleia, libertando o artista de seu vício.

Um leitor menos paciente perguntará: o que isso, afinal, tem a ver com homossexualidade? Ou mesmo com cultura LGBT? Antes que um clique nervoso feche essa janela de seu navegador, mantenho o mistério: pode ter, sim, muita coisa a ver.

Temendo represálias, a psicóloga Rozângela Justino escondeu seu rosto

Temendo represálias, a psicóloga Rozângela Justino escondeu seu rosto

A última aparição misteriosa no Homomento foi de Rozângela Justino, psicóloga presbiteriana famosa pelo tratamento supostamente capaz de “curar” homossexuais. Essa prática contraria a resolução 01/1999 do Conselho Federal de Psicologia (CFP), que orienta a conduta profissional do psicólogo em relação à orientação sexual.

Segundo essa resolução, a homossexualidade não deve ser considerada “doença, nem distúrbio, nem perversão”, não cabendo tratamento para saná-la. O documento ainda incentiva o profissional a contribuir na luta contra o preconceito, vetando a participação de psicólogos em “eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”, bem como “qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas”.

Repreendida com censura pública pelo Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP-RJ) em 2007, Justino apelou para o CFP por discordar da resolução 01/1999. Quem esperava uma punição mais severa, como a cassação do registro da psicóloga, acabou frustrado. No julgamento, ocorrido na sexta-feira, dia 31 de julho, o órgão manteve a censura pública. “Quando é o profissional que recorre, este Tribunal não pode agravar a pena e sim abrandar o que não foi aceito pelo Conselho ou manter a decisão do órgão regional”, disse o presidente do CFP, em matéria do site A Capa.

Quando se fala em sexualidade – homo, hétero, bi, trans –, existe uma distinção que se deve fazer entre o sentimento e a prática. Uma homossexual enrustida pode viver anos no armário, resistindo à tentação do contato homoerótico, e isso não mudará o desejo que ela sente por outras mulheres. Um heterossexual bem-resolvido pode dar-se ao luxo de, eventualmente, experimentar como o seu corpo se comporta numa relação sexual com outro homem, sem que isso provoque alteração em sua identidade sexual ou em seu desejo por mulheres. É necessário ver a diferença entre orientação sexual e experiências sexuais.

Controlar a dor não muda a causa do problema!

Controlar a dor não muda a causa do problema!

É por isso que defendemos: não é possível “reconduzir” a sexualidade de alguém ou “resgatar” uma heterossexualidade perdida. A visão da psicóloga Justino pressupõe que a orientação sexual é algo adquirido, portanto passível de ser mudado. Não é.

O raciocínio de que homossexuais em sofrimento devem ser tratados, portanto, é falacioso. Como o próprio CFP assume, não há doença, não há o que tratar. Assim, a terapia oferecida por Justino precisa, sim, ser questionada, mesmo que a intenção – ajudar pessoas “em estado de sofrimento, acometidas pela orientação sexual egodistônica [caso em que a homossexualidade é sinônimo de sofrimento para o indivíduo]” – pareça boa.

Voltando ao poeta: tentar “readequar” a orientação sexual de uma pessoa porque sua homossexualidade é fonte de sofrimento é a mesma coisa que achar que a aspirina vai curar uma dor crônica. O que causa tristeza não é o desejo por alguém do mesmo sexo. É ver esse desejo (e os sentimentos dele decorrentes) constantemente negado, visto como fonte de doenças, motivo para reprovação da família e até assassinatos.

Fobia, na Wikipédia: “em linguagem comum, é o temor ou aversão exagerada ante situações, objetos, animais ou lugares”. A psicopatologia clínica sustenta que essas, sim, são passíveis de tratamento. A censura pública emitida pelo CFP pode parecer uma pena branda, mas já é um passo na busca da cura de uma fobia específica, aquela que volta sua aversão exagerada à diversidade sexual.

Quanto ao temor manifesto pela psicóloga – o de sofrer represálias na mão da “ditadura gay”, que “amordaça” opiniões divergentes da sua –, ainda há muito a ser dito. Na próxima semana, o Homomento vai publicar um outro artigo sobre homofobia, dessa vez abordando o PLC 122/2006 e o argumento da “liberdade de expressão”.

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Homofobia e ignorância: carta a Zero Hora

18 de maio de 2009

Hoje é Dia Mundial de Combate à Homofobia. Protestos e comemorações lembram o dia 17 de maio de 1990, em que a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade do Código Internacional de Doenças.

É no mínimo irônico que a coluna de Paulo Sant’Ana em Zero Hora trate as lésbicas como “os sapatões” logo nessa data, e confunda travestis, transexuais e homossexuais exatamente no ano em que o tema para discussão é a transfobia, preconceito contra transgêneros.

Aqui em casa já vínhamos cogitando cancelar nossa assinatura da Zero Hora. Esse texto ofensivo e homofóbico de Paulo Sant’Anna é só o empurrãozinho que faltava.

É difícil organizar os pensamentos quando a indignação chega ao nível que sinto agora. Nessa hora, o melhor que faço é colar o e-mail que a Germana, minha esposa, escreveu para o jornal.

Boa noite.

Primeiramente gostaria de dizer que espero, sinceramente, que esta opinião sirva para que haja, ao menos, uma discussão acerca do que se publica no Jornal Zero Hora.

Sou assinante há mais de um ano e meio, e amanhã pela tarde cancelarei minha assinatura, pois fui profundamente ofendida pela coluna dominical do Paulo Sant´anna no dia de hoje, 17.05.2009.

Ao tratar de uma tema que o referido colunista, claramente, não domina, ele cai no erro comum de não entender a diferença entre homossexuais – pessoas que sentem atração por pessoas do mesmo sexo -, e transexuais – pessoas que não se sentem à vontade com o corpo que possuem, desejando assim pertencer a outro gênero.

Tudo bem, é um erro comum. Agora, tratar de homossexuais femininas com termos chulos, insinuando que todos os homossexuais são sem vergonhas e vão transar sem critérios dentro do presídio (coisa que é corriqueira entre os presidiários heterossexuais, como é sabido por todos), passa – E MUITO – dos limites.

Antes de tudo, a Zero Hora não deveria jamais permitir que se publicasse uma coluna com tantos termos ofensivos. Vocês não deixariam passar um coluna falando dos “crioulos” ou “judeuzada pão-dura”, não é mesmo?

Por que a diferença de tratamento, então?

E isso me leva à minha decisão de cancelamento da assinatura: se um colunista pode falar deste jeito ofensivo e baixo numa coluna dominical, logo a mais vendida, então é porque considera os gays como cidadãos que não merecem respeito. E, sendo assim, vocês não merecem mais o meu dinheiro, o meu tempo, e meu respeito.

Sinceramente, espero que esse e-mail seja lido, e principalmente seja levado à sério, pois vocês deram essa mancada justo no dia de hoje, que se comemora a luta mundial contra a homofobia.

E sobre isso eu não li nada, nem uma notinha.