Homofobia como punição

20 de outubro de 2009

Uma notícia veiculada ontem pela Advocate conta que um treinador de futebol americano de uma equipe escolar está sendo investigado por usar o preconceito dos integrantes de seu time para punir o mau comportamento de alguns jogadores. Após uma discussão, Rafael Merced e um colega tiveram que correr de mãos dadas, enquanto o restante da equipe os atacava com palavras de baixo calão. Se comprovadas as alegações, o treinador Grant Pippert pode ser punido com repreensão, suspensão ou até ser demitido.

Um caso semelhante aconteceu no Brasil no início desse ano: para “motivar” a equipe do Figueirense, o técnico Roberto Fernandes definiu que os jogadores que não rendessem nos treinos teriam que usar um vestido rosa sobre o uniforme.

O meia Jairo, primeiro jogador do Figueirense a ser "punido" com o vestido rosa

O meia Jairo, primeiro jogador do Figueirense a ser "punido" com o vestido rosa

Todas as notícias encontradas sobre o caso do Figueirense tinham um tom bem-humorado – seja pela informalidade do jornalismo esportivo, seja porque a maioria das pessoas não vê nada de errado na estratégia do treinador. Pelo contrário: uns destacam o melhor desempenho de Jairo, o primeiro a usar o vestido rosa, no treino seguinte ao da punição; outros aproveitam a oportunidade para chamar de viados os torcedores dos outros times. Afinal, se o futebol é um esporte varonil, em que os gays não têm espaço, que mal há em rir do amigo vestido de rosa?

Como já falamos aqui, o humor é uma maneira de expressar preconceito – eu, pelo menos, não conheço nenhuma piada fazendo graça de uma pessoa muito bonita, ou muito inteligente. Mas esses casos vão além: além de legitimar a homofobia, usam a humilhação como forma de cobrar resultados, o que seria condenável em qualquer caso. Por esse motivo, a OAB condenou a ideia de Roberto Fernandes:

Para o presidente nacional da OAB, a humilhação pública, mesclada com o preconceito, não pode ser entendida como uma atitude normal ou corriqueira do dia-a-dia de uma categoria profissional, ainda que seja no ambiente informal dos campos de futebol. “Além do evidente abuso moral, pode se caracterizar como crime. (…) São humilhações como essa, principalmente quando se trata de futebol, que projetam o Brasil como país que não cumpre com a sua própria legislação”.

Nos EUA, a discussão sobre homofobia, humilhação e punição não é nova. Desde 2005, detentos flagrados em atos sexuais – como masturbar-se publicamente, manter relações com outros detentos ou assediar detentos e funcionários da penitenciária – em algumas prisões da Carolina do Sul são punidos com a obrigação de usar uniformes cor-de-rosa durante três meses. Um artigo (infelizmente sem a indicação de autor) publicado no site da Human Rights Watch questiona:

Mas por que rosa? A cor não foi escolhida ao acaso. Os funcionários sabiam muito bem que os detentos não gostariam dessa cor – e acreditam que o uso da cor rosa possa ter um efeito preventivo.
Não é surpresa nenhuma que os detentos não gostem de macacões cor de rosa. Eles associam o rosa com menininhas e homens efeminados. Usar essa cor pode levar ao ridículo, a insultos, insinuações em relação à orientação sexual e até agressões e violência sexual.

Um detento, Sherone Nealous, chegou a entrar com um processo contra os uniformes rosas pelo risco de agressões a que seus usuários ficam expostos, mas o caso foi arquivado quando Nealous deixou a penitenciária.

Há um outro caso nessa linha no Texas, onde uma pequena prisão pintou suas celas de rosa (para reduzir a agressividade dos internos) e estabeleceu que todos os detentos deveriam usar macacões dessa mesma cor. A intenção era tornar a prisão desconfortável para diminuir a reincidência. De acordo com o xerife da Mason County Jail, a ideia funcionou: houve uma redução de 70% na reincidência desde a adoção do novo uniforme. Um efeito colateral também se fez notar: envergonhados dos trajes, alguns detentos preferiram continuar presos a sair de rosa na rua para prestar serviços comunitários.

