Merecido

15 de março de 2010

Só uma notinha pra registrar: a revista Detective Comics, um dos títulos mais antigos da DC Comics, foi recém agraciada com um prêmio da GLAAD (não sabe do que se trata? Dê uma olhada aqui). O título, que conta com histórias do mais rentável personagem da editora – o Batman – foi utilizado pelo escritor Greg Rucka para desenvolver a personagem Batwoman, assumidamente lésbica.

Em julho do ano passado eu escrevi uma reflexão sobre LGBTs nos quadrinhos do mainstream norteamericano e cobri a Batwoman e seu roteirista de elogios. Por enxergar Kathy Kane como uma personagem – e não uma “personagem lésbica”, o resultado do trabalho é positivo, por ser totalmente espontâneo.

Que venham outras Batwomans e outros Greg Rucka em diversas mídias! #comicgeek


Chegando ao mainstream dos quadrinhos – Parte 3

30 de julho de 2009

Vale dar uma olhada: o post sobre a homossexualidade do Batman, a Parte 1 do presente texto e a Parte 2 do mesmo.

Junho de 2009. Enquanto na DC Comics a personagem lésbica Kathy Kane ganha destaque em uma das revistas mais vendidas da editora, na Marvel uma acontecimento agita fãs e escritores: na revista X-Factor de número 45 os personagens masculinos Rictor e Shatterstar protagonizaram um beijo gay. Foi uma grande polêmica que suscitou discussões nos mais diversos fóruns, fossem eles de fãs de comics ou de homossexuais ativistas. Aqueles que ficam no meio termo, como leitores de quadrinhos E homossexuais, ou ainda simpatizantes da causa, comemoraram por finalmente ter se concretizado um romance que já era mais que óbvio e, ao manifestar-se apenas implicitamente, começava a beirar o ridículo. Porém Rob Liefeld, desenhista e escritor ícone da década de 90, posicionou-se radicalmente contra a “conversão” de Shatterstar, criação sua.

Independente da intervenção do editor da Marvel no assunto, quando disse que Shatterstar era um personagem da Marvel e não de Liefeld, e da postura desafiadora do escritor Peter David, que já venceu anteriormente um prêmio do GLAAD, é inevitável nos perguntarmos: porque um beijo entre duas pessoas do mesmo sexo ainda é motivo para tanta discussão, em pleno 2009?

Rictor e Shatterstar: só um beijinho

Rictor e Shatterstar: só um beijinho

Sebas Martín, um autor espanhol de hqs gays, arrisca uma resposta. Para Martín, muitas das manifestações homossexuais nas histórias de super-heróis são supérfluas e comerciais. Além disso, as personagens lésbicas vêm ganhando muito mais divulgação do que os gays nesse meio. “Talvez seja porque a homossexualidade feminina contribui para as fantasias sexuais dos homens e comercialmente tem tiragem”, aponta Martín.

O autor não está nem um pouco errado. Somente na DC Comics, nesses últimos anos, notamos saídas do armário de diversas mulheres como Nocaute, Escândalo Savage, Grace Choi, Tormenta, Renee Montoya e a famosa Batwoman. Entre os homens, contamos apenas com Todd Rice, o Sombra, personagem secundário da série Manhunter. O fato de esse único herói gay ter sido escrito por um roteirista abertamente homossexual, Marc Andreyko, é ainda mais preocupante: porque apenas homens gays podem se preocupar com aparições de homens gays?

Grace Choi e Escândalo Savage

Grace Choi e Escândalo Savage

É claramente mais fácil mostrar duas belas mulheres em colants se beijando – ou inserir isso na imaginação do leitor – do que assumir as dificuldades de retratar um homem que goste de homens sem preconceitos (ou mesmo mostrar com profundidade a relação entre duas mulheres). Alan Moore, um dos maiores referenciais de qualquer fã e escritor da nona arte, diz que “os personagens brancos e heterossexuais nunca têm de estar afirmando serem brancos e heterossexuais. Mas porque ser homem heterossexual é a norma, eu acho que muitos dos homens brancos e heterossexuais que estão publicando esses quadrinhos [que tem a participação de personagens LGBT] pensa que todo mundo está em conflito com isso, porque esses personagens NÃO são homens brancos e heterossexuais. Eles não conseguem imaginar pessoas gays no mesmo planeta que todo mundo. Os retratam, então, no mesmo planeta gay especial e não integram uma sociedade mainstream, o que é claramente inútil e sem efeitos”.

Mas Mark Millar, aquele que casou Apollo e Midnighter em 2002, aponta isso como um acontecimento natural: “acho que algumas vezes tem gente procurando manchetes e divulgação desesperadamente. Mas mesmo aí, na vida real normalmente algum tio que era casado e com filhos repentinamente sai do armário e choca a família toda. De maneira similar, acredito, isso poderia ocorrer nos universos Marvel e DC”.

De fato, os dois grandes fantasmas do desenvolvimento gay nos comics vêm se dissolvendo ultimamente. O primeiro deles era a censura. Super-heróis eram publicados para crianças, mas a faixa-etária do público-alvo só cresceu nas últimas duas décadas. Conforme os leitores cresceram os temas passaram a ser mais abrangentes e, porque não, adultos. Dessa forma, a sexualidade passou a ser assunto lidado mais abertamente, e com ela também a diversidade sexual. O segundo grande fantasma poderia ser ainda a revolta de certos pais que não querem que suas crianças entrem em contato com homossexuais de forma alguma, mas as reclamações não vêm atingindo as vendas, logo, sequer chegam aos ouvidos dos editores.

Como em diversos âmbitos da mídia e da cultura, notamos então uma abertura lenta e gradual à comunidade LGBT no mainstream dos quadrinhos de super-heróis. A idéia de uma postura aberta seduz às grandes instituições e editoras, além de levá-las ao topo dos tablóides em segundos, mas devemos estar sempre atentos ao real caráter dessas abordagens. A escritora bissexual Devin Greyson pondera com sabedoria: “eu sei de muitas pessoas podersosas nessa indústria atualmente que são bastante abertas e dedicadas a uma idéia de representação justa – sexual, racial, de gênero, enfim. Mas isso não significa, necessariamente, que elas saibam como fazer essas mudanças ou tenham coragem para tal. Os quadrinhos estão bem atrasados em relação à mídia mainstream na inclusão dos personagens gays, e eu não esperaria que essa indústria lutasse a favor dos direitos civis em tempos próximos. Mesmo assim, a inclusão vem sendo lenta e positiva, e quando as pessoas certas estão nos lugares certos e com a mentalidade certa, a mídia será capaz de realmente dar passos efetivos adiante”.

Estamos colhendo desde já alguns frutos dessas boas casualidades. Nunca tivemos tanto a comemorar, na verdade: o morcego vermelho no peito da Batwoman talvez seja o grande símbolo da comunidade LGBT nos quadrinhos na década de 2000. Esperamos que Greg Rucka seja um referencial não só pela competência nos roteiros e êxitos nas vendas, mas também pela respeitabilidade que dá a qualquer ser humano, independente de sua sexualidade.

Três vivas para a Batwoman

Três vivas para a Batwoman

Contudo, é inevitável dizer que nós, os fãs LGBT desse tão antigo e querido gênero, ainda esperamos sentados pela aparição de um herói masculino de destaque retratado com respeito e profundidade. Como diz um comentário da notícia sobre o beijo entre Rictor e Shatterstar no MDM, “eu só vou me espantar quando algum medalhão sair do armário, dois buchas como esses é só pra cumprir cota de HQ”.


Chegando ao mainstream dos quadrinhos – Parte 2

22 de julho de 2009

Leia a parte 1.

Greg Rucka é um norte-americano de 39 anos. Escritor de livros policiais e histórias em quadrinhos de super-heróis, é hoje em dia reconhecido como um dos mais talentosos no ramo. Foi contratado pela DC Comics no fim da década de 90 e desde então tem lá desenvolvido um trabalho bastante semelhante às suas obras anteriores (como Queen & Country): tramas policiais protagonizadas por mulheres de personalidade forte.

Gotham Central, publicado no Brasil com o nome Gotham City Contra o Crime, foi o título idealizado e escrito pelo autor junto ao também badalado Ed Brubaker. Publicado de 2003 a 2006, conta por um viés realista e emocional a vida cotidiana dos policiais que operam na mesma cidade que Batman e seus supervilões. Recebido muito bem por público e crítica, o título foi vencedor da mais prestigiosa premiação da nona arte: o Eisner Award. Foi em um dos números de Gotham Central que a personagem Renee Montoya foi tirada do armário por um chantagista. Na história intitulada Meia-Vida, que faz alusão à rotina policial e também às complicações pessoais de Montoya, o maníaco Duas-Caras apaixona-se or ela, sabotando sua vida pessoal ao enviar fotos suas com uma mulher para sua família e trabalho.

Sendo tirada do armário em Gotham Central

Saindo do armário em Gotham Central

Ainda que dentro do esterótipo da policial durona, reproduzido repetidamente, Montoya é uma lésbica retratada sem preconceito algum. Ela era a protagonista da série e passou a ser uma das mais visadas personagens da DC Comics: tanto que em 2006, no maxissérie 52, uma das empreitadas mais ousadas do gênero nos últimos anos, Montoya aparece como uma das heroínas principais. 52 foi durante todo o ano o principal título da editora, redefinindo os rumos das histórias de todos os personagens da mesma. Foi nesse título que conhecemos a ex-namorada de Montoya e atual Batwoman: Katherine Kane.

As ex-namoradas Kathy e Renee em 52

As ex-namoradas Kahty e Renee

Criada em 1956 como parte do plano de trazer o feminino com mais peso para o universo de Batman, no intento de afastá-lo dos rumores de homossexualidade, a Batwoman original sempre teve um lugar mais que periférico nas histórias, caindo enfim no esquecimento em 1979. Foi essa irônica revitalização por Greg Rucka que rendeu-lhe um lugar em veículos de comunicação de todo o mundo: uma super-heroína lésbica vinha à luz. Certamente não foi a primeira, mas a singularidade de sua importância é apontada pelo próprio escritor: “ela está usando no peito um dos mais famosos ícones da cultura pop de todos os tempos – aquele pequeno morcego traz bilhões de dólares para a Warner Bros”.

Kathy Kane é uma socialite de Gotham que é feminina, sensual e discreta. Durante as noites, luta contra o crime como a Batwoman. Autônoma, tomou para si o símbolo do pequeno morcego e o nome sem o consentimento de Batman, encontrando porém aceitação de seu trabalho por Dick Grayson, o primeiro Robin. Teve participação pequena, mas essencial, em 52, que ao acabar deixou toda uma mídia ansiosa por seu retorno.

Em junho de 2009, depois de uma série de rumores e confirmações, sai a Detective Comics número 854. Esse título, em vigor desde 1937, foi palco da estréia de Batman e da grande maioria de seus vilões. É um dos mais clássicos títulos dos quadrinhos, e agora, sob os roteiros de Greg Rucka e os desenhos de um dos mais criativos artistas do ramo no momento (senão o melhor), JH Williams III, vai por um ano contar as histórias da Batwoman. Williams diz que está muito feliz por ter um personagem homossexual estrelando a série, e que seu lesbianismo será trabalhado de maneira natural, como apenas mais um dos aspectos de sua personalidade.

Ilustração de JH Williams III para a capa de Detective Comics #854

Ilustração de JH Williams III para a capa de Detective Comics #854

Um escritor de grande competência com as melhores intenções fez com que duas personagens lésbicas ganhassem status em meio à mais tradicional editora de quadrinhos, que em suas histórias dava pouca abertura a homossexuais por medo de perder vendas e o apoio de seu público em parte preconceituoso. Por essas razões e também por seus primorosos roteiro e arte, Detective Comics #854 já é história.

Mas qual o significado desses notáveis avanços? Quais são os pontos bons e ruins, o que temos a comemorar e a reclamar no que diz respeito aos LGBT nos veiculados comics norte-americanos? Algumas reflexões conclusivas na terceira e última parte desse texto, pelo mesmo bat-autor, no mesmo bat-blog.