Um ano de Homomento

7 de abril de 2010

Hoje é um dia muito especial – pelo menos para esse blogueiro que vos fala. Há exatamente um ano o primeiro post de um blog chamado “Homomento” ia ao ar, como fruto de conversas entre amigos totalmente insatisfeitos com a mídia gay.

Um pouco acanhados e sem um plano específico de postagem/divulgação, fomos progressivamente inflando o site de conteúdo, seja com notícias ou reflexões bastante pessoais. Com a ajuda do twitter, principalmente do @gaybrasil, fomos conquistando leitores e followers, que carinhosamente apoiaram nosso trabalho com RTs e bons comentários.

Como essa lenga lenga institucional pode ser totalmente desinteressante, resolvi para esse post de um ano recapitular alguns dos meus textos favoritos do blog, que na minha opinião sintetizam nossos pontos de vista ou simplesmente foram feitos com esmero.

Criticando
Já mencionei que a crítica à mídia gay foi o impulso inicial desse site. Era inevitável, dessa forma, que essa temática aparecesse por aqui em alguns momentos – provocando até polêmica nas caixas de comentários. Enquanto esse texto da Carol é uma súmula do que pensamos, temos alguns outros, de peças e momentos específicos, que acabam caindo nesse enredo – aqui, aqui e aqui, por exemplo.

Conceituando-nos
Relacionar-se com pessoas do mesmo sexo é, ao menos na nossa sociedade, ter de obrigatoriamente lidar com conceitos. Defina-se. Defina sua sexualidade. Defina o preconceito que você sofre. Somos solicitados a dizer O QUE somos, PORQUE somos, a tentar situar as “origens” desse comportamento. Passamos por essas questões quando recorremos aos dicionários em busca da “homossexualidade”, encontrando mais pré-conceitos do que conceitos propriamente ditos. Confusos, tentamos também compreender o significado do termo “homofobia”, tão proferido por militantes. Desbravamos a última letrinha da nossa sigla (LGBT, para os desavisados), buscando um esclarecimento mínimo em relação a transexuais, transgêneros, travestis e etc.

Particularmente, acredito que chegamos a um ponto interessante no dia internacional da bissexualidade, 23 de setembro. Refletindo sobre uma sexualidade que é vista como “meio termo”, percebemos que na verdade os próprios “termos” são bastante questionáveis. No final das contas, mais desconstruímos do que estratificamos ideias. Parecemos ter, acima de tudo, uma saudável desconfiança das verdades absolutas da ciência, como se percebe no meu “A Sedução Científica” e no “Avanços e Solavancos” do Rodrigo, um dos primeiros bons posts do blog.

Politizando-nos
Um dos focos do nosso trabalho acabou sendo, por causa dos interesses da minha colega Carol, o tema da homossexualidade em âmbito jurídico e político. Para um leigo como eu, algumas postagens foram bastante esclarecedoras, como “Uniões homoafetivas e o reconhecimento do Estado”, que busca fazer um apanhadão de informações sobre a temática. Em outro texto, uma pesquisa interessante sobre o que a lei da criminalização da homofobia – o badalado PLC 122/06 – realmente prevê, buscando sanar dúvidas quanto ao seu real caráter: vai glorificar a homossexualidade? Vai tirar a liberdade de expressão religiosa?

Eu mesmo entrei na onda quando escrevi o “Educação sexual: um instituto necessário”, em que busquei responder aquela perguntinha que fica atrás da orelha de muita gente: uma educação que lide com as diversas formas de sexualidade “confundiria” as crianças?

Mas a pesquisa mais voltada para a utilidade pública, e que espero que tenha sido utilizada pelos leitores, foi a que a Carol fez sobre o registro de união estável entre casais do mesmo sexo, em que fala sobre as vantagens (e dificuldades) do procedimento, como se faz, etc.

Um ano. E agora?
Quem lê o Homomento já deve ter percebido que não estamos numa época de vacas gordas. As ocupações dos membros têm tornado dificultosa a participação, uma vez que gostamos de nos aprofundar minimamente nos assuntos sobre os quais escrevemos. Paira sobre nós uma aura de dúvida e insegurança: que será do nosso Homomento daqui pra frente?

Independente do que acontecer, é com muito orgulho que concluo esse um ano, feliz por saber que aprendi demais com esse simples blog e esperando, do fundo do coração, que tenha sempre compartilhado esse aprendizado com os leitores.


Conquistar a naturalidade

2 de setembro de 2009

Na terça-feira passada o tema do Profissão Repórter foi “Tudo por um filho”: foram exibidas histórias de pais passando por momentos difíceis para garantir o bem estar seus filhos e a constituição de suas famílias. Uma delas era a de Munira e Adriana, casal de lésbicas que gerou gêmeos no útero de uma com os óvulos da outra inseminados artificialmente; o obstáculo surgiu na hora de registrar as crianças, que tiveram de ficar com o nome de apenas uma delas.

O clima de bastidores da reportagem do programa comandado por Caco Barcellos gerou uma cena que chamou minha atenção. A repórter, educada, indaga a maneira correta de se referir ao casal: “como vocês preferem que a gente fale? É ‘homossexual’ que se diz?”. A resposta é um sorriso da grávida Adriana e a frase “pra mim tanto faz, é tudo a mesma coisa”. Munira, a segunda mãe, complementa: “não sei, a gente nunca parou pra pensar muito”.

Essa simplicidade no modo de encarar as coisas me causou imediatamente certo desconforto. Munira e Adriana demonstram ser um casal muito feliz, de bem com a vida, estável a ponto de querer ter filhos. E, mesmo morando num país que a trancos e barrancos lida com as questões LGBT e estarem inseridas numa sociedade bastante homofóbica, não fazem a menor idéia de como se referir a homossexuais. Elas vivem a vida delas, enfrentando corajosamente as dificuldades que aparecem, mesmo sem dedicar muito tempo a esses assuntos.

A repórter perguntando: é homossexual que se diz? E a reação confusa do casal à pergunta

A repórter perguntando: é homossexual que se diz? E a reação confusa do casal à pergunta

Lembrei de todos os sites ativistas que acompanho, dos livros e artigos que leio sobre homossexualidade, do esforço que realizo para tocar o Homomento. Por mais que esteja, inegavelmente, adquirindo conhecimento, estou participando de uma luta contra o preconceito e não me dedicando a outros interesses particulares. E desde terça-feira fiquei com essa pulga atrás da orelha. Enquanto lia uma notícia de um portal ativista, sabia que aquelas duas estavam dando de mamar para os gêmeos, passeando com eles, trocando fraldas ou simplesmente fazendo o que gostam.

Como sábado foi Dia da Visibilidade Lésbica, no domingo pipocaram eventos relacionados Brasil afora. Fui dar uma olhada na Marcha Lésbica aqui de Porto Alegre e depois parei para lanchar com uns amigos. Uma amiga lésbica, que considero bastante preocupada com questões homossexuais, comentou que não dava nenhuma importância para manifestações como a Marcha. Um amigo, também homossexual, não conhecia o dia da Visibilidade e achou uma besteira segregativa: “porque não juntamos tudo no mesmo dia?”. Passamos a discutir as confusões das siglas GLS e LGBT e contradições dos movimentos gays no geral. Meu clima anti-ativista não poderia ter sido melhor alimentado.

Ativismo LGBT: perda de tempo?

Ativismo LGBT: perda de tempo?

Depois do passeio, fui com parte desse pessoal ao supermercado fazer compras para o jantar. Enquanto esperávamos os produtos serem registrados pela atendente do caixa, apoiei a cabeça no ombro do meu namorado. Um rapaz que estava passando por perto parou e começou a debochar em voz alta, olhando diretamente para nós. Não hesitei, respondendo no mesmo tom: que que é, nunca viu?

Aí pensei na Munira e na Adriana de novo, e entendi melhor meu desconforto em relação a elas. Não era uma vontade de ser mais simples ou uma nostalgia dos tempos pré-militância. Era a percepção de que eu, até poder lidar com a minha homossexualidade da mesma forma espontânea que elas a ponto de desafiar um imbecil desses no supermercado, precisei ler e me informar um monte. Todo esse conhecimento não me deixou baixar a cabeça e me sentir humilhado por demonstrar afeto pela pessoa que eu amo.

Assim, o ciclo de pensamentos desencadeado pela naturalidade do casal de mulheres se encerrou nesse domingo. Hoje entendo que a minha militância tem valor fundamental não só para o reconhecimento particular do MEU lugar na sociedade, mas também para que no futuro as pessoas sejam mais como a Munira e a Adriana e menos como eu, que precisei quebrar a cuca pra chegar à conclusão de que sou igual a todo mundo e que não devo levar desaforo pra casa.


Colaboração do leitor: Heteronormatividade e Subculturação

28 de agosto de 2009

Ao fim do esforço para coletar informações, pensar sobre elas e escrever a saga “A crise da cultura gay monolítica”, recebi como recompensa o melhor presente possível: um contraponto. O leitor Paulo Simas, em seu comentário, trouxe uma elaboração muito bem argumentada para afirmações bastante diferentes das que postei aqui nas últimas semanas.

Solicitei, então, a autorização do Paulo para postar o comentário como colaboração independente, tirando-o da marginal caixinha de comentários e trazendo-o para o lugar merecido: o de destaque. Espero que a experiência de repostagem do comentário enriqueça a discussão que procurei suscitar e desperte nos demais leitores a vontade de também participar do Homomento, mandando colaborações, sugestões e contrapontos. Porque relações de uma só via são sempre muito tediosas, não acham?

Heteronormatividade e Subculturação

por Paulo Simas

Li com muita atenção a excelente série de textos “A crise da cultura gay monolítica”, que entendo como um convite ao debate. Tomo a liberdade, portanto, de participar.

Pergunto, primeiro, se podemos falar em uma “cultura gay”. Creio que não. O termo mais preciso, a meu ver, é “subcultura gay”, visto que se trata de um conjunto de significados, crenças e comportamentos que não se sobrepõe à cultura heteronormativa, que é majoritária e muito mais abrangente. Mesmo os homossexuais são educados sob essa cultura e alguns ainda têm dificuldade de questioná-la – muito relacionamentos entre homens, por exemplo, ainda são baseados no modelo bicha/bofe, em que um dos parceiros reproduz o estereótipo de masculinidade e o outro, de feminilidade.

Distinguir “cultura gay” de “subcultura gay” não é frescura minha. Quando falamos em subcultura resgatamos uma característica fundamental dela: seu caráter de resistência, de desafio. Só existe uma subcultura gay porque existe uma cultura heteronormativa que pune e reprime qualquer manifestação cultural contrária às regras. É importante ressaltar isto: o fato de existir uma subcultura gay se deve muito mais à heteronormatividade do que aos próprios gays. Não fosse a necessidade de criar espaços livres de repressão, provavelmente não existiram as boates, os clubes de sexo e outros ambientes que ficaram marcados como “tipicamente gays”, por exemplo.

Como se vê, a subcultura gay, entendida como a possibilidade de um grupo minoritário criar sua própria versão do mundo, é algo libertador. O que oprime os gays “desajustados” é a necessidade de fazer parte de uma maioria, de qualquer maioria. A subcultura gay não é uma só. Existem as subculturas da subcultura. Não é preciso ir muito longe para descobrir isso e a internet ajuda muito a encontrar diversas formas de manifestação da homossexualidade: barbies, rockers, ursos, nerds, drags etc. O problema é que muitos homossexuais se ressentem por não fazerem parte da subcultura gay aceita pela maioria das pessoas como a única e verdadeira.

Essa subcultura gay teoricamente genuína nada mais é do que a forma como a heteronormatividade enxerga a homossexualidade. Gays musculosos, consumistas, hedonistas e drogados existem, claro. Mas só viraram norma na cabeça dos heterossexuais – e de alguns homossexuais desavisados. Em sociedades complexas, onde várias subculturas coexistem, a cultura normativa cria estereótipos para poder lidar com a diversidade. Algumas vezes, eles são positivos: gays têm bom gosto, negros envelhecem em melhores condições, judeus são bons empresários. Outras vezes, são negativos: gays são fúteis, negros são intelectualmente inferiores, judeus são avarentos.

Num dado momento histórico, é verdade, os próprios homossexuais se encarregaram de desenvolver a noção de subcultura gay uniforme ou monolítica, como o autor dos textos muito bem nomeou. Mas era uma estratégia política, uma forma de sobreviver e ganhar visibilidade. Foi assim nos anos 70 e nos anos 80, nesta última época principalmente por causa da epidemia de AIDS. Nesses períodos certamente coexistiam vários embriões de subculturas gays além daquela valorizada pela militância do Rio e de São Paulo. Já existiam os gays góticos e os gays punks, por exemplo. Eles só não se organizavam em grupos e dividiam suas crenças porque sequer se enxergavam como homossexuais, já que assumir essa identidade significava aderir automaticamente a um certo “estilo de vida”.

Essa subcultura gay urbana e de classe média chegou aos anos 90 e encontrou no nascente mercado gay um aliado. Grandes marcas transformaram os homossexuais em um nicho de mercado. Qualquer homossexual? Claro que não: só aquele branco, de classe média, morador de grandes cidades, de gosto cultural refinado, hedonista etc. Ou seja, o típico indivíduo adepto da subcultura gay. Essa adesão do marketing à subcultura gay, usando e abusando dos estereótipos, é um indício de que existe um modelo de homossexual esperado e até desejado pela heteronormatividade. Basta ver os personagens de novelas e os anúncios em revistas para saber o que os heterossexuais esperam do homossexual “típico”. Os homossexuais “desajustados”, por sua vez, acabam não se reconhecendo nesse modelo de homossexual aperfeiçoado pelas brilhantes mentes de nossos publicitários.

Mas vejam: gays não são os únicos a sofrer com isso. Esse procedimento é adotado com todas as minorias sociais e subculturas existentes. Ou alguém acha que todas as mulheres gostam dos programas de culinária da TV? Ou que todos os jovens negros gostam de hip hop? É claro que não. Mas esses são os lugares e os papéis reservados pela cultura majoritária às mulheres e aos jovens negros. Quem ousa agir diferente pode receber a reprovação e o estranhamento – exatamente o que acontece com os gays que não se ajustam ao que a cultura heteronormativa considera como sendo a genuína e legítima subcultura gay.

Se ela está em crise? Entre os heterossexuais, aposto que não. A imensa maioria da população brasileira continua acreditando que gays são seres que, por terem optado por uma vida de hedonismo absoluto, são incapazes de constituir família, de criar crianças. De tão forte, essa crença impede qualquer avanço legal que garanta os direitos civis a homens e mulheres que amam pessoas do mesmo sexo. A noção de “cultura gay monolítica” por parte da heteronormatividade continua de pé, talvez mais forte do que nunca.

Mas ela está em crise, sim, entre os gays, que cada vez menos acreditam que de fato exista uma “cultura gay monolítica”. Com as mudanças trazidas pela internet – e nisso o artigo do Homomento é preciso –, estamos descobrindo as diversas subculturas gays possíveis. E que só são possíveis porque a militância, lá atrás, usou a identidade homossexual monolítica como estratégia política, relativizando a discriminação. Porque é graças ao pioneirismo e à coragem das drags, dos gays dândis e de toda a galera das décadas de 70 e 80, que hoje é possível assumir-se gay sem pagar um preço muito alto por isso (pelo menos nos centros urbanos, claro).

Graças às conquistas do movimento homossexual e a outros fenômenos sociais e culturais que não convém abordar agora, hoje é possível combinar diversas identidades sem ter que aderir integralmente a nenhuma delas: o sujeito é gay, nerd, umbandista, punk, nordestino, tudo junto, tudo com seu devido valor na constituição do indivíduo. Dessa combinação emergem infinitas subculturas gays, infinitas formas de se reconhecer e ser reconhecido como homossexual.

Essas infinitas subculturas gays sempre tiveram potencial para existir, mas eram limitadas pela impossibilidade de pessoas encontrarem outras pessoas com os memos interesses. Com as novas tecnologias, é fácil encontrar quem compartilhe os mesmos significados, crenças e comportamentos conosco. Antes, buscávamos alguém que correspondesse a apenas um desses aspectos: a atração sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo. Era o que dava para conseguir em sociedades tomadas pela homofobia estatal, pela culpa religiosa, pelo patrulhamento da vizinhança. Com a internet, todas as cidades do mundo ganharam o que antes só era possível nas metrópoles: anonimato e pluralidade. E mesmo os habitantes da cidade grande ganharam ferramentas que facilitaram a socialização e a formação de grupos por pessoas que têm afinidades.

Tudo isso para dizer aos gays “desajustados”: parem de se lamentar e aproveitem as múltiplas interações sociais e culturais que são possíveis hoje em dia. E não se importem com o estereótipo, porque ele é o ônus de ser minoria. Por mais “comum” que você seja, basta um beijo em alguém do mesmo sexo para que todos os lugares-comuns sobre gays se apliquem automaticamente a você. São assim que as coisas funcionam, e a culpa definitivamente não é dos homossexuais. Não acreditem na heteronormatividade, duvidem do mercado gay. Nós não podemos aderir a essa visão estreita de mundo. Que a cultura gay monolítica só sobreviva na cabeça dos heterossexuais monolíticos.