Mundo estranho esse, em que uma roupa rosa causa mais vergonha do que estar preso…


Retrospectiva de setembro

1 de outubro de 2009

No Brasil

O reconhecimento das uniões entre pessoas do mesmo sexo pelo Estado brasileiro continuou sua consolidação em setembro. As ações que estão no STF tratando das uniões homoafetivas podem ganhar um empurrãozinho significativo: no dia 17, o presidente Lula indicou um advogado simpatizante para ocupar a cadeira vaga do STF. O nome de José Antonio Dias Toffoli foi confirmado no cargo ontem numa sabatina do Senado, em decisão que segue para aprovação de Lula. Ontem, ele reafirmou seu apoio à nossa causa, dizendo que “a homoafetividade é um fato da cultura humana”.

O IBGE anunciou que irá contar os casais gays no Censo Demográfico de 2010, e servidores LGBT do poder público estadual de Pernambuco poderão incluir seus parceiros como beneficiários na Previdência. Outras iniciativas regionais merecem destaque: o governo de São Paulo está capacitando agentes da Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho (SERT) para inserção de LGBT no mercado, e em Floripa foi aprovada uma lei que proíbe a discriminação em virtude da orientação sexual.

O estado de São Paulo tem uma lei semelhante desde 2001, mas aparentemente ela não é bem divulgada. Em setembro, uma imobiliária da capital desse estado anunciou um apartamento vetando seu aluguel por homossexuais, numa medida desastrada que ainda pode render processo judicial. Em Belém do Pará, um juiz da Vara de Infância e Juventude também não quer homossexuais por perto – no caso, por perto de crianças. A Justiça recomendou a fiscalização da Parada GLBT dessa cidade para evitar a presença de menores, por considerar que o evento tem cenas “atentatórias à moral e aos bons costumes”.

Falando em bons costumes, descobriu-se que isso é coisa que o governador do Mato Grosso do Sul não tem: por conta de desavenças políticas, André Puccinelli chamou o ministro do Meio Ambiente Carlos Minc de “viado”, “maconheiro” e disse que o “estupraria em praça pública” – e ainda tentou aplicar a desculpa de que isso teria sido uma brincadeira. Esse machismo homofóbico também exala da declaração do técnico do Goiás, Hélio dos Anjos, que disse “não trabalhar com homossexuais”.

A discriminação contra os LGBT foi alvo de ação judicial, também – mas não da maneira que esperávamos. O Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil (Cimeb) entrou na Justiça, em ação posteriormente arquivada pelo STF, contra a Lei 10.948/2001 de São Paulo – a lei citada acima, que proíbe o tratamento desigual motivado pela orientação sexual – por considerar que ela fere a liberdade de expressão. Esse argumento mentiroso é o principal dentre aqueles que sustentam a oposição dos religiosos ao PLC 122/2006.

No mundo

No panorama internacional, foi também a homofobia o grande choque do mês. Em uma província da Indonésia, entrou em vigor uma lei que pune a homossexualidade com 100 chibatadas em público e até 8 anos de prisão.  No Iraque, onde a homossexualidade é punida com a morte, a surpresa triste de setembro foi a descoberta de armadilhas dos fundamentalistas: eles entram em chats gays e marcam encontros com os rapazes, para então aprisioná-los e torturá-los até a morte. E a Anistia Internacional viu-se obrigada a condenar uma lei homofóbica aprovada na Lituânia em julho.

É evidente que setembro não foi um mês só de más notícias. O governo da Grã-Bretanha, por exemplo, desculpou-se publicamente pelo tratamento cruel que dedicou ao matemático Alan Turing, processado por ser homossexual e “tratado” desse “mal” com castração química. Esse pronunciamento só ocorreu porque o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, atendeu a uma petição online no site do governo, provando que o ativismo gay 2.0 rende frutos. Na África do Sul, foi vista como avanço na questão LGBT a condenação de dois homens que estupraram e mataram a jogadora de futebol Eudy Simelane em função de sua homossexualidade. Embora esses dois casos sejam específicos e não corrijam o mal sofrido, é notável o fato de que a discriminação contra LGBTs está sendo oficialmente condenada pelo poder público desses países.

Os direitos dos LGBT, contudo, não se limitam a não sofrer agressão: em um mundo ideal, os direitos dessa parcela da população serão os mesmos que os das demais pessoas. E algo me diz que estamos caminhando rumo a essa realidade: na Escócia, os homossexuais agora têm direito à adoção assim como os casais héteros. Nos Estados Unidos, constatou-se que casais entre pessoas do mesmo sexo são estáveis sim, e que procuram oficializar sua situação: o birô do Censo confirmou que 27% dos casais homossexuais são legalmente casados de alguma forma.

A melhor notícia de setembro veio da ciência: pela primeira vez, uma vacina demonstrou ter efeitos consideráveis na prevenção do contágio por HIV. A taxa de 31% de sucesso surpreende, mas ainda é cedo para relaxar na prevenção. A AIDS continua não tendo cura.

No Homomento

Setembro foi um mês de definições: pesquisamos como a homossexualidade aparece nos dicionários, revisamos a história do termo “homofobia” e destrinchamos os principais preconceitos sofridos pelos bissexuais (comentaremos as identidades TTT ao longo de outubro, prometemos). Também falamos pela primeira vez sobre homoparentalidade ao traduzir o texto de uma menina de 10 anos, que conta sua experiência como filha adotiva de duas mães.

Desde sua criação, o Homomento é bastante crítico em relação à mídia gay que temos no Brasil – de certa forma, nosso trabalho surge como uma resposta às falhas que encontramos nessa mídia. Mas foi só em setembro que elaboramos um artigo mais consistente sobre as críticas que fazemos aos sites LGBT brasileiros. E ficamos bastante satisfeitos com o debate que aconteceu nos comentários de nossas análises sobre como a publicidade se dirige aos LGBTs, seja de forma a se mostrar gay-friendly (uma estratégia que pode ser considerada oportunista), seja usando duas mulheres para gerar um apelo sexual (o que também é questionável: para a homossexualidade se tornar visível, basta aparecer?).

As discussões sobre cultura também renderam bastante. Setembro é um mês interessante para nós, pois somos gaúchos e o dia 20 é a data mais importante para o nosso tradicionalismo sexista, que exclui os homossexuais. Ao longo do mês, encontramos subsídios para que pensássemos nossa própria militância, e tivemos também a chance de conversar sobre cultura LGBT com Michael Eichler, do site The New Gay. Foi desse site que tiramos a definição de ativismo 2.0 que abordamos por aqui: acreditamos que a web é um espaço para que todos possamos veicular nossas ideias e compartilhar nossas opiniões. Assim, acreditamos que nosso trabalho pode estimular a discussão rumo a uma aceitação cada vez maior das diferentes sexualidades.


Destaque da Semana: Hélio dos Anjos

20 de setembro de 2009

Repercutiu essa semana na mídia LGBT: o técnico do Goiás, Hélio dos Santos, ao tentar esclarecer uma situação interna do time, acabou destilando preconceito.

Ficam pedindo um jogador expoente. Aí quando vem, começam a criticar. O Fernando sei lá o quê, que o grupo está com ciúme. Homem que tem ciúme do outro é viadagem. Não trabalho com homossexual, não tenho viado no meu elenco. Eu trabalho com homem. (…) O que entendo de inveja de homem para homem é frescuragem, viadagem. Você, como homem, ter picuinha com um colega? Isso é frescuragem.

E a história não termina aqui. Do Mix Brasil:

Talvez tomando consciência do absurdo que havia dito, nesta quinta, 17, Hélio tentou jogar panos quentes na polêmica. Em entrevista à ESPN, o técnico disse que “se existe ciúme no grupo, existe a frescuragem, mas isso não quer dizer que o cara seja homossexual.” O comandante tentou sair pela tangente e disse que escalaria um jogador gay para seu time: “Não tem problema nenhum, tem que ser profissional”.

O problema de Hélio dos Anjos, segundo ele mesmo, não é com homossexual, mas sim com homem fresco. Mas é óbvio que a associação de um com outro, feita espontaneamente no primeiro comentário, é totalmente compreensível, não? Afinal, o futebol não conta com uma infinidade de fãs homossexuais, homens ou mulheres, e não tem um monte de jogadores no armário. Afinal, homossexual não é gente comum que está por aí. Não. E afinal, o futebol é um esporte viril e varonil, não homossexual.

(Ponto pro comentarista de futebol Neto, que também criticou o técnico. É muito importante que as os fãs e comentaristas de futebol com um pouco de bom senso tentem lutar contra o preconceito dentro da cultura futebolística.)


Um campo hostil

13 de agosto de 2009

Um dos textos que mais gostei de ler no mês passado foi “Racismo é crime, mas homofobia pode”, de Rafael Morettini, escrito no blog de futebol da MTV Mala Preta. Morettini compara a censura a gremistas que utilizam palavreado racista para referir-se a colorados ao silêncio em torno do preconceito sofrido pelo jogador Richarlyson em campo, seja de torcedores rivais ou dos próprios sãopaulinos.

Não tive o privilégio de assistir a um jogo do São Paulo para observar tais manifestações e não pretendo ter tão cedo, mas numa breve busca pelo YouTube encontrei desde uma entrevista com o jogador no programa CQC cheia de insinuações preconceituosas, uma esquete e um bordão do Pânico na TV até uma charge de um famoso site do ramo, além de diversas montagens amadoras que têm como intuito promover a idéia da homossexualidade do rapaz. Pude notar, com isso, que a atitude homofóbica nos campos não é ignorada, mas estimulada pela imprensa. Já é famoso, por exemplo, o ato falho do locutor esportivo da Rede Globo Cléber Machado ao referir-se ao jogador como Bicharlyson.

Parece que o foco das piadas é o fato de Richarlyson parecer ser homossexual e afirmar não sê-lo. Com a insinuação e a dúvida os humoristas sentem-se à vontade para brincar em rede nacional. Mas diante de um jogador assumido, quais posturas seriam tomadas? Será que eles teriam coragem de deixar tão escancarados seus pensamentos preconceituosos acerca do que é ser gay? Com certeza, seria uma situação bem mais delicada.

Mas antes de qualquer militante LGBT reclamar que Richarlyson poderia se assumir, caso de fato seja gay, e talvez mudar um pouco da situação homofóbica no futebol brasileiro, devemos considerar o circo que se armou em torno do jogador só por conta da idéia de ele ser homossexual. E nos questionarmos: será que, nas atuais conjecturas do circuito futebolístico no Brasil, um homem abertamente homossexual teria plenas condições de construir uma carreira de sucesso?

(Redigido com o auxílio do Rodrigo)


“Futebol é esporte viril, varonil, não homossexual.”

8 de junho de 2009

Não sou torcedor, nem sequer gosto de futebol. A pressão explicita e muitas vezes implícitas de que eu jogasse, me interessasse, falasse sobre o mesmo acabou surtindo um efeito oposto, o desprezo total.

Assim como muitos garotos gays já ouvi piadas e fiquei deslocado em vários ambientes e grupos durante uma parte da minha vida por não ter um time pelo qual eu discutisse ou parasse meu dia para ficar torcendo. Sempre me chamou atenção a importância que algumas pessoas dão para o futebol/time e o espaço e incentivo desproporcional dispensado ao dito em relação aos outros esportes. Aprendi a ignorar.

Piadas homofóbicas no seu geral não me divertem nem um pouco, mas parecem ser muito engraçadas, tendo em vista a quantidade e a divulgação que tem. Reparei também que quando gay não é piada vira automaticamente ofensa, das mais asquerosas. E isso é muito nítido justamente nesse campo, o de futebol. Até ano passado pensava que inspirados em gays como eu o motivo fosse lógico, gays não sabem, não querem ou não gostam de jogar futebol, mas eu estava enganado.

Ano passado mesmo surgiu uma polêmica sobre o jogador Richarlyson, depois de um debate realizado em um dos muitos programas dedicados ao esporte:

O assunto foi exposto com um receio quase infantil, mas de forma polida. O jogador, não sei se só a partir de então, virou alvo público de comentários preconceituosos e dúbios.

A questão então é: Confirmado. Mesmo jogando bem, o asco vem direta e simplesmente da sexualidade do jogador. O futebol é automaticamente associado à virilidade.

Isso afeta também jogadoras de futebol, lógico, pois segundo a maioria e parte da opinião pública futebol é coisa de homem e fim (vide as recorrentes polêmicas em torno da arbitragem feminina e o espaço
marginal dedicado à liga de futebol feminina). Essa máxima sexista se extende até os tribunais, onde Richarlyson após afirmar ser heterossexual entrou com uma queixa-crime e o caso foi arquivado pelo juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, pois, segundo esse senhor o futebol é “jogo viril, varonil, não homossexual”, o mesmo acabou sugerindo ao jogador que desistisse da carreira ou criasse uma liga exclusiva para homossexuais.

Durante um tempo a situação e a resolução do juiz foram comentadas, um avanço em relação ao assunto parecia possível. Infelizmente não se deu dessa maneira, as piadas continuam, o preconceito ainda é nítido, e o citado jogador virou sinônimo de ofensa, quando não é simplesmente evitado, afinal ele não é o nada parecido com o que atualmente é concebido como exemplo clássico da masculinidade, logo, não deveria manchar o panteão divino dos machos do futebol